Ti Manel Velho vem pela estrada a mancar, apoiado numa bengala, firmando-se, sem que o seu corpo assimétrico caia no chão. Entre os seus lábios traz um cigarro aceso meio fumado. Caminha estranhamente rápido para alguém com problemas na locomoção.
O cabelo grisalho e as rugas que lhe estilhaçam a pele do rosto, anunciam a idade avançada que lhe valeu a alcunha. Porém, aqueles que hoje já são adultos e pais de família, já o conheciam assim desde os tempos de criança, com a mesma idade dos seus próprios filhos.
Nada na aparência daquela figura se tinha alterado com o passar do tempo. O homem idoso que hoje segue pela rua, bem podia ser o mesmo que o fazia há umas décadas atrás. Talvez fosse uma partida da memória, contudo, as rugas, o cabelo, a bengala, a roupa, ou o próprio cigarro sempre aceso, em nada mudaram comparando com as recordações de infância.
Talvez aquele homem já tenha nascido velho, a mancar e a fumar. Saltado do ventre da sua mãe, pronto a percorrer as mesmas ruas, às mesmas horas, depois de um copo ou dois na tasca de sempre. Concebido com esse propósito por alguma vontade desconhecida do senso comum, sendo aquele o seu único objetivo nas fileiras da humanidade.
O resto da sua história, se algum dia existiu, ficou perdida no esquecimento da indiferença. Tudo o que tinha a dizer estava naqueles passos diários e rotineiros. Sem grande sabedoria e nenhuma evolução. Sempre a mesma figura sem ambição, sem qualquer sinal de modernidade. O que faz hoje, podia ter feito há cem anos atrás. Sobram aqueles que o observam, sempre igual, enquanto o mundo muda.
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