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domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade


Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Todo o vocabulário do indizível

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando nos encontramos naquele dia, à entrada, e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando me foste visitar. Doaste um pouco do teu tempo para estar comigo e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter trazido para o meu mundo de aventuras e, em contrapartida, encontrar refúgio nas tuas coisas banais.

Arrependo-me de não ter vivido um amor falhado ao teu lado. Quem sabe como seríamos depois? Ódio, indiferença, amizade, ou esquecimento. 

O pior é ser uma história nunca acontecida. A tormenta de ter o pensamento visitado pelas ramificações de possibilidades nascidas da palavra 'se'. 

Querer algum conteúdo para completar versos apaixonados, ainda que a sua sina seja desvanecer.

Resta-me divagar sobre o inexistente.

Procurar nos recantos da memória por fragmentos dos teus rostos. Um sorriso, um tom de voz, um odor, uma cor. Embora só consiga sentir o brilho no nosso olhar. Isso é tudo e quiçá seja suficiente. 

Mesmo assim não me entendo como um dos participantes, mas sim como um observador passivo, limitado a apresentar uma imagem capaz de descrever uma emoção.

Contudo quero mais, porque a poesia devora todos os sentimentos para alimentar as suas rimas.

As estrofes por escrever consomem-me as madrugadas.

Dentro de mim grita-se a palavra amar, com todos os seus derivados!

Paixão;

Desejo;

Toque;

Fome;

Atração e medo.

Bem como todo o vocabulário existente dentro do indizível!

Já tu, tens tanta vida em ti, pois um só corpo não te chega. Se calhar nem lhe chamo vida. Talvez imensidão seja uma palavra mais correta para te poder descrever. 

Tu existes. Tens lágrimas e alegria. 

Eu existo. Tenho inquietação e silêncios.

Portanto, confesso ao éter o meu arrependimento, na esperança desassossegada que os teus ouvidos escutem estas palavras.

Por favor deixa-me ser poeta!

Ainda tenho um beijo para te 'roubar', num encontro qualquer, onde o nossos olhos brilhem.


terça-feira, abril 22, 2025

Só mais algumas palavras de desabafo


Escrevo estas palavras com tristeza. Solidão, saudade, melancolia. Adjetivos nefastos, todos a orbitar a mesma estrela decadente.

Não sei quem sou. Ou talvez seja exatamente o contrário. Reconheço em mim um desânimo próprio de quem se entrega à letargia e por isso incomoda-me ser gente.

Posso ainda ser um reflexo do mundo que me acolhe como um ventre amaldiçoado. Vejo os outros e não me encontro. Não há vozes de alento, nem rostos de gentileza. 

Procuro, mas não descubro uma resposta digna da minha atenção. É sempre o mesmo. Repetido até à exaustão. Dito com frases diferentes para parecer novo. Não há alma nas coisas iguais.

Mas procurar cansa. É mais fácil desistir. Encontra-se algum conforto quando se está a dormir. Não vale a pena perder tempo quando há falta de esperança.

Sobra uma fome de companhia impossível de saciar. Um apetite esquecido no passado de quem já tentou sonhar. Não há alento no vazio e por isso rimo sem amar.

Escrevo estas palavras com dureza. Fadiga de fim do dia. Desabafo sem alegria. Cansaço de quem não consegue descansar. 

No fundo, ainda acredito no amanhã. Nascer do sol a raiar. Primavera a florir. Depois, ao acordar, isto possa ser apenas mais um poema, fruto de um momento frágil, onde me deixei desmotivar. 


domingo, setembro 08, 2024

S. Paio dos augados


Uma mulher passou por mim e deixou-me curioso. Conduzia, decidida, uma pick-up. Foi uma visão demasiado fugaz para conseguir perceber mais pormenores. Apenas o suficiente para ler a linguagem corporal. 

Não reparei na idade, nem tão pouco nos pormenores do rosto. Apenas, pela sua postura, assumi ser alguém pertencente a um meio onde a subsistência provém do trabalho agrícola. Seria bom, poder fazer-lhe paragem para lhe perguntar: "Quem és tu? De onde vens? Fala-me de ti! Eu sou este que tu vês. Tenho tanta coisa dentro de mim". 

É um pouco triste, após estes encontros breves, não poder abordar ninguém na rua dessa forma sem parecer bizarro, ou ser confundido com um tarado.

Os outros, passam com roupas compostas dentro dos seus carros. Vão esvaziando a vila a caminho do S. Paio dos augados. À noite vão à festa ver um artista pimba qualquer, a dançar, ou com um copo de cerveja na mão, enquanto celebram o fim do Verão. 

Os jovens, esses, desinibidos pelo álcool, fazem amor pela madrugada dentro. Despedem-se assim do fim da despreocupação das férias grandes. Na próxima semana começa a labuta para todos e com ela as responsabilidades adjacentes.

