Corpo estendido no chão. Imóvel. Rodeado de pó parido pela terra seca. Olho para o azul fantasma em cima de mim. Uma tela sapiscada por pinceladas brancas, tridimensionais, numa geometria caótica em constante mutação. Itens abstratos, os quais parecem dançar ao vento sem qualquer intenção de fazer sentido. Viajam não sei para onde. Talvez um lugar onde o longe não existe. De vez em quando passam aviões. Todos com destino e hora de chegada. Condições bem estudadas pela organização humana. Deixam, atrás de si, um rasto a desenhar uma linha reta perfeita. Traços a lembrar a sua passagem pelo cenário aéreo. Atrevem-se a perturbar a falta de coerência das imagens mutantes que preenchem o meu campo visual.
De repente, pela força do pensamento meditativo, invertem-se as leis da física. Já não ė o meu corpo estendido na terra suja. Afinal, sou eu quem está a voar! Abaixo de mim está um chão feito de infinito. A cor azul celeste é uma cortina numa janela feita de estrelas, galáxias e mistérios. Todos escondidos debaixo da tela salpicada à qual antes chamava céu. Afinal não caí na imundice seca, nem sequer padeço de imobilidade, em vez disso carrego nas minhas costas o mundo inteiro como um Atlas alado. Não são as nuvens nem os aviões que viajam. Estão todos parados. O movimento é meu. Sou eu, a voar na direção do inalcançável e contemplo o cenário estático abaixo de mim a ficar para trás, nos cantos vazios do esquecimento.
O mundo pesa mas não paro. As asas são feitas de éter. A gravidade é uma ilusão. A queda é meramente decorativa. Uma lembrança amarga da condição humana. Carrego o planeta às costas por fardo ou condenação. Sigo, assim, pelo destino incompreendido, como quem cumpre a missão de ser gente. Longe está a chegada, tal como distante está a partida. Vou. Sem qualquer rota traçada. Observador da existência com a curiosidade de uma criança e a tranquilidade de um velho. Equilibro-me entre o real e a fantasia. A vitalidade e a indiferença. Uma recordação e profecia. Conheço-me e descubro-me em simultâneo. Neste momento onde a minha consciência rasa a loucura, encontro uma lucidez cristalina, onde se revela o meu lugar no universo.
– Tem calma, depois deste desisto. – Deu uma passa longa e logo a seguir atirou o cigarro fora juntamente com a caixa vazia. – É hoje que fugimos?
– Ó sim. – Anuiu confiante. – Vem comigo. – Caminharam até uma carrinha estilo furgão, antiga. Talvez fosse dos anos oitenta ou até anterior. Entre a descoloração e algumas amolgadelas meio reparadas, nem dava para perceber a marca, quanto mais o ano.
– O que é isto?
– O nosso meio de transporte.
– Esta coisa anda sem se desfazer aos bocados?
– Podes ter a certeza disso. Aliás, eu, pessoalmente tratei de verificar a estrutura e o motor. Podemos dar a volta ao mundo e não nos vai deixar mal.
– Se tu o dizes, eu acredito em ti.
– Temos tudo que precisamos. – Abriu a porta traseira e mostrou. Revelou um interior generosamente grande. Lá dentro estava apenas um colchão insuflável.
– Parece uma casa acolhedora. – Admirou toda a área vazia. – Teto não nos vai faltar.
– Não podíamos dormir à chuva.
– O que fizeste às tuas tralhas?
– Vendi. – Riu-se. – Temos de ter dinheiro para comer.
– Também fiz o mesmo. Parece que estamos ricos. Temos a barriga cheia sempre garantida.
– Vamos. – Entraram.
– Onde foste desencantar esta coisa? É enorme. Mais parece um camião americano. – Deitou-se no assento. – Consegues conduzi-la pelo menos?
– Eu conduzo qualquer coisa. Até uma nave espacial se for preciso. – Brincou.
– Que temos aqui? – A sua atenção virou-se para um rádio antigo de cassetes. – Isto traz-me recordações. Ainda funciona?
– Nem duvides. Não só funciona como traz uma colecção de músicas para a gente ouvir. – Abriu o porta-luvas e caíram dezenas de cassetes antigas. Sem dúvida, não eram utilizadas há mais de duas décadas, pelo menos.
– Ui tantas! – Verificou algumas com curiosidade. – Tens a certeza que isto toca mesmo?
– Coloca uma. Não há como experimentar.
