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domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade


Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.


quarta-feira, março 18, 2026

A janela da realidade


Aquilo que tomas por existir,

Não és tu.

É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.

Tu és meramente uma figura observadora.

Sem o privilégio de nascer,

Sem o direito de morrer,

Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,

A gritar por quem te possa acudir.

Pois, do lado de cá estás a dormir.

Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.

Não te recordas de adormecer,

Não te lembras de te esquecer,

Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.

Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.

Projeto falhado para nunca construir.

Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.

Só isso.

Sem promessas nem compromisso.

Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.

Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.

Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.

Nunca vais escapar.

Olhas.

Deste lado articulas movimentos.

Fazes coisas.

Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.

Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.

No entanto, aí estás tu.

Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.

Dói-te algo que nem sequer tens.

Tu e tu.

Tudo e nada.

Duas faces inúteis da mesma fachada.

Vazio e dor.

Paz rasgada.

Aí dentro e do lado de cá, uma sobrevivência frustrada.

Uma infinidade de tantos como tu,

Sem conseguirem passar,

A espreitar, com amargor, pelo vidro da janela estalada.

Constantemente esmurrada,

Pelos punhos de cada devaneio sofredor.

Coro de gritos calados no peso do marasmo.

És um instante de ilusão.

São todos instantes de ilusão.

Tu, tu e tu!

Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:

Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Todo o vocabulário do indizível

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando nos encontramos naquele dia, à entrada, e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando me foste visitar. Doaste um pouco do teu tempo para estar comigo e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter trazido para o meu mundo de aventuras e, em contrapartida, encontrar refúgio nas tuas coisas banais.

Arrependo-me de não ter vivido um amor falhado ao teu lado. Quem sabe como seríamos depois? Ódio, indiferença, amizade, ou esquecimento. 

O pior é ser uma história nunca acontecida. A tormenta de ter o pensamento visitado pelas ramificações de possibilidades nascidas da palavra 'se'. 

Querer algum conteúdo para completar versos apaixonados, ainda que a sua sina seja desvanecer.

Resta-me divagar sobre o inexistente.

Procurar nos recantos da memória por fragmentos dos teus rostos. Um sorriso, um tom de voz, um odor, uma cor. Embora só consiga sentir o brilho no nosso olhar. Isso é tudo e quiçá seja suficiente. 

Mesmo assim não me entendo como um dos participantes, mas sim como um observador passivo, limitado a apresentar uma imagem capaz de descrever uma emoção.

Contudo quero mais, porque a poesia devora todos os sentimentos para alimentar as suas rimas.

As estrofes por escrever consomem-me as madrugadas.

Dentro de mim grita-se a palavra amar, com todos os seus derivados!

Paixão;

Desejo;

Toque;

Fome;

Atração e medo.

Bem como todo o vocabulário existente dentro do indizível!

Já tu, tens tanta vida em ti, pois um só corpo não te chega. Se calhar nem lhe chamo vida. Talvez imensidão seja uma palavra mais correta para te poder descrever. 

Tu existes. Tens lágrimas e alegria. 

Eu existo. Tenho inquietação e silêncios.

Portanto, confesso ao éter o meu arrependimento, na esperança desassossegada que os teus ouvidos escutem estas palavras.

Por favor deixa-me ser poeta!

Ainda tenho um beijo para te 'roubar', num encontro qualquer, onde o nossos olhos brilhem.


terça-feira, abril 22, 2025

Só mais algumas palavras de desabafo


Escrevo estas palavras com tristeza. Solidão, saudade, melancolia. Adjetivos nefastos, todos a orbitar a mesma estrela decadente.

Não sei quem sou. Ou talvez seja exatamente o contrário. Reconheço em mim um desânimo próprio de quem se entrega à letargia e por isso incomoda-me ser gente.

Posso ainda ser um reflexo do mundo que me acolhe como um ventre amaldiçoado. Vejo os outros e não me encontro. Não há vozes de alento, nem rostos de gentileza. 

Procuro, mas não descubro uma resposta digna da minha atenção. É sempre o mesmo. Repetido até à exaustão. Dito com frases diferentes para parecer novo. Não há alma nas coisas iguais.

Mas procurar cansa. É mais fácil desistir. Encontra-se algum conforto quando se está a dormir. Não vale a pena perder tempo quando há falta de esperança.

Sobra uma fome de companhia impossível de saciar. Um apetite esquecido no passado de quem já tentou sonhar. Não há alento no vazio e por isso rimo sem amar.

Escrevo estas palavras com dureza. Fadiga de fim do dia. Desabafo sem alegria. Cansaço de quem não consegue descansar. 