Depois, sobro eu. Uma criatura observadora destas lides da gente banal. Sigo na direção oposta em busca de outra festa, onde não exista música popular, ou falta de sobriedade. Amaldiçoo e abençoo esta minha índole solitária. Encaro mais um dia nesta busca perpétua sobre o significado de existir no meio dos outros. Perdido. Em busca de me encontrar. Embora, com uma certeza firme, disso nunca vir a acontecer.

Passou a mulher da pick-up e já vai longe. Passou o Zé Povinho para o arraial e deixei-os ir. As ruas ficaram nuas, sem o som dos automóveis a poluir o asfalto, nem passos apressados na calçada ao lado. A estrada está assim despida. Ao ponto de se poder caminhar sobre ela sem o perigo do atropelo. Por aí continuo esta minha reflexão ocasional e sigo o meu caminho sem rumo.


domingo, maio 14, 2023

Um encontro ao qual possa chamar Paz


Se estiver por aí uma Divindade benevolente a escutar-me, rogo-lhe que me envie uma figura Salvadora!

No meio do tumulto deste mundo caótico, olho em volta à procura de uma centelha de esperança. A minha jornada é solitária. Os meus caminhos são tortuosos. Estradas obscuras, com sombras a dançar à minha volta. Cada rumo que encontro tem como destino a desilusão.

Nasci pária. Desprezado pelos meus supostos iguais. Colocado à parte. Repreendido por existir. Malfadado por ter a curiosidade dos Poetas, privado de autorização para poder rimar como devia. Sem saber mais nada de mim, pergunto-me se o propósito da minha criação tenha sido só esse?

As minhas preces rasgam o silêncio da noite. Fazem um eco gutural nas divisões vazias da minha inquietação. Procuro no infinito uma resposta divina capaz de apoiar o meu desamparo. Tento acreditar na existência de um ser celestial. Uma entidade clemente a zelar por quem está perdido nas encruzilhadas da realidade.

Imploro por uma mão condutora. Algo ou alguém conhecedor deste mapa bizarro chamado viver. Anseio por um pouco de compaixão. Palavras, como melodias alegres. Braços estendidos como refúgio deste desalento crescente. Um encontro ao qual possa chamar Paz.

O meu desejo teima em encontrar essa personagem magnânima, envolta numa aura de benevolência, capaz de restaurar a minha fé. Seja com a ternura de uma mãe a embalar o filho nos braços; com a sabedoria de um mestre; com a força de um herói a lutar por Justiça. Tanto faz!

Seja qual for a sua forma, traga salvação. Talvez um amigo fiel sem medo das adversidades. Ou, quem sabe, um amor verdadeiro com a capacidade de me fazer acreditar ser mesmo possível existir felicidade. Até pode ser um néscio, dotado de ignorância, mas, sabe-se lá como, capaz de se orientar no labirinto da dor. Venha quem vier!

Teimo em manter a esperança nesta suplica. Acreditar que o destino ainda tem algo valioso reservado para mim. Espero o momento, quando, por ventura, essa tal figura salvadora vier ao meu encontro. Mesmo, sendo uma ilusão como tantas outras. Aguardo, poder descobrir nela, quem sabe, alguma serenidade.


quarta-feira, fevereiro 22, 2023

Peixes significa poesia


No signo dos Peixes há mistérios,

Mundos submersos e mundos sérios.

Sonhadores do Zodíaco, assim são,

Voam na sensibilidade e intuição.


Amam o impossível que há no Universo,

Vivem de alma inquieta e feitio intenso,

Buscam desvendar o segredo do infinito,

Alcançar o inatingível com o espírito.


Nos seus pensamentos profundos,

Como nas águas sombrias dos abismos.

Onde o medo e a poesia se deixam levar,

Para, juntos criarem uma beleza sem par.


Mergulham nas emoções mais intensas,

Fazem dos sentimentos as suas crenças.

Encontram nas artes sua verdade,

E no amor a mais alta liberdade.


sábado, setembro 17, 2022

Queda invertida

A personagem caiu ao céu. Bateu com as costas numa nuvem fofinha e partiu a espinha. Ninguém avisou sobre essas quedas, as quais podiam acontecer na direcção do azul do céu, ou como nuvens com aspecto de algodão doce podiam aleijar tanto. Muito menos alertaram sobre a existência de dores que nunca iriam sarar.

A personagem ficou perdida. Sem esperança, a olhar para a mentira à qual os outros chamavam de vida. Todos ensinavam às crianças porque não se deve mentir, mas a pior mentira é uma ilusão tida como verdade. Foi assim conheceu a palavra saudade. Aquela, de coisas nunca acontecidas.

A personagem soltou-se de volta para o chão. Desta vez não doeu tanto porque o chão é suposto ser duro. Aguentou a queda sem grandes lamurias. Como um verme, foi-se arrastando pela terra imunda. Implorou carinho a quem o pregava, sem nunca o receber. Ficou então a conhecer a palavra desprezo, juntamente com a hipocrisia.

