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sábado, março 01, 2025

Estudem, façam sucesso e mostrem ao mundo


Acertou em cheio! Disparou com mestria a fisga de infância. Uma pedrinha arredondada não falhou a nádega esquerda da irmã!

Pobre coitada! Soltou um berro esganiçado. Saltou, enquanto levou as mãos ao traseiro na esperança de aliviar a dor inesperada. De imediato, tornou-se o centro da atenção dos convidados. Para piorar, despejou o champanhe em cima da senhora com quem conversava. Mais um grito. Ainda por cima, desequilibrou-se e partiu um salto.

Depois da surpresa inicial, os presentes começaram a rir. (Vamos ser francos. Teve piada!) Não tardou até uma gargalhada colectiva tomar conta do jardim. 

Já ela... Sentiu tanta vergonha! Aplicou-se ao máximo para organizar aquela festa na casa dos pais, da vila do interior onde passou a meninice. Comprou um vestido de gala, junto com uns sapatos lindos. Arranjou o cabelo. Não poupou, nem dinheiro, nem esforços. Transformou-se numa mulher de sucesso na cidade e fazia questão de mostrar àquelas gentes isso mesmo.

Agora estava no chão. Gozada por todos. Ficou furiosa. Olhou para cima e viu o irmão a rir como um desalmado na janela do quarto. Aquela brincadeira não ia ficar impune! Já não era uma miúda franzina para suportar as humilhações das travessuras dele. Não tinha idade para chamar os pais para virem em seu socorro. Nem um valente puxão de orelhas ia resolver a situação. Era tempo de se vingar!

terça-feira, fevereiro 25, 2025

Viagem para o trabalho


Certos acontecimentos deviam trazer um rótulo com a indicação: 'mau augúrio'. A sério, um grande letreiro com sinal de aviso. A vida não vem com instruções e as pessoas não sabem interpretar estas coisas.

Naquele dia fui trabalhar mais tarde duas horas. O comboio daquele horário estava muito mais vazio em comparação com a hora de ponta. Sentei-me tranquilo num banco sozinho. À minha frente estava apenas uma senhora entretida a tricotar. 

Ao contrário dos outros dias, onde estava rodeado de outras criaturas ensonadas, cujo dever laboral obrigava a encher o vagão, pude observar o cenário do trajeto. Vilas, casas, campos, pessoas, foram alvo da minha atenção através do vidro, já debaixo do sol do meio da manhã. Era agradável viajar assim. 

Perto da última estação antes da ponte vi um grupo enorme, com cerca de cem crianças. Pela aparência faziam parte de um jardim de infância. Tinham entre três e cinco anos e vestiam um bibe colorido. Corriam entre brincadeiras despreocupadas num descampado. Algumas mulheres olhavam para elas com aspecto zeloso. Até aqui tudo normal. 

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

São Valentim no Admirável Mundo Novo

Nunca tinha visto tal coisa na vida! Os meus olhos estavam completamente fixos na cena! Sabem aquelas pessoas estarrecidas quando vêm alguém numa cadeira de rodas? Era essa a minha cara a olhar para aquilo!

Um estalar de dedos diante do meu rosto chamou-me de volta à realidade.

– Hey! Estou aqui! – Resmungou a minha namorada.

– Desculpa, mas estás a ver aquilo!? – Apontei com subtileza para a mesa ao lado, onde um homem de cabelo branco apreciava um belo jantar romântico com um robô feminino.

– E depois!? Não te chega a visão mesmo à tua frente? – Empinou o peito. Um decote bem generoso fazia sobressair o seu par de mamas irrepreensível. As quais fez questão de realçar com as mãos abertas de lado.

– Calma. Não precisas insinuar-te tanto! – Exclamei envergonhado. – Mas não achas bizarro o homem ter trazido um robô para um jantar romântico?

– Se ele gosta de chapa e hidráulicos, é problema dele. Não sejas preconceituoso, já não estamos em 2025, está no direito de o fazer. – Bufou-me amuada. – Já eu, sou de carne e osso. Se gostas disto, espero bem que a tua atenção se vire para mim!

– Certo. Certo. Tens razão. – Resignei-me.

Tinha gasto uma pequena fortuna ao reservar a noite de São Valentim naquele restaurante chique. Não era para qualquer um. Pagava-se bem caro, acreditem. Queria dar um jantar de sonho à minha namorada. A sério, a ideia era essa. Não tenho culpa se a curiosidade levou a melhor.

