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domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




quarta-feira, março 18, 2026

A janela da realidade


Aquilo que tomas por existir,

Não és tu.

É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.

Tu és meramente uma figura observadora.

Sem o privilégio de nascer,

Sem o direito de morrer,

Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,

A gritar por quem te possa acudir.

Pois, do lado de cá estás a dormir.

Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.

Não te recordas de adormecer,

Não te lembras de te esquecer,

Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.

Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.

Projeto falhado para nunca construir.

Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.

Só isso.

Sem promessas nem compromisso.

Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.

Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.

Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.

Nunca vais escapar.

Olhas.

Deste lado articulas movimentos.

Fazes coisas.

Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.

Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.

No entanto, aí estás tu.

Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.

Dói-te algo que nem sequer tens.

Tu e tu.

Tudo e nada.

Duas faces inúteis da mesma fachada.

Vazio e dor.

Paz rasgada.

Aí dentro e do lado de cá, uma sobrevivência frustrada.

Uma infinidade de tantos como tu,

Sem conseguirem passar,

A espreitar, com amargor, pelo vidro da janela estalada.

Constantemente esmurrada,

Pelos punhos de cada devaneio sofredor.

Coro de gritos calados no peso do marasmo.

És um instante de ilusão.

São todos instantes de ilusão.

Tu, tu e tu!

Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:

Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!


terça-feira, abril 22, 2025

Só mais algumas palavras de desabafo


Escrevo estas palavras com tristeza. Solidão, saudade, melancolia. Adjetivos nefastos, todos a orbitar a mesma estrela decadente.

Não sei quem sou. Ou talvez seja exatamente o contrário. Reconheço em mim um desânimo próprio de quem se entrega à letargia e por isso incomoda-me ser gente.

Posso ainda ser um reflexo do mundo que me acolhe como um ventre amaldiçoado. Vejo os outros e não me encontro. Não há vozes de alento, nem rostos de gentileza. 

Procuro, mas não descubro uma resposta digna da minha atenção. É sempre o mesmo. Repetido até à exaustão. Dito com frases diferentes para parecer novo. Não há alma nas coisas iguais.

Mas procurar cansa. É mais fácil desistir. Encontra-se algum conforto quando se está a dormir. Não vale a pena perder tempo quando há falta de esperança.

Sobra uma fome de companhia impossível de saciar. Um apetite esquecido no passado de quem já tentou sonhar. Não há alento no vazio e por isso rimo sem amar.

Escrevo estas palavras com dureza. Fadiga de fim do dia. Desabafo sem alegria. Cansaço de quem não consegue descansar. 

No fundo, ainda acredito no amanhã. Nascer do sol a raiar. Primavera a florir. Depois, ao acordar, isto possa ser apenas mais um poema, fruto de um momento frágil, onde me deixei desmotivar. 


domingo, outubro 17, 2021

A festa

No dia em que eu desisti, o mundo fez uma festa em minha honra. 

Os povos de todas as culturas saíram à rua, com cantos, danças e foguetes. Pegaram-me em ombros para desfilar comigo nas avenidas enquanto toda a gente clamava o meu nome e me batia palmas com um entusiasmo eufórico. 

Os governos declararam feriado e na comunicação social não se falava noutra coisa. A alegria contagiou a Terra inteira por causa do meu nome superior. 

Então, levaram-me ao topo do edifício mais alto e todos gritaram em uníssono para que fizesse um discurso de vitória. Excitado pela euforia, abri os braços e saboreei aquele momento de glória absoluta. 

Durante vários momentos, longos, deixei que focassem em mim todo o seu êxtase. Depois, com as palmas das mãos viradas para baixo, gesticulei um sinal a multidão para que fizessem silêncio. Obedeceram quase de imediato, conseguiram acalmar a energia e calaram-se para me escutar, tal era a fome pelas minhas palavras sabias. 