A personagem escreveu o seu nome na lama para se lembrar que também tinha vida. Descobriu assim o poder das letras. Reparou, ao ler as palavras desenhadas na imundice, quando estas são usadas em conjunto, podem dar corpo à dor. Nas terminações formou rimas. E transformou, assim, em poesia toda a sua raiva.

A personagem rabiscou, então, sobre a queda invertida. De como partiu o alicerce da esperança, desde a coluna até à alma. Nunca conseguiu ser aquilo planeado por outros para si. Só uma sombra translucida, quebrada e deformada, sem nada a oferecer a quem carece de fantasia. Ainda assim, sentia um certo orgulho no seu falhanço.

A personagem quis então ser outra coisa. E foi. Livre da opressão de quem lhe indicava caminhos rumo ao vazio. Descobriu tanta coisa na vida para lá daquilo que julgava conhecer. Em cada novo pedaço de conhecimento, aumentou a sabedoria, só para descobrir de como era ainda enorme o tamanho da sua ignorância.

A personagem, depois, continuou. A viagem adivinhava-se longa, contudo, o destino era compensador. Olhou para trás, num breve vislumbre daqueles que ensinavam ilusões. Teve pena daquelas figuras ignorantes. Cativos no seu próprio mundinho preconceituoso. Sem a mínima noção de fantasia, ou pior, dos cenários existentes para lá do horizonte.


quarta-feira, junho 15, 2022

A brutalidade (O Narrador XV)


Já acordaste? Vê lá se te despachas porque estão-te a chamar.

Sim, sou eu, o teu Narrador! Estou de volta para traduzir em palavas os teus sentimentos mais agrestes.

Queres saber porque te vim acordar? É preciso escrever sobre “a maior lição que a vida te deu”. Não olhes assim para mim. O tema pode ser difícil, ou melhor, demasiado abrangente. Mas tu és capaz! Afinal de contas, já aprendeste tantas.

O sono das ilusões pode ser profundo. Existem até pessoas incapazes de despertar para a realidade. Sabes que doi. É uma coisa cruel! Bruta! Violenta! Completamente diferente daquilo prometido na infância pelos adultos. Grandes mentirosos! Sim, eu sei, não devemos usar tantos adjectivos, no entanto, o Narrador sou eu e escrevo como me der na real gana. As coisas são como são e as palavras existem para serem ditas. Mesmo que a verdade seja pesada demais!

Vamos lá! Não queres que comece aqui a bater tachos e panelas para te dar ânimo! Upa! É preciso escrever, mesmo com a alma a doer! (Olha rimou. Lembra-me para depois escrever um poema.) Adiante.

Qual é a lição que vais escolher: que a juventude não dura sempre? Que não somos imortais? Que os sonhos não são fáceis de alcançar? Que o amor dói? (isso acontece a todos) Outra coisa…

Sobre a amizade! Acertei?

Não me critiques por excesso de ques no texto. Eu sou só uma espécie de alter ego criado pela tua mente para dar aos teus pensamentos a capacidade de serem expressos por palavras. Talvez tenha alguma autonomia na minha própria vontade, mas sou só o Narrador da tua vida. Nada mais. Contudo, assumi esta missão de forma genuína. Não é suposto que escreva de maneira chique, mas sim, que deite cá para fora aquilo que te atormenta.

Bem, já acordaste qualquer coisa, ou pelo menos parece. Já consegues abrir os olhos. Hora de trabalhar, ou melhor, escrever. Vamos voltar ao tema central deste texto. Como a amizade pode ser falsa!

Tanta moral que anda por aí a pregar o valor da amizade. “Todos juntos vencemos qualquer mal” e coisas assim do género. Tretas inventadas para dar corpo aos argumentos de desenhos animados e histórias da carochinha.

Portanto, resumindo, lá estavas tu, com o futuro todo pela frente. Sem medo. Com a força toda dos heróis. Parecia um palco e tu lá no centro, para ser a atração principal numa peça majestosa. O cenário estava pronto. Era lindo. Os amigos estavam lá na plateia para bater palmas pela tua glória. Não havia nada que pudesse falhar, mas falhou! 

Sem saberes como, desmoronou tudo em cima de ti. Foi num instante. Sem avisar. Quando deste conta estavas debaixo do peso do entulho. Já não havia palco, só ruínas!

Ok, foi só um contratempo. Estavas de rastos, sem forças, ainda assim, não te faltava a esperança. Era altura de apelar aos valores da entreajuda, os mesmos que julgavas indiscutíveis. Chamaste pelos amigos que certamente viriam em tua ajuda. Afinal, nada podia parar a força da amizade!

