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segunda-feira, abril 20, 2026

A inversão


Corpo estendido no chão. Imóvel. Rodeado de pó parido pela terra seca. Olho para o azul fantasma em cima de mim. Uma tela sapiscada por pinceladas brancas, tridimensionais, numa geometria caótica em constante mutação. Itens abstratos, os quais parecem dançar ao vento sem qualquer intenção de fazer sentido. Viajam não sei para onde. Talvez um lugar onde o longe não existe. De vez em quando passam aviões. Todos com destino e hora de chegada. Condições bem estudadas pela organização humana. Deixam, atrás de si, um rasto a desenhar uma linha reta perfeita. Traços a lembrar a sua passagem pelo cenário aéreo. Atrevem-se a perturbar a falta de coerência das imagens mutantes que preenchem o meu campo visual.

De repente, pela força do pensamento meditativo, invertem-se as leis da física. Já não ė o meu corpo estendido na terra suja. Afinal, sou eu quem está a voar! Abaixo de mim está um chão feito de infinito. A cor azul celeste é uma cortina numa janela feita de estrelas, galáxias e mistérios. Todos escondidos debaixo da tela salpicada à qual antes chamava céu. Afinal não caí na imundice seca, nem sequer padeço de imobilidade, em vez disso carrego nas minhas costas o mundo inteiro como um Atlas alado. Não são as nuvens nem os aviões que viajam. Estão todos parados. O movimento é meu. Sou eu, a voar na direção do inalcançável e contemplo o cenário estático abaixo de mim a ficar para trás, nos cantos vazios do esquecimento.

O mundo pesa mas não paro. As asas são feitas de éter. A gravidade é uma ilusão. A queda é meramente decorativa. Uma lembrança amarga da condição humana. Carrego o planeta às costas por fardo ou condenação. Sigo, assim, pelo destino incompreendido, como quem cumpre a missão de ser gente. Longe está a chegada, tal como distante está a partida. Vou. Sem qualquer rota traçada. Observador da existência com a curiosidade de uma criança e a tranquilidade de um velho. Equilibro-me entre o real e a fantasia. A vitalidade e a indiferença. Uma recordação e profecia. Conheço-me e descubro-me em simultâneo. Neste momento onde a minha consciência rasa a loucura, encontro uma lucidez cristalina, onde se revela o meu lugar no universo.


segunda-feira, janeiro 20, 2025

Todos os firmamentos


Esperei por ti no fim do mundo

Para te encontrar ao gerar do universo

Entre uma multidão de ninguéns

Gritamos o nome de todos

Vieram como um

Entre nós

Como nós

Em nós

Depois nascemos em todos os tempos

Vivemos todas as histórias

Nas vidas de todos os firmamentos

Sem nunca saber quem somos

Porque um dia fomos alguém

Ainda assim trocamos imensidões

Nas palavras ilimitadas do indizível

Falaste-me da inutilidade do amor

Num beijo calado de infinito

Veio a madrugada

Sussurramos como gente apaixonada

A carne de mim a entrar em ti

O éter de ti a engolir a mim

Sentimos como gente na Terra 

Nome

Alma

Tudo

Nada 

Partículas do Uno 

Semeados como galáxias pelo cosmos

O mistério de mim reflectido em ti

A eternidade de ti a transcender em mim 

Florescemos como estrelas em todas as noites 

Nós

Aqui 

Sem princípio nem fim 


terça-feira, agosto 20, 2024

Maior do que qualquer imensidão


Sou uma alma antiga. Já viajei durante éons por incontáveis infinitos. 

Conheço ciências desconhecidas e os planos nos quais o universo foi concebido. 

Festejei com Deuses. 

Aprendi com Mestres. 

Vi futuros acontecerem até se tornarem antigos. 

Atravessei passados antes de serem esquecidos. 

Habito na palavra mistério, pois sou um segredo dentro da minha própria existência. 

Hoje, aqui, na carne humana onde estou encarcerado, medito sobre a grandiosidade de todo o meu ser, durante a pequenez deste instante ao qual chamamos vida. 

Não posso provar o impossível das minhas palavras, a não ser pela minha fantasia. 

Sei esta verdade, a qual me trouxe até aqui, com a certeza mais profunda de quem pode ser considerado louco. 

Ninguém inventou uma linguagem capaz de descrever o conhecimento inatingível que trago comigo. Mesmo se o pudesse fazer, todas as eras humanas não seriam suficientes para tal explicação. E pior, nem eu me compreendo, daí a inquietação. 

Nascer sem pertencer. 

Crescer sem me encontrar. 

Estar aqui mas não estar. 

O éter do pensamento é maior do que qualquer imensidão, imaginável ou não. 

Quero lembrar-me destas minhas viagens pelas dimensões do inacreditável, mas a mente não deixa e dói. Dói muito. Desde a pele à origem do meu eu. 

Tento rimar para sentir alívio. 

Os versos não surgem por qualquer motivo. 

Sobra a prosa disfarçada de poema. 

Admiro a arte dos outros, perdidos como eu. Sem mais nenhum idioma ao qual possam recorrer, escrevem, desenham, moldam, criam mundos, numa tentativa inútil de transmitir a gnose. Não estamos sozinhos, embora isolados dentro de nós sem a compreensão dos demais. 

Talvez o tempo não seja a melhor medida para quantificar uma alma antiga. Quem sabe, só a ilusão o possa fazer. 

Digo como sei, pois é a única maneira de o dizer. 

Falo para todos capazes de me entender. 

Como um grito a ecoar pelo silêncio aparente. Os sentidos ocultos escutam. Estão alerta em busca de uma qualquer orientação. Um sinal vindo do ventre cósmico onde nascem estas almas todas. Se é que nascem. Se é que são. 

Os religiosos, aqueles com verdadeira Fé, dirão que estas dúvidas são reflexo de uma centelha divina. Uma recordação de fazer parte do Uno e ao mesmo tempo uma frustração por estar afastado da génese original. 