Olhei-os com clemência e projectei a minha voz na direcção dos quatro cantos do planeta bradando: 

«Hoje desisti!» imediatamente fez-se ouvir uma monumental salva de palmas. Voltei a pedir silêncio e continuei: 

«Desisti com orgulho, parece que todo o peso do mundo saiu de cima das minhas costas e por isso sinto-me leve que quase parece que consigo voar!» As palmas soaram novamente junto com palavras de incentivo. Assim que voltou a calmaria continuei: 

«Contudo, não posso voar, nem o quero! Não quero ser mais do que aquilo que posso ser, por isso, hoje, sou novamente um de vocês! Um herói que não tem vergonha de desistir! Sem a obrigação de me superar a qualquer preço!» Veio mais uma ovação. 

«Por favor não me dêem mais vivas.» Disse, com a emoção estampada no rosto para que todos me vissem. 

«Esta leveza é o símbolo da Liberdade que todos merecemos. Sem qualquer tipo de autoridade que me diga que a responsabilidade deve ser assumida a todo o custo, mesmo que não a queira, ou que ma tentem impingir! Hoje, regresso à condição de ser humano, frágil, longe das grandes glórias com que me tentaram iludir.» Desta vez ouvi menos palmas e reparei que a multidão se começava a dispersar rapidamente. 

«Obrigado!» Agradeci aos poucos que restaram com uma ligeira vénia. Também esses não me ligaram muito. Estavam ali parados, inertes e distantes, como se não tivessem mais nada para fazer. Nem sequer lhes mereci um olhar minimamente atento.

A minha voz emotiva já não interessava a ninguém. Toda a festa grandiosa feita em meu nome, era agora uma memória descartável, como se nunca tivesse acontecido. Sobrou a leveza da minha decisão. Juntamente com a tranquilidade de ser Livre.


quinta-feira, abril 22, 2021

Vitória suja

Gente contra mim? Eles que venham! 

Não sou difícil de encontrar no meio da multidão. Não sobressaio entre os demais, não sou como eles cheios me moda. Não tenho nada que seja digno de referência. Basta procurarem o mais distraído. 

Essa gente, se querem batalhar, que venham. 

De vez em quando também é preciso andar à porrada senão uma pessoa fica mole. Só precisam de sentir o cheiro a miséria humana. Se conseguirem atravessar o pântano que eu sou, talvez me consigam vencer. Convém que não tragam roupa muito clara, pode ganhar uma mancha ou outra por causa do terreno enlameado e depois parece mal.

Não me declaro imbatível. Pelo contrário. Até devo cair ao chão com facilidade. Então, se me apanharem pelas costas mais fácil se torna. 

Que venham por trás de mim, atolados no lodaçal imundo. Tenham atenção para não se rasgarem nos espetos dos silvais. Se só conhecem perfumes, não se preocupem, o nariz vai-se habituando aos odores nauseabundos que se estendem por quilómetros nunca contados. 

Que venham pela mansinha para que não os oiça. 

Contudo, quase nunca querem vir. Mesmo a convite e de guarda baixa. Se a lonjura não os demover, certamente a profundidade da lama vai engoli-los até às profundezas do desespero. Eles não querem vitórias sujas. Desejam coisas fáceis que fiquem bem nas palavras aborrecidas dos discursos. 

De vez em quando lá aparecem alguns, que na brutalidade vinda dum instinto qualquer lá me conseguem bater com golpes violentos de um ego sem força. Nesse caso dou-lhes a honra de me levarem de vencida. Gritarem, para que o mundo inteiro oiça, uma vitória grandiosa contra nada!


quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Quando o mundo era inocente

Olhou para a figura bizarra no espelho. Questionou-se sobre quem seria aquela imagem que parecia descender de uma linhagem humana. A coluna ondulada por curvaturas inconstantes; os membros assimétricos; os movimentos atrofiados; a juventude que aparentemente se escondia atrás do rosto desgastado pela velhice da alma vazia. 

Lembrou-se de alguém que tinha conhecido quando o mundo era inocente. Os traços grosseiros que compunham aquele corpo disforme aparentavam semelhanças com essa pessoa. Um ser com quem havia privado antes que tudo pudesse acontecer. 

Não! Não podiam ser a mesma criatura. 

Essa imagem, que guardava na memória, fazia uma tangente na perfeição. Irradiava beleza e não conhecia a mágoa. Era mais forte do que tudo. Inabalável e sem medo.