No fundo, ainda acredito no amanhã. Nascer do sol a raiar. Primavera a florir. Depois, ao acordar, isto possa ser apenas mais um poema, fruto de um momento frágil, onde me deixei desmotivar. 


quarta-feira, setembro 11, 2024

Aquecer a alma a rimar


Ventania de Setembro

Fim do Verão a anunciar

Paixões a terminar

Amores levados pelo vento

Dias breves a passar

Noites sem acalentar 

O calor cai no esquecimento

Tarde fresca a desanimar

Desassossego no pensar

Os inquietos entregues ao tormento

A caneta para aconchegar

Frases cruas a ansiar

Poetas a purgar o seu lamento

Deixam a mágoa no versar

Aquecem a alma a rimar

Enganam o entardecer cinzento 

No papel a escrevinhar

Sobre tanto atormentar

Esquecem que o sol continua atento

Tem cores para pintar

Espíritos a animar

O Outono traz contentamento

Amarelos a brilhar

Castanhos a cantar 

A harmonia demora o seu tempo 

Há que saber escutar

As folhas a esvoaçar 

No vento ainda existe alento


sábado, junho 22, 2024

Interrogações


Já, há muito tempo, que perdi a capacidade de sentir alegria. 

Ou, se calhar, nunca a tive. 

Não me lembro, em toda a minha vida, de haver alturas de estar relativamente feliz. 

Senti sempre uma ânsia por algo inexplicável. 

Contudo, não posso negar, terem acontecido momentos de euforia. 

Algumas horas, ou dias, onde fui capaz de sorrir. 

Fizeram-me esquecer, brevemente, aquela inquietação incompreensível, da qual sempre padeci. 

Essas alturas de pequeno êxtase existencial, eram temporárias. Estava bem ciente disso. Mais cedo ou mais tarde, esse entusiasmo não era para continuar.

Olho para as outras pessoas contentes. Encontram vários motivos para festejar: datas, conquistas, ou qualquer outro pretexto cujo sentido não consigo compreender. 

Muitas vezes, parece-me, celebram apenas o facto de viver.

Interrogo-me: Onde está a grandiosidade? 

Faço de tudo para os acompanhar. 

Finjo igualmente celebrar, 

Escondo-me na multidão para ninguém reparar.

Assim, não olham para mim. Nem notam como me falta algo fundamental para poder preencher todo este desassossego o qual não consigo entender. 

Esta alegria forçada parece-me, por vezes, uma fuga desse mesmo facto de viver.

Não sou o único a ter estes sentimentos. Sei disso. Existem outros com o alento a doer.

Andam por aí uns quantos Poetas capazes de descrever, com palavras brilhantes, este descontentamento absurdo de não pertencer aqui, ou a qualquer outro lugar. 

Resta-me aceitar esta sina. 

Não consigo sentir satisfação, 

nesta carne que me acolhe, 

neste mundo de gente, 

feito por gente, 

para a gente. 

Entre o nascer e o morrer. 

Invejo as máquinas, lógicas, sem consciência de ser. 

Fazem o que é suposto fazer. 

Nada mais, nada menos. 

Eu não sou como os outros, nem como as máquinas, nem com os bichos. 

Talvez venha do éter. 

Talvez seja um erro da criação. 

Talvez, outra coisa sem explicação terrena ou divina.

Talvez tenha dificuldade em aceitar a pequenez da condição humana com a qual fui fadado. 

Talvez este pensamento seja tão inútil quanto eu, neste momento. 

Sem propósito. 

Tal como todos ao meu redor. Um mundo inteiro de gente, com ou sem consciência da sua insignificância. 

Cresce em mim a melancolia. 

Uma madrugada sonolenta, onde insisto em manter-me acordado a escrever estas palavras inquietas. 

Rimas incompletas, 

na caneta de quem não pertence a lado nenhum.

O resto da noite é uma incógnita, 

nesta insónia autoimposta. 

Devo escrever e adormecer logo a seguir. 

Não sou suficientemente forte para vencer a necessidade de dormir.

O que acontece no sono é um enigma e isso incomoda-me. 

Mas isso não importa nada. 

De manhã, devo acordar com o sol a sorrir. 

Nessa altura, quem sabe se estas palavras continuam a fazer sentido? 

Vou olhar para o texto como um mero ensaio poético? Sem ler os sentimentos descritos como meus e achar ser necessária mais veracidade na mágoa versada. 

Contudo, isso é só amanhã. 

Agora, neste momento, 

esta noite tardia deve ser uma mera ilusão, como tudo o resto.



quarta-feira, novembro 08, 2023

Cântico sem destino

Ai de mim, coitado,

Que nasci em corpo de gente,

Sem saber ao que estava fadado.