O homem com a acompanhante robótica estragou-me os planos. Nem imaginam como era difícil ignorar algo tão fora do comum. Tinha de admirar a capacidade dos engenheiros ao concederem a máquina. Apesar de manter o aspecto mecânico, o design era incrível, com as curvas do corpo a manterem linhas femininas. Para não falar na linguagem corporal, a imitar os gestos de uma dama digna da alta sociedade. 

Só não compreendi porque não preferia uma mulher verdadeira!? Não me julguem. Vocês questionavam o mesmo, isso eu sei!

Fomos servidos com todo o luxo. Nada a reclamar nesse sentido. O jantar continuou, embora o romantismo nem tanto. De vez em quando lá me escapava o olhar, para ser imediatamente repreendido pelo pigarrear chateado da minha companheira.

Paguei e fomos embora. Não sem antes de dar mais um longo reparo no casal improvável ao meu lado. Obviamente, quando cheguei a casa tive de me esforçar mesmo bastante para recuperar o romantismo desejado. Foi difícil, mas lá consegui.

Uns dias depois, no trabalho, todos os funcionários estavam empolgados pois íamos receber a visita do chefe internacional da firma. Colocamo-nos em fila para cumprimentar a comitiva estrangeira. Queríamos fazer excelente figura para mostrar a nossa eficiência e organização. Afinal quem nunca quis impressionar os maiorais?

Um grupo de pessoas, com visual executivo, entrou na sala. O diretor da minha sucursal mostrava-se orgulhoso das instalações e dos funcionários. Indicou o caminho a um homem cuja aparência acusava ser o patrão. Qual não é o meu espanto quando o reconheço do restaurante!? A seu lado estava o robô feminino.

Falavam alemão. Mas eu tinha a certeza de os ter ouvido falar português no restaurante. Logo alemão! Uma língua da qual não percebia patavina. Riam-se numa conversa animada. Ou pelo menos parecia.

Ao conhecerem os meus colegas, o homem falava alemão e o robô servia de intérprete. Cumprimentava e seguia para o próximo. Bolas! Sabia falar português e a mim não me enganava. Não precisava de tradução nenhuma. Aquela encenação era só para intimidar.

Chegaram ao pé de mim. O meu diretor apresentou-me como chefe de projetos. Suponho eu, pois o meu cargo era esse. Das palavras arranhadas só compreendi o meu nome.

– Já conheço o senhor. – Traduziu o robô com o seu rosto a imitar as feições humanas. – Estávamos no mesmo restaurante, na outra noite.

Havia um grande ecrã na parede do salão, usado para fazer apresentações. Pela graça da tecnologia moderna o robô usou-o para mostrar uma imagem daquele jantar no restaurante:

A minha namorada a gesticular junto às mamas, enquanto eu fazia um ângulo de noventa graus com a cabeça na direção da mesa do suposto chefe ‘alemão’. 

Depois fez zoom na minha cara. O filme do momento era composto de milhares de frames, contudo escolheu propositadamente aquele onde parecia mais parvo. Olhos esbugalhados, boca aberta e aparência de matarruano. Uma careta digna dum episódio do ‘Mr. Bean’.

Os meus colegas tentavam conter o riso. Dividiam a atenção entre mim e o ecrã. Alguns sussurravam entre si. Ia sofrer uma avalanche de piadas. Já podia imaginar o suplicio.

Engoli um sorriso forçado. Cumprimentei o homem e de seguida o robô como se fosse gente. – Muito prazer. Sinto-me honrado. – Disse, a tentar disfarçar o embaraço.

– O prazer é todo nosso. – Respondeu o robô. 

Ao saírem, deu-me um aceno de despedida e piscou o olho. A sério, piscou mesmo o olho! 

Amaldiçoei os engenheiros capazes de criar aquela máquina maquiavélica, com cara, olhos e boca como gente. Já não bastava ser a companhia romântica do patrão, ainda era um supercomputador com pernas e braços. Pior ainda, capaz de compreender e usar a ironia contra mim.

Fui gozado pelo algoritmo de um ser artificial. De igual modo pelo seu proprietário, o qual, também era meu chefe. De certa forma meu proprietário igualmente, pois pagava-me um bom ordenado. Por isso era capaz de comprar jantares em restaurantes de luxo. Tudo não passava de um círculo vicioso.