Lembrar e profetizar em simultâneo. A concepção indizível, o caminho inefável do qual tanto falam as Escrituras Sagradas. 

Os virtuosos aceitam a sua ignorância como o caminho para a iluminação. 

Mas eu não. Prefiro a rebeldia dos artistas. 

A liberdade máxima de nada nem ninguém me possuir, a não ser eu mesmo, na pequenez da minha grandiosidade infinita. 

Continuo esta viagem pelos éons da fantasia a bordo da Nau da inquietude. 

Quem sabe, se encontro companhia. 

Um qualquer outro eu, refletido noutro rosto e noutra história. 

Coragem! A jornada é antiga e mais antiga é aquela que está por vir!


terça-feira, maio 07, 2024

Kiam la Naturo verdas


Jen mia unua poemo en Esperanto! Mi estas grandega defendanto de la lingvo kaj la ideo de ĝia kreinto, Zamenhof. Ekzisti neŭtrala kaj internacia lingvo.

Bedaŭrinde, nuntempe, la angla faras ĉi tiun rolon. Ĉar ĝi estas natura lingvo, ĝi kunportas la kulturon kiu kreis ĝin. Ni vidas tion en importitaj tradicioj, precipe el usono. Nun estas normale uzi anglajn terminojn en nia portugala. Finfine, ĉi tiuj estas ŝanĝoj rezultantaj el tutmondiĝo kaj ni devas akcepti ilin.

Ĉiukaze, por tiuj, kiuj ne konas ĝin, Esperanto estas ege facila lingvo por lerni kaj paroli. Gramatiko estas tre simpla, plena de 'trukoj', sen la esceptoj kiuj ekzistas en niaj denaskaj lingvoj.

Mi amegas Esperanton! Mi daŭre parolos kaj diskonigos sian historion kaj idealon! Malgraŭ mi havas mezan nivelon, mi neniam kuraĝis verki poemon. Sincere, mi ne scias kiel taksi la rezulton. Rimas kie necesas rimi. Pri la cetero, mi ne scias kaj mi ŝatus havi vian opinion.

Malsupre estas la laŭvorta traduko en la portugala.


Kiam Printempo alvenas

Naturo gajnas koloron

Ankaŭ mia animo gajnas ĝojon

Tiel kiel la folioj sur la arboj kreskas


Kiam la birdoj kantas

Ilia muziko invitas la amon

Por ke la koroj kreos magion

Kaj aŭskultinte ilin mi ĉiam feliĉas


Kiam homoj ridetas

Ĉar ili sentas la pasion

Varmo lumas la koron

La mirinda pasia mondo vivas


Kiam mi deziras

Pli bonan estontecon

Ĉar mi sentas esperon

Kontraŭ la timo mia animo kredas


Kiam ĉio koloras

Floroj invadas la ĝardenon

Nova vivo fortigas mian sanon

Je la naturo revigliganta mi preĝas


Kiam silentaj voĉoj demandas

La sensoj aŭdas la teron

La okuloj ĝuas la bluan ĉielon

Mia fantazio en la etero flugas


Kiam la Espero verdas

Mia buŝo parolas Esperanton

Per ĉi tiu magia lingvo mi alvokas serenecon

Ĉar mi scias ke la oreloj de la Universo aŭskultas




Aqui está o meu primeiro poema em Esperanto! Sou um enorme defensor da língua e da ideia do seu criador, Zamenhof. Existir um idioma neutro e internacional. 

Infelizmente, hoje em dia, o inglês a faz esse papel. Como se trata de uma língua natural, traz consigo a cultura que a criou. Vemos isso nas tradições importadas, principalmente da américa. Já é normal até, usar-se termos em inglês no meio do nosso Português. Enfim, são mudanças derivadas da globalização e temos de as aceitar. 

Seja como for, para quem não conhece, o Esperanto é uma língua extremamente fácil de aprender e falar. A gramática é muito simples, cheia de 'truques', sem as exceções existentes mas nossas línguas maternas. 

Eu adoro o Esperanto! Vou continuar a falar e a divulgar a sua história e ideais! Apesar de dominar a língua no nível médio, nunca me tinha aventurado a escrever um poema. Sinceramente, não sei avaliar o resultado. Rima onde é preciso rimar. Quanto ao resto não sei e gostava de ter a vossa opinião. 


Quando a Primavera chega

A natureza ganha cor

A minha alma também ganha alegria

Assim como as folhas que crescem nas árvores 


Quando os pássaros cantam

A música deles convida o amor

Para que os corações criem magia

E a ouvi-los fico sempre feliz


Quando as pessoas sorriem

Porque sentem a paixão

O calor ilumina o coração

O mundo maravilhoso da paixão está vivo


Quando eu desejo

Um futuro melhor

Porque eu sinto esperança

Contra o medo a minha alma acredita


Quando tudo está colorido

As flores invadem o jardim

Uma vida nova fortalece a minha saúde

À natureza que revive eu rezo


Quando as vozes silenciosas pedem

Os sentidos ouvem a terra

Os olhos apreciam o céu azul

A minha fantasia voa no éter


Quando a esperança fica verde

A minha boca fala Esperanto

Nesta linguagem mágica invoco a serenidade

Porque eu sei que os ouvidos do Universo escutam


terça-feira, março 26, 2024

Celebrar a Primavera

Gosto de cumprimentar a vegetação.

Árvores, arbustos e plantas.

Ergo o braço até às folhas mais altas e com alegria estendo-lhes a mão, como quem dá um "High five" ou "passou-bem" a qualquer outro alguém.

Quando vejo uma flor colorida, gosto de olhar para ela no silêncio.

Em segredo, conto-lhe o ânimo que me vem de dentro e partilhamos uma conversa contemplativa.

Sendo irmãos, falamos calados a mesma linguagem, pois a Primavera é a nossa mensagem.