Esperaste. Estavam a demorar. Esperaste mais um pouco e nunca mais chegavam. Continuaste a esperar. De vez em quando surgia uma voz a dizer “já vou”. Sem nunca vir. E tu esperaste…

Ao longe podias vê-los e escutá-los, ocupados com a sua própria vida cheia de alegrias, onde não havia cenários desmoronados, muito menos o teu nome presente nas conversas. Desviavam o olhar da tua direção com desdém. Como quem sente nojo. Talvez porque a consciência lhes doesse, ou porque a verdade sobre a fragilidade humana era violenta e cruel. O azar calhou-te a ti e o que eles tinham a ver com isso? Nada! 

Por causa desta lição, concluíste: A amizade é uma mentira!

Agora sobravas tu. Aos poucos, na tua solidão, foste afastando o entulho. Lambeste as feridas e continuaste. Depois, com a bagagem cheia de cicatrizes, já eras outra pessoa. Não tinhas amigos e não te faziam falta. Os outros, quem nunca veio para te ajudar, ficaram lá no passado. Foram material didático para uma lição bem dura.

Foste encontrando outros. Não exactamente amigos, mas companheiros de viagem temporários. Cada um com o seu destino, contudo, respeitavam-te, bem como tu a eles. Seguiram juntos enquanto os trilhos se juntavam, depois, separavam-se com um sorriso e um agradecimento. Ocasionalmente, um “até já”. Sem obrigações nem espectativas. 

Olhas agora para ti, um ser eremita assumido, com um grande orgulho nisso e outra tanta dose de amargura. Ergueste-te sem ajuda de supostos amigos e fizeste da solidão a tua maior força e companheira. Tornaste-te quase uma criatura misantropa, não por vontade própria, mas por imposição das ilusões da sociedade.

Talvez estejas a ter uma postura injusta, nem todos são assim. Apesar de tudo ainda tens alguns amigos e de certa forma mantêm-se fiéis, mesmo a conhecer essa tua mágoa. Lá encontram um pouco de empatia para te compreender. No entanto, já é tarde demais para reparar o dano, porque "o mal feito pelo homem não pode mais ser desfeito". Dás na mesma medida que recebes. Sem nunca esperar grande coisa em troca.

Essa é uma das lições mais duras que a vida te deu: a amizade é relativa, oportunista e falível. Só podes confiar em ti. Tão simples e tão triste quanto isso.


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


segunda-feira, setembro 20, 2021

Interpretar o que não existe

Os acordes chegam de mansinho aos meus ouvidos. Não importam os instrumentos que os sussurram, apenas os sentidos que os consomem. Deixo-me mergulhar neles como quem entra num sonho transcendente. 

Trazem uma melodia encantada que me faz viajar: pela imensidão das Estrelas que pintam o Cosmos; por outros "eu"; por amores indizíveis; por acontecimentos transhumanos; por histórias que ainda não criei. A cada nota emanada vai-se montando um cenário onde a magia, a ciência, e a fantasia se misturam num único entendimento. 

A partitura, composta num momento de criatividade divino, vai-se edificando. A beleza da música revela os seus segredos nos mais pequenos detalhes. Eu escuto e assimilo uma mensagem que não tem palavras, somente um convite para alcançar o que está longe. 

A interpretação é livre. Cada um pode escolher o que sentir quando uma sinfonia sem destino escolhe traçar o seu caminho através da pessoa que somos. É para isso que a arte existe: para elevar os sentidos que nos prendem a este chão. 

Não conheço o nome do autor mas partilho com ele a viagem de sinestesia sensorial que vivenciou quando compôs esta trilha de sensações. É este o objectivo da partilha, percorrer aquilo que a realidade tem de alternativo. A imaginação cresce tal como um universo que nasce. 

Um compositor qualquer criou o princípio para que todos os que o escutam continuem a sua criação. A harmonia intensifica-se quando os ouvidos fazem desabrochar todos os outros sentidos, para pintarem uma tela onde o impossível não existe. 

Danço como quem escreve; sonho como quem vive; perco-me como quem se encontra. O tempo não faz sentido neste mundo feito de criatividade, onde não há objetivos, a não ser interpretar o que não existe. 

A ilusão é real porque o artista assim o quer. Sem as fronteiras da percepção humana, ou dos ensinamentos das ciências exatas. A música faz-me ir para lá de mim. Conhecer coisas que ninguém sabe ensinar. 

Hoje, falo da música, mas podia falar das cores, da natureza, do amor, ou da tristeza. Posso apenas dizer que sinto profundamente algo que está longe. Distante como eu. Aquelas coisas que só são compreendidas por quem sente na pele o significado da fantasia.

O mundo torna-se insignificante, perante aquilo que só eu sinto quando os acordes encaixam perfeitamente naquilo que nunca saberei explicar. O que é meu, é somente meu. Digo por palavras inúteis que sinto algo superior. É só isso, mas é tanto.