Não! As parecenças eram uma partida que a mente lhe estava a pregar. "É impossível!" Pensou. Negou todas as possibilidades e assumiu como verdade que assim era. Não reconhecia, portanto, os olhos que encaravam de volta no reflexo entortado. 

O passado estava longe, excomungado para uma lixeira situada algures no esgoto do existir. O mundo era agora estranho. Irónico; desumano e podre. Demasiado solitário para poder ser real. É inconcebível que possa caber tanta tristeza numa única existência. Não se pode adjectivar de viver o que não passa de meros dias repetidos ao som da chuva. 

Dói porque a carne sente. 

Dói porque a alma sente. 

Dói porque a ilusão existe. 

O pensamento transforma-se em palavras cinzentas como as nuvens que choram. 

Há algo a dizer que está calado. 

Há algo a gritar que não se ouve. 

Talvez amanhã faça sol e algo novo surja. Talvez queira fugir das paredes sempre iguais; das janelas com paisagens imutáveis; do fardo dormente de estar ali.

Mas tudo isto não importa. São só sonhos que já não merecem esse estatuto. Se fossem mesmo sonhos, estavam materializados no sentir. Ali não havia nada disso. Só ausência: de alegria; de companhia; de ânimo.

Sobra o espelho mas não se reconhece nele. 

Sobra a mágoa mas não importa. 

Sobra a figura disforme a deambular pelo vazio que as promessas não cumpridas deixaram.


quarta-feira, julho 11, 2018

O rei


Hoje fui derrotado pelo mundo! Finalmente aceitei esse destino. Até porque, ao analisar esta guerra que declarei à chamada sociedade, cheguei à conclusão de que nunca travei verdadeiramente algum combate. Por todas as vezes que julguei vencer, na realidade, fui sim ignorado, sem ter sequer o desmérito de ser espezinhado pelo inimigo.
Apercebi-me, portanto, de que sozinho nunca seria capaz de ganhar qualquer quezília. Muito mais, quando o meu adversário são os próprios alicerces do viver. Resta-me aceitar a minha condição de vencido, ou melhor, de insignificante, perante tudo que me é imposto pelo resto da humanidade.
Fizeram-me de carne, osso e pensamento. Como os outros, nasci a gritar, expulso do ventre da ilusão. Inocente, julguei ser um deus! Um rei! Acreditar nos sonhos que me deram como garantidos! Alguém que pudesse ser apelidado de extraordinário, sem saber eu, que carregava o fardo de ser ninguém.

segunda-feira, junho 25, 2018

Caos ou Amor


O infinito está calado. A carne não o consegue ouvir. O barulho no mundo é demasiado para que a voz subtil do inefável se faça notar, ou simplesmente o silêncio nada diz. Tudo é incerteza.
A dúvida cresce em todas as direcções e os “agoras” do viver vão-se acumulando sem história. Nem a esperança se quer pronunciar diante do vazio. Resta olhar para dentro em busca de um centelha de caos, ou amor!
Os sentidos degustam a apatia sem sabor. Não há solidão nem companhia. Até a inquietude descansa num sono sem sonhos nem questões. A inercia acomoda-se no seu reino, onde não existe tédio ou entusiasmo.
A simplicidade esconde os seus segredos nos gestos sem glória. A magnificência começa no inútil. Os apressados nada aprendem com a espera. Sobra a imaginação para cumprir o seu dever de esboçar o impossível.