Depois do meu destino traçado,

Lançaram-me em frente, 

Ao encontro do futuro guardado.

Indiferente a qualquer cuidado,

Firme como um crente,

Segui entusiasmado.

Julguei não poder ser travado.

Era tão inocente,

Quando descobri estar enganado.

A verdade tornou-me atormentado.

Tudo ficou diferente.

Fui maltratado.

Por ter fantasia, fui intimidado.

Conheci a maldade oprimente.

O terror de ser injuriado.

Regras a fazer-me acobardado.

Derrotaram-me assim, impunemente.

Fiquei acomodado.

Esquecido em algum lado.

Deixei-me esvanecer lentamente.

Mas alguém contou-me algo vedado.

Falou de rebeldia e ser ousado.

Escutei atentamente.

Ensinou-me a ser malmandado.

A voz não disse nada errado.

Ouvi rebeldemente.

Tornei-me despertado.

Sem medo de ser arriscado.

Revelei-me ousadamente.

Estava danado,

Contra quem era incontestado,

Desobedeci violentamente.

Já não estava domado,

Muito menos acorrentado.

Contra quem me queria desistente,

Enfrentei o mundo inconformado,

Com a raiva do meu lado,

Combati ferozmente.

Já não estava derrotado.

Mas o mundo é gigante.

Uma luta constante.

Há sempre um caminho errado.

Dei por mim errante.

Numa busca desgastante,

Por um local encantado.

Segui por diante.

Perdido e distante,

Pelo meu rumo desnorteado.

Com pouco de contente,

Sigo a minha história inquietante.

Talvez um dia me sinta afortunado.

Ai de mim que nasci gente...


segunda-feira, maio 29, 2023

No mundo


Em frente

Está a estrada que nunca percorri

O mundo que nunca explorei

Mulheres que nunca amei

Aventuras que nunca vivi


Em mim

Estão as lições que aprendi

As vezes que desanimei

Fraquezas que nunca superei

Todos os erros que cometi


Nos outros

Estão ideias que nunca entendi

Segredos que não desvendei

Mentiras que nunca perdoei

Histórias que nunca compreendi 


Aqui

Interrogo caminhos que nunca segui

Morrem os sonhos que não realizei

Sobram as mágoas que guardei

Doem as falhas que nunca admiti


No pensamento

Tenho palavras que nunca proferi

Mundos que nunca mostrei

Tudo o que um dia esperei

Narrativas que nunca escrevi


Cá dentro

Vivem sentimentos que nunca exprimi

Inseguranças que nunca enfrentei

Soltam-se lágrimas que nunca enxuguei

Gritam as limitações que sempre sofri


Cá fora

Procuro a felicidade que nunca sorri

Possibilidades que nunca tentei

Desejos que nunca partilhei

Todo o alento que ainda não senti



quinta-feira, maio 25, 2023

O puto


O estupor do puto não se cala dentro de mim!

Está zangado, com os outros; a escola; a família; o mundo. Ninguém o compreende. Farto dos grandes a ralharem com ele sem dizerem porquê. Quer brincar, não pode! Quer falar, não sabe! Quer sonhar, não deve! Grunhem eles a apontar o dedo.

Porquê? Porque sim, ou porque não. Porque simplesmente são eles a mandar e a criança só tem de obedecer. A curiosidade infantil não tem direito a uma explicação satisfatória sobre essa coisa de ser adulto.

Sem orientação, o pirralho não obedece. Não nasceu ensinado. Depois chamam-lhe mau. Traquina. Ordinário. Repetem-se os ralhetes, sem nunca virem acompanhados da tão esperada justificação. Surgiu, então, uma raiva rebelde, aos poucos, dentro do coração ingénuo.

O mundo, assim, parece frio, cinzento e sem alma. É tudo uma confusão enorme aos olhos do pequenote. Não lhe dão espaço para imaginar. Ele quer divertir-se. Inventar universos minúsculos feitos de grandiosidade e alegria. Qual é o mal?

O menino já não é um bebé. Cresceu e está furioso. Sempre a resmungar. Agora, eu tenho de o aturar. Lá vou tentando descobrir soluções para as perguntas que nunca lhe responderam. Contudo, só lhe posso dizer: o caminho para a maturidade é uma merda!

Não chega! As coisas têm de ser ditas no momento certo. A semente tem de ser plantada na altura correta para poder germinar em condições. Agora, talvez seja muito tarde. O solo da serenidade está cheio de ervas daninhas.

Eu bem o deixo divertir-se, sem rédeas, nem raspanetes. Mas ele há coisas sem o mesmo sabor depois de passar a meninice. Já não vai a tempo de compensar. Continua descontente. Confuso. À procura dum rumo.

