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quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Todo o vocabulário do indizível

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando nos encontramos naquele dia, à entrada, e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando me foste visitar. Doaste um pouco do teu tempo para estar comigo e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter trazido para o meu mundo de aventuras e, em contrapartida, encontrar refúgio nas tuas coisas banais.

Arrependo-me de não ter vivido um amor falhado ao teu lado. Quem sabe como seríamos depois? Ódio, indiferença, amizade, ou esquecimento. 

O pior é ser uma história nunca acontecida. A tormenta de ter o pensamento visitado pelas ramificações de possibilidades nascidas da palavra 'se'. 

Querer algum conteúdo para completar versos apaixonados, ainda que a sua sina seja desvanecer.

Resta-me divagar sobre o inexistente.

Procurar nos recantos da memória por fragmentos dos teus rostos. Um sorriso, um tom de voz, um odor, uma cor. Embora só consiga sentir o brilho no nosso olhar. Isso é tudo e quiçá seja suficiente. 

Mesmo assim não me entendo como um dos participantes, mas sim como um observador passivo, limitado a apresentar uma imagem capaz de descrever uma emoção.

Contudo quero mais, porque a poesia devora todos os sentimentos para alimentar as suas rimas.

As estrofes por escrever consomem-me as madrugadas.

Dentro de mim grita-se a palavra amar, com todos os seus derivados!

Paixão;

Desejo;

Toque;

Fome;

Atração e medo.

Bem como todo o vocabulário existente dentro do indizível!

Já tu, tens tanta vida em ti, pois um só corpo não te chega. Se calhar nem lhe chamo vida. Talvez imensidão seja uma palavra mais correta para te poder descrever. 

Tu existes. Tens lágrimas e alegria. 

Eu existo. Tenho inquietação e silêncios.

Portanto, confesso ao éter o meu arrependimento, na esperança desassossegada que os teus ouvidos escutem estas palavras.

Por favor deixa-me ser poeta!

Ainda tenho um beijo para te 'roubar', num encontro qualquer, onde o nossos olhos brilhem.


segunda-feira, agosto 26, 2024

A malta do campo compreende


Ai de vós pecadores!

Deixem o vosso desejo lamentar.

A época das colheitas está a chegar,

O milho está ser levado pelos lavradores!

Alheios ao vosso desgostar,

Carregam as espigas a sazonar,

Com elas abertas enchem os tratores.

Levam também o apaixonar!

Afetos que cresceram ao veranear,

Na sombra fresca dos campos verdes,

Onde os lábios se puderam beijar,

Tantos jovens aprenderam a amar,

Nestes milharais escondidos dos olhares...

As mãos no corpo a explorar,

Pediu a carne para se desnudar!

Ficaram as terras repletas de despudores!

Ouvem-se as máquinas a cortar.

O vosso refúgio apaixonado a ceifar.

Ternura e deleite transformados em dissabores.

Deixam histórias para contar.

Prazeres secretos para lembrar.

Com as espigas arrastam os vossos amores...

Não fiquem a choramingar.

Outro Verão há de voltar.

Um novo campo cultivado pelos mesmos lavradores!


quarta-feira, fevereiro 22, 2023

Peixes significa poesia


No signo dos Peixes há mistérios,

Mundos submersos e mundos sérios.

Sonhadores do Zodíaco, assim são,

Voam na sensibilidade e intuição.


Amam o impossível que há no Universo,

Vivem de alma inquieta e feitio intenso,

Buscam desvendar o segredo do infinito,

Alcançar o inatingível com o espírito.


Nos seus pensamentos profundos,

Como nas águas sombrias dos abismos.

Onde o medo e a poesia se deixam levar,

Para, juntos criarem uma beleza sem par.


Mergulham nas emoções mais intensas,

Fazem dos sentimentos as suas crenças.

Encontram nas artes sua verdade,

E no amor a mais alta liberdade.


sábado, novembro 12, 2022

"Para sempre. Aqui estou."

"Para sempre. Aqui estou." O rapaz soltou estas palavras com a cara mais séria do mundo.

O pai, o mesmo que era suposto apoiar o filho, não conseguiu conter uma gargalhada barulhenta. O rosto ficou vermelho com tanto riso e as lágrimas começaram a cair em abundância, mais parecia um desenho animado. A certo momento atirou-se para o chão onde se começou a rebolar no meio daquelas gargalhadas surreais.

