sábado, março 01, 2025

Estudem, façam sucesso e mostrem ao mundo


Acertou em cheio! Disparou com mestria a fisga de infância. Uma pedrinha arredondada não falhou a nádega esquerda da irmã!

Pobre coitada! Soltou um berro esganiçado. Saltou, enquanto levou as mãos ao traseiro na esperança de aliviar a dor inesperada. De imediato, tornou-se o centro da atenção dos convidados. Para piorar, despejou o champanhe em cima da senhora com quem conversava. Mais um grito. Ainda por cima, desequilibrou-se e partiu um salto.

Depois da surpresa inicial, os presentes começaram a rir. (Vamos ser francos. Teve piada!) Não tardou até uma gargalhada colectiva tomar conta do jardim. 

Já ela... Sentiu tanta vergonha! Aplicou-se ao máximo para organizar aquela festa na casa dos pais, da vila do interior onde passou a meninice. Comprou um vestido de gala, junto com uns sapatos lindos. Arranjou o cabelo. Não poupou, nem dinheiro, nem esforços. Transformou-se numa mulher de sucesso na cidade e fazia questão de mostrar àquelas gentes isso mesmo.

Agora estava no chão. Gozada por todos. Ficou furiosa. Olhou para cima e viu o irmão a rir como um desalmado na janela do quarto. Aquela brincadeira não ia ficar impune! Já não era uma miúda franzina para suportar as humilhações das travessuras dele. Não tinha idade para chamar os pais para virem em seu socorro. Nem um valente puxão de orelhas ia resolver a situação. Era tempo de se vingar!

terça-feira, fevereiro 25, 2025

Viagem para o trabalho


Certos acontecimentos deviam trazer um rótulo com a indicação: 'mau augúrio'. A sério, um grande letreiro com sinal de aviso. A vida não vem com instruções e as pessoas não sabem interpretar estas coisas.

Naquele dia fui trabalhar mais tarde duas horas. O comboio daquele horário estava muito mais vazio em comparação com a hora de ponta. Sentei-me tranquilo num banco sozinho. À minha frente estava apenas uma senhora entretida a tricotar. 

Ao contrário dos outros dias, onde estava rodeado de outras criaturas ensonadas, cujo dever laboral obrigava a encher o vagão, pude observar o cenário do trajeto. Vilas, casas, campos, pessoas, foram alvo da minha atenção através do vidro, já debaixo do sol do meio da manhã. Era agradável viajar assim. 

Perto da última estação antes da ponte vi um grupo enorme, com cerca de cem crianças. Pela aparência faziam parte de um jardim de infância. Tinham entre três e cinco anos e vestiam um bibe colorido. Corriam entre brincadeiras despreocupadas num descampado. Algumas mulheres olhavam para elas com aspecto zeloso. Até aqui tudo normal. 

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

São Valentim no Admirável Mundo Novo

Nunca tinha visto tal coisa na vida! Os meus olhos estavam completamente fixos na cena! Sabem aquelas pessoas estarrecidas quando vêm alguém numa cadeira de rodas? Era essa a minha cara a olhar para aquilo!

Um estalar de dedos diante do meu rosto chamou-me de volta à realidade.

– Hey! Estou aqui! – Resmungou a minha namorada.

– Desculpa, mas estás a ver aquilo!? – Apontei com subtileza para a mesa ao lado, onde um homem de cabelo branco apreciava um belo jantar romântico com um robô feminino.

– E depois!? Não te chega a visão mesmo à tua frente? – Empinou o peito. Um decote bem generoso fazia sobressair o seu par de mamas irrepreensível. As quais fez questão de realçar com as mãos abertas de lado.

– Calma. Não precisas insinuar-te tanto! – Exclamei envergonhado. – Mas não achas bizarro o homem ter trazido um robô para um jantar romântico?

– Se ele gosta de chapa e hidráulicos, é problema dele. Não sejas preconceituoso, já não estamos em 2025, está no direito de o fazer. – Bufou-me amuada. – Já eu, sou de carne e osso. Se gostas disto, espero bem que a tua atenção se vire para mim!