sábado, março 10, 2018

A multidão


Alguém escreveu numa parede da cidade, com letras grandes e gordas, todas as minhas frustrações e medos. Dei de caras com aquela lista, de tudo que é frágil em mim, e parei na minha absoluta vergonha. Não imaginava quem soubesse tão bem o que se esconde em mim. Ainda por cima, com a audácia de o expor à luz do mundo!
Eis que chega mais alguém que se queda diante a parede. O receio e o choro apoderaram-se do seu semblante, tal como a mim. Quase que podia ler a angustia que emanava daquela face, pois era igual à minha. Outra alma inquieta reclamava para si aqueles dizeres. Entendi que não podia prende-los só para mim, nem para a minha poesia sombria!
Olhei em volta. Mais pessoas tinham chegado, com os seus corpos quietos e semblantes aflitos. Não tardou para que se juntasse ali uma multidão imensa de silêncio amargurado. Foi então que compreendi: aquela lista malfadada não era apenas minha, mas sim daquela gente toda, que tal como eu partilhávamos as mesmas misérias!
Ficou claro que não estávamos sozinhos nos nossos infortúnios. Nenhum desapontamento era exclusivo, nem tão pouco algum receio único de um só ser. A lista na parede não era de ninguém, embora, ao mesmo tempo de todos aqueles que ali se abeiraram. Carne, osso e dor. Só isso. Sem nomes, nem géneros, nem raças, somente angústia!
Aquelas palavras mal-afortunadas expunham a mágoa que devia estar tatuada apenas na tristeza humana. Escondida. Alguma alma ousada decidiu exorcizar os seus demónios, escrevendo com nudez crua o que não deve ser dito, para que todos olhem a fonte de todas as lágrimas. No entanto, mais parecia um espelho a reflectir o fundo de todas as vidas!
Os rostos naquela grande multidão ganharam coragem para se entreolharem. Não tardou para que sorrisos nascessem entre o silêncio. Logo a seguir formou-se um borborinho que foi perdendo a timidez para se transformar em conversas. Não tardaram as gargalhadas pelas piadas contadas sobre todas aquelas fraquezas que roçavam o cómico!
Então, todos juntos, chegaram à conclusão do ridículo dos seus medos, que, sem a força da solidão, quase já não faziam sentido. Pelo contrário, eram como anedotas perante a verdadeira face do mundo. Insignificâncias, se comparados com a vontade de ser feliz. A parede já não importava, ignorada por todos, pois já não sentiam incertezas!
Enorme era a multidão, quando todos os corações solitários se juntaram!

quarta-feira, abril 26, 2017

As borboletas


O silêncio era sepulcral. Parecia que o mundo se tinha calado para assistir àquela cena sórdida. A rua tinha-se aquietado. Todo o movimento cessara. Uns quantos corpos inertes, salpicavam os passeios, janelas e varandas. Limitavam-se a olhar sem tentar a ousadia do movimento. Em todos sobressaia a expressão facial de espanto misturada com pavor, acusada pela boca entreaberta.
O chiar de um velho motor em movimento quebrava a mudez sombria que se tinha instalado em todo aquele caminho. Um jovem, a quem a enfermidade tinha deformado a fisionomia e inutilizado os músculos, conduzia uma cadeira de rodas desgastada pelo tempo e cuja ferrugem tinha roubado a cor. Seguia decidido pelo asfalto dentro, entre as entranhas daquela cidade temerosa.
Os automóveis pararam, em sinal de reverência, para que a passagem daquele ser de olhar determinado fosse uma prioridade. Ou melhor, uma espécie de cortesia ao que mais grotesco existe na essência humana.
O rapaz, só por si, não constituía um espectáculo digno deste descrever. A sua existência era apenas o resultado da miséria, a qual a sociedade aprendeu a ignorar, para que a sua quota de perfeição permanecesse imaculada.
O verdadeiro motivo do assombro daquela gente, era um cadáver de homem em decomposição que, amarrado por uma corda em volta do seu pescoço, era arrastado estrada acima por aquela figura distorcida.
Um cheiro intenso a podridão emanava daquele corpo. Atrás do seu roçar, ia deixando alguns restos pelo chão áspero. Ainda assim, os estômagos revoltosos não se atreviam a soltar o vómito.
Um bom número de grandes borboletas necrófagas, atraídas pelo odor intenso, pousava em cima daquele defunto, para que, também elas, tivessem direito a um pouco da sua carne necrosada.
O rasto de detritos, que ia sendo deixado, mostrava o caminho percorrido por aquela procissão desconcertante. Umas boas centenas de metros por entre a urbe, pintados num tom carmesim.
Para além do ranger irritante do rodar da cadeira, nada mais se escutava. Talvez, para os mais atentos, o ténue som do bater de asas daquelas borboletas infernais, que iam chegando, cada vez mais, para acompanhar o cortejo da desgraça.
A felicidade, que é pregada pelos profetas da ilusão, foi silenciada. O cortejo continua até que alguma alma destemida tenha coragem de o parar. Até lá, assim se cala o frenesim da aparência vívida dessas gentes mundanas: Com a inercia dos estarrecidos…