– Tens razão. – Segurava uma caixa na mão. Abriu-a, retirou a cassete e colocou na ranhura. Já não se lembrava bem como se usava uma coisa daquelas. Não era difícil. Ao carregar no play começou a tocar "125 azul" dos Trovante.
– Nem de propósito. Excelente banda sonora. – Ligou o motor da carrinha velha sem qualquer dificuldade. – Eu disse que o motor estava bom. – Sorriu.
– Vamos mesmo fazer isto? – Tocou-lhe na mão e devolveu o sorriso.
Gosto de ver a vizinha estender roupa. Fá-lo com gestos ágeis a denunciar uma mestria natural. Os pequenos pormenores tornam o processo hipnótico. Desde a sacudidela energética nas vestes, sempre acompanhada de um baque abafado, até à forma quase mecânica como coloca as molas na corda. Em pouco tempo fica tudo ao penduro, à espera que sol cumpra a sua função. Há uma pureza cativante em tudo isto.
É uma jovem adulta e mãe recente. Tem cabelo arranjado e usa um vestido fino de Verão que lhe facilita os movimentos despachados com faz a lida da casa. O visual dela é completamente moderno, no entanto, faz-me lembrar as mulheres de outros tempos. Aquelas que lavavam no rio, de lenço na cabeça, avental e saia comprida, como se vê nos grupos etnográficos, ou até mesmo como via a minha avó na labuta caseira.
Tudo completamente fascinante para um curioso do inútil como eu. Observo-a, sem qualquer malicia. Vou reflectindo sobre as suas acções. O porquê de tanto zelo na limpeza da roupa? Do cuidado nos afazeres que a habitação obriga? Isto, ao mesmo tempo que mantem a jovialidade, ao brincar com a criança ou no namoriscar do seu marido. Uma engrenagem fulcral no funcionamento da família, entre a mocidade e a responsabilidade.
Isto é a vontade da génese humana. Matrimonio, emprego, lar. Crescer, trabalhar, dar continuidade à sua linhagem através da prole. A sapiência divide-nos dos animais. Temos as nossas ciências, máquinas, dinheiro e conforto. A superioridade do polegar oponível. Porém, no essencial, será que existem diferenças de maior para com os outros seres com quem dividimos o mundo? Talvez a verdadeira liberdade seja constatar esta verdade.
A vizinha continua a estender a roupa. Os bichos a fazer coisas de bichos. Eu, no refúgio de pensamentos esdrúxulos, tão supérfluos quanto a existência. A realidade é diminuta para quem se alimenta de fantasia. Os cinco sentidos são tão limitados como uma prisão. Sobram as artes para dar continuidade aquilo que falta. A consciência, fertilizada pela inquietude, serve de ventre para a criatividade. Depois, como quem coloca as molas na corda, deixo as palavras ficar ao penduro, à espera de um leitor para servir de sol.
Oiço histórias de guerra. Conquistas gloriosas em nome da liberdade. Os países, orgulhosos, erguem a bandeira dos direitos humanos, contudo, em simultâneo exibem as suas armas superiores em paradas militares bilionárias. Evocam momentos de heroísmo e patriotismo, nas batalhas grandiosas onde vence aquele que melhor defende a dita liberdade.
Já repararam que depois de uma guerra vem sempre um período de progresso?
Pelo menos até que as trevas regressem novamente… Acreditem, elas regressam sempre, já que a história tem essa mania de se repetir…
De forma irónica, alcançamos a liberdade que temos por causa das guerras que travámos no passado (nós não, os que nelas participaram em nome de um mundo melhor).
E como ficam as pessoas que batalharam nessas guerras heroicas dos livros de história?
Vidas inúteis atiradas como lixo para o entulho do campo de batalha. A palavra morte banalizada em troca da conquista da liberdade. Jovens com sonhos que nunca se concretizaram, assustados nas trincheiras, debaixo de uma chuva de balas e sangue, cientes que o seu destino era morrer.
Nascem heróis, morrem pessoas. Destrói-se a tirania para dar lugar a um mundo onde a paz nunca acontece realmente. Existe sempre um motivo para batalhar. Uma causa superior que mobiliza a vida dos inocentes para a chacina.
Aqueles que escutam as histórias, pouco se importam sobre quem pereceu para que o mundo fosse livre. A guerra parece longe para quem nunca a suportou. Perdida nos livros de história, ou escondida atrás de um ecrã. As vítimas lamentam para os microfones e para as câmaras. Entretêm as massas nos noticiários como se fosse um reality show feito de tragédias.
Mas afinal o que importa a vida de quem não conhecemos?
Como se curam as feridas dos que sobrevivem ao inferno?