O filho só queria um conselho sobre quais as melhores palavras a dizer à rapariga por quem estava apaixonado. Supostamente o pai seria a melhor escolha para esta função, ou assim julgava ele. Mas ao ver aquela figura desconchavada a contorcer-se pelo chão como uma minhoca bailarina, ficou bem arrependido por lhe ter pedido ajuda. Nunca pensou vir a ser tão gozado pelo próprio pai!

Alertada por aquele chinfrim a mãe não tardou a aparecer para ver o que se passava. Ao deparar-se com aquela cena, questionou pasmada: “Mas que maluqueira é esta”!?

O filho com cara de amuado não respondeu. O pai tentava recuperar o fôlego do riso. Com algum esforço lá conseguiu sentar-se no chão. “O nosso filho gosta de uma rapariga. Estava a ensaiar comigo o que lhe ia dizer”. Fez uma pausa para ganhar mais ar. “Então disse que ia ficar com ela para sempre”!

A mãe também se riu. Contudo, na sua sensibilidade maternal lá se foi abraçar ao filho. “Estou tão feliz por ti. Estás a crescer tão rápido e numa idade tão bonita”. Apertou-o entre os seus braços protetores. “A primeira paixão é sempre memorável. Mas tenho de te avisar que na adolescência apaixonamo-nos ‘para sempre’ uma data de vezes”. Explicou, enquanto o pai acenava com a cabeça em concordância.

“Quantas vezes achas, quer eu, quer o teu pai, nos apaixonamos eternamente por outras pessoas, antes de ficarmos um com o outro”?

“Não faço ideia.” Murmurou o rapaz um pouco envergonhado com aquela conversa tão íntima com os pais.

A mãe continuou: “Muitas! É uma altura tão bonita da vida. Deves aproveitar ao máximo e dizer aquilo que sentes. Só assim se aprende a viver”!

Por esta altura o pai já se tinha levantado e não ria como um maluco. Também se foi abraçar ao filho. “Vai lá dizer à moça que estás com ela ‘para sempre’. Se a coisa não resultar nós estamos aqui para ti e ‘para sempre’, nunca duvides disso”.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


quinta-feira, dezembro 02, 2021

Eu, que te amo.

Conheci-te desta forma.

Um espírito livre não tem apenas uma imagem, muito menos um só corpo, porque uma história sozinha não basta para tanta imensidão. Tem, contudo, traços comuns a todas as suas personificações. Passeiam-se pela vida como se fossem seres individuais, ligados pela mesma centelha que os distingue de todos os outros. Pequenos pormenores tão insignificantes quanto grandiosos.

Tu és assim.

Talvez não acredites porque o teu fado é duro, desde a semente que te plantou, até que as tuas raízes se entranhem neste mundo tão agreste. Quem sabe não consigas ver a plenitude do azul do céu quando tudo em ti é Verão. Mas eu, que te amo, reconheço a tua poesia em qualquer lugar em que te cruzes comigo.

Cheiras a mar num dia quente.

És praia deserta, com ondas serenas e Natureza tranquila. O teu rosto a contemplar o oceano destaca-se dos demais. Há um Universo inteiro dentro de ti que não cabe numa só vida. Uma juventude antiga que mais parece uma viagem. Gosto desses teus enigmas. Mistérios que guardas na imensidão da tua alma.

És a madrugada vulnerável.

Amas a beleza do pôr-do-sol, apesar de trazer consigo a noite amarga. Termina o dia e abraças a introspeção dos tons alaranjados do crepúsculo. Se existirem lágrimas, guardas para mais tarde, para que caiam tendo as estrelas como testemunhas. Choras em rimas envergonhadas entre um sono leve e sonhos encantados.

Tens sabor de café.

Sorris. A conversa é fácil contigo. Há uma leveza pacífica na tua voz; no teu vestido comprido; na tua silhueta magra; nos adornos peculiares; nos gestos femininos. Sem ocultares as cicatrizes que fazem de ti quem és. A elegância inconfundível do teu rosto assimétrico irradia algo mais que luz. Magia provavelmente. Embora possa ser a paixão a falar.

Vais e vens.