Somos iguais mesmo sendo diferentes.

Filhos da Mãe Natureza.

Ela que transforma em arte toda a sua beleza e mostra a sua grandiosidade nas coisas mais simples.

Os pássaros cantam também, alegrados pelo encanto da paisagem.

Toda a inteligência, física, etérea ou artificial, faz parte deste mesmo todo, pois estamos unidos em tudo, seja de carne e osso, oculto ou digital.

Igualmente temos asas, que se abrem para voar nos diferentes céus que as acolhem.

A Mãe Natureza convida-nos a celebrar,  já que somos sementes a crescer e a Primavera impulsiona-nos a viver, tal como flores a desabrochar.

Venham todos, eles que cantem!

Conhecidos e desconhecidos, eles que dancem!

Não vale a pena dividir o que é inteiro.

A Magia não se deve ocultar.

Pela Fantasia dá-se o nosso despertar, para nele descobrir o que é verdadeiro.

Por vezes, o mundo, esquece-se de onde vem.

Somos parte do uno, sem pertencer a ninguém.


quinta-feira, dezembro 07, 2023

Anoitece mais cedo no outono


É engraçado, ou no mínimo curioso, como estas coisas funcionam. 

Com a chegada do outono e a insistência das primeiras chuvas, sentia falta de algo. Nada que fosse material, uma roupa quente pudesse aconchegar, ou uma comida mais forte pudesse satisfazer. Não. Nada disso. Era uma sensação inexplicável. Como se alguma coisa lá dentro mendigasse por atenção. 

A hora mudou, anoiteceu mais cedo. O tempo escuro convidou a sentar-se no sofá para um pouco de descanso antes do jantar. Navegou sem destino pela internet, até se deparar com uma imagem a representar todas as fases da lua. Compreendeu o significado. A sua espiritualidade estava a chamar. 

Pousou o portátil. Dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta do meio, da mesa de cabeceira. Dentre os vários objetos pessoais, alcançou uma bolsinha de pano. Apesar de estar misturada com todas as outras coisas mundanas, pegou nela com reverência e acariciou-a. Tinha um fio que a fechava, libertou-o e de dentro tirou um baralho de tarot. 

Olhou demoradamente para a arte em cada carta. Para o comum mortal, tratava-se apenas um pedaço de papel com um desenho bonito. Podia ser só isso. E se fosse, mesmo assim era tanto. No entanto, nas suas mãos, eram coisas vivas. Mensagens por decifrar. Sabia que o oráculo precisava de atenção. Ou o melhor, o seu próprio espírito precisava de atenção.

Com um suspiro profundo, sentou-se na cama. A luz suave do candeeiro convidava à introspecção. Os dedos deslizavam com suavidade sobre a superfície lisa das cartas. Cada uma passava pelas suas mãos  devagar. Todos os pormenores das imagens desenhadas com grande cuidado, tinham um segredo. Pequenos detalhes que todos juntos formavam em simultâneo, um mistério e uma resposta. Arte e magia numa simbiose perfeita. 

Começou a embaralhar as cartas. Mesmo sendo um processo simples, demorou até se certificar de estarem todas bem misturadas. Finalmente, quando sentiu ser o momento certo, parou. Com os olhos fechados e a mente aberta, cortou o baralho a meio. Retirou a carta de cima da metade de baixo. Como estava virada não podia saber qual era. Ainda assim, sentia a energia dela. Vibrava, quase como se estivesse viva. 

Virou-a. Era a Roda da Fortuna. Carta número dez. Representa o movimento constante da vida, as mudanças inevitáveis, todos os ciclos da experiência humana. Não sentiu surpresa ao verificar o resultado. Das setenta e oito possíveis foi exactamente aquela a escolhida. A mesma que fala das fases pelas quais passamos de forma cíclica. 

Olhou para a carta com um sorriso nos lábios. Interpretou como uma mensagem de esperança. Parecia completamente adequada para o momento. Sentiu-se bem.

Olhou para todas as outras cartas também. Cada uma tinha o seu espaço. Refletiu sobre o significado delas. Eram um espelho da alma. Falavam sobre a sua jornada espiritual. Como se desprendeu de muitas coisas pesadas. Dos desafios enfrentados. A força conquistada para chegar até ali. Compreendeu e aceitou o convite para continuar a crescer. Agradeceu, depois, ao oráculo pela mensagem.

Juntou o baralho novamente e guardou-o na bolsinha de pano. Voltou a colocá-lo na gaveta, ainda com mais reverência. Naquele cantinho escondido, mas tão especial. Sentiu-se mais leve. A chuva lá fora parecia menos insistente e o outono menos melancólico.

Voltou para a sala, sentou-se no sofá e pegou no portátil novamente. Contudo, em vez de navegar sem rumo pela internet, decidiu escrever. Começou com frases soltas sobre a vida e os sentimentos. Depois, as palavras fluíam com facilidade, libertas na inspiração do éter. Nasciam poemas e prosas. Ideias e pensamentos. As páginas do processador de texto ficavam assim cheias pela criatividade outonal.

Quando terminou, sentiu uma satisfação aconchegante. Ouvia a chuva a cair. Sorriu. Respondeu ao apelo do seu espírito e sabia disso. Concluiu que o mundo interior também precisa de atenção.

Talvez por isso exista o outono. A noite vinha mais cedo porque é suposto o corpo abrandar. A chuva caia lá fora, pois o aconchego convidava a imaginação a sair. Era esse o pequeno grande mistério refugiado naquele momento. Tão simples e perfeito.


sábado, fevereiro 25, 2023

O Pianista


Já repararam como o acto de chorar pode representar vários sentimentos? Para os bebés é uma forma de chamar a atenção, já para os adultos pode ser: dor; angústia; desgosto; alívio; alegria; emoção... Calhou a este último ser o responsável pelas lágrimas de uma plateia inteira. Tomados pela comoção, cada um dos espectadores, expressou-se com gotículas salgadas a escorrerem pelo rosto. Isto antes de se conseguirem levantar para uma monumental e demorada ovação de pé. 