Cicatrizes eternas no corpo e na alma, impossíveis de esquecer na sua dor perpétua.
Nas cerimónias emotivas, nos discursos dos políticos, lembram-se as datas das batalhas e toda a glória alcançada. Faz-se um minuto de silêncio por aqueles que nunca conseguiram viver para além do campo de batalha. É só isso. Um esquecimento disfarçado de homenagem, por aqueles que nunca conseguiram voltar a casa, longe da guerra, para conhecerem uma vida onde a paz é verdadeira.
E nós, que valor damos à liberdade que nos ficou de herança?
Iron Maiden – Paschendale
Num campo estrangeiro ele está caído
Um soldado solitário, um túmulo desconhecido
Nas suas palavras moribundas ele implora
Contem ao mundo sobre Paschendale
Aliviado de tudo porque passou
A última comunhão da sua alma
Ele enferrujou a tuas balas com suas lágrimas
Deixa-me contar-te sobre estes anos
Abaixado em uma trincheira cheia de sangue
A matar o tempo até à minha própria morte
Na minha face eu sinto a chuva que cai
Nunca verei os meus amigos novamente
Entre o fumo, lama e chumbo
Cheiro o medo e a sensação de terror
Em breve será a hora de passar o muro
Fogo rápido e o fim de todos nós
Assobios, gritos e mais rajadas de fogo
Corpos sem vida pendurados no arame farpado
O campo de batalha nada mais é do que um túmulo sangrento
Em breve vou-me juntar aos meus amigos mortos
Muitos soldados com dezoito anos
Afogados na lama, sem mais lágrimas
Certamente uma guerra que ninguém pode vencer
A hora da matança está prestes a começar
Uma casa, longe
Da guerra, uma hipótese de viver novamente
Uma casa, longe
Mas a guerra, sem hipótese de viver novamente
Os corpos, nossos e dos nossos inimigos
Um mar de morte a transbordar
Na terra de ninguém, só Deus sabe
Para as mandíbulas da morte nós vamos
Crucificados como numa cruz
As tropas aliadas lamentam as suas perdas
A máquina Alemã de propaganda de guerra
Como nunca ninguém viu
Juro que ouvi os anjos a chorarem
Rezo a Deus para que mais ninguém morra
Para que as pessoas saibam a verdade
Contem a lenda de Paschendale
A crueldade tem um coração humano
Cada homem faz a sua parte
O terror das pessoas que matamos
O coração humano ainda tem fome
Defendo a minha posição pela última vez
A arma está preparada enquanto fico na linha
Nervoso, espero o soar do assobio
Uma investida de sangue e vamos em frente
Sangue cai como chuva
O seu manto vermelho é revelado novamente
O som das armas não pode esconder a vergonha deles
No dia em que eu desisti, o mundo fez uma festa em minha honra.
Os povos de todas as culturas saíram à rua, com cantos, danças e foguetes. Pegaram-me em ombros para desfilar comigo nas avenidas enquanto toda a gente clamava o meu nome e me batia palmas com um entusiasmo eufórico.
Os governos declararam feriado e na comunicação social não se falava noutra coisa. A alegria contagiou a Terra inteira por causa do meu nome superior.
Então, levaram-me ao topo do edifício mais alto e todos gritaram em uníssono para que fizesse um discurso de vitória. Excitado pela euforia, abri os braços e saboreei aquele momento de glória absoluta.
Durante vários momentos, longos, deixei que focassem em mim todo o seu êxtase. Depois, com as palmas das mãos viradas para baixo, gesticulei um sinal a multidão para que fizessem silêncio. Obedeceram quase de imediato, conseguiram acalmar a energia e calaram-se para me escutar, tal era a fome pelas minhas palavras sabias.
Olhei-os com clemência e projectei a minha voz na direcção dos quatro cantos do planeta bradando:
«Hoje desisti!» imediatamente fez-se ouvir uma monumental salva de palmas. Voltei a pedir silêncio e continuei:
«Desisti com orgulho, parece que todo o peso do mundo saiu de cima das minhas costas e por isso sinto-me leve que quase parece que consigo voar!» As palmas soaram novamente junto com palavras de incentivo. Assim que voltou a calmaria continuei:
«Contudo, não posso voar, nem o quero! Não quero ser mais do que aquilo que posso ser, por isso, hoje, sou novamente um de vocês! Um herói que não tem vergonha de desistir! Sem a obrigação de me superar a qualquer preço!» Veio mais uma ovação.
«Por favor não me dêem mais vivas.» Disse, com a emoção estampada no rosto para que todos me vissem.