Chegaste, demoraste o teu tempo e foste embora, porque os espíritos livres são assim. Viajantes sem amarras. A percorrer caminhos entre praias, serras e pessoas. Há sempre um local novo a conhecer. Alguém com quem partilhar um pouco dessa essência enigmática, na língua colorida da aventura.

Tens em ti o longe. 

Foste para algures. Já sabia que ias porque olhavas sempre para lá do horizonte, apartada por essa distância inalcançável do pensamento. Contudo, não partiste sem te apresentares. Agora, já te sei reconhecer, para quando voltares com todos os teus nomes e corpos. Todas filhas dessa mesma centelha pela qual me apaixonei.


segunda-feira, agosto 09, 2021

Angústia erógena

Existe um erotismo estranho na fragilidade. Cativa-me o desmoronar da perfeição humana, quando as mentiras que suportam aquilo que tomamos por adquirido são reveladas. 

Há uma certa liberdade quando verificamos que a realidade não passa de um instrumento de submissão. Uma entrega voluntária de corpo e alma a dominação que a sociedade impõe. 

Sofremos os castigos e mendigamos por mais. Somos escravos da nossa própria ideia. A verdade é um véu que se levanta para mostrar outro véu e ainda mais outro. Se queremos lá chegar temos de levantar todas as camadas de supostas verdades. E mesmo assim, nunca temos a certeza onde está realmente a verdade que procuramos. 

Contudo, apresenta-se com pudor a alma nua decorada pelas cicatrizes que o viver impõe, outrora caladas, curadas pelo silêncio da boca proibida de mencionar tais queixumes. 

Magoa e chora-se na solidão de quatro paredes. Faz-se poesia nas palavras não ditas, nas dores não purgadas, no sofrimento proibido. Numa forma quase macabra, acho isso bonito. O choro; as dores; as cicatrizes que ficam para lembrar uma história. 

Dói querer ser gente, mas não faz mal. É suposto ser assim e é só assim que deve ser, mesmo a doer. 

O sofrimento é um silêncio constante que grita cá dentro onde o mundo não ouve. Lamentar é uma humilhação mesmo quando o flagelo é insuportável. 

Atrás da tua pele existe uma angústia erógena. Esconde-se como um chamamento que só os malditos conseguem ouvir. Depois, há o perfume da ilusão desfeita que emana do teu ser incompleto. Tudo é violento nesta atração pela carne imperfeita. E ainda bem! 

Sabes que os amores mais memoráveis acontecem por causa de desventuras. Começam na sombra, moldados pelo barro do proibido. Oculta-se o bom-senso para as confissões que nunca se fazem aos padres da santa inquisição. Eles acendem as fogueiras e o desejo dança nelas. 

A dor vem com a companhia da solidão. A cura chega na ânsia de beijar o que é negado. Mas ninguém pode negar por completo aquilo que inquieta. Lábios de vidro estilhaçados pelo beijo cortante que apazigua o sofrimento. Ama-se o que está despedaçado porque só assim a beleza pode ser infinita. 

A perdição parece eterna. Pois que assim seja. A paixão está escondida na fragilidade secreta onde mora o desejo!


sábado, maio 29, 2021

Autópsia da paixão

Se eu pudesse abrir-te o peito, rasgando o esterno com a violência de quem ama, podia tocar-te no coração para ter na minha mão aquilo que tu sentes. Ou então, alcançava-te o cérebro em busca daqueles jardins com cheiro a primavera que trazes nas tuas palavras. Procurava entre as células cinzentas todos os mistérios com que me cativas, para viver nesse país desconhecido que é o teu nome. 

Seria como um cirurgião a retalhar dentro das entranhas alheias, só para poder tocar no teu âmago. Contudo, bisturis e coisas que cortam não abrem caminho até ao sentir. Os órgãos humanos servem apenas o propósito de dar mecânica ao corpo. Alguém, um dia, sabe-se lá porquê, lembrou-se de dizer que é de lá que vêm os sentimentos. 

Agora que reparo com atenção neste pensamento acho-lhe uma certa piada. Destruir a carne viva para poder encontrar o indizível. Se tal acontecesse seria apenas uma cena macabra para dar audiência aos noticiários. Algo digno de loucura. O oposto do que devia ser. Uma autópsia da paixão! 