Enfim. A vida continuava. Restou-me suportar as piadas dos colegas e aceitar as coisas como são. É um ‘Admirável Mundo Novo’, concluí.


Nota: a ação ocorre em 2035, num futuro muito próximo.



Informação: Este conto é propriedade intelectual de António Silva, no caso do seu conteúdo ser publicado noutros lugares sem os devidos créditos ou autorização, serão tomadas medidas segundo o Código do Direito de Autor.

quarta-feira, março 20, 2024

Arteonautas - Interpretação histórica de uma pintura na perspetiva de observador mais ou menos passivo


– Estamos invisíveis! Tens a certeza?

O líder do duo verificou os instrumentos novamente. – Sim. Já te tinha dito. Agora cala-te e observa.

– Não sei. Tenho medo. Não confio nesta tecnologia do futuro.

– Tem calma. Já fiz isto muitas vezes. Fica em silêncio e vamos espreitar a malta ali na mesa.

– Bolas! Não achas estranho entrar dentro de uma pintura!

Levou as mãos à cabeça. – Irra! Já te expliquei: este dispositivo permite entrar dentro de obras clássicas tal como esta, quando representam o quotidiano de antigamente. Cria uma dimensão compacta, através da reorganização da realidade, suportada pelas imagens da pintura. Desta maneira podemos estudar a história. – Gesticulou um desenho no ar. – Agora cala-te de uma vez por todas! Ainda nos percebem e confundem fantasmas.

– Está bem. Está bem! Eu acredito em ti. – Resmungou. – Mas repara, assim de repente, a olhar para eles, não parece serem muito diferentes das pessoas de hoje em dia. Olha só: estão na coscuvilhice! 

– Sim, sim. Isso é uma coisa transversal a todas as eras. É uma parte essencial da convivência do ser humano. A sociedade criou os seus alicerces no ato de coscuvilhar.

– Estão a dizer o quê?

Verificou o tradutor. Só conseguia compreender algumas palavras. – É difícil entender. Estas línguas antigas são bastante diferentes das atuais. Confundem bastante os tradutores.

– Agora fiquei com curiosidade.

– Paciência. Tens as coscuvilhices do nosso tempo para te entreter. Embora neste caso, eu tenha algumas dúvidas. Repara bem, estão todos a falar com a rapariga bonita. A outra pobre coitada, está a olhar pela janela. Não lhe ligam nenhuma.

– Realmente. Aquela coisa na cabeça também não ajuda nada. Se continuar assim vai ficar solteira toda a vida. Podia aprender com a outra, ali toda oferecida! Olha só naquele malandreco com a mão no peito dela. – Apontou. – Nem se preocupa em ser subtil. Quer e apalpa sem qualquer pudor!

– É possível. Embora não caiba a nós fazer esse tipo de julgamentos. Vamos mas é fazer mais silêncio porque, apesar de estarmos invisíveis, ainda nos podem ouvir.

Um homem alto, de cabelo comprido, bem vestido, entrou na sala. Tirou o chapéu e cumprimentou com educação todos os presentes.

– Está bem. Eu calo-me. Deixa-me só dizer mais uma coisa, apesar de ainda não existir Heavy Metal nesta altura, os homens têm em todos os cabelos compridos e pinta de metaleiros, com aquelas roupas mais parecem uma banda de Folk Metal.

Riu-se. – Só tu para te lembrares de uma coisa dessas. Aponta esses pormenores todos e falamos sobre isso quando voltarmos. Se não estivermos sossegados, daqui a nada dão connosco. Já te avisei. Eles têm espadas a sério. Não queiras que venham atrás de ti. Aquelas lâminas são bem perigosas.

– Estamos protegidos, além disso não nos vêem.

– Isso pensas tu. Não é bem assim. Os fatos tornam-nos invisíveis até certo ponto. Em caso de ataque ficam vulneráveis, não são armaduras. As espadas podem trespassar. Acredita, já me aconteceu.

– Compreendido. Eu não me mexo. – Olhou para cima. – Também gosto da decoração. Aquele quadro é sobre o Ganimedes? Olha aquilo! Eu tinha a ideia desta gente de antigamente ser mais decente. Aquele cu é bem gráfico, mais parece pornografia! Além disso, estão todos à volta da moça, a salivar. Cá para mim, isto vai acabar de maneira obscena.