«Esta leveza é o símbolo da Liberdade que todos merecemos. Sem qualquer tipo de autoridade que me diga que a responsabilidade deve ser assumida a todo o custo, mesmo que não a queira, ou que ma tentem impingir! Hoje, regresso à condição de ser humano, frágil, longe das grandes glórias com que me tentaram iludir.» Desta vez ouvi menos palmas e reparei que a multidão se começava a dispersar rapidamente.
«Obrigado!» Agradeci aos poucos que restaram com uma ligeira vénia. Também esses não me ligaram muito. Estavam ali parados, inertes e distantes, como se não tivessem mais nada para fazer. Nem sequer lhes mereci um olhar minimamente atento.
A minha voz emotiva já não interessava a ninguém. Toda a festa grandiosa feita em meu nome, era agora uma memória descartável, como se nunca tivesse acontecido. Sobrou a leveza da minha decisão. Juntamente com a tranquilidade de ser Livre.
Os acordes chegam de mansinho aos meus ouvidos. Não importam os instrumentos que os sussurram, apenas os sentidos que os consomem. Deixo-me mergulhar neles como quem entra num sonho transcendente.
Trazem uma melodia encantada que me faz viajar: pela imensidão das Estrelas que pintam o Cosmos; por outros "eu"; por amores indizíveis; por acontecimentos transhumanos; por histórias que ainda não criei. A cada nota emanada vai-se montando um cenário onde a magia, a ciência, e a fantasia se misturam num único entendimento.
A partitura, composta num momento de criatividade divino, vai-se edificando. A beleza da música revela os seus segredos nos mais pequenos detalhes. Eu escuto e assimilo uma mensagem que não tem palavras, somente um convite para alcançar o que está longe.
A interpretação é livre. Cada um pode escolher o que sentir quando uma sinfonia sem destino escolhe traçar o seu caminho através da pessoa que somos. É para isso que a arte existe: para elevar os sentidos que nos prendem a este chão.
Não conheço o nome do autor mas partilho com ele a viagem de sinestesia sensorial que vivenciou quando compôs esta trilha de sensações. É este o objectivo da partilha, percorrer aquilo que a realidade tem de alternativo. A imaginação cresce tal como um universo que nasce.
Um compositor qualquer criou o princípio para que todos os que o escutam continuem a sua criação. A harmonia intensifica-se quando os ouvidos fazem desabrochar todos os outros sentidos, para pintarem uma tela onde o impossível não existe.
Danço como quem escreve; sonho como quem vive; perco-me como quem se encontra. O tempo não faz sentido neste mundo feito de criatividade, onde não há objetivos, a não ser interpretar o que não existe.
A ilusão é real porque o artista assim o quer. Sem as fronteiras da percepção humana, ou dos ensinamentos das ciências exatas. A música faz-me ir para lá de mim. Conhecer coisas que ninguém sabe ensinar.
Hoje, falo da música, mas podia falar das cores, da natureza, do amor, ou da tristeza. Posso apenas dizer que sinto profundamente algo que está longe. Distante como eu. Aquelas coisas que só são compreendidas por quem sente na pele o significado da fantasia.
O mundo torna-se insignificante, perante aquilo que só eu sinto quando os acordes encaixam perfeitamente naquilo que nunca saberei explicar. O que é meu, é somente meu. Digo por palavras inúteis que sinto algo superior. É só isso, mas é tanto.
Nada mais pode ser dito. Não pode ser partilhado. Contudo, como se trata de uma espécie de magia, posso convidar-te para sonhar um pouco também com o infinito, nestas palavras perdidas com que me tento expressar...
Lá dentro as luzes estão todas ligadas, como se quisessem enganar a noite. Ela observa com curiosidade. Está indecisa se deve entrar para o conforto do interior da casa ou, permanecer cá fora enquanto a penumbra cresce e o fresco lhe arrepia a pele. É como escolher entre a ilusão e a verdade. Ter, ou não, medo da fogueira onde as bruxas ardem.
Abraçou o próprio torso para sentir algum calor. Levou o pé atrás e recuou. Foi-se afastando das janelas iluminadas exageradamente. Escutava as vozes dos outros lá dentro em conversas entusiasmadas e sentiu que não era ali o seu lugar.
Virou-se para encarar o céu escurecido onde as primeiras estrelas começavam a cintilar. Sentia o chamamento. Sabia que a sua condição de mulher lhe dava acesso a sentidos não explorados pela ciência. Contudo, no seu âmago conhecia-os bem. Era capaz de ouvir algo que cantava na natureza. Sabia segredos que se mantinham ocultos. Coisas indizíveis que moldavam a sua silhueta e a sua mente feminina.