Porém, a tua nudez não chega para me levar a esses sítios onde quero habitar. Os beijos só saboreiam uma amostra do paraíso. As mãos viajam apenas pela fronteira da pele. O sexo é somente uma espécie de transporte que faz de nós turistas um no outro. A anatomia desenhou-se para encarcerar, ou iludir, tudo o que a alma tem de inalcançável. 

Contudo, os teus olhos mostram a fronteira entre mim e ti. Está tão próxima que parece fácil de atravessar, ainda assim tão impossível que até dói. Não há fusão, nem nenhuma lei da física, ou mesmo do éter, que nos torne unos. 

Sobram aqueles momentos que parecem durar para sempre. Mas isso é só poesia. Palavras que enchem os cadernos de fantasia e alimentam quem sonha. São como substâncias narcóticas que pedem cada vez mais o seu consumo. É muito pouco para quem deseja em demasia. 

A verdade é que a memória não dura assim tanto e o mundo gosta de afastar todas as juras de infinito.  


sábado, outubro 17, 2020

Conjugar


Está morto o verbo amar
Calado
Chorado
Faleceu de tanto se entregar
Adormecido
Aniquilado
Até que um beijo o fez ressuscitar
Atraído 
Encantado
Erguido com um breve olhar 
Revivido
Deslumbrado
Conjuga-se o verbo amar
Infinitamente apaixonado
Anuncia por todo o lado
Que ninguém o pode matar 
Nem desmembrado
Ou castrado 
O eterno verbo amar

terça-feira, setembro 22, 2020

A ilha de "Lost"

Setembro é um mês agridoce. Tem no seu ventre o conforto caloroso do verão e em simultâneo abre as portas do outono e traz consigo os primeiros dias invernosos. No entanto esta história aconteceu no fim de um dia quente. Quando a noite começa a cair e as primeiras estrelas convidam a olhar o céu. 

– "Gosti" –  disse com uma certa meiguice que só ela sabia ter. 

– Como quem gosta de quê? – Questionou ele, não porque duvida-se, mas porque gostava de viajar nas palavras dela. 

– Como quem gosta da lua cheia. – Respondeu sorrindo, sem timidez. 

– Desenvolve. – Insistiu ele com alguma frieza, tal como seria interpretada por quem não o conhecesse.

– Daquelas gigantes que hipnotizam! – Concluiu ela.

– Já eu, gosto de ti como uma ilha deserta. Daquelas com praias fantásticas e florestas  supertranquilas. Mas depois, quando começamos a explorar, vamos encontrando vários mistérios cativantes. Tipo aquela ilha de "Lost". – Disse ele narrando as palavras de forma a dar corpo ao sentimento.

– Ganhaste no desenvolvimento. – Comentou ela refugiando-se no sorriso.

– Também podias ter desenvolvido mais. Se quiseres continuar eu não me queixo… – Lançou-lhe o desafio, apesar de saber que seria difícil obter a continuação, já que as suas confidências são raras.

– Agora não. Tenho de ir […]. – Deixou de a escutar no momento em que disse que tinha de fazer uma mundanice qualquer. As banalidades do mundo sempre foram demasiado aborrecidas para ele. Principalmente na companhia dela. 

Contentou-se com a resposta expectável. Já sabia que ela era assim, fugidia. Chega, deixa o mistério no ar e depois vai embora com um pretexto qualquer. Não se importou em demasia. Tinha conseguido que ela lhe oferecesse um pouco do seu tempo gratuitamente. Isso para ele era muito.

A conversa talvez continuasse depois, num dia qualquer, noutro momento em que a poesia estivesse presente na decoração da natureza. Ou então, quando os sentimentos tentassem enganar a inquietude e tomassem as palavras por escape.

Contemplou o anoitecer. Não é preciso ser poeta, ou artista, para interpretar a beleza das estrelas no céu a brilhar numa noite amena. Basta gostar da tranquilidade que vai surgindo como recompensa depois da confusão dos afazeres humanos.