O estupor do puto afinal ainda não cresceu. Está sempre a refilar. E eu, aqui, a ouvi-lo sem poder fazer nada, por mal dos meus pecados. A maioridade não trouxe a sabedoria que era suposto. Só ainda mais dúvidas.

Com tudo isto, só me resta uma alternativa. Ter de me aturar! Aqui, dentro de mim!


domingo, maio 14, 2023

Um encontro ao qual possa chamar Paz


Se estiver por aí uma Divindade benevolente a escutar-me, rogo-lhe que me envie uma figura Salvadora!

No meio do tumulto deste mundo caótico, olho em volta à procura de uma centelha de esperança. A minha jornada é solitária. Os meus caminhos são tortuosos. Estradas obscuras, com sombras a dançar à minha volta. Cada rumo que encontro tem como destino a desilusão.

Nasci pária. Desprezado pelos meus supostos iguais. Colocado à parte. Repreendido por existir. Malfadado por ter a curiosidade dos Poetas, privado de autorização para poder rimar como devia. Sem saber mais nada de mim, pergunto-me se o propósito da minha criação tenha sido só esse?

As minhas preces rasgam o silêncio da noite. Fazem um eco gutural nas divisões vazias da minha inquietação. Procuro no infinito uma resposta divina capaz de apoiar o meu desamparo. Tento acreditar na existência de um ser celestial. Uma entidade clemente a zelar por quem está perdido nas encruzilhadas da realidade.

Imploro por uma mão condutora. Algo ou alguém conhecedor deste mapa bizarro chamado viver. Anseio por um pouco de compaixão. Palavras, como melodias alegres. Braços estendidos como refúgio deste desalento crescente. Um encontro ao qual possa chamar Paz.

O meu desejo teima em encontrar essa personagem magnânima, envolta numa aura de benevolência, capaz de restaurar a minha fé. Seja com a ternura de uma mãe a embalar o filho nos braços; com a sabedoria de um mestre; com a força de um herói a lutar por Justiça. Tanto faz!

Seja qual for a sua forma, traga salvação. Talvez um amigo fiel sem medo das adversidades. Ou, quem sabe, um amor verdadeiro com a capacidade de me fazer acreditar ser mesmo possível existir felicidade. Até pode ser um néscio, dotado de ignorância, mas, sabe-se lá como, capaz de se orientar no labirinto da dor. Venha quem vier!

Teimo em manter a esperança nesta suplica. Acreditar que o destino ainda tem algo valioso reservado para mim. Espero o momento, quando, por ventura, essa tal figura salvadora vier ao meu encontro. Mesmo, sendo uma ilusão como tantas outras. Aguardo, poder descobrir nela, quem sabe, alguma serenidade.


quarta-feira, fevereiro 22, 2023

Peixes significa poesia


No signo dos Peixes há mistérios,

Mundos submersos e mundos sérios.

Sonhadores do Zodíaco, assim são,

Voam na sensibilidade e intuição.


Amam o impossível que há no Universo,

Vivem de alma inquieta e feitio intenso,

Buscam desvendar o segredo do infinito,

Alcançar o inatingível com o espírito.


Nos seus pensamentos profundos,

Como nas águas sombrias dos abismos.

Onde o medo e a poesia se deixam levar,

Para, juntos criarem uma beleza sem par.


Mergulham nas emoções mais intensas,

Fazem dos sentimentos as suas crenças.

Encontram nas artes sua verdade,

E no amor a mais alta liberdade.


quarta-feira, maio 05, 2021

Tal como os tolos

Há um certo cansaço na alma. Não sei de onde vem. Tenho teorias que não servem para nada, para tentar explicar esta fadiga existencial. Diz-me tu, com a tua ignorância sobre a minha pessoa, de onde vem este tormento? 

Parece que todos sabem mais sobre mim do que eu mesmo. Por outro lado, eu também pareço saber mais dos outros do que de mim mesmo. Isto eu posso explicar. Acredito que é algo que está embutido nesta coisa de ser português: escárnio, maldizer e opinar sobre tudo e mais alguma coisa. Falamos dos acontecimentos alheios porque a nossa própria vida é uma narrativa aborrecida. 

Ouvir os sábios dá-me tédio. Ouvir os ignorantes dá-me nojo. Ouvir seja quem for, sobre o que quer que seja, não me satisfaz. Quero saber mais, sobre todas as coisas, mas não encontro professores à altura. Onde estão vocês com tanto para ensinar? 