Foi caminhando pelo jardim, para longe da azáfama da casa. Olhou para o horizonte que misturava os montes à distância com a tela do firmamento. O contraste com as cores do dia parecia ocultar uma mensagem. Resolveu fazer uma prece silenciosa. Uma oração sem louvor, pedidos, ou agradecimentos. Rezar deve ser como uma viagem ao conhecimento do mundo antigo, à origem do inefável.
Tirou as sandálias veranis, para sentir melhor o chão que pisava. Soltou os cabelos e abanou-os como uma bandeira. De repente já não era ela. O frio tinha desaparecido e uma liberdade nua tomou conta de si. Sorriu, sem saber porquê, embora conhecendo o motivo. A lua cheia surgiu devagar por detrás da sombra em que a floresta se escondia.
A noite é feminina, tal como a lua, a floresta e toda a natureza que a acolhia.
Houve um silêncio profundo que parecia de reverência. Talvez só tenha durado uma pequena fracção de segundo. Contudo, ela não se importava com o tempo ou a sua duração. Ali não havia relógios e nem faziam falta. O tempo é o que se sente e deve ser medido pelo pensamento, não por uma máquina.
Alguém gritou pelo seu nome ao longe. Chamaram-na com voz de gente e perguntaram se não queria entrar. Sentiu-se importunada mas não se irritou. Os outros só conheciam o tempo que os ponteiros do relógio mostravam. Não quis explicar aquele momento só seu. Limitou-se a responder - Já vou!
Mas antes de ir demorou. Contemplou a lua mais um pouco enquanto esta subia até ao trono da noite.
O sol estava escondido, mesmo assim emprestou-lhe o seu brilho do outro lado do escuro. O universo tem esta dualidade: masculina e feminina. Contudo, faz com que ambos se encontrem em jogos de sedução. Esta verdade está presente em muitas das linhas que tecem a realidade e ela estava feliz por conhecer este segredo.
Foi caminhando sem pressa, com passos meditados para que a textura do solo se entranhasse nos seus pés descalços. Aproximou-se das janelas iluminadas. Escutou os outros que conversavam como quem dorme.
Ela também era dali: fazia parte da gente que vive no mundo, com casas, notícias, televisões, política e coisas que a sociedade tem. Não podia fugir desse propósito com que a condição humana a cingiu, portanto tinha de entrar. Colocou a mão na maçaneta e rodou.
Vi uma multidão incontável. Era igual a um mar, em que as cabeças se perdiam como gotas. Não lhe encontrava fim, nem início. Na minha curiosidade aproximei-me. Reparei que alguns tentavam, em vão, procurar uma saída sem nunca o conseguirem. Empurravam, desesperados, os seus pares, para tentar seguir uma direcção que levava a lado nenhum. Ainda assim, iam lutando com todas as forças para se esgueirar entre os corpos com esperança de se libertarem.
Outros, limitavam-se a ficar quietos, numa espera continua. Trocavam palavras com os companheiros do lado em conversas banais. Os restantes nada faziam. Mantinham o rosto inexpressivo, como que resignados a aguardar por algo que não compreendem, sempre no mesmo lugar e posição. Aceitavam conformados aquilo que eram. Nada mais sabiam do que isso.
Eu, estava acima de todos. Não consegui perceber se me encontrava num local elevado, ou numa plataforma, ou mesmo até, se conseguia voar sobre todo aquele oceano de gente. Olhava-os cá em baixo e observava cada face. Interrogava-me que existência singular era aquela que cada um tinha, com a sua própria história pessoal, embora sem nunca me importar realmente com quem eram.
Entendi a minha altivez como uma revelação, embora sem conseguir interpretar o seu significado. Talvez fosse apenas a minha arrogância natural a atribuir essa definição. Ou então, quem sabe, fosse somente uma recompensa pelo meu espírito livre. Poder viajar sobre o pensamento de quem não sabe elevar a fantasia. Não assumi esta posição como um caminho superior, apenas como uma jornada alternativa entre aquela multidão.
Continuei a pairar sem asas, ignorando o motivo de o fazer. Por vezes, encontrava outros como eu. Elevados sem saber como. Cumprimentávamo-nos com um aceno de cabeça, sem a impureza das palavras. Também eles tentavam compreender o seu voo. Juntos na vergonha da nossa própria ignorância. No entanto, reconhecíamos em nós a mesma imaginação e desassossego que nos apartava do mundo.