De certa forma aquela conversa continuava, silenciosa e distante. Como tantas outras que aconteceram antes. Pintada no cenário sossegado da noite que cai e das estrelas que cintilam ao fazer viajar a imaginação...


terça-feira, maio 19, 2020

O esquivar


Ontem estava mais apaixonado do que hoje.
A tua ausência faz-se sentir no meu pensar. Embora, não de forma a que sejas um total esquecimento, somente um desviar de atenção da tua presença constante em mim. Concentro-me nas coisas mundanas, até noutros rostos que sorriem, cada qual com a sua sedução. Cada pessoa tem o seu próprio Universo. Perco-me um pouco. Creio que sabes como é. O mundo com as suas variadas ofertas para alguém que deseja conhecer as emoções. Fora isso tu estás em toda a parte, como uma espécie de complemento a mim mesmo.
Mesmo assim gosto que sejas ausência. Não te quero degradar com as banalidades da nossa existência humana. Quero-te assim: em desejo constante. Como no momento em que a vontade de beijar é tão forte, que o combate ao impulso se torna violento. Mas ceder seria perder a batalha contra os instintos. Tocar-te não chega. Quero entrar com a carne em ti. Não apenas isso. Fundir-me em ti. Despedaçar-te até encontrar a tua alma e consumar a união perfeita entre o sentir e o ser, com toda a fúria pacífica de quem se encontra. 
Contudo, nestes dias distantes, tudo que resta é o mistério. As tuas palavras parecem divinas; o teu corpo demasiado radiante e eu, uma simples criatura imunda que se vai reconfortando com os pequenos fragmentos que me ofereces nos momentos que partilhamos. Instantes vorazes e profundos onde um pensamento comum não alcança. Apenas nós os conhecemos. Com a nossa magia tão própria. Tão esquiva.
É assim que eu te amo. Entre o ir e vir. Um desejo inconstante que vai e vem, sem qualquer ritmo, para que seja sempre impossível...

sábado, dezembro 14, 2019

Nas horas da insónia


Bem-vindos às altas horas da noite. Aqui todos somos Poetas. Temos uma fragilidade natural, que nos impele a brincar com as palavras numa tentativa absurda de descrever sentimentos. Vivemos aqui, assim, como se nada mais importasse, além daquilo que nos faz sonhar. O dia já passou há muito. Agora, só a madrugada interessa. A manhã ainda tarda, por isso ignorarmos que ela existe.
Aqui estamos nus, sem pudor, nem vergonha, daquilo que nos é íntimo. Com a nossa pele de vestir atirada para o chão, como roupa usada. Agora somos outros. Uma versão alternativa da nossa figura. Gente que só existe muito depois que o sol se põe e os afazeres terminam. Talvez, até, alguém que amanhã não se entenda assim, porque lá fora tudo dói e há que escudar a consciência.
Portanto, aqui me exponho, na mais profunda das sensibilidades. Enquanto a insónia não me deixa adormecer. Verdadeiro em todas as confissões que se soltam do meu âmago. Pensamentos que lutam para emergir. Anseios que aguardam a sua vez para serem transformados em rimas delicadas. Por vezes só sobram os gestos que buscam outros toques. A conversa intensifica-se no silêncio entre a telepatia da entrega.
Depois, o relógio aparta-nos, insensível ao nosso amar. O sol também quer trazer a sua luz à natureza que o chama. Já nós, temos as nossas regras e vamos. Os horários que impomos a nós mesmos, porque alguém nos disse que era assim. Nós aceitamos e fazemos disso a nossa tormenta. Lamentamos o nosso fado sem nunca o desejar abandonar. Quem sabe porque sem isso, já não havia madrugada, nem poesia, sentimentos ou nudez. E já ninguém nos encontrava…

sábado, novembro 30, 2019

Sentido oculto


Amava eu, sem saber, o impossível. Até que o teu corpo apareceu e o confundi com o próprio Cosmos. Perdi-me durante algum tempo nessa ilusão. Não passou muito até que conhecesse as tuas curvas, vielas ou arestas. Transformaste-te numa ausência de novidade. Depois ficou tudo tão aborrecido e não tardou até querer mais mundos a descobrir.
Foste embora. Ainda assim não demorou até que voltasses, com outro rosto, outra voz e outra pele. Desta vez não foi a carne que me cativou. Tinhas lá dentro, atrás da cor, do toque, do aroma e sabor, algo que só um sentido oculto podia conhecer. Chamei-lhe poesia e entreguei-me nas estrofes. Foi lindo até que te começaste a repetir. Deixaste-me viciado e já não chegavas, queria mais de ti.
Mas tu tens muitas aparências e chamei-te continuadamente para te conhecer sem fim. Vieste, sempre sem te copiares. Uma nova viagem desconhecida. Um novo cântico original. Percorri os caminhos, decorei os pormenores e estudei a tua ciência. No entanto, não demorava até seres tédio. Transformavas-te em algo enfadonho, impossível de suportar para a minha inquietude.
Como qualquer adicto, tive noção da minha dependência por ti. Contudo, eu, indigente, admito que não tenho forças, nem desejo de abandonar esta minha degradação. Portanto, continuas a chegar no teu infinito. Tu, nas tuas versões incontáveis, tornas-te tudo que ambiciono. Eu, igual a ti, nos outros tantos de mim. Como um, parte dum todo sem o saber. Acusa-me de desassossego! E eu não nego que amo o impossível!