A escola é uma prisão. Os livros com a matéria explicada são enfadonhos. A escrita no quadro não elucida a vontade de saber. Entretanto esqueço-me deste cansaço que me acompanha. Ou será preguiça? 

Procrastinação! 

Viste? Escrevi uma palavra 'cara'. Faz-me sentir um erudito. Um daqueles doutores quaisquer que aparecem na televisão a comentar os assuntos com que a sociedade se entretém. Falam num tom de voz sereno, para causar boa impressão. Dão aquela ilusão de autoridade com que argumentam a sua posição, sobre o que quer que seja, ao serem questionados. Já viste essa gente a falar assim na televisão? 

Por vezes vejo. Não compreendo ao certo do que falam, embora gostasse de ser dali. Daquela terra onde eles vivem. Um sítio falado. Onde também vivem os outros. Nesse lugar onde eu pareço ser apenas uma miragem. 

No entanto, os outros são tão chatos! 

É estranho, sabes? Não os suporto, contudo tenho um desejo misterioso de ser como eles. Básico! 

Mas, o que importo eu em comparação com tudo o resto? Tenho esta mania insuportável de desejar a Utopia! Para mal dos meus pecados, essa suposta perfeição, só existe nas palavras que transcrevem o pensamento daqueles que ousam fantasiar com o impossível. 

Mas afinal, qual é o mal de desejar o impossível? 

Não dá para morar nas palavras, nas imagens, ou em qualquer arte que dê vida ao imaginário. Mesmo assim eu estou lá! Sentado num trono feito sem matéria. Rodeado dos maiores prazeres que não existem. A descansar, porque fiquei exausto a fazer qualquer coisa de que não me lembro. Tal como os tolos, sou feliz assim. Será que sou? 

Diz-me algo que me alivie a inquietude. Deixa-me uma mensagem com indicações para um porto seguro onde não existam naufrágios. A alegoria ficou bonita mas eu nem sequer navego, só imagino. 

De qualquer forma não sei o caminho. Nem sei ao certo aonde estou. Só assim me tenho guiado. Sem destino concreto. Talvez agora esteja parado para aliviar este cansaço. Numa pausa breve. Quanto ao resto não sei.


segunda-feira, março 08, 2021

Nunca te questionaste assim?

Já te aconteceu acordar de manhã sem saber quem és, ou onde estás? 

Despertar sem memórias numa espécie de vazio incógnito onde não existe mais nada a não ser uma interrogação? 

Sabes, aquele momento, enquanto os olhos absorvem a primeira luminosidade, adoptam um instinto inicial e arrastam consigo os restantes sentidos. O corpo, letárgico pelo sono, recupera os movimentos que o adormecer quedou. As recordações começam a surgir como um manual de instruções para o teu próprio ser. 

Deram-te um nome e por isso deves ser assim conhecido. Fizeste isto portanto é suposto fazeres aquilo. Gostas destas coisas, logo tens de odiar aquelas. Tudo isto surge num repente empurrado pelos instintos humanos e nunca questionas se todas estas obrigações fazem sentido. São como ordens para cumprir devido a um suposto passado. Para isso acolhes, um pouco de consciência que te é fornecido para completar esses desígnios. 

É estranho não é? 

Por vezes parece existir qualquer coisa de irreal no viver. Uma imposição autoritária sobre a nossa pessoa. Toco-me mas não me sinto eu. Olho-me mas não tenho a certeza que aquela figura seja a minha. 

E se for tudo mentira? 

Nunca te questionaste assim? 

Se tudo que julgamos verdadeiro não passa de um mero figurino numa tela em movimento? 

Talvez tudo faça sentido para alguém, ou para algo, que não suporta o fardo da carne humana. Uma divindade cósmica que as civilizações têm errado em denominar acertadamente. A história daqueles que se apoiam sobre duas pernas é pequena e responde a muito pouco quando comparada com todo o desconhecido. 

Aqui, nesta terra onde habitam os que pensam, sentem e sonham, sobra a inquietação a quem ousa perguntar sobre o que é de facto real. 

Tu sabes a que me refiro? 

Talvez nada seja o que parece ser. Se não fosse assim porque havia o ser humano de questionar se existe algo mais para lá dos sentidos? 

Talvez tudo seja o que parece ser. Mas às vezes é tão pouco não é?


quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Quando o mundo era inocente

Olhou para a figura bizarra no espelho. Questionou-se sobre quem seria aquela imagem que parecia descender de uma linhagem humana. A coluna ondulada por curvaturas inconstantes; os membros assimétricos; os movimentos atrofiados; a juventude que aparentemente se escondia atrás do rosto desgastado pela velhice da alma vazia. 