– Ai mãe! Não te conhecia assim tão puritana!? Eu mandei-te fechar a matraca e não fazer julgamentos!  – Barafustou. – Isto não é nenhuma brincadeira. Agora o cão já nos topou. Está a ladrar para nós!

– Está bem. Desculpa. Não era minha intenção... – Encolheu os ombros.

– Nunca mais te trago comigo. Vamos embora antes de sermos apanhados. Não me apetece estar a fugir desta gente.

Regressaram. Fizeram mais alguns apontamentos para o relatório. – É apenas uma cena banal, sem interesse histórico para a minha pesquisa. – Concluiu o líder.

– Tirar estes fatos dá uma trabalheira. – Resmungou, pois cada peça da indumentária tinha de ser manuseada com cuidado. – Olha, quando estávamos lá dentro, contaste como a máquina transforma os quadros em realidade... – Bufou, enquanto se debatia com uma manga.

– Sim. Já te expliquei como funciona.

– Eu percebi, mas fiquei com uma dúvida. Se aquilo transforma quadros em vida real, como podemos saber se também não estamos numa pintura qualquer?

O líder fez uma pausa. Olhou em volta e apurou o ouvido. – Não sabemos!


Interpretação histórica de uma pintura na perspetiva de observador mais ou menos passivo

Conto elaborado para um desafio do Laboratório de Escrita, o qual consistia em escrever um conto sobre a interpretação de uma obra de arte clássica.

Obra: Conversação.

Autor: Pieter de Hooch


terça-feira, dezembro 19, 2023

Conto de Natal em cinquenta palavras


Era véspera de Natal. Uma criança encontrou um porquinho perdido e trouxe-o consigo. Já em casa, pediu ajuda para cuidar dele. A família, indiferente a esta época, nunca preparava ceia. Ao verem o porquinho, reuniram-se. Aconchegaram-no, partilharam comida. Passaram a noite em união. O porquinho presenteou-os com o Espírito Natalício.

Conto elaborado para um desafio do Laboratório de Escrita

quinta-feira, dezembro 07, 2023

Anoitece mais cedo no outono


É engraçado, ou no mínimo curioso, como estas coisas funcionam. 

Com a chegada do outono e a insistência das primeiras chuvas, sentia falta de algo. Nada que fosse material, uma roupa quente pudesse aconchegar, ou uma comida mais forte pudesse satisfazer. Não. Nada disso. Era uma sensação inexplicável. Como se alguma coisa lá dentro mendigasse por atenção. 

A hora mudou, anoiteceu mais cedo. O tempo escuro convidou a sentar-se no sofá para um pouco de descanso antes do jantar. Navegou sem destino pela internet, até se deparar com uma imagem a representar todas as fases da lua. Compreendeu o significado. A sua espiritualidade estava a chamar. 

Pousou o portátil. Dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta do meio, da mesa de cabeceira. Dentre os vários objetos pessoais, alcançou uma bolsinha de pano. Apesar de estar misturada com todas as outras coisas mundanas, pegou nela com reverência e acariciou-a. Tinha um fio que a fechava, libertou-o e de dentro tirou um baralho de tarot. 

Olhou demoradamente para a arte em cada carta. Para o comum mortal, tratava-se apenas um pedaço de papel com um desenho bonito. Podia ser só isso. E se fosse, mesmo assim era tanto. No entanto, nas suas mãos, eram coisas vivas. Mensagens por decifrar. Sabia que o oráculo precisava de atenção. Ou o melhor, o seu próprio espírito precisava de atenção.

Com um suspiro profundo, sentou-se na cama. A luz suave do candeeiro convidava à introspecção. Os dedos deslizavam com suavidade sobre a superfície lisa das cartas. Cada uma passava pelas suas mãos  devagar. Todos os pormenores das imagens desenhadas com grande cuidado, tinham um segredo. Pequenos detalhes que todos juntos formavam em simultâneo, um mistério e uma resposta. Arte e magia numa simbiose perfeita. 

Começou a embaralhar as cartas. Mesmo sendo um processo simples, demorou até se certificar de estarem todas bem misturadas. Finalmente, quando sentiu ser o momento certo, parou. Com os olhos fechados e a mente aberta, cortou o baralho a meio. Retirou a carta de cima da metade de baixo. Como estava virada não podia saber qual era. Ainda assim, sentia a energia dela. Vibrava, quase como se estivesse viva. 