Nada mais pode ser dito. Não pode ser partilhado. Contudo, como se trata de uma espécie de magia, posso convidar-te para sonhar um pouco também com o infinito, nestas palavras perdidas com que me tento expressar...


quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Quando o mundo era inocente

Olhou para a figura bizarra no espelho. Questionou-se sobre quem seria aquela imagem que parecia descender de uma linhagem humana. A coluna ondulada por curvaturas inconstantes; os membros assimétricos; os movimentos atrofiados; a juventude que aparentemente se escondia atrás do rosto desgastado pela velhice da alma vazia. 

Lembrou-se de alguém que tinha conhecido quando o mundo era inocente. Os traços grosseiros que compunham aquele corpo disforme aparentavam semelhanças com essa pessoa. Um ser com quem havia privado antes que tudo pudesse acontecer. 

Não! Não podiam ser a mesma criatura. 

Essa imagem, que guardava na memória, fazia uma tangente na perfeição. Irradiava beleza e não conhecia a mágoa. Era mais forte do que tudo. Inabalável e sem medo.

Não! As parecenças eram uma partida que a mente lhe estava a pregar. "É impossível!" Pensou. Negou todas as possibilidades e assumiu como verdade que assim era. Não reconhecia, portanto, os olhos que encaravam de volta no reflexo entortado. 

O passado estava longe, excomungado para uma lixeira situada algures no esgoto do existir. O mundo era agora estranho. Irónico; desumano e podre. Demasiado solitário para poder ser real. É inconcebível que possa caber tanta tristeza numa única existência. Não se pode adjectivar de viver o que não passa de meros dias repetidos ao som da chuva. 

Dói porque a carne sente. 

Dói porque a alma sente. 

Dói porque a ilusão existe. 

O pensamento transforma-se em palavras cinzentas como as nuvens que choram. 

Há algo a dizer que está calado. 

Há algo a gritar que não se ouve. 

Talvez amanhã faça sol e algo novo surja. Talvez queira fugir das paredes sempre iguais; das janelas com paisagens imutáveis; do fardo dormente de estar ali.

Mas tudo isto não importa. São só sonhos que já não merecem esse estatuto. Se fossem mesmo sonhos, estavam materializados no sentir. Ali não havia nada disso. Só ausência: de alegria; de companhia; de ânimo.

Sobra o espelho mas não se reconhece nele. 

Sobra a mágoa mas não importa. 

Sobra a figura disforme a deambular pelo vazio que as promessas não cumpridas deixaram.


quarta-feira, dezembro 09, 2020

O conforto da distância


Está frio e como sempre estou sozinho. Mas não sinto saudades e isso é estranho. 

Os outros, querem sempre alguém ou alguma coisa. Vão-se perdendo nesses sentimentos inebriados. Eu não sou assim, embora os compreenda. 

O vento sopra e a solidão fala. A chuva cai e a interrogação cresce. O que procuro não está aqui, nem depois do horizonte. A companhia é sempre algo temporário, fruto do caminho que se percorre. A carne é só minha. A dos outros pertence a eles, tal como os seus pensamentos. O máximo que podemos fazer é partilhar estas jaulas cobertas por aparência e anatomia. 

Ninguém criou uma ciência que funda todos num só. Inventaram religiões para explicar o inefável. Depois justificaram correntes políticas para negar o indizível e controlar as mentes mais pequenas (que são tantas). Não deixam crescer a curiosidade em nome de um bem maior que não passa de egoísmo. Humanidade, não é mais que uma palavra bonita para ditar nos discursos sem sentido. 

Mas eles já não me importam. Fazer-lhes frente é uma luta desigual. Cansa-me a revolta inútil. Perdi o encanto por causas nobres. 

Existe algo escondido neste mundo e em todo o mistério da existência. Não conheço essa verdade e isso incomoda-me. Fujo para o conforto da distância. A multidão não tem nada para me oferecer para lá do que é banal. Já não procuro rostos que tenham escrito no olhar a inquietação de ser diferente. 

Aqui, ao lado de todos, apresento-me longínquo, num lugar em que nenhum toque me alcança. Há um desinteresse crescente em mim sobre a vida alheia. Acho isso fascinante. 

Quem sabe esteja numa direcção que me leve à Gnose. Embora, provavelmente, a fronteira com a loucura seja demasiado ténue. Ou pelo menos seja vista assim por aqueles que não compreendem, nem querem compreender e atacam com todas as forças aqueles que o tentam fazer. 

Já fui como eles. Talvez, por vezes, ainda seja. Intolerante. Afinal de contas, cada um defende a sua verdade por mais ridícula que seja. 

Não posso afirmar que haja algo extraordinário em mim. O que entendo por diferente deve ser só ilusão. Estou aqui também, a desabafar com frases feitas. 

Está frio e eu não me entendo. Possivelmente também seja como os outros e isso é estranho. 


domingo, novembro 22, 2020

Silêncio repetido

Existe um silêncio dominical na vila, mas é sábado e os padres rezam Santa Missa para ninguém. 