Lembrou-se de alguém que tinha conhecido quando o mundo era inocente. Os traços grosseiros que compunham aquele corpo disforme aparentavam semelhanças com essa pessoa. Um ser com quem havia privado antes que tudo pudesse acontecer. 

Não! Não podiam ser a mesma criatura. 

Essa imagem, que guardava na memória, fazia uma tangente na perfeição. Irradiava beleza e não conhecia a mágoa. Era mais forte do que tudo. Inabalável e sem medo.

Não! As parecenças eram uma partida que a mente lhe estava a pregar. "É impossível!" Pensou. Negou todas as possibilidades e assumiu como verdade que assim era. Não reconhecia, portanto, os olhos que encaravam de volta no reflexo entortado. 

O passado estava longe, excomungado para uma lixeira situada algures no esgoto do existir. O mundo era agora estranho. Irónico; desumano e podre. Demasiado solitário para poder ser real. É inconcebível que possa caber tanta tristeza numa única existência. Não se pode adjectivar de viver o que não passa de meros dias repetidos ao som da chuva. 

Dói porque a carne sente. 

Dói porque a alma sente. 

Dói porque a ilusão existe. 

O pensamento transforma-se em palavras cinzentas como as nuvens que choram. 

Há algo a dizer que está calado. 

Há algo a gritar que não se ouve. 

Talvez amanhã faça sol e algo novo surja. Talvez queira fugir das paredes sempre iguais; das janelas com paisagens imutáveis; do fardo dormente de estar ali.

Mas tudo isto não importa. São só sonhos que já não merecem esse estatuto. Se fossem mesmo sonhos, estavam materializados no sentir. Ali não havia nada disso. Só ausência: de alegria; de companhia; de ânimo.

Sobra o espelho mas não se reconhece nele. 

Sobra a mágoa mas não importa. 

Sobra a figura disforme a deambular pelo vazio que as promessas não cumpridas deixaram.


quarta-feira, dezembro 09, 2020

O conforto da distância


Está frio e como sempre estou sozinho. Mas não sinto saudades e isso é estranho. 

Os outros, querem sempre alguém ou alguma coisa. Vão-se perdendo nesses sentimentos inebriados. Eu não sou assim, embora os compreenda. 

O vento sopra e a solidão fala. A chuva cai e a interrogação cresce. O que procuro não está aqui, nem depois do horizonte. A companhia é sempre algo temporário, fruto do caminho que se percorre. A carne é só minha. A dos outros pertence a eles, tal como os seus pensamentos. O máximo que podemos fazer é partilhar estas jaulas cobertas por aparência e anatomia. 

Ninguém criou uma ciência que funda todos num só. Inventaram religiões para explicar o inefável. Depois justificaram correntes políticas para negar o indizível e controlar as mentes mais pequenas (que são tantas). Não deixam crescer a curiosidade em nome de um bem maior que não passa de egoísmo. Humanidade, não é mais que uma palavra bonita para ditar nos discursos sem sentido. 

Mas eles já não me importam. Fazer-lhes frente é uma luta desigual. Cansa-me a revolta inútil. Perdi o encanto por causas nobres. 

Existe algo escondido neste mundo e em todo o mistério da existência. Não conheço essa verdade e isso incomoda-me. Fujo para o conforto da distância. A multidão não tem nada para me oferecer para lá do que é banal. Já não procuro rostos que tenham escrito no olhar a inquietação de ser diferente. 

Aqui, ao lado de todos, apresento-me longínquo, num lugar em que nenhum toque me alcança. Há um desinteresse crescente em mim sobre a vida alheia. Acho isso fascinante. 

Quem sabe esteja numa direcção que me leve à Gnose. Embora, provavelmente, a fronteira com a loucura seja demasiado ténue. Ou pelo menos seja vista assim por aqueles que não compreendem, nem querem compreender e atacam com todas as forças aqueles que o tentam fazer. 

Já fui como eles. Talvez, por vezes, ainda seja. Intolerante. Afinal de contas, cada um defende a sua verdade por mais ridícula que seja. 

Não posso afirmar que haja algo extraordinário em mim. O que entendo por diferente deve ser só ilusão. Estou aqui também, a desabafar com frases feitas. 

Está frio e eu não me entendo. Possivelmente também seja como os outros e isso é estranho. 


domingo, novembro 22, 2020

Silêncio repetido

Existe um silêncio dominical na vila, mas é sábado e os padres rezam Santa Missa para ninguém. 

O dia está quente contudo o Verão pouco espaço ocupa na memória. O sol brilha por Novembro dentro embora a praia esteja longe e o mar seja uma lembrança fria. 