– Certo. Certo. Tens razão. – Resignei-me.

Tinha gasto uma pequena fortuna ao reservar a noite de São Valentim naquele restaurante chique. Não era para qualquer um. Pagava-se bem caro, acreditem. Queria dar um jantar de sonho à minha namorada. A sério, a ideia era essa. Não tenho culpa se a curiosidade levou a melhor.

O homem com a acompanhante robótica estragou-me os planos. Nem imaginam como era difícil ignorar algo tão fora do comum. Tinha de admirar a capacidade dos engenheiros ao concederem a máquina. Apesar de manter o aspecto mecânico, o design era incrível, com as curvas do corpo a manterem linhas femininas. Para não falar na linguagem corporal, a imitar os gestos de uma dama digna da alta sociedade. 

Só não compreendi porque não preferia uma mulher verdadeira!? Não me julguem. Vocês questionavam o mesmo, isso eu sei!

Fomos servidos com todo o luxo. Nada a reclamar nesse sentido. O jantar continuou, embora o romantismo nem tanto. De vez em quando lá me escapava o olhar, para ser imediatamente repreendido pelo pigarrear chateado da minha companheira.

Paguei e fomos embora. Não sem antes de dar mais um longo reparo no casal improvável ao meu lado. Obviamente, quando cheguei a casa tive de me esforçar mesmo bastante para recuperar o romantismo desejado. Foi difícil, mas lá consegui.

Uns dias depois, no trabalho, todos os funcionários estavam empolgados pois íamos receber a visita do chefe internacional da firma. Colocamo-nos em fila para cumprimentar a comitiva estrangeira. Queríamos fazer excelente figura para mostrar a nossa eficiência e organização. Afinal quem nunca quis impressionar os maiorais?

Um grupo de pessoas, com visual executivo, entrou na sala. O diretor da minha sucursal mostrava-se orgulhoso das instalações e dos funcionários. Indicou o caminho a um homem cuja aparência acusava ser o patrão. Qual não é o meu espanto quando o reconheço do restaurante!? A seu lado estava o robô feminino.

Falavam alemão. Mas eu tinha a certeza de os ter ouvido falar português no restaurante. Logo alemão! Uma língua da qual não percebia patavina. Riam-se numa conversa animada. Ou pelo menos parecia.

Ao conhecerem os meus colegas, o homem falava alemão e o robô servia de intérprete. Cumprimentava e seguia para o próximo. Bolas! Sabia falar português e a mim não me enganava. Não precisava de tradução nenhuma. Aquela encenação era só para intimidar.

Chegaram ao pé de mim. O meu diretor apresentou-me como chefe de projetos. Suponho eu, pois o meu cargo era esse. Das palavras arranhadas só compreendi o meu nome.

– Já conheço o senhor. – Traduziu o robô com o seu rosto a imitar as feições humanas. – Estávamos no mesmo restaurante, na outra noite.

Havia um grande ecrã na parede do salão, usado para fazer apresentações. Pela graça da tecnologia moderna o robô usou-o para mostrar uma imagem daquele jantar no restaurante:

A minha namorada a gesticular junto às mamas, enquanto eu fazia um ângulo de noventa graus com a cabeça na direção da mesa do suposto chefe ‘alemão’. 

Depois fez zoom na minha cara. O filme do momento era composto de milhares de frames, contudo escolheu propositadamente aquele onde parecia mais parvo. Olhos esbugalhados, boca aberta e aparência de matarruano. Uma careta digna dum episódio do ‘Mr. Bean’.

Os meus colegas tentavam conter o riso. Dividiam a atenção entre mim e o ecrã. Alguns sussurravam entre si. Ia sofrer uma avalanche de piadas. Já podia imaginar o suplicio.

Engoli um sorriso forçado. Cumprimentei o homem e de seguida o robô como se fosse gente. – Muito prazer. Sinto-me honrado. – Disse, a tentar disfarçar o embaraço.

– O prazer é todo nosso. – Respondeu o robô. 

Ao saírem, deu-me um aceno de despedida e piscou o olho. A sério, piscou mesmo o olho! 