quinta-feira, abril 20, 2017

Lápis do infinito


Dei por mim a mendigar carinho. Ainda pior! Como um proscrito a suplicar companhia. Esqueci-me do universo que há em mim para me rebaixar à pequenez da condição humana, com medo da solidão, a buscar uma migalha de atenção.
Deu-me nojo da minha pessoa.
Virei as costas ao rosto que desejava cativar a meio de uma conversa qualquer. Na minha vergonha esperei vir a tempo de recuperar a dignidade. Como um pecador arrependido penitenciei-me pela minha falta contra a gnose.
Onde estão os meus sonhos?
O que tornou a minha vontade casta?
Onde estou eu?
Tornei-me invisível aos olhos dos carnais. Recolhi-me aos confins da minha essência. Entreguei-me despido de rótulos à forja da minha criação e numa réstia de humildade implorei para renascer.
Pó das estrelas com figura de gente. Carne desenhada com o lápis do infinito. Entendimento gerado na ideia da criação. Assim sou eu!
Rogo à sabedoria para nunca me esquecer dessa verdade…

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Habitar outros pensares


Tenho um desdém absoluto por pessoas banais. Daquelas cujo único propósito na vida é esperar pela sexta-feira, sem pouco mais querer da existência. Contentam-se com as férias, o futebol, as novelas e outras tantas formas de entretenimento imposto. Dão-me asco!
Não suporto quem não é capaz de ter uma ponta de individualidade. Sem nada que os distinga verdadeiramente do resto da carneirada. Sempre que os encontro, arrumo-me para o lado para não sentir o cheiro a nada. Caso insistam na minha presença, enxoto-os a pontapé, como quem expulsa um enjeitado, gritando injurias no sentido mais bruto da ofensa.
Contudo, tenho de aceitar o facto que esta gente é essencial para completar o quadro da nossa sociedade. Pequenos pixéis, que sozinhos nada valem, mas em conjunto formam uma mancha enorme. Ao ponto que, pelo seu elevado número, constituem uma maioria que define a palavra normal. Nojo!
Ainda que, também eu, faça parte dessa imagem social e seja visto como mais um ‘quadradinho’ por quem se julga maior. Estes, lá porque são os primeiros dos carneiros, de mim nada sabem. Faço questão de me diferenciar, nos pequenos gestos, nas palavras proferidas, no meu próprio tempo, no caminho percorrido!
Assim segue o rebanho. Por vezes, protestam contra tudo. Mesmo contentes com a sua rotina e conforto, ao qual retornam depois de se queixarem a ouvidos que só escutam outras línguas. Lá ficam felizes porque a sua reclamação não foi ouvida e os seus hábitos ficaram iguais, tal como o futebol, as novelas, o dinheiro e o sagrado fim-de-semana. Se por acaso alguma coisa se altera, é tão ligeira que se compara com a insignificância.
Depois existem os outros. Os deslocados. Os 'semelhantes' que em nada se comparam a quem passa nesta romaria. Os eremitas, como eu, no esconderijo das suas particularidades, assistem a tudo como se tratasse de uma visão longínqua que pouco importa a quem habita outros pensares.
Tenho um desdém absoluto por pessoas banais, porque, no fundo, existe em mim o mais puro dos medos de me rever neles!