O dia está quente contudo o Verão pouco espaço ocupa na memória. O sol brilha por Novembro dentro embora a praia esteja longe e o mar seja uma lembrança fria. 

Na rua ninguém calça os seus sapatos em caminhadas vazias. A solidão está personificada nos vultos de quem não passa por mim. 

O pensamento faz-me companhia nos cigarros que não fumo nesta pausa longa do viver. 

Sou, mas não me entendo. Compreender é difícil quando a paisagem não fala e os outros são personagens inexistentes.

Pela tarde dentro surgem palavras sem sentido. Não há destino para lá da vontade de o descobrir. Talvez descobrir seja o destino e isto não passe de uma frase feita.

A tarde avança nas veredas confinadas da vila quieta. As casas caladas não parecem ter gente lá dentro. Interrogo-me sobre eles como se me importassem.

Observo e isso é tudo. Não é entretenimento nem tão pouco aprendizagem. Divago nas insignificâncias que me rodeiam e gosto de me perder assim.

Entretanto o sol vai baixando cedo porque é Outono e eu esqueci-me. A humidade vem com as sombras que crescem e sinto melancolia. Já escrevi sobre isto tantas vezes e repetir incomoda. 

O momento é igual, mas é diferente. Talvez por isso insista em transcrever o desassossego como se este se manifestasse nas letras que ganham corpo.

Já cá estive a escrever sobre isto em outras ocasiões. Mas não foi hoje. Hoje é assim, mesmo sendo como outros dias que já foram assim. Já tive dias assim, mas que nunca foram assim, como hoje, que repito o que penso.

A humidade parece a mesma, contudo o casaco que visto é diferente. Aquele que já vestiu outros casacos em busca de conforto no fresco que a tarde traz rapidamente, esse, já pouco me lembro dele, embora tenha estado lá e tenha escrito coisas iguais.

Vou repetindo porque isso basta e não me interessa o resto. A solidão manifesta-se repetidamente, portanto é meu dever purga-la. 

Conheço bem o fim de tarde em outonos vazios. Trazem consigo estes sentimentos introspectivos. 

Lá fora nada parece fazer sentido. Acho que de certa forma nunca fez nem é suposto fazer. Seja em que tempo for, o mundo encontra sempre maneira de ser estranho e excluir quem não compreende a sua falta de nexo. 

Esta é mais uma tarde de outono em que a vila está vazia. Não interessam os porquês. As emoções parecem repetidas porque fazem parte de mim. 

Mesmo assim, nunca escrevi sobre esta tarde, por isso faço-o como se fosse uma novidade. Surpreende-me como sempre. Inquieta-me. E só assim vou encontrando algum sentido. 

quarta-feira, outubro 14, 2020

Os outros são um lugar longínquo

As paredes claustrofóbicas, sempre iguais, na mesma cor, no mesmo tamanho, nas mesmas janelas com o cenário imutável, impelem-me para o exterior. O sol brilha, porém, a sua cor não é suficiente para me aquecer com alegria. 

Percorro as ruas vazias de gente e de ânimo. O vento outonal parece manifestar fisicamente a solidão que me atormenta. As árvores teimam ainda em não se despir nem pintar as suas folhas com os tons quentes da estação. Também elas querem combater o calendário e manter a ilusão do verão na sua aparência. 

O calor parece amenizar qualquer tipo de desalento que possa tentar domar o espírito. A existência carente procura algo que a aqueça, seja no clima, no amor, na arte, ou na beleza, ou em tantas outras artimanhas que o ser humano encontra para dar algum sentido à sua vivência. 

A fantasia talvez me alegre se mais nada me cativar. Sei que lá, encontro sempre um refúgio onde a realidade não me alcança com as suas agruras. A criança existe novamente com a sua imaginação como companheira. Voltam as brincadeiras da meninice e os ralhetes dos adultos pouco importam. Quem manda agora sou eu "o grande". Soberano de toda a diversão mesmo que ela não exista. 

A ânsia de não sei quê pede-me um escape para não sei onde. Os outros tornaram-se um lugar longínquo. Abandonaram-me sem amor, causas, ou conformidade. Eu também não os procurei, entendi isso como um alívio ao fardo de ser gente. Contudo, atormenta-me saber que também sou como eles. Criatura embrenhada no sentir.

Toda a poesia que possa escrever não me afasta da herança que recebi da história deles como sociedade e inquieta-me saber que assim devo continuar. Indicam-me sem questionar as regras que devo seguir. É isso, ou o desassossego. Não há meio termo.