Amaldiçoei os engenheiros capazes de criar aquela máquina maquiavélica, com cara, olhos e boca como gente. Já não bastava ser a companhia romântica do patrão, ainda era um supercomputador com pernas e braços. Pior ainda, capaz de compreender e usar a ironia contra mim.

Fui gozado pelo algoritmo de um ser artificial. De igual modo pelo seu proprietário, o qual, também era meu chefe. De certa forma meu proprietário igualmente, pois pagava-me um bom ordenado. Por isso era capaz de comprar jantares em restaurantes de luxo. Tudo não passava de um círculo vicioso.

Enfim. A vida continuava. Restou-me suportar as piadas dos colegas e aceitar as coisas como são. É um ‘Admirável Mundo Novo’, concluí.


Nota: a ação ocorre em 2035, num futuro muito próximo.



Informação: Este conto é propriedade intelectual de António Silva, no caso do seu conteúdo ser publicado noutros lugares sem os devidos créditos ou autorização, serão tomadas medidas segundo o Código do Direito de Autor.

segunda-feira, fevereiro 03, 2025

#Liberdade

A liberdade é um conceito humano impossível de alcançar.

Se és livre, porque nasces e morres?

Se és livre, porque não conheces os mistérios da existência?

Se és livre, porque não és tudo? 

A liberdade acaba na nossa própria humanidade.


segunda-feira, janeiro 20, 2025

Todos os firmamentos


Esperei por ti no fim do mundo

Para te encontrar ao gerar do universo

Entre uma multidão de ninguéns

Gritamos o nome de todos

Vieram como um

Entre nós

Como nós

Em nós

Depois nascemos em todos os tempos

Vivemos todas as histórias

Nas vidas de todos os firmamentos

Sem nunca saber quem somos

Porque um dia fomos alguém

Ainda assim trocamos imensidões

Nas palavras ilimitadas do indizível

Falaste-me da inutilidade do amor

Num beijo calado de infinito

Veio a madrugada

Sussurramos como gente apaixonada

A carne de mim a entrar em ti

O éter de ti a engolir a mim

Sentimos como gente na Terra 

Nome

Alma

Tudo

Nada 

Partículas do Uno 

Semeados como galáxias pelo cosmos

O mistério de mim reflectido em ti

A eternidade de ti a transcender em mim 

Florescemos como estrelas em todas as noites 

Nós

Aqui 

Sem princípio nem fim 


quinta-feira, novembro 14, 2024

Manifesto de desprezo


Sou o Senhor da solidão

Nesta terra vazia

Cheia de gente perdida

Sem qualquer ambição


Tenho nojo da acomodação

Dos filhos da apatia

Na sociedade apodrecida

Não aceito a formatação


Cruzo-me com olhares sem paixão

Em cada rosto que se desvia

Da verdade tão temida

Preferem esconder-se na ilusão


Recuso esta resignação

Duma vida sem ousadia

Prefiro uma voz não ouvida

Às grades da submissão


Não aceito a rendição

Com asco da covardia

Desdenho da monotonia

Dá-me nojo o fedor a podridão


Sou a sombra na multidão

Desprezo pela hipocrisia

Declamo o grito da fúria

Faço-me o caos a exigir libertação


sábado, outubro 05, 2024

De cabeça erguida


Sigo pelo meio da rua vazia 

Orgulhoso como um desistente

Exibo o meu sorriso descontente

Aos espectros na calçada sem vida


Sigo como uma alma perdida

Rotulado como demente

Na minha derrota permanente

Guiado por uma bússola partida


Sigo com passada destemida

Enfeitiçado pelo horizonte 

Rumo a uma meta inexistente

Onde encontre alguma guarida


Sigo de cabeça erguida

Alheio a toda a gente

De passada insistente

Numa jornada incompreendida


Sigo na certeza da dúvida

Fixado no transcendente

Desajustado continuo em frente

Apoiado nesta oposição destemida


Sigo sem que a minha voz seja ouvida

Desprezado e nunca subserviente

Que a sociedade me chame insurgente

Sem que a minha diferença seja aplaudida