terça-feira, setembro 24, 2019

Lūna lūcet


Olhei para a Lua cheia e esqueci-me de todos os meus amores.
Erguia-se luminosa e soberana acima da escuridão profunda da noite. As estrelas recolhiam-se como que em submissão à Rainha do firmamento. Havia nela um feitiço, quase erógeno, que me impelia a contemplar o seu brilho hipnótico. Uma presença feminina, superior a toda a beleza, que nenhuma mulher podia ousar rivalizar.
Não existia toque, mas senti a sua carícia como quem partilhava o desejo com uma amante impossível. Entreguei-me ao erotismo poético de quem revela um segredo na hora do prazer. Houve um arrepio de silêncio sussurrado ao ouvido das trevas que me completam. Apresentei-me assim, com a alma despida de qualquer sol. Ofertei a minha ignorância virgem ao enigma da génese e sonhei.
Quando compreendi a ausência de sentido dos mistérios indizíveis do Universo, amei a liberdade como nunca tinha feito antes. Afinal, ser livre é ser parte de um todo, cósmico e infinito. O entendimento limita-se a si próprio na forma humana e aceitei isso como um dom. Algo na minha pequenez é imenso, tal como na origem de tudo que foi concebido pela sabedoria da criação.
Depois, o êxtase dissipou, entre o cansaço, o deleite e o sono. Tal como esvanecem todos os devaneios nas profundezas do esquecimento. A noite manteve-se iluminada, mas a magia calou-se. A Lua continuou cheia na sua imponência e foi amar outros que a admiravam, porque o amor é livre na sua incompreensão e todos devem provar o seu sabor, antes que chegue a madrugada…

terça-feira, agosto 13, 2019

Deus, Paixão e Infinito


Gosto de acreditar que a criação do Universo se deva a uma paixão. Aquele por quem tomamos como a derradeira entidade divina, gerou um pensamento enamorado e, desse momento de felicidade absoluta, originou-se tudo aquilo que conhecemos por real.
E nós, feitos à Sua imagem e semelhança, nos sentimentos e desejos, herdamos igual capacidade de paixão e, com ela, a mesma capacidade de criação. Quando a chama da atracção se exalta, nasce um Universo próprio no nosso íntimo. Com as nossas regras, cores e magnificência.
Somos como Senhores dessa versão do existir, naquilo que chamamos sonhar. Ainda que, numa tentativa ridícula de comparação, aconteça numa dimensão mais pequena quando equiparado com tudo o resto. Não importa, não é por isso que deixa de ser igualmente magnifico.
Todos já amamos e, desse modo, também já recebemos em troca a amargura do sofrimento. Infelizmente há sempre uma dualidade na alma quando o sentir é profundo e por cada felicidade alcançada há sempre o outro extremo a espreitar. Seja como for, valeu a pena toda a génese só para que conheçamos o sabor da paixão.
Gosto desta ideia romântica de que Deus criou o infinito porque se apaixonou. Talvez como um adolescente que, coberto de ingenuidade, dá o seu primeiro beijo. Quando lábios jovens se encontram tudo se transforma em beleza e nada mais existe a não ser a fantasia.
Aquela ilusão poética que habita em mim acredita nessa quimera. Afinal de contas, algum propósito deve existir na criação e essa ideia conforta-me para lá de todos os dogmas: Ele, abismado pela grandiosidade do sentimento, concebeu-nos de forma a que, também nós, pudéssemos partilhar de igual forma o êxtase de amar!