Virou-a. Era a Roda da Fortuna. Carta número dez. Representa o movimento constante da vida, as mudanças inevitáveis, todos os ciclos da experiência humana. Não sentiu surpresa ao verificar o resultado. Das setenta e oito possíveis foi exactamente aquela a escolhida. A mesma que fala das fases pelas quais passamos de forma cíclica. 

Olhou para a carta com um sorriso nos lábios. Interpretou como uma mensagem de esperança. Parecia completamente adequada para o momento. Sentiu-se bem.

Olhou para todas as outras cartas também. Cada uma tinha o seu espaço. Refletiu sobre o significado delas. Eram um espelho da alma. Falavam sobre a sua jornada espiritual. Como se desprendeu de muitas coisas pesadas. Dos desafios enfrentados. A força conquistada para chegar até ali. Compreendeu e aceitou o convite para continuar a crescer. Agradeceu, depois, ao oráculo pela mensagem.

Juntou o baralho novamente e guardou-o na bolsinha de pano. Voltou a colocá-lo na gaveta, ainda com mais reverência. Naquele cantinho escondido, mas tão especial. Sentiu-se mais leve. A chuva lá fora parecia menos insistente e o outono menos melancólico.

Voltou para a sala, sentou-se no sofá e pegou no portátil novamente. Contudo, em vez de navegar sem rumo pela internet, decidiu escrever. Começou com frases soltas sobre a vida e os sentimentos. Depois, as palavras fluíam com facilidade, libertas na inspiração do éter. Nasciam poemas e prosas. Ideias e pensamentos. As páginas do processador de texto ficavam assim cheias pela criatividade outonal.

Quando terminou, sentiu uma satisfação aconchegante. Ouvia a chuva a cair. Sorriu. Respondeu ao apelo do seu espírito e sabia disso. Concluiu que o mundo interior também precisa de atenção.

Talvez por isso exista o outono. A noite vinha mais cedo porque é suposto o corpo abrandar. A chuva caia lá fora, pois o aconchego convidava a imaginação a sair. Era esse o pequeno grande mistério refugiado naquele momento. Tão simples e perfeito.


segunda-feira, abril 10, 2023

Sem destino nenhum

– Ainda não deixaste de fumar?

– Tem calma, depois deste desisto. – Deu uma passa longa e logo a seguir atirou o cigarro fora juntamente com a caixa vazia. – É hoje que fugimos?

– Ó sim. – Anuiu confiante. – Vem comigo. – Caminharam até uma carrinha estilo furgão, antiga. Talvez fosse dos anos oitenta ou até anterior. Entre a descoloração e algumas amolgadelas meio reparadas, nem dava para perceber a marca, quanto mais o ano.

– O que é isto?

– O nosso meio de transporte.

– Esta coisa anda sem se desfazer aos bocados?

– Podes ter a certeza disso. Aliás, eu, pessoalmente tratei de verificar a estrutura e o motor. Podemos dar a volta ao mundo e não nos vai deixar mal.

– Se tu o dizes, eu acredito em ti.

– Temos tudo que precisamos. – Abriu a porta traseira e mostrou. Revelou um interior generosamente grande. Lá dentro estava apenas um colchão insuflável.

– Parece uma casa acolhedora. – Admirou toda a área vazia. – Teto não nos vai faltar. 

– Não podíamos dormir à chuva.

– O que fizeste às tuas tralhas?

– Vendi. – Riu-se. – Temos de ter dinheiro para comer.

– Também fiz o mesmo. Parece que estamos ricos. Temos a barriga cheia sempre garantida.

– Vamos. – Entraram.

– Onde foste desencantar esta coisa? É enorme. Mais parece um camião americano. – Deitou-se no assento. – Consegues conduzi-la pelo menos?

– Eu conduzo qualquer coisa. Até uma nave espacial se for preciso. – Brincou.

– Que temos aqui? – A sua atenção virou-se para um rádio antigo de cassetes. – Isto traz-me recordações. Ainda funciona?

– Nem duvides. Não só funciona como traz uma colecção de músicas para a gente ouvir. – Abriu o porta-luvas e caíram dezenas de cassetes antigas. Sem dúvida, não eram utilizadas há mais de duas décadas, pelo menos.

– Ui tantas! – Verificou algumas com curiosidade. – Tens a certeza que isto toca mesmo?

– Coloca uma. Não há como experimentar.