Naquele silêncio encontramos algum conforto, partilhado por todos nós, sonhadores, a planar sobre o oceano de gente sem rumo. Não havia explicação, somente uma certa liberdade que aparentava ter objectivo. Sem questionar mais nada olhava para baixo, abstraído pelos pensamentos alados e, numa distracção imperdoável, esqueci-me de erguer a cabeça para a imagem acima de mim.
Não sei se era sonho, ou lembrança…
Hoje perdi-me Como quem sabe onde vai ter Por terras longínquas do esquecer Onde a ruas são silêncio Fui com velocidade quieta Numa rapidez sem pressa Passei por casa de gente amiga Com quem nunca falei Muito menos conheci Deixei-os atrás das paredes Não bati na porta fechada Para dois dedos de conversa calada Ficam saudades de quem não sei Sem cor nos muros pintados Ocultos nos portões fechados Depois continuei em frente Em estrada de paisagens abertas Tela onde cabiam todas as coisas Cenários que chamam sem voz Os lares ficaram distantes Meros pensamentos errantes O caminho sem destino continua Só assim me sei encontrar Saber quem sou sem nunca parar Semeio leves recordações Cresço com cada momento Compreendo-me com cada sentimento E vou em frente…
Levantei-me numa pose de afirmação. Altivo sobre todos os outros!
Ergui o meu braço com o punho cerrado e com toda a convicção do Universo, levantei o meu dedo do meio, num acto de absoluta Liberdade!
Da minha boca soltou-se o grito mais impetuoso que alguma vez disparei no rosto de um inimigo:
«Elite de merda! Que o diabo vos carregue junto com a vossa perfeição!»
Foram só estas palavras que proferi. Uma epígrafe breve, embora a minha mente estivesse povoada com os insultos mais degradantes, grosseiros e brutos alguma vez concebidos.
Não disse mais nada. Limitei-me a ficar ali parado. Sem ter noção do tempo. Só a certeza de que, a minha imagem, superior a todas as regras, ficasse guardada na memória de todos que me olhavam.
Eu, indomável! Ao lado dos heróis de outras eras. Em busca de Justiça. Erigido acima dos cacos de quem mora no medo.
Por vezes fico imensamente feliz por existir em mim uma profunda ignorância e inocência face aos mistérios do Universo. Não me deixo de maravilhar com cada descoberta feita na minha mente, nem pelas portas que são abertas à minha compreensão.
Encanta-me a pequenez infantil com que meço a sabedoria que há em mim. Ser como uma criança a descobrir o mundo nas suas brincadeiras na escola da imaginação. Se a vida é tão extraordinária porque me vou contentar apenas com o crescer?
Existe uma liberdade profunda quando digo: “quero descobrir tudo que se esconde dos meus sentidos primários e do meu saber ingénuo”. Não me basta saber de onde estou, dos outros, e das coisas. Há que conhecer a própria génese de todos os porquês!
Hoje rimo uma oração de louvor a todos os segredos que há por encontrar. Voar em cores. Desenhar aventuras. Ser herói numa canção ao percorrer a vastidão do mundo. Sou único, mas não sozinho. Como tudo, moldado na semente do germinar da criação.
Eu próprio um enigma para o meu desvendar. Todas as viagens que cruzei trazem-me ao destino de mim mesmo, fazendo-me também ponto de partida para novos caminhos a percorrer. Ainda há tantos tesouros a encontrar para lá do horizonte. São como um convite!
Por isso vou. Nos meus próprios passos, na boleia da companhia, ou simplesmente impelido pela brisa que enche as velas içadas pela minha curiosidade. Tudo o que desejo encontrar está espalhado pelos recantos da existência, nas veredas do desconhecido.
Ali estava ele cheio de expectativas para o futuro, momentos antes do espectáculo começar. Era jovem, cheio de ideias, de planos e projectos para concretizar, carregado de energia. Pronto para ser o herói daquela encenação magnífica. Nada podia destruir a sua vitalidade. O seu momento de glória estava próximo.
No entanto, Deus, na sua infinita ironia estalou nos dedos esboçando um sorriso malandro. Então, com a Sua ordem, todo o palco ruiu em segundos, transformando o cenário em escombros.
A sua inocência caiu por terra. Vieram as lágrimas, a dor, a mágoa, a tristeza e a desilusão. O espectáculo ficou adiado. Para breve disseram os homens na sua ignorância (ou hipocrisia). Ele acreditou e aguardou. Afinal que mais podia fazer? Restava-lhe acreditar na mentira.