Escolhi, portanto, questionar: quem sou? Tal como todos os significados deste mundo. Mesmo em constante tumulto decidi acreditar em mim mesmo e consumir todos os sentimentos. A curiosidade não me deixa sossegar. Desejo o que está longe e só assim me compreendo. Pouco mais importa…


terça-feira, novembro 05, 2019

A senda dos iguais


Muitas vezes aqueles que são "diferentes" dão por si a serem pressionados por gente básica para se comportarem de forma encaixar-se na sociedade, também ela básica, impregnada de regras e objectivos banais que não servem para mais nada a não ser aprisionar a mente e a vontade.
Uns deixam-se levar por essa gente cheia de vazio e acabam por se deixar absorver como parte do cenário. Depois, tanto fica por dizer…
Contudo, aqueles que se distinguem na multidão conhecem bem o seu valor. Vive neles um instinto de rebeldia. Conhecem bem os adjectivos que os diferenciam dos demais. A sabedoria, a arte, as ideias!
Há um momento em que surge a revolta. A solidão deixa de meter medo! Urge a coragem para enxotar toda essa gente tacanha para longe. Arreda-los para onde pertencem, atrás da cerca que satisfaz o rebanho.
Deixá-los ir na multidão para os seus afazeres. Rostos em grande número. Sem distinção uns dos outros. Mesmo com traços diferentes, a semelhança é dolorosa, tais são os gestos que os prendem uns aos outros na senda dos iguais.
Lá porque são muitos não oferecem novidade. Gente sem fantasia a repreender quem não se conforma! Audácia insultuosa! Que sabem eles do que é diferente?
Nada!
Não podem, nem têm como compreender!
Que continuem, confortados pelo entretenimento que vai surgindo no dia-a-dia como recompensa à sua obediência.
Já nós, aqui deste lado, onde o querer é profundo, temos outros pensares.
Comemoremo-nos! Nós, sozinhos, livres do fardo dessa gente. O Universo encarrega-se de nos trazer outros com o mesmo engenho para servir de companhia. Diferentes, alternativos, ou simplesmente curiosos, porque o mundo é vasto e o saber quer sempre mais!

quarta-feira, outubro 30, 2019

Prece sem destino concreto


Rezei a um Deus desconhecido. Aqueles que já conheço, têm tanto de humano que até dói, tornando inútil qualquer crença no seu nome.
Deixei que as minhas palavras, impulsionadas pelo pensamento, atravessassem as estrelas até aos confins do cosmos. Muito para lá do que a imaginação pode sonhar, ou que a ciência encontrar. Tinha esperança, de que nesse recanto impossível, resida uma entidade, real ou não, acima de todas as outras, que me possa escutar com a caridade benevolente que as divindades prometem a um simples homem como eu, na senda do dia-a-dia.
Em dias como este, em que a pequenez se agiganta e as forças são ridículas ante a vontade soberana do Universo, peço um conforto ou uma ponta de alegria. Nada de impossível a quem determina os desígnios do inefável. Somente um toque de generosidade sem mendigar em demasia.
O martírio da sabedoria, que se apresenta disfarçado de bênção, é um fardo pesado de carregar nas alturas em que a solidão se mostra vazia. Quando assim é, urge descobrir coisas novas. Nem que seja numa prece sem destino concreto.
A resposta que aguardava veio com a própria questão. O desconhecido manifesta-se numa procura incessante com ânsia inquieta. Nada mais há a desejar, a não ser isto: gnose e poesia, onde os sentimentos dançam nas diferentes interpretações de quem, na sua inocência, ou loucura, os tenta descrever sob a forma de linguagem.

quarta-feira, julho 24, 2019

O homem de solidão


O homem de solidão entende o mundo de uma forma muito particular. Tudo devido à sua condição separada de todos os outros. Podemos considerar isto como um dom libertador; ou uma mágoa intensa; ou ainda, insanidade! Seja como for, no fim de contas, o mundo não se rege pelas mesmas regras para aqueles que abraçam esta sina.
O homem de solidão tem de criar a sua própria cultura. Ser o seu próprio “entertainer” e também a sua própria audiência. Ter a sua linguagem íntima e os seus ideais exclusivos. Devotar-se à sua religião, cingida à imensidão do seu Universo. Até a sua história particular deve ser distinta, sem que nunca tenha importado na perceção dos que estão cá fora.
O homem de solidão ri com frequência das suas piadas geniais, contadas com a mestria do sarcasmo do seu sentido de humor peculiar. A ironia que o mundo carrega é por si mesma uma fonte de inspiração inesgotável. Cada situação cómica, anima a plateia de diferentes versões de si mesmo que vão aplaudindo freneticamente entre gargalhadas choradas.
O homem de solidão tem por companhia apenas a sua criatividade. Esta é de facto a sua real amiga, pois a verdade com que interpreta a humanidade é cruel demais e, encarar esse facto dói exageradamente acima do suportável. Apenas a fantasia se destaca sobre qualquer outro pensamento, ausente de qualquer forma corpórea, ainda assim tão completa como a companhia deve ser.
O homem de solidão é, portanto, um profundo entendedor da melancolia, tudo devido ao seu saber de exímio observador. Aqueles que interagem com sã comunidade entre os seus pares, suportam esse fardo com a ignorância da suposta amizade. Acabam, esses, por ser alvo de alguma inveja pela ilusão que os alimenta, leve no sofrimento e confortável no afecto.
O homem de solidão não se conhece. Em vez disso recria-se a cada experiência vivida, aceitando o conhecimento adquirido como o único caminho para uma suposta felicidade. A sabedoria, apesar de toda a amargura que acarreta, serve tanto de isolamento, como de energia para a imaginação: força criadora e superior a qualquer regra imposta!