No palco, o pianista tentava agradecer por toda a aclamação, com uma linguagem corporal tímida. Parecia até, estar a pedir desculpa por existir a toda aquela gente. Após longos minutos, lá conseguiu convencer os espectadores a parar com as palmas. Contudo, passados poucos segundos, começaram todos a gritar em uníssono «MAIS»! 

O pianista, no alto do seu apogeu, declinou. Tentava acalmar a assistência sem sucesso. A sua cabeça rodava em negação. A plateia não se contentava com aquela resposta e insistiam «MAIS»! «MAIS»! «MAIS»! 

«NÃO»! A voz do pianista ecoou por toda a sala de espetáculos. Soltou um grito visceral, uma ordem imperativa saída diretamente da alma. Calaram-se todas as vozes insistentes. Ficou apenas o silêncio. 

«A peça não está completa, muito menos é da minha autoria. Eu não mereço os vossos elogios». Desabafou o pianista, perante os rostos surpreendidos que o encaravam atónitos. 

«Ouvi os primeiros acordes num sonho, quando era criança. Ficaram entranhados na memória. Eram uma presença constante em tudo o que eu fazia. Aquela harmonia não me abandonava, estava constantemente a ouvi-la na minha mente, por isso, decidi aprender música». Explicou o pianista. 

«Depois, enquanto crescia, sabia que tinha de encontrar o resto da melodia. Comecei então a procurar nos pequenos pormenores da vida. Aos poucos descobri o segredo. Certas cores transformavam-se em notas musicais. Algumas paisagens convertiam-se em pequenos trechos, assim como os beijos no calor da adolescência». 

O pianista projectava a sua voz intensa por todo o teatro. Chegava a todos sem qualquer auxílio de equipamento sonoro. «Aprendi mais tarde o nome do fenómeno; chama-se sinestesia. Acontece quando o cérebro interpreta algo com um sentido trocado, no meu caso imagens, sabores, toques, são interpretados como música. Em cada acorde, em cada pequeno trecho descoberto, eu acrescentava à partitura. Aos poucos, foi ficando mais completa até se transformar naquilo que toquei para vocês hoje». 

O público escutava a explicação com curiosidade. Certamente acreditavam que a genialidade daquele pianista estava acompanhada por uma dose generosa de loucura. Talvez não estivessem a enganados. 

O músico, calou-se de forma abrupta. Ficou quieto e encarou-os durante alguns momentos. Logo a seguir correu para o piano. Pegou nos papéis da partitura e acrescentou mais umas quantas notas. «Vocês querem mais? Então eu dou-vos mais»! 

Acomodou-se na sua pose concentrada, sentiu as teclas e tocou durante cerca de trinta segundos. Isto, se fossem contados pelo relógio. Já para a plateia, o tempo estendeu-se. Cada nota parecia uma viagem e aquele meio minuto transformou-se num universo inteiro. 

«Gostaram»? O pianista voltou até à borda do palco. «Esta parte escrevi com as vossas lágrimas. Mais um pequeno acrescento à obra completa. Mas como disse, eu não posso receber o mérito da sua autoria». 

Começou a andar de um lado para o outro. «Esta composição, é da autoria do próprio Criador. É a música da vida! Talvez contenha até o segredo do Universo e existe em todas as coisas. Eu só me limito a tocar aquilo que consigo entender. No entanto, podem acreditar. Vai chegar o dia em que eu vou conseguir completar a melodia. Depois, tudo fará sentido». 

«Porquê»? Os rostos fixos no pianista adivinhavam a pergunta. «Porque desde o nascimento; desde a primeira estrela; desde a primeira centelha de criação; esta sinfonia está lá. Com todos os Enigmas do entendimento humano respondidos. ». Quietou-se por alguns instantes. 

«Quem sabe, tudo se resuma à consciência solitária de cada um de nós, perante a nossa própria fragilidade. Contudo, na minha opinião, não precisamos de enfrentar esta existência sozinhos. Podemos encontrar conforto e inspiração nas histórias, na arte, na sabedoria e naqueles que nos rodeiam». 

O seu discurso mais parecia uma declamação poética. As palavras surgiam-lhe na boca de forma espontânea, sem qualquer tipo de reflexão ou ensaios prévios.

«Devemos procurar a verdade, a beleza e a bondade no mundo e em nós mesmos, encontrar assim um sentido para a nossa vida e um lugar no cosmos. A nossa pequenez torna cada momento precioso e único. Então, que todos possamos vivenciar esta liberdade, amar intensamente e aprender sempre»!

Quem já teve um momento de revelação ou uma ideia grandiosa, certamente reconheceu a expressão iluminada no rosto do pianista. A mesma de quem consegue ver a ordem escondida no caos.

«Quando finalmente completar a partitura, talvez toda a nossa ignorância desapareça e algo novo nasça, gerado nos alicerces da sabedoria. A vida é, assim, um misto de descoberta, viagem e despedida. Uma melodia interpretada por todos os sentidos, como esta peça musical que partilho e componho convosco»… 

Deixou a frase a meio e olhou para o piano com uma lágrima a cair do seu próprio rosto antes de continuar. «Julguei estar a compor um requiem para um homem só, quando afinal era uma epopeia para cada um de nós»! 


quarta-feira, fevereiro 22, 2023

Peixes significa poesia


No signo dos Peixes há mistérios,

Mundos submersos e mundos sérios.

Sonhadores do Zodíaco, assim são,

Voam na sensibilidade e intuição.


Amam o impossível que há no Universo,

Vivem de alma inquieta e feitio intenso,

Buscam desvendar o segredo do infinito,

Alcançar o inatingível com o espírito.


Nos seus pensamentos profundos,

Como nas águas sombrias dos abismos.