– Tens razão. – Segurava uma caixa na mão. Abriu-a, retirou a cassete e colocou na ranhura. Já não se lembrava bem como se usava uma coisa daquelas. Não era difícil. Ao carregar no play começou a tocar "125 azul" dos Trovante.

– Nem de propósito. Excelente banda sonora. – Ligou o motor da carrinha velha sem qualquer dificuldade. – Eu disse que o motor estava bom. – Sorriu.

– Vamos mesmo fazer isto? – Tocou-lhe na mão e devolveu o sorriso.

– Sim. Hoje vamos 'arrancar sem destino nenhum'.


sábado, fevereiro 25, 2023

O Pianista


Já repararam como o acto de chorar pode representar vários sentimentos? Para os bebés é uma forma de chamar a atenção, já para os adultos pode ser: dor; angústia; desgosto; alívio; alegria; emoção... Calhou a este último ser o responsável pelas lágrimas de uma plateia inteira. Tomados pela comoção, cada um dos espectadores, expressou-se com gotículas salgadas a escorrerem pelo rosto. Isto antes de se conseguirem levantar para uma monumental e demorada ovação de pé. 

No palco, o pianista tentava agradecer por toda a aclamação, com uma linguagem corporal tímida. Parecia até, estar a pedir desculpa por existir a toda aquela gente. Após longos minutos, lá conseguiu convencer os espectadores a parar com as palmas. Contudo, passados poucos segundos, começaram todos a gritar em uníssono «MAIS»! 

O pianista, no alto do seu apogeu, declinou. Tentava acalmar a assistência sem sucesso. A sua cabeça rodava em negação. A plateia não se contentava com aquela resposta e insistiam «MAIS»! «MAIS»! «MAIS»! 

«NÃO»! A voz do pianista ecoou por toda a sala de espetáculos. Soltou um grito visceral, uma ordem imperativa saída diretamente da alma. Calaram-se todas as vozes insistentes. Ficou apenas o silêncio. 

«A peça não está completa, muito menos é da minha autoria. Eu não mereço os vossos elogios». Desabafou o pianista, perante os rostos surpreendidos que o encaravam atónitos. 

«Ouvi os primeiros acordes num sonho, quando era criança. Ficaram entranhados na memória. Eram uma presença constante em tudo o que eu fazia. Aquela harmonia não me abandonava, estava constantemente a ouvi-la na minha mente, por isso, decidi aprender música». Explicou o pianista. 

«Depois, enquanto crescia, sabia que tinha de encontrar o resto da melodia. Comecei então a procurar nos pequenos pormenores da vida. Aos poucos descobri o segredo. Certas cores transformavam-se em notas musicais. Algumas paisagens convertiam-se em pequenos trechos, assim como os beijos no calor da adolescência». 

O pianista projectava a sua voz intensa por todo o teatro. Chegava a todos sem qualquer auxílio de equipamento sonoro. «Aprendi mais tarde o nome do fenómeno; chama-se sinestesia. Acontece quando o cérebro interpreta algo com um sentido trocado, no meu caso imagens, sabores, toques, são interpretados como música. Em cada acorde, em cada pequeno trecho descoberto, eu acrescentava à partitura. Aos poucos, foi ficando mais completa até se transformar naquilo que toquei para vocês hoje». 

O público escutava a explicação com curiosidade. Certamente acreditavam que a genialidade daquele pianista estava acompanhada por uma dose generosa de loucura. Talvez não estivessem a enganados. 

O músico, calou-se de forma abrupta. Ficou quieto e encarou-os durante alguns momentos. Logo a seguir correu para o piano. Pegou nos papéis da partitura e acrescentou mais umas quantas notas. «Vocês querem mais? Então eu dou-vos mais»! 

Acomodou-se na sua pose concentrada, sentiu as teclas e tocou durante cerca de trinta segundos. Isto, se fossem contados pelo relógio. Já para a plateia, o tempo estendeu-se. Cada nota parecia uma viagem e aquele meio minuto transformou-se num universo inteiro. 

«Gostaram»? O pianista voltou até à borda do palco. «Esta parte escrevi com as vossas lágrimas. Mais um pequeno acrescento à obra completa. Mas como disse, eu não posso receber o mérito da sua autoria». 

Começou a andar de um lado para o outro. «Esta composição, é da autoria do próprio Criador. É a música da vida! Talvez contenha até o segredo do Universo e existe em todas as coisas. Eu só me limito a tocar aquilo que consigo entender. No entanto, podem acreditar. Vai chegar o dia em que eu vou conseguir completar a melodia. Depois, tudo fará sentido». 