domingo, outubro 02, 2016

Da terra de ninguém


Saí à rua apenas com a intenção de reparar nas pessoas que palmilham a cidade. Os seus rostos; os seus corpos; as suas vestes; as histórias que estão contadas nas suas expressões; as emoções que transparecem ou que escondem. Podemos aprender muito sobre alguém estando atentos aos pormenores da sua aparência. Cada detalhe vai narrando uma vida.
Vejo os que passam. Há-los para todos os gostos: os atarefados na sua correria; os que vão devagar para serem vistos; aqueles que na sua submissão param a cumprimentar os importantes; os distraídos que olham para tudo e para nada ao mesmo tempo que vagueiam nos seus pensamentos; os que caminham lentamente a tentar prolongar a existência…
Eu fico por aqui no meio entregue a minha realidade perdida. Observo cada ser humano com a sua particularidade: os bonitos; os feios; os indiferentes; os vulgares; e os outros demais…
Peço por favor ao destino! Quase que rezo a um deus qualquer para que me cruze com alguém parido do ventre da diferença. Que não se encaixe em estatísticas nem use o grilhão de um rótulo. Será que este é o mundo certo para este tipo de gente?
Corta-me a solidão com violência as entranhas do meu ser. A sorte cospe-me em cima cada vez que julgo encaixar-me num canto da sociedade. Escasso é o tempo que consigo viver a mentira de dizer que sou dali ou daqui. Sou de lado nenhum, da terra de ninguém, aquela que não consigo encontrar nem há quem me indique direcções!

quinta-feira, setembro 01, 2016

Gourmet


Atrás das minhas orelhas cheira a queijo. Se por acaso vier um especialista no assunto, com o seu olfacto apurado, cheirar as crostas húmidas que lá se encontram, dirá, com toda a certeza, que são comestíveis. Mais até. Um verdadeiro pitéu. Um prato de delicioso paladar. Um petisco digno dos mais conceituados restaurantes gourmet. Algo reservado somente para as bocas mais exigentes dos réis.
O lixo imundo acumulado ali durante os vários anos da minha existência, onde, por um motivo de rebelião me recusei a lavar, é-me tido como símbolo do meu triunfo sobre a tirania das regras impostas. Congratulo-me por ser um insurrecto sujo e ignóbil. Um ser asqueroso abaixo da condição animal.
Na minha mais profunda sátira sirvo a minha falta de asseio e repugnância ética numa bandeja e coloco-a à mesa dos altos moralistas para que se indignem com a minha insolência.
Vejam! Todo o meu corpo sabe a rebeldia. A minha mente busca apenas a sabedoria. Não me aquieto em jaulas feitas de conforto. Só me conforma a arte e a poesia no seu desassossego. Procuro apenas caminhos onde os passos são raros.
Os companheiros, esses, vão vindo e vão indo pois o rumo não é igual para todos. Sigo por aí determinado, ainda que por vezes sé me reste a solidão, que, na sua doçura ou amargura, me foi sempre fiel.
Na minha bagagem levo um tesouro feito meramente de sentimentos. Desde a acidez do ódio, até à doçura do amar. Conhece-me assim!
Atrás das minhas orelhas cheira a liberdade!


sábado, julho 19, 2014

A dignidade


O disparo da bala ecoou pela vizinhança. O som da viscosidade dos pedaços de cérebro, crânio, sangue e carne humana, a escorrer pela parede, deram seguimento à fatalidade.
O corpo caiu inerte, sem vida. Ou melhor, sem estímulos eléctricos que lhe dessem novamente movimento.
A arma, pesada, de grande calibre para ter a certeza que a intenção não falhava, acompanhou a queda. Manteve-se, eficaz, na mão do homem. Não havia qualquer beleza, ou dignidade no suicídio. Apenas uma cena grotesca e visceral que iria fazer vomitar o pobre coitado que a fosse encontrar. 
Ou então, talvez apenas alimentar a cusquice e a curiosidade mórbida de quem gosta de comentar este tipo de coisas. O povo é assim…
Mas a morte foi consumada com sucesso. 
No entanto, há que salientar o facto de não ter existido qualquer beleza e muito menos dignidade. Foi apenas morte, desejada.