O tempo passou. O breve que lhe haviam prometido teimava em tardar mais e mais. E atrás dos tempos vieram mais tempos, longos e insípidos. A audiência cansou-se de esperar e rapidamente abandonaram a sala. Um após outro. Sem hesitarem, sem interesse e sem vontade de voltarem.
O guião da peça já há muito que tinha ficado esquecido. Ou melhor, destruído pela revolta, o ódio, a raiva e a fúria. De nada servia, já que o cenário foi erradicado para sempre devido a um capricho divino.
Ele, o outrora futuro herói, ficou sozinho. Até as emoções o abandonaram. Restou a esperança, como é seu dever, para lhe fazer companhia nas longas horas de vazio. Mas mesmo essa o abandonou. Afinal porque havia de o acompanhar, se já nem na mentira acreditava?
Então, sem esperança, tudo desapareceu. Até a solidão deixou de doer, também foi embora como tudo o resto. Ele ficou vazio, desprovido de ambição, desejo ou vontade. Para o resto das pessoas ele ficou esquecido para gáudio delas. Arrumado, ocultado, demasiado longe das suas memórias. Ele tornou-se nada.
Foi então que, no meio da nulidade em que tornara, se apercebeu que estava livre. Solto de sentimentos humanos que nada mais causam do que mágoa. Sem o peso da consciência a acusa-lo dos pecados humanos. Sem a ganância a pressiona-lo. Liberto dos grilhões que o prendem à existência mundana.
E também estava rico, pois o vazio podia ser preenchido a seu bel-prazer e por isso tornou-se o seu novo palco. Transformou-se, então, num artista, guerreiro, poeta, criador, a preencher a sua nova existência apenas com a sua vontade… De certa forma rival de Deus, que na Sua infinita ironia, foi derrotado! Ou, com tanto sofrimento, teceu o destino que sempre desejou àquele homem. Quem saberá dizer?
Dedica-me uma música.
Uma qualquer desde que te faça corar quando pensas em mim. Não é apenas uma melodia que te peço, é um pouco de ti.
Entretanto vou ouvi-la repetidamente e imaginar que é o teu abraço e também o teu sorrir. Segue-se uma gargalhada relaxada duma piada seca qualquer.
Materializo-te aqui ao pé de mim. Faço da canção a tua carne. Do longe, aqui tão perto. E surge a vontade de fugir. Seguir sem destino nem regras para cumprir.
Tu em mim e o desejo de me evadir para longe, para uma viagem constante pelo mundo e as suas maravilhas, onde o único destino é partir. Simplesmente ir, no silêncio, no amar, no rir, no deslumbrar!
Abençoados sejam os loucos que o fazem. Eu e tu já o fizemos mil vezes na nossa fantasia. Não satisfeitos multiplicamos por mais mil, e outras mil, até ao infinito, porque não queremos um limite nesse destino que é um contínuo escape.
No entanto, como árvores criamos raízes a este chão tão pequeno para nós. Malfadamos o tempo que na sua incompreensão decidiu não nos sintonizar. Em vez disso condenou-nos a cruzar o nosso olhar onde mora o universo inteiro.
Nasceu a prosa em nós com rimas que teimam em aparecer no texto da nossa harmonia. A distância dos deveres separou os nossos cosmos. Ou não! Na essência do nosso ser já nos evadimos desde o primeiro dia em que a criação soletrou o nosso nome.
Seguimos caminho. Sabemo-nos, cantamo-nos, desenhamo-nos na tela da utopia. Em nós vive uma imensidão que só o pensamento pode atravessar. Na quietude, a viagem já vai longa. Ainda assim arde a ânsia de fugir!
Tenho um absoluto fascínio por ler blogs caseiros nutridos por desconhecidos. Pouco importa se escrevem bem ou mal. Cativa-me sim o conteúdo desses lugares perdidos no ciberespaço
Não me tragam livros, nem cultura erudita de autores famosos cheios de prémios. Os da raça deles que os leiam e elogiem. Eu vou para o outro lado em busca de moradas onde vive a timidez anónima que abomina multidões.
Satisfaz-me, até ao expoente do gozo, ler cantos escondidos na internet pertencentes a gente comum. Pessoas, que depois da luta do seu dia, com os seus corpos cansados, chegam a casa e despejam o que têm a dizer para o teclado. É como um acto de rebeldia para fugir ao que é banal!
Louvo todos aqueles que publicam o seu mundo interior em textos e imagens, para que quem ali chegue, num deambular perdido, se possa deleitar com o que têm a dizer. Mesmo que ao resto do mundo não sirva para nada, para quem não se encontra lá fora, cada publicação é um tesouro.