«Porquê»? Os rostos fixos no pianista adivinhavam a pergunta. «Porque desde o nascimento; desde a primeira estrela; desde a primeira centelha de criação; esta sinfonia está lá. Com todos os Enigmas do entendimento humano respondidos. ». Quietou-se por alguns instantes. 

«Quem sabe, tudo se resuma à consciência solitária de cada um de nós, perante a nossa própria fragilidade. Contudo, na minha opinião, não precisamos de enfrentar esta existência sozinhos. Podemos encontrar conforto e inspiração nas histórias, na arte, na sabedoria e naqueles que nos rodeiam». 

O seu discurso mais parecia uma declamação poética. As palavras surgiam-lhe na boca de forma espontânea, sem qualquer tipo de reflexão ou ensaios prévios.

«Devemos procurar a verdade, a beleza e a bondade no mundo e em nós mesmos, encontrar assim um sentido para a nossa vida e um lugar no cosmos. A nossa pequenez torna cada momento precioso e único. Então, que todos possamos vivenciar esta liberdade, amar intensamente e aprender sempre»!

Quem já teve um momento de revelação ou uma ideia grandiosa, certamente reconheceu a expressão iluminada no rosto do pianista. A mesma de quem consegue ver a ordem escondida no caos.

«Quando finalmente completar a partitura, talvez toda a nossa ignorância desapareça e algo novo nasça, gerado nos alicerces da sabedoria. A vida é, assim, um misto de descoberta, viagem e despedida. Uma melodia interpretada por todos os sentidos, como esta peça musical que partilho e componho convosco»… 

Deixou a frase a meio e olhou para o piano com uma lágrima a cair do seu próprio rosto antes de continuar. «Julguei estar a compor um requiem para um homem só, quando afinal era uma epopeia para cada um de nós»! 


sábado, novembro 12, 2022

"Para sempre. Aqui estou."

"Para sempre. Aqui estou." O rapaz soltou estas palavras com a cara mais séria do mundo.

O pai, o mesmo que era suposto apoiar o filho, não conseguiu conter uma gargalhada barulhenta. O rosto ficou vermelho com tanto riso e as lágrimas começaram a cair em abundância, mais parecia um desenho animado. A certo momento atirou-se para o chão onde se começou a rebolar no meio daquelas gargalhadas surreais.

O filho só queria um conselho sobre quais as melhores palavras a dizer à rapariga por quem estava apaixonado. Supostamente o pai seria a melhor escolha para esta função, ou assim julgava ele. Mas ao ver aquela figura desconchavada a contorcer-se pelo chão como uma minhoca bailarina, ficou bem arrependido por lhe ter pedido ajuda. Nunca pensou vir a ser tão gozado pelo próprio pai!

Alertada por aquele chinfrim a mãe não tardou a aparecer para ver o que se passava. Ao deparar-se com aquela cena, questionou pasmada: “Mas que maluqueira é esta”!?

O filho com cara de amuado não respondeu. O pai tentava recuperar o fôlego do riso. Com algum esforço lá conseguiu sentar-se no chão. “O nosso filho gosta de uma rapariga. Estava a ensaiar comigo o que lhe ia dizer”. Fez uma pausa para ganhar mais ar. “Então disse que ia ficar com ela para sempre”!

A mãe também se riu. Contudo, na sua sensibilidade maternal lá se foi abraçar ao filho. “Estou tão feliz por ti. Estás a crescer tão rápido e numa idade tão bonita”. Apertou-o entre os seus braços protetores. “A primeira paixão é sempre memorável. Mas tenho de te avisar que na adolescência apaixonamo-nos ‘para sempre’ uma data de vezes”. Explicou, enquanto o pai acenava com a cabeça em concordância.

“Quantas vezes achas, quer eu, quer o teu pai, nos apaixonamos eternamente por outras pessoas, antes de ficarmos um com o outro”?

“Não faço ideia.” Murmurou o rapaz um pouco envergonhado com aquela conversa tão íntima com os pais.

A mãe continuou: “Muitas! É uma altura tão bonita da vida. Deves aproveitar ao máximo e dizer aquilo que sentes. Só assim se aprende a viver”!