sábado, outubro 26, 2013

BRUTO


Fúria maldita! A raiva toma conta de mim como um fogo que me assoma e tenho inveja de quem sente tranquilidade. Hoje tudo em mim é ódio! Tanta gente no mundo, tantos dramas com eles… Posso ser apenas mais um e se calhar no meio de todos sou apenas ninguém, mas permitam-me ser egoísta: sinto-me, irado, raivoso, violento, bruto e monstruoso! Exijo justiça sem remorsos, sem perdão… Não aceito desculpas por parte de quem me ofende! Quero que padeçam! Simplesmente isso!
Quanto a mim, apenas desejo voltar para a serenidade…


sábado, janeiro 19, 2013

CONHECER



Tu dizes que me conheces. Gostava de saber como podes fazer essa afirmação? Pois eu digo que de mim, pouco ou nada sabes, excepto aquilo que vês. E isso é apenas uma imagem diante os teus olhos que arrasta atrás de si falsos pressupostos. Só isso, nada mais.
Para teres a autoridade de dizer que me conheces, tinhas de entrar no meu íntimo, nos meus sonhos, na minha mente e conheceres todos os seus segredos. E disso, nada sabes. 
Então porque dizes que me conheces? Com a mesma arrogância de quem diz que conhece todos os segredos do cosmos. Com a mesma ilusão de quem se acha dono da verdade absoluta. 
Quando me julgas estás-me a mostrar aquilo que és. Não te estou a julgar de volta, apenas a interpretar as tuas acções. De mim nada sabes. És pequeno, ignorante, néscio, incoerente, desinteressante e estúpido. É tudo isso que és quando me julgas a mim. 
Peço desculpa pela rudeza das minhas palavras. Peço desculpa se a verdade te dói. Mas não tentes preencher a tua vida vazia a avaliar a vida dos outros.

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sábado, novembro 26, 2011

COISAS QUE ME FAÇAM ACONTECER



Há dias em que conversas banais me incomodam. Falar sobre o tempo, a crise, a vida dos vizinhos, de não sei quê, de não sei das quantas, de não sei quem! Perdoem-me o desabafo: Mas a vida é muito mais que isto! Irritam-me coisas tão básicas!
Apelidem-me de arrogante, louco, frio ou até mesmo de monstro. Para mim tanto me faz! Mas falem-me de coisas com beleza. Coisas que me façam sonhar. Coisas que me façam acontecer!
Não me deixem adormecer no marasmo das banalidades. Alimentem-me com vida para que nasça em mim mais vida e todo eu seja criação!
Argumentem o que quiserem, mas o meu punho vai bater forte na mesa, sempre com a mesma convicção: A vida não é uma coisa banal!


sábado, março 17, 2007

ANEDOTA MÓRBIDA



Olho o espelho desgastado pelo tempo
Cumprimento o monstro que me observa
Respiro fundo a nostalgia que me rodeia
Apetece-me dançar ao som do silêncio
Mas em vez disso rio-me tresloucado
Da anedota mórbida que é a vida
.
.
Marilyn Manson - The Nobodies

sábado, outubro 21, 2006

AMBIÇÃO


Viver e morrer
Rir e chorar
Mas uma vez perdida a inocência
Nunca voltaras a ser o mesmo
Viver as ambições
Ou pelo menos pensar que sim
O fardo pesado
De querer sempre mais
Corta-te as asas
Afunda-te no abismo

Ambição ou nada
Podridão ou nada
És meu inimigo
Apesar do sorriso
Mais cedo ou mais tarde
Vais ser minha vítima
Receber o meu punhal no teu peito
Antes que prove o teu veneno
Esses arrepios que sentes
São a minha noite que cai sobre ti

Não perdes as hipóteses
Que a vida te dá
Mas pelo caminho
Esqueces-te de viver
Mas eu não me esqueço
Do rosto do ódio
Só se vive uma vez
Não quero desperdiçar
A vontade de evoluir
Nesta corrida sem nexo

Bafo pútrido de ódio
Enche os meus pulmões de raiva
Quero viver de outra forma…
Bafo ofegante de ódio
Símbolo de uma vida vazia
Leva o meu coração para longe…

Sol negro de raiva
Queima as minhas asas de ouro
Quero viver de outra forma…
Sol gelado de raiva
Símbolo de um abismo frio
Leva o meu coração para longe…

Abismo vazio de alegria
Afunda-me no meu contentamento
Quero viver de outra forma…
Abismo desprovido de alegria
Símbolo de uma vida esgotada
Leva o meu coração para longe…


Iron Maiden - Futureal (live)