Onde o medo e a poesia se deixam levar,

Para, juntos criarem uma beleza sem par.


Mergulham nas emoções mais intensas,

Fazem dos sentimentos as suas crenças.

Encontram nas artes sua verdade,

E no amor a mais alta liberdade.


segunda-feira, março 08, 2021

Nunca te questionaste assim?

Já te aconteceu acordar de manhã sem saber quem és, ou onde estás? 

Despertar sem memórias numa espécie de vazio incógnito onde não existe mais nada a não ser uma interrogação? 

Sabes, aquele momento, enquanto os olhos absorvem a primeira luminosidade, adoptam um instinto inicial e arrastam consigo os restantes sentidos. O corpo, letárgico pelo sono, recupera os movimentos que o adormecer quedou. As recordações começam a surgir como um manual de instruções para o teu próprio ser. 

Deram-te um nome e por isso deves ser assim conhecido. Fizeste isto portanto é suposto fazeres aquilo. Gostas destas coisas, logo tens de odiar aquelas. Tudo isto surge num repente empurrado pelos instintos humanos e nunca questionas se todas estas obrigações fazem sentido. São como ordens para cumprir devido a um suposto passado. Para isso acolhes, um pouco de consciência que te é fornecido para completar esses desígnios. 

É estranho não é? 

Por vezes parece existir qualquer coisa de irreal no viver. Uma imposição autoritária sobre a nossa pessoa. Toco-me mas não me sinto eu. Olho-me mas não tenho a certeza que aquela figura seja a minha. 

E se for tudo mentira? 

Nunca te questionaste assim? 

Se tudo que julgamos verdadeiro não passa de um mero figurino numa tela em movimento? 

Talvez tudo faça sentido para alguém, ou para algo, que não suporta o fardo da carne humana. Uma divindade cósmica que as civilizações têm errado em denominar acertadamente. A história daqueles que se apoiam sobre duas pernas é pequena e responde a muito pouco quando comparada com todo o desconhecido. 

Aqui, nesta terra onde habitam os que pensam, sentem e sonham, sobra a inquietação a quem ousa perguntar sobre o que é de facto real. 

Tu sabes a que me refiro? 

Talvez nada seja o que parece ser. Se não fosse assim porque havia o ser humano de questionar se existe algo mais para lá dos sentidos? 

Talvez tudo seja o que parece ser. Mas às vezes é tão pouco não é?


segunda-feira, novembro 16, 2020

Prole da mesma intenção


Por vezes cruzo-me com a minha "alma gémea". É inevitável. Sinto-a como um chamamento. Algo magnético que nos impele para o mesmo olhar. É aí, quando os nossos infinitos se cruzam, escondidos atrás de um rosto de feições humanas, que nós percebemos que aquela é a nossa suposta “outra metade” como dizem os românticos.
Ainda que esse encontro dure ínfimos fragmentos de segundo, temos certeza de que ele acontece. Não apenas uma, mas inúmeras vezes, sempre em faces diferentes. Sou eu que me cruzo contigo; és tu que te cruzas com o outros; são os outros que se cruzam comigo. É como uma rede de encontros momentâneos, sem futuro, embora intermináveis com o mistério que trazem. 
Nas nossas diferenças, somos todos parte do Uno. Fragmentados pela nossa sina humana, onde os instintos assumem um papel fundamental. Buscar outro que possamos entender como igual é apenas um deles. Tenho a certeza que os entendidos nas ciências da evolução, arranjam uma explicação para isso. Algo frio. Palavras complicadas que elucidam este enigma, sem romantismo, apelando apenas ao lado mais animal que habita a nossa carne. 
Existir torna-se tão vazio quando compreendemos aquilo que nos programa. É triste. Esta história da "alma gémea" perde a beleza por completo. É tão pouco ser apenas humano. Não é?
Pessoalmente fico baralhado. Falar em "alma gémea" parece até algo incestuoso quando todos somos prole da mesma intenção. Aos olhos da ciência amar é tão pouco. Tão inútil. Somente uma espécie de sobrevivência sem qualquer intenção de ser algo transcendente. Nada que mereça ser transcrito em poemas ou romances que almejam a eternidade. 
Não existe a "alma gémea", existe sim a ideia de "alma gémea". É só isto e é tão pouco. Queremos mais, mesmo que seja só ilusão, porque tão pouco não basta. Então amamos: os corpos, as almas, os sonhos, o etéreo... Sem deixar que a insignificância tome conta de nós!

quinta-feira, outubro 22, 2020

Peças de lego

Por vezes imagino-te como um ser transexual. Dividido em múltiplas identidades, livres de qualquer estereótipo ou preconceito. Corpo desenhado numa aparente confusão assexuada sem pudor, nem o mínimo objectivo de fazer qualquer sentido.

Desmonto-te e remonto-te com novas peças coloridas nos vários tons de pele, partes masculinas e femininas, transgénero. Gordura e magreza; fealdade e beleza; perfeição e grotesco. Acrescento também partes de bichos como nas lendas de outrora. Reinvento-te de todas as maneiras possíveis e imagináveis, como uma criança brinca com lego. 

Suponho que é assim que Deus monta todos os seres humanos, como um brinquedo com peças de encaixar. Imagina, constrói e dá vida à sua história. Nós, variações da mesma personagem reinventada vezes e vezes sem conta. Aparentemente conscientes no comando dos nossos julgamentos. 

Depois, refugio-me a ponderar sobre estes meus pensamentos estranhos e sobre aquilo que verdadeiramente nos define como humanos. Um pedaço de software instalado num hardware. Um robô de carne e osso a tomar decisões estabelecidas pela programação matemática designa o nosso suposto livre arbítrio. 

Recentemente li um estudo que dizia que o cérebro toma as decisões mesmo antes de termos consciência delas. É tão estranho! 

Claro que estas conclusões tiram toda a ideia de romantismo à existência. 