Na rua ninguém calça os seus sapatos em caminhadas vazias. A solidão está personificada nos vultos de quem não passa por mim. 

O pensamento faz-me companhia nos cigarros que não fumo nesta pausa longa do viver. 

Sou, mas não me entendo. Compreender é difícil quando a paisagem não fala e os outros são personagens inexistentes.

Pela tarde dentro surgem palavras sem sentido. Não há destino para lá da vontade de o descobrir. Talvez descobrir seja o destino e isto não passe de uma frase feita.

A tarde avança nas veredas confinadas da vila quieta. As casas caladas não parecem ter gente lá dentro. Interrogo-me sobre eles como se me importassem.

Observo e isso é tudo. Não é entretenimento nem tão pouco aprendizagem. Divago nas insignificâncias que me rodeiam e gosto de me perder assim.

Entretanto o sol vai baixando cedo porque é Outono e eu esqueci-me. A humidade vem com as sombras que crescem e sinto melancolia. Já escrevi sobre isto tantas vezes e repetir incomoda. 

O momento é igual, mas é diferente. Talvez por isso insista em transcrever o desassossego como se este se manifestasse nas letras que ganham corpo.

Já cá estive a escrever sobre isto em outras ocasiões. Mas não foi hoje. Hoje é assim, mesmo sendo como outros dias que já foram assim. Já tive dias assim, mas que nunca foram assim, como hoje, que repito o que penso.

A humidade parece a mesma, contudo o casaco que visto é diferente. Aquele que já vestiu outros casacos em busca de conforto no fresco que a tarde traz rapidamente, esse, já pouco me lembro dele, embora tenha estado lá e tenha escrito coisas iguais.

Vou repetindo porque isso basta e não me interessa o resto. A solidão manifesta-se repetidamente, portanto é meu dever purga-la. 

Conheço bem o fim de tarde em outonos vazios. Trazem consigo estes sentimentos introspectivos. 

Lá fora nada parece fazer sentido. Acho que de certa forma nunca fez nem é suposto fazer. Seja em que tempo for, o mundo encontra sempre maneira de ser estranho e excluir quem não compreende a sua falta de nexo. 

Esta é mais uma tarde de outono em que a vila está vazia. Não interessam os porquês. As emoções parecem repetidas porque fazem parte de mim. 

Mesmo assim, nunca escrevi sobre esta tarde, por isso faço-o como se fosse uma novidade. Surpreende-me como sempre. Inquieta-me. E só assim vou encontrando algum sentido. 

quinta-feira, novembro 12, 2020

Rasto de pequenas histórias


O passado, mesmo que tenha sido ontem, parece cada vez mais longe. Há meras vinte e quatro horas atrás todas as recordações não passam de dúvidas que o cérebro assumiu como verdadeiras. 

Só o acordar me parece mais ou menos real. Como um começo de algo novo, sendo o que está guardado nas memórias apenas um adereço para aquilo que compreendo como sendo eu. 

Mesmo assim considero que a realidade tem o seu quê de improvável, como se existisse ao meu redor um muro invisível que serve de ocultação para tudo que é de facto concreto. 

A bem da verdade podemos dizer que até o "presente" é uma ilusão. Se repararmos, desde o momento em que observamos qualquer coisa, e até que essa informação chegue ao cérebro, passa-se algum tempo, ainda que sejam fracções de fracções dum segundo. 

Por mais instantânea que seja essa velocidade, quando tomamos verdadeiramente consciência daquilo que observamos, essa coisa já é "passado", apesar de a considerarmos como "presente". Portanto, isto a que chamamos "presente", este mesmo momento em que as palavras são assimiladas, já aconteceu. 

Concluo assim que o "presente" não existe na percepção da realidade. É como perseguir a própria cauda. O tempo corre e nós vamos atrás dele. Deixamos um rasto de pequenas histórias, aprendizagens e sobretudo dúvidas. Mesmo assim, para aqueles que são inquietos, como eu, tudo isso parece longínquo. Por vezes até, irrelevante. 

No entanto eu sou-me assim: a descrever pensamentos que se vão acabar por dissipar quando a minha atenção se virar para outro enigma. É esta a sina dos desassossegados: constantemente a questionar o que é suposto ser verdade. 

Talvez por isso a fantasia seja um local confortável. Porque nela, somos nós que ditamos as regras e estas não nos são apresentadas como verdades inquestionáveis. 