sexta-feira, março 22, 2019

Como todos os apaixonados


Queria fazer de ti um poema. De nada valeu a minha vontade, porque tu és infinito e eu demasiado pequeno ante a ciência do teu ser.
Queria fazer de ti estrofes. As mais belas alguma vez escritas, só que me fugiram as rimas, temerosas com o teu Universo inefável.
Queria fazer de ti beleza. Mesmo sabendo que tu já és sublime, desenhada nas cicatrizes que se afundam no teu abismo colorido.
Queria fazer de ti perfeição. Embora as palavras morram em si mesmas, como todas as frases de amor que se desvanecem no papel, ou se perdem na memória.
Queria fazer de ti sonho. Sem perceber que já vives na minha fantasia, a acariciar o meu adormecer, ou a cantar na alegria do meu dia.
Queria fazer de ti Primavera. Seres como a Natureza que renasce em cada ciclo, tendo eu a ignorância daqueles que se julgam sábios, não percebi que o teu nome é sinónimo de renovação.
Queria fazer de ti a minha pele. Talvez porque ame o impossível, ou então porque já vives em mim, tal como carne e pensamento.
Queria fazer de ti o meu tempo. Calmamente, sem a pressa do amanhã. Pequenos momentos lentos que se confundem com a eternidade, para que nunca caias no esquecimento.
Queria fazer de ti utopia. As almas em junção não bastam para quem vive em inquietude, e como todos os apaixonados, desejei ultrapassar os significados mais altos do verbo amar.
Queria fazer de ti divindade. Já o és, nas minhas orações caladas de crente inabalável, ou no meu entender contemplativo do enigma da existência.
Queria fazer de ti tudo. Ainda que, o resto do mundo se esvazie diante a tua presença. Quando nada mais resta a não a ser a criação, que em nós encontra refúgio.
Queria fazer de ti mistério. Escondido atrás do teu sorriso. Voz que chama para o cosmos que habita no teu íntimo. Eu, curioso, ávido por viajar. Estudar a tua arte nos ínfimos pormenores que te tornam imensa!

domingo, dezembro 30, 2018

Pudesse o Universo ser todo poesia...


O teu nome na manhã, pintado nas palavras do despertar. Tem paladar de arco-íris e toque de sonhos a acontecer. És sinónimo de nascer do sol num dia luminoso e a tua imagem é semelhante à Primavera. Tudo em ti é um convite à vida!
Pudesse o Universo ser todo poesia, para que a nossa fuga não tivesse horizontes. Sem limites que ousassem impor-se por todas as paisagens impossíveis que visitássemos. Tudo isto na glória absoluta de um olhar profundo!
Há um descontentamento perpétuo em redor da nossa humanidade. Cabe a nós, viajantes nos pensamentos da madrugada emancipar-nos face ao medo que mora dentro da pele. Sem saber o infinito, desenhamos na sinestesia dos sentidos momentos de perfeição!
Talvez não sejamos muito mais do que o Pó das Estrelas que nos molda. Ainda assim somos como magia, na imaginação inocente de uma criança; ou beleza no seu estado mais puro, entre os desígnios de um qualquer deus consagrado à arte!
Sei-te, tal como também me sabes a mim, em passos delicados pelo mundo que há em nós. Sem a pressa do conhecer, ou a tirania do dominar. Apenas sermos imensos entre os recantos mais iluminados das nossas profundezas mais escondidas.
Ouvem-se ondas ao longe quando tu estás. És amena como o Verão; serena como o caos que se cala. O calor emana nas vozes coloridas da nossa tela, e nos silêncios quietos do nosso sorrir. A intimidade vai-se entrelaçando nos dedos que brincam. Sempre e tudo; tu e eu!

sábado, outubro 27, 2018

Companhia de quem não a sabe


Amo.
No negrume da minha alma.
No fogo dos meus demónios.
No silêncio da verdade.
Não sinto falta da paixão porque amar estilhaços completa o caos de quem é imperfeito.
O corpo não me pede o toque, nem a vontade animal de saborear o grito de dor e prazer que se solta na pele.
Assustam-me os beijos que te dão a conhecer como porta aberta para a angústia. Mesmo assim sabem a paraíso depois que as palavras falam (ou calam).
Há a telepatia. Silêncios corpóreos esquecidos nos momentos solitários, como companhia de quem não a sabe, ainda assim, não esquece.
Pouco mais há dizer porque já não sei falar de amor.
Desfigurado.
Despedaçado.
Mutilado.
Esmagado sobre o próprio peso do romance.
Castrado com ilusões bizarras de imortalidade.
A felicidade desvaneceu, quando a ditadura do comum a anunciou como decreto a seguir. Sábios e néscios cingiram-se a este objectivo, sem nunca o conseguir, pois nada imaginam do impossível.
Resta a fantasia dos que navegam na insónia que corteja a madrugada.
Dizem poesia.
Dizem heresias.
Dizem ideias perdidas na noite.
Canta-se o teu nome nos sentidos desconhecidos a quem não sonha.
Não existe adormecer, nem vontade de acordar, só os segredos do inefável e o infinito nem começou ainda…