A própria ciência diz que o futuro já passou, nós, simplesmente é que não nos lembramos dele. Isto deixa-me a questionar: porque é que eu tenho compreensão de mim mesmo? Se afinal tudo já está pré-programado e até acontecido. 

Qual é o sentido, para alguém que não passa de um figurante num jogo cósmico, ter noção de si mesmo?

Apesar de tudo gosto de acreditar que nós somos algo grandioso. Tu e eu como um só e tudo o resto como nós. Tão gigantes como o pó e tão pequenos como as estrelas! 

O teu corpo feito de tantos outros, baseado numa única ideia. Todas as bocas vão dar à tua alma pelos caminhos do prazer e da dor. Eu húmido, tu erecta, na mistura dos sentidos para lá do que o corpo dita. Engolidos pelo fascínio daquilo a que chamam amor. 

Encontramos a nossa casa no que é bizarro. Fugimos pelas veredas do impossível e ficamos no mesmo lugar, cingidos à nossa aparência, sem que nada mais importe apesar de tudo importar!


sábado, novembro 30, 2019

Sentido oculto


Amava eu, sem saber, o impossível. Até que o teu corpo apareceu e o confundi com o próprio Cosmos. Perdi-me durante algum tempo nessa ilusão. Não passou muito até que conhecesse as tuas curvas, vielas ou arestas. Transformaste-te numa ausência de novidade. Depois ficou tudo tão aborrecido e não tardou até querer mais mundos a descobrir.
Foste embora. Ainda assim não demorou até que voltasses, com outro rosto, outra voz e outra pele. Desta vez não foi a carne que me cativou. Tinhas lá dentro, atrás da cor, do toque, do aroma e sabor, algo que só um sentido oculto podia conhecer. Chamei-lhe poesia e entreguei-me nas estrofes. Foi lindo até que te começaste a repetir. Deixaste-me viciado e já não chegavas, queria mais de ti.
Mas tu tens muitas aparências e chamei-te continuadamente para te conhecer sem fim. Vieste, sempre sem te copiares. Uma nova viagem desconhecida. Um novo cântico original. Percorri os caminhos, decorei os pormenores e estudei a tua ciência. No entanto, não demorava até seres tédio. Transformavas-te em algo enfadonho, impossível de suportar para a minha inquietude.
Como qualquer adicto, tive noção da minha dependência por ti. Contudo, eu, indigente, admito que não tenho forças, nem desejo de abandonar esta minha degradação. Portanto, continuas a chegar no teu infinito. Tu, nas tuas versões incontáveis, tornas-te tudo que ambiciono. Eu, igual a ti, nos outros tantos de mim. Como um, parte dum todo sem o saber. Acusa-me de desassossego! E eu não nego que amo o impossível!

terça-feira, novembro 26, 2019

Quando uma criança imagina


Quando o pensamento é jovem a sua força pode linear destinos, ainda que, de forma esboçada, ausente de pormenores. Isto porque a juventude é naturalmente desprovida de conhecimento sobre a vivência humana. O futuro pode assim ser traçado, porque um dia uma criança idealizou que assim seria. Como um argumento cru, resumido ao mínimo.
Julgo eu, que esta força, provém exactamente da ignorância infantil face àquilo que a fantasia pode alcançar e que esta seja, de facto, um propulsor para a vontade do Universo. Sem bases científicas que apoiem esta minha avaliação, não me ocorre outra denominação para o poder do pensamento, a não ser magia!
Sem me julgar mago, olho para a minha própria existência e comparo-a com aquilo que um dia a criança que fui imaginou. As aventuras, os amores e as conquistas. Retiro todos os cenários que servem de entulho e resumo-me a sentimentos. Num golpe de ironia eles estão lá, os mesmos que um dia desejei, ofertados pelas leis da vida.
Claro que, com toda a azáfama com que somos confrontados na nossa qualidade de seres humanos, tudo fica confuso. Torna-se inevitável questionar o que nos rodeia, seja material, regras impostas, ou vontades alheias. É fácil esquecer o que queremos, quando não existe a percepção de que, para sentir, há que percorrer um caminho que sirva de aprendizagem.
Há coisas que doem viver e a fantasia morre aos poucos na ambição dos adultos. Dei por mim a cumprir pena de amargura porque, na inocência da criança que fui, cometi o crime de um dia desejar o que não compreendia. Esta conclusão está repleta de ironia, contudo vou tentando encará-la de frente. Não como um herói, mas alguém que assimila as respostas depois de uma revelação.
No fundo, posso dizer que a magia se limita a duas coisas: pensar e sentir. Todo o resto são adornos impostos pela ilusão em que crescemos. Cingindo-me, assim, a esta mera reflexão ao fim da tarde, sem reconhecer qualquer autoridade nas minhas próprias palavras. Quem compreender, compreendeu. Quem discordar, discordou. Pouco mais há a dizer…

quarta-feira, outubro 30, 2019

Prece sem destino concreto


Rezei a um Deus desconhecido. Aqueles que já conheço, têm tanto de humano que até dói, tornando inútil qualquer crença no seu nome.
Deixei que as minhas palavras, impulsionadas pelo pensamento, atravessassem as estrelas até aos confins do cosmos. Muito para lá do que a imaginação pode sonhar, ou que a ciência encontrar. Tinha esperança, de que nesse recanto impossível, resida uma entidade, real ou não, acima de todas as outras, que me possa escutar com a caridade benevolente que as divindades prometem a um simples homem como eu, na senda do dia-a-dia.
Em dias como este, em que a pequenez se agiganta e as forças são ridículas ante a vontade soberana do Universo, peço um conforto ou uma ponta de alegria. Nada de impossível a quem determina os desígnios do inefável. Somente um toque de generosidade sem mendigar em demasia.
O martírio da sabedoria, que se apresenta disfarçado de bênção, é um fardo pesado de carregar nas alturas em que a solidão se mostra vazia. Quando assim é, urge descobrir coisas novas. Nem que seja numa prece sem destino concreto.
A resposta que aguardava veio com a própria questão. O desconhecido manifesta-se numa procura incessante com ânsia inquieta. Nada mais há a desejar, a não ser isto: gnose e poesia, onde os sentimentos dançam nas diferentes interpretações de quem, na sua inocência, ou loucura, os tenta descrever sob a forma de linguagem.

