sexta-feira, dezembro 02, 2005

ENTRE A MELANCOLIA E A PAZ




Encontrei um muro que dividia a terra, mas eu queria passar para o outro lado. A guardar o muro estava um monstro nauseabundo. Ele era sonho e eu também.
O monstro era enorme. Tinha focinho de cavalo, com umas narinas muito abertas que expeliam fogo. Tinha duas cavidades oculares. Mas dentro de cada uma, em vez de ter um só olho, tinha mil olhos que se movimentavam rapidamente, o que permitia ao monstro ver em todas as direcções ao mesmo tempo. A sua língua eram três tentáculos de polvo compridos. Da sua boca saia uma baba repugnante que enojava até o mais imundo dos homens. Tinha cinquenta cornos de várias formas, tamanhos e feitios, numa linha, dois a dois, que iam desde o início da testa até ao fim do pescoço. Nas suas costas e ombros tinha centenas de espetos, que saíam e voltavam a entrar alternadamente, provocando um barulho semelhante à água em ebulição. Da sua barriga saíam quatro cabeças de cães raivosos, que rosnavam impacientemente. As mãos do monstro eram lâminas afiadas. Da cintura para baixo tinha corpo se serpente enrolada. Ele dirigiu-se a mim e perguntou:
- Que fazes aqui? Procuras o desespero?
Eu respondi:
- Eu já encontrei o desespero. Comi as suas carnes e logo a seguir vomitei-o.
O monstro perguntou novamente:
- Então que fazes aqui? O que procuras?
Eu respondi:
- Eu procuro a beleza, a simplicidade e a inocência.
Então o monstro recuou. Os cães deixaram de rosnar. Os espetos recolheram todos. Os olhos ficaram parados e das suas narinas deixou de sair fogo. Esteve assim parado durante um pouco. A seguir transformou-se numa bola e dela saíram mil patas de aranha. Nessa forma ele foi-se embora. O muro que protegia dissipou-se como fumo. Deixando-me num prado verde.


1 comentário:

Anónimo disse...

Não penso que haja um muro a dividir a Terra... Cada um de nós tem consigo esse dom, de a dividir: pela guerra, pelo ódio e por todos os sentimentos que nos despedaçam...
"Nas suas costas e ombros tinha centenas de espetos" - Mais uma vez, me parece que comparas este monstro ao Homem, ou melhor, ao monstro que cada Homem tem dentro de si...
E os espetos que cravam nas suas costas são o peso das mágoas que tantas e tantas vezes carregamos!
"O que fazes aqui?" - Quantas vezes nos perguntamos isto?
Assim, pela força que cada um trás consigo, somos capazes de destruir as barreiras e entrar no prado verde... "Levando Jesus no coração, nas mãos a bandeira da Esperança..."