Gosto de textos sem nome, poesias estranhas, vidas contadas nas palavras de quem é apenas mais um entre outros. Entre métrica e parágrafos vão descrevendo o universo na sua pequenez grandiosa.
Banho-me nesses segredos narrados a coberto da fantasia e acolhidos nos braços maternais de uma página na net. Bendito mar onde vêm desaguar todos os sonhos brotados da fonte da imaginação. Desabafos de quem deseja ser mais do que existir!
A todos os meus companheiros da blogosfera, deixo o meu abraço mais forte de admiração! Nunca deixem de partilhar os vossos sonhos!
Se fosses um anjo certamente que as tuas asas seriam negras, para que, com o seu tom lúgubre, escudassem a tua fragilidade.
Se assim fosse, eu, na minha desordem, mutilava toda a tua plumagem com a violência que só o desejo pode explicar. Em toda a ânsia de te ter, arrancava, uma a uma, cada pena do teu ser angelical, como um selvagem, até despir a tua alma.
Desenhava assim uma porta para o paraíso na silhueta da tua brandura. Soltava o teu medo para dançar com o prazer. Nas tuas veias a correr o fogo da perdição, para que te abrisses para mim. Flor desabrochada no orvalho quente do pecado sem castigo.
No entanto, aqui na Terra, onde moram os animais e os nossos olhares se imploram, não creio em seres alados nem em criaturas celestiais. Acredito apenas na carne, na fúria da pele, nos dentes que mordem e na voz que geme. A única verdade é o calar da sensatez.
Sem inferno onde cair nem divindades a pregar a virtude. Tudo se resume ao instinto! À vontade! À intensidade!
Liberta-se o querer e o combate inicia. O arrepiar desnuda o teu segredo! A transpiração! A dor e o gozo! Mostras-te em pleno como mulher! Rivalizas o próprio éden e fazes do teu corpo repasto. Ordenas-me a virilidade e não nego a minha fome sobre a tua perfeição. Nasce o caos! A poesia disfarçada que se vem dentro de nós!
Amo-te como quem ama coisa nenhuma e tudo em simultâneo.
Quero-te por inteiro e para sempre como nos contos de fadas. Fascina-me esse imenso todo que se esconde no teu ser. Tesouros, vitórias, sonhos e medos que me cantas na tua entrega. Mesmo assim aborreces-me e procuro também os mistérios que pairam nas almas dos outros porque não me contento apenas com uma eternidade.
Desejo cada ponto sensível do teu corpo como quem anseia a loucura. Deleito-me ao provar o teu gemer, navegar no teu suor, ser todo o teu gozo. No entanto a tua carne é muito pouco para o meu infinito e o meu âmago pede mais satisfação. Apraz-me degustar o sabor de todas as silhuetas perdidas e abertas, porque só um prazer não me basta.
Amo-te com a violência de quem tem a revelação do segredo da felicidade! Completas-me com toda a paz que uma vida inquieta sempre espera encontrar. És tudo! Porém, somente isso! Um mero existir imponente, sem nada de mais para mim, que ambiciono o inalcançável. És breve na tua imensidão. Ínfima estrela na tua grandiosidade. Unicamente um parágrafo de intensidade suprema no desassossego da minha história...
Lá em cima os deuses combatem Imortais sem medo da morte Invenciveis não precisam da sorte Da luta dos homens nada sabem Lá em cima as orações se esvaem Palavras secas lavam desespero Crenças vazias num culto severo Porque afinal os homens nada têm Enquanto a morte me chama Eu grito: Ainda é cedo Ainda não cumpri a minha vingança Enquanto os céus se fecham Entre trevas e medo Ainda não perdi a minha esperança Cá em baixo os homens combatem Ilusões sem medo da morte Lutar para encontrar o mais forte Dos deuses à muito que se esquecem Cá em baixo os corações sofrem Pobres almas que ainda amam Tormenta de todos que sonham Emoções banais todas que se vendem Dentro em mim as muralhas caem Acordar dum mundo parado Deixar lá atrás o que está passado Novos trilhos novas pontes se erguem Dentro em mim sonhos já não dormem Saíram à rua para gritar Agora e sempre não posso parar Medos domados que já nada temem Eu solto Eu grito Afinal esta é a minha vontade Nascida no sono da minha prisão Despertei a minha verdade Eu sonho Eu vivo Afinal esta é a minha autoridade Sobre mim tenho toda a razão Acordei a minha liberdade