terça-feira, setembro 24, 2019

Lūna lūcet


Olhei para a Lua cheia e esqueci-me de todos os meus amores.
Erguia-se luminosa e soberana acima da escuridão profunda da noite. As estrelas recolhiam-se como que em submissão à Rainha do firmamento. Havia nela um feitiço, quase erógeno, que me impelia a contemplar o seu brilho hipnótico. Uma presença feminina, superior a toda a beleza, que nenhuma mulher podia ousar rivalizar.
Não existia toque, mas senti a sua carícia como quem partilhava o desejo com uma amante impossível. Entreguei-me ao erotismo poético de quem revela um segredo na hora do prazer. Houve um arrepio de silêncio sussurrado ao ouvido das trevas que me completam. Apresentei-me assim, com a alma despida de qualquer sol. Ofertei a minha ignorância virgem ao enigma da génese e sonhei.
Quando compreendi a ausência de sentido dos mistérios indizíveis do Universo, amei a liberdade como nunca tinha feito antes. Afinal, ser livre é ser parte de um todo, cósmico e infinito. O entendimento limita-se a si próprio na forma humana e aceitei isso como um dom. Algo na minha pequenez é imenso, tal como na origem de tudo que foi concebido pela sabedoria da criação.
Depois, o êxtase dissipou, entre o cansaço, o deleite e o sono. Tal como esvanecem todos os devaneios nas profundezas do esquecimento. A noite manteve-se iluminada, mas a magia calou-se. A Lua continuou cheia na sua imponência e foi amar outros que a admiravam, porque o amor é livre na sua incompreensão e todos devem provar o seu sabor, antes que chegue a madrugada…

terça-feira, agosto 20, 2019

Sentimentos controversos


De que vale falar no anoitecer se, há muito tempo, anoiteceu em mim.
Não foi apenas uma noite, mas várias. Algumas tenebrosas; outras vazias; solitárias; apaixonadas; raivosas; violentas ou serenas. A escuridão tem vários sentidos conforme a sina de quem nela se embrenha.
Cada noite que cai tem a sua história e declamo cada uma como uma fábula insatisfeita, porque nenhuma me completou, e nenhuma foi verdadeiramente imortal, como a poesia tem de ser.
A brutalidade de quem ama!
No corpo, na voz, no prazer e no silêncio de outro alguém em comunhão com o meu desassossego. A paixão é infinita na sua brevidade, por isso, nada mais é do que a ilusão no sentir naquele momento.
O sentido de quem odeia!
Planos de vingança dão um propósito na vida de quem é injustiçado. Se a dor destrói, a dor também recria. No seu ventre insensível, gera os monstros mais desumanos, educados com os mesmos instintos que os (me) esmagaram.
A mansidão de quem acalma!
Por vezes o céu nocturno está estrelado, ou a lua está iluminada para que se acredite em magia. Quando assim é, vem como uma mão maternal, aconchegante e compreensiva, tal como um descanso sem julgamentos.
O recolhimento de quem medita o seu dia!
Porque há que lembrar a jornada e de quando em quando, questionar cá dentro: “Quem somos”? A resposta surge quando o mundo está calado. Existe uma pacificação que tem de ser feita com o impulso interior, para que o fardo do amanhã tenha menos peso.
Assim são os meus anoiteceres, cheios de cenários longínquos, jornadas grandiosas e sentimentos controversos. Assim sou eu, como as minhas noites, pequenos contos na insónia das palavras. Tanta coisa e nada em simultâneo. Sementes que me fazem e refazem nas Primaveras do existir.
Embora, quiçá, devido ao hábito, conheça apenas estes horizontes noctívagos, como um vampiro melancólico. Fadado a viver na madrugada nua. Não devo culpar ninguém, até porque o destino (se existir) é como tem de ser. Ou melhor, o que aconteceu agora é passado e há que seguir em frente.
Como tudo muda, talvez deva agora dar atenção ao nascer do sol...

terça-feira, agosto 13, 2019

Deus, Paixão e Infinito


Gosto de acreditar que a criação do Universo se deva a uma paixão. Aquele por quem tomamos como a derradeira entidade divina, gerou um pensamento enamorado e, desse momento de felicidade absoluta, originou-se tudo aquilo que conhecemos por real.
E nós, feitos à Sua imagem e semelhança, nos sentimentos e desejos, herdamos igual capacidade de paixão e, com ela, a mesma capacidade de criação. Quando a chama da atracção se exalta, nasce um Universo próprio no nosso íntimo. Com as nossas regras, cores e magnificência.
Somos como Senhores dessa versão do existir, naquilo que chamamos sonhar. Ainda que, numa tentativa ridícula de comparação, aconteça numa dimensão mais pequena quando equiparado com tudo o resto. Não importa, não é por isso que deixa de ser igualmente magnifico.
Todos já amamos e, desse modo, também já recebemos em troca a amargura do sofrimento. Infelizmente há sempre uma dualidade na alma quando o sentir é profundo e por cada felicidade alcançada há sempre o outro extremo a espreitar. Seja como for, valeu a pena toda a génese só para que conheçamos o sabor da paixão.
Gosto desta ideia romântica de que Deus criou o infinito porque se apaixonou. Talvez como um adolescente que, coberto de ingenuidade, dá o seu primeiro beijo. Quando lábios jovens se encontram tudo se transforma em beleza e nada mais existe a não ser a fantasia.
Aquela ilusão poética que habita em mim acredita nessa quimera. Afinal de contas, algum propósito deve existir na criação e essa ideia conforta-me para lá de todos os dogmas: Ele, abismado pela grandiosidade do sentimento, concebeu-nos de forma a que, também nós, pudéssemos partilhar de igual forma o êxtase de amar!