Procuro sempre a novidade; a acção constante que nunca chega a ser. Outros aconteceres que sejam mais do que eu. Tudo isto faz sentido na sua própria incoerência. Só assim consigo encontrar uma explicação que me satisfaça, sem que nada seja de facto explicado. Só palavras que servem de aconchego...


quinta-feira, outubro 22, 2020

Peças de lego

Por vezes imagino-te como um ser transexual. Dividido em múltiplas identidades, livres de qualquer estereótipo ou preconceito. Corpo desenhado numa aparente confusão assexuada sem pudor, nem o mínimo objectivo de fazer qualquer sentido.

Desmonto-te e remonto-te com novas peças coloridas nos vários tons de pele, partes masculinas e femininas, transgénero. Gordura e magreza; fealdade e beleza; perfeição e grotesco. Acrescento também partes de bichos como nas lendas de outrora. Reinvento-te de todas as maneiras possíveis e imagináveis, como uma criança brinca com lego. 

Suponho que é assim que Deus monta todos os seres humanos, como um brinquedo com peças de encaixar. Imagina, constrói e dá vida à sua história. Nós, variações da mesma personagem reinventada vezes e vezes sem conta. Aparentemente conscientes no comando dos nossos julgamentos. 

Depois, refugio-me a ponderar sobre estes meus pensamentos estranhos e sobre aquilo que verdadeiramente nos define como humanos. Um pedaço de software instalado num hardware. Um robô de carne e osso a tomar decisões estabelecidas pela programação matemática designa o nosso suposto livre arbítrio. 

Recentemente li um estudo que dizia que o cérebro toma as decisões mesmo antes de termos consciência delas. É tão estranho! 

Claro que estas conclusões tiram toda a ideia de romantismo à existência. 

A própria ciência diz que o futuro já passou, nós, simplesmente é que não nos lembramos dele. Isto deixa-me a questionar: porque é que eu tenho compreensão de mim mesmo? Se afinal tudo já está pré-programado e até acontecido. 

Qual é o sentido, para alguém que não passa de um figurante num jogo cósmico, ter noção de si mesmo?

Apesar de tudo gosto de acreditar que nós somos algo grandioso. Tu e eu como um só e tudo o resto como nós. Tão gigantes como o pó e tão pequenos como as estrelas! 

O teu corpo feito de tantos outros, baseado numa única ideia. Todas as bocas vão dar à tua alma pelos caminhos do prazer e da dor. Eu húmido, tu erecta, na mistura dos sentidos para lá do que o corpo dita. Engolidos pelo fascínio daquilo a que chamam amor. 

Encontramos a nossa casa no que é bizarro. Fugimos pelas veredas do impossível e ficamos no mesmo lugar, cingidos à nossa aparência, sem que nada mais importe apesar de tudo importar!


quarta-feira, outubro 14, 2020

Os outros são um lugar longínquo

As paredes claustrofóbicas, sempre iguais, na mesma cor, no mesmo tamanho, nas mesmas janelas com o cenário imutável, impelem-me para o exterior. O sol brilha, porém, a sua cor não é suficiente para me aquecer com alegria. 

Percorro as ruas vazias de gente e de ânimo. O vento outonal parece manifestar fisicamente a solidão que me atormenta. As árvores teimam ainda em não se despir nem pintar as suas folhas com os tons quentes da estação. Também elas querem combater o calendário e manter a ilusão do verão na sua aparência. 

O calor parece amenizar qualquer tipo de desalento que possa tentar domar o espírito. A existência carente procura algo que a aqueça, seja no clima, no amor, na arte, ou na beleza, ou em tantas outras artimanhas que o ser humano encontra para dar algum sentido à sua vivência. 

A fantasia talvez me alegre se mais nada me cativar. Sei que lá, encontro sempre um refúgio onde a realidade não me alcança com as suas agruras. A criança existe novamente com a sua imaginação como companheira. Voltam as brincadeiras da meninice e os ralhetes dos adultos pouco importam. Quem manda agora sou eu "o grande". Soberano de toda a diversão mesmo que ela não exista. 

A ânsia de não sei quê pede-me um escape para não sei onde. Os outros tornaram-se um lugar longínquo. Abandonaram-me sem amor, causas, ou conformidade. Eu também não os procurei, entendi isso como um alívio ao fardo de ser gente. Contudo, atormenta-me saber que também sou como eles. Criatura embrenhada no sentir.

Toda a poesia que possa escrever não me afasta da herança que recebi da história deles como sociedade e inquieta-me saber que assim devo continuar. Indicam-me sem questionar as regras que devo seguir. É isso, ou o desassossego. Não há meio termo.

Escolhi, portanto, questionar: quem sou? Tal como todos os significados deste mundo. Mesmo em constante tumulto decidi acreditar em mim mesmo e consumir todos os sentimentos. A curiosidade não me deixa sossegar. Desejo o que está longe e só assim me compreendo. Pouco mais importa…