segunda-feira, julho 08, 2019

Saudades de quem não sei


Hoje perdi-me
Como quem sabe onde vai ter
Por terras longínquas do esquecer
Onde a ruas são silêncio
Fui com velocidade quieta
Numa rapidez sem pressa
Passei por casa de gente amiga
Com quem nunca falei
Muito menos conheci
Deixei-os atrás das paredes
Não bati na porta fechada
Para dois dedos de conversa calada
Ficam saudades de quem não sei
Sem cor nos muros pintados
Ocultos nos portões fechados
Depois continuei em frente
Em estrada de paisagens abertas
Tela onde cabiam todas as coisas
Cenários que chamam sem voz
Os lares ficaram distantes
Meros pensamentos errantes
O caminho sem destino continua
Só assim me sei encontrar
Saber quem sou sem nunca parar
Semeio leves recordações
Cresço com cada momento
Compreendo-me com cada sentimento
E vou em frente…

terça-feira, maio 14, 2019

As leis “politicamente correctas”


Ai de mim, que sinto solidão!
Em cada rosto que me sorri, não encontro verdadeira empatia, nem a química agradável de uma conversa sagaz. Não há ninguém neste horizonte que se traduza no mesmo caos que eu e isso dói. Dói muito! Mesmo muito! Esta solidão pesada sobre mim, sem ser fruto do meu próprio desejo, atormenta-me profundamente cá dentro, onde a Alma mora, na origem do meu eu. A inquietação é constante, agreste e sem tréguas…
Ai de mim, que sinto ódio!
Tenho a vontade infame de rasgar a garganta de um outro humano. Ter a satisfação de me embalar com os gritos alheios de agonia extrema. Regozijar com a lâmina afiada de um punhal impiedoso, enterrada veemente em corte, sem remorsos, na carne imaculada. Depois, como um enamorado, contemplar em êxtase a beleza do metal frio, quando pincelado a carmesim depois de cumprir o seu propósito. Há um certo alívio no sofrimento de outrem. Peço apenas que não me condenem por este pecado…
Ai de mim, que estou perdido!
Parafraseando algum “eu”, de um passado distante: “O sentimento mais poderoso que existe não é o amor, mas, sim, o ódio e a solidão, juntos em uníssono”. Engrandecidos na sua ligação. Imparáveis no seu poder devastador. Eis que paira sobre mim algo que só posso descrever como “magia” e todas as minhas faltas se metamorfam em imaculadas virtudes perante o mundo sem solidariedade. Há! Que felicidade completa me inunda ao constatar esta epifania maldita…
Ai de mim, que me esqueci como amar!
A culpa, não sei de quem é. Vou fazer como todos e sacudir o peso dessa responsabilidade para as falhas que se enraízam na sociedade. O meu quinhão, se existir, repudio-o com as palavras mais hipócritas que encontrar. Tal como dizem os grandes moralistas que nos regem, entre o conforto das suas leis “politicamente correctas”. No entanto, não perco tempo em busca de justificação. Afinal de contas vai havendo liberdade nesta ausência de sentir. Os sentimentos não surgem com medo de se dissiparem. Ou melhor, de nunca o serem, como, afinal, não são…
Ai de mim, que me sinto longínquo e ninguém me vem buscar!

sábado, novembro 17, 2018

Entre os cacos do viver


Sei da tua companhia, oculta por detrás do silêncio do teu sorriso distante.
Reconheço um outro eu na tua forma, espelhada em cacos do viver. O pensamento deformado pelas cicatrizes do crescimento, amargo e agreste. Vergastadas implacáveis nas costas de quem sonha. A dor é constante na memória, mesmo quando adormecida.
Conheço a tua angústia, perfeitamente escudada pela muralha da tua aparência.
Há uma certa poesia erógena nas palavras (quando as há), trocadas como esperança, de quem se aconchega em estilhaços iguais. Sentenças de melancolia, que se traduzem em versos sem nexo porque a humanidade não basta.
Acaricio na inquietude a tua solidão, tão palpável quanto a pele.
Pouco se pode acrescentar quando duas existências se completam. Ou assim o julgam, tal a semelhança do seu fado. As vozes nada trazem de novo. Talvez os olhares se reconheçam nas cores berrantes do vazio. Só isso, o resto é aconchego.