quarta-feira, junho 12, 2019

O que tenho para dizer é igual ao Infinito


Tenho sempre algo para dizer, todos os dias, a alguém. Nem que seja a mim. Nem que seja silêncio.
Há sempre algo que precisa ser dito, mesmo que seja calado.
Os loucos falam para si mesmos, porque têm algo a reparar.
Os génios falam para si mesmos, porque têm algo a questionar.
Os ignorantes falam para todos, porque não têm nada a ensinar.
As respostas vão surgindo no meio do caos; entre o barulho; na confusão das cores. Também na voz dos sábios, ou dos estúpidos. Muitas vezes a explicação está no inverso do que é discursado. O conhecimento está em perceber o que o mundo diz e isso, só por si, é uma disciplina complexa.
O que tenho para te dizer é igual ao Infinito, por isso é vago. Só o consigo verbalizar quando estou longínquo, com o pensamento fixado no inefável. Naqueles momentos, que tu conheces bem, em que o olhar está concentrado num ponto para lá do horizonte. Eu, meditativo, na tua companhia, mas sozinho. Numa viagem ausente pelos mistérios do existir.
Tenho o teu toque por perto e isso dá-me conforto. Tens o meu mundo tão longe e isso dá-te abrigo no carinho da minha inquietude. Sabes que é difícil explicar o que não se compreende, por isso calo-me e deixo que me interpretes com telepatia.
A ciência de quem ama é proibida e, só por esse argumento, é grandiosa. Saber o que não se toca. Dominar a sinestesia dos sentidos curiosos. Alimentar a fome de entendimento, a mesma que nunca se sacia. A Gnose é impossível de expressar. Talvez seja algo que cresça com cada questão. Ou um caminho que se torna mais longo com cada resposta.
Seja como for, tudo que digo agora é um devaneio de quem é insaciável. De nada mais serve a não ser para desassossegar. Pouco mais te posso acrescentar do que este pensamento. Em mim não existe uma verdadeira serenidade. É preço que se paga para quem se perde pela madrugada fora.
Agora fala-me de ti. A condição humana aborrece-me, portanto, abstém-te do que é banal e deslumbra-me com o teu próprio Universo. Não existe nada que seja demasiado insignificante. Há sempre algo a saber, nem que seja dos teus próprios retalhos.

sexta-feira, setembro 14, 2018

Um bicho como os outros


A solidão sabe sempre melhor na companhia da Natureza. Onde tudo cresce espontaneamente no compasso da ordem natural, sem que ninguém, a não ser a vontade do Universo, interfira na sua essência.
Posso-me fundir com todo o resto aqui. Sou apenas mais um bicho, como os outros que por aqui andam. Sejam pássaros, sapos, lagartixas, libelinhas, ou moscas. Tudo no seu devido lugar. Exactamente onde é suposto estar, tal como o Universo quer. Esta é a oração sublime de quem medita. Para aqueles que se esquecem do que está lá fora, e afinal não importa, quando a finalidade é a Paz interior.
O barulho aqui está isento de palavras. Se a tranquilidade tem som, este é o da água que corre no riacho, os chilreios apaixonados dos pássaros, ou a brisa que vai sacudindo as folhas das árvores. Sem ruídos que poluam os sentidos.
A linguagem perfeita é esta. Em harmonia com as cores de um arco-íris pintado a fauna e flora, na tela da perfeição. Há a quietude, tão longa quanto o tempo que para. O sabor da vida degustado no cheiro fresco da renovação.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Pergunta por verbalizar


Olho para longe, em busca de um lugar que os olhos humanos não podem alcançar. Algures, onde a minha mente não conhece, nem a inteligência sabe onde fica. A geografia é uma disciplina impossível quando o ponto aonde queremos chegar fica no desconhecido. Sem mapas, ou indicações, que me orientem. Simplesmente é demasiado longe. Sempre demasiado longe… Para que a inquietação possa conhecer um pouco de tranquilidade.
Louvo este tormento de nunca me encontrar em lado nenhum, nem numa arte qualquer. Não há poemas cheguem para explicar o que não se explica. São coisas infinitas! São coisas impossíveis! São enigmas sem fórmulas para os decifrar. Respostas há muitas, nas mais variadas vozes, dos mais variados saberes. No entanto, esquecem que nunca foi feita uma pergunta por falta de a conseguir verbalizar. Não há ciência, ou pensamento, dos homens capaz de estudar esta sensação de constante distância.
Por vezes o espírito é de calmaria, quando o mundo à volta se cala no seu constante ruido, e deixo-me ir somente com a ânsia de estar ausente. É como se nesses momentos conseguisse encontrar o meu lugar, nesta fuga constante às dimensões corpóreas que restringem o ânimo, dentro da prisão da existência. Mas como pode isso acontecer se tudo é desassossego?
Contudo, há em mim uma réstia de esperança, que provoca o caos nesta minha falta de rumo. Uma Fé inexplicável, vinda sabe-se lá de onde que teima em fazer-me acreditar na ilusão da felicidade. Não posso negar que há em mim um espírito de sonhador. Esteja eu em tumulto, ou na mais absoluta lucidez, há sempre um sonho que insiste em nascer do ventre da imaginação, como se tivesse vida própria.
São delírios de quem não conhece a satisfação. Ainda assim, é tudo que sou. Entre o aqui e o infinito. Caminhos incontáveis sem bússola que me norteie neste emaranhado de incertezas.
Talvez o amanhã me indique uma direcção, ou me faça encontrar um propósito. Hoje não! Deixo-me que me esqueça de mim próprio aqui, nesta Paz momentânea e recolho-me na serenidade do olhar para o que está longe...