sábado, março 24, 2018

Amor tristis


O amor, para ter beleza, tem de ser triste.
Deve haver na sua génese um fim anunciado. Uma melancolia constante a lembrar que todos os gestos de afecto são frágeis, no entanto violentos, como punhais que retalham a alma.
O desejo quer-se sombrio, a profanar os sonhos ingénuos de quem acredita na felicidade.
O toque mantem-se gélido, ainda assim a chamar o arrepio de quem anseia escurecer.
Quente só o sangue, que nasce nos cortes da lâmina, ou no morder que saboreia o seu gosto carmesim. A boca sabe-o de cor, prova o beijo, o sexo e o suor, na pele pálida de quem deixa a vida se esvair.
O feitiço tem sabedoria própria e há quem o queira alcançar para tornar memorável a queda no abismo.
Os pagãos amam como quem morre; como quem vive; como quem peca orgulhoso da sua desgraça!
Dizem-se hereges aqueles que se esperam na penumbra. Gestos e ditos profanos ficam entregues a instantes escondidos de dor e êxtase. A magia acontece depois que o dia se cala. Não existem virtudes nos filhos perdidos.
Os corpos servem de caos. Um abraço nada mais é do que um mergulho no vazio.
Os lábios fundem-se em juras infernais. Não se pronuncia o amanhã, porque nele mora o desespero.
O momento serve de desculpa ao prazer. As veias, como rios de segredos, que se oferecem ao rasgar. Nasce a fome sem remorsos. Depois da noite infinita, o pecado é esquecido pela madrugada.

sábado, setembro 30, 2017

Je t'aime en noir et blanc!


Amo-te em preto e branco!
Num retrato dito “vintage” entre o tom escuro e o claro, em traços de cinzento. Como quem colheu a beleza hipnótica da melancolia a atrair no teu olhar, a combinar com a sensualidade da tua pele descolorada.
Desenhada como a lápis de carvão na tela da fotografia. No silêncio da falta de cor, confessas-me segredos infindáveis sobre tua feminilidade e chamas-me com a tua voz calada para contemplar o teu vazio.
Por vezes apaixono-me por momentos, ou imagens, que duram a eternidade de uns breves segundos e ficam gravados na mitologia do esquecimento. Não me contento com a insignificância de um mero “para sempre”. Desejo apenas a luxúria de incontáveis infinitos feitos de poesia e pensamento.
Sou feito de instantes. Pequenos nadas que desnudam a pele da realidade. Sonhos e sentimentos que me revelam a essência da intensidade humana. Como este, em que, as sombras da tua imagem me transportam para as rimas da tua verdade. Versos de desalento pintados a preto e branco numa fotografia silenciosa.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Dia de S. namorar


Namorar

Deus criou as estrelas para sonhar
Noite quente a engrandecer
Palavras até amanhecer
Segredos cantados no sussurrar

Namorar

Deus criou o espírito para cativar
Química do nosso viver
Simples deixar acontecer
Olhar de infinito onde mergulhar

Namorar

Deus criou o verso para nos rimar
Timidez para vencer
Felicidade a conhecer
Sorrisos que abrem no encontrar

Namorar

Deus criou a beleza para narrar
Silhuetas a percorrer
Bocas chamam a morder
Rostos jovens viajam no beijar

Namorar

Deus criou a carne para a tocar
Sentir a pele a efervescer
Em fogo degustar prazer
Pintar no corpo a arte de amar

Namorar

Deus criou o ventre para gerar
Semente além do dizer
Plantada no transcender
Nascemos de galáxias a dançar

Namorar

Deus criou o tempo para passar
Romance para escrever
Poesia nesse descrever
A paixão criou o momento para o parar