Por esta altura o pai já se tinha levantado e não ria como um maluco. Também se foi abraçar ao filho. “Vai lá dizer à moça que estás com ela ‘para sempre’. Se a coisa não resultar nós estamos aqui para ti e ‘para sempre’, nunca duvides disso”.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


domingo, julho 24, 2022

Como terminar uma relação

– Queres acabar comigo!? – bufou Sara com aqueles olhos enormes completamente abertos, sem pestanejar.

–  Sim – respondeu Joaquim, como quem está resignado.

– Espero bem que isto seja uma brincadeira! Investi vários anos nesta relação. Sempre fui bem clara ao querer construir um futuro contigo. Crescemos juntos até aqui e fazemos juras de amor praticamente desde a adolescência. Sacrifiquei-me e dei tudo de mim. Entreguei-me de corpo e alma e acreditava fazeres o mesmo. Criámos uma vida juntos, por amor de Deus! – lembrava Sara. – Agora estamos quase na meia-idade e acabas desta maneira!? – O tom danado da voz dela, juntamente com os olhos esbugalhados, quase tornavam a cena cómica, não fosse o facto de ela estar mesmo extremamente zangada.

– Não é uma brincadeira. Infelizmente estou a falar a sério – argumentou Joaquim.

– Por favor, dá-me uma boa explicação! – exigiu Sara, com o rosto a transparecer fúria.

 

Um dia antes

Não era comum ele andar de comboio. Detestava as confusões. Aglomerados de gente entretida com conversas banais. O Joaquim gostava da sua vida simples e amiga do ambiente. Nada de discotecas, festas, ou outras ocasiões com a participação de muitas pessoas. Adorava a sua existência pacata junto da companheira, Sara. Morava longe das cidades, onde não há pressas. Quando precisava de se deslocar, utilizava o seu carro elétrico, do qual tinha um particular orgulho, pois tinha-o comprado com as suas poupanças.

Naquele dia, como teve de tratar de uns assuntos naquela zona, mesmo sozinho, decidiu fazer uma viagem turística pela linha do Vouga. Alguém lhe disse ser uma viagem bonita, por paisagens naturais. Lembrou-se igualmente das histórias da avó, ela falava bastante sobre os passeios naquela linha “no tempo dela”. Esses argumentos despertaram-lhe a curiosidade e foi.

Ficou um pouco desapontado quando viu uma locomotiva a diesel, pois esperava uma clássica a vapor. Para compensar, as carruagens eram de madeira, completamente vintage. Cheiravam a antigamente. Reparou na grande quantidade de turistas a participar na viagem. Imaginava os passageiros de outros tempos, com roupas típicas, a deslocarem-se entre a casa e a cidade para trabalhar, sem imaginarem que no futuro aquela vida dura ia ser recordada como uma forma de turismo.

Entrou numa carruagem e sentou-se num banco qualquer. Imediatamente, um homem mais velho, possivelmente na casa dos sessenta, sentou-se em frente a ele. Vestia de forma peculiar. Usava um chapéu largo e um casaco castanho, apesar do dia estar quente. A primeira impressão de Joaquim foi a de ser um figurante, contudo o fulano pegou num caderno de apontamentos e numa caneta daquelas antigas, com recarga de tinta. O homem olhava em volta e ia escrevinhando enquanto o comboio seguia o seu trajeto. Aparentava não dar importância aos cenários por onde passavam, estava só concentrado na sua escrita.

Abstraído a olhar pela janela, Joaquim deixou de lhe dar atenção. Era de facto uma viagem bonita, como lhe tinham prometido. Só quando estava a chegar ao destino reparou no homem novamente e em como este o olhava com alguma curiosidade. Continuou a fixá-lo durante alguns segundos até escrever algo no caderno.

Na chegada, o homem arrancou uma folha e dobrou-a em quatro. Levantou-se logo de seguida e saiu apressadamente, deixando o papel dobrado no assento. Joaquim pegou nele e tentou localizar o homem entre o grande número de turistas a bloquear a saída. Não o conseguiu encontrar no meio de tanta gente. A curiosidade do Joaquim impeliu-o então a ler a folha esquecida. "Acaba com a Sara", dizia o bilhete.

 

De regresso ao presente

– Deixa ver se percebi! Vais terminar uma relação de anos comigo porque um idiota qualquer deixou um bilhete no comboio a dizer para acabares comigo! Não te parece ridículo? – Sara continuava incrédula. Mantinha os enormes olhos abertos, pareciam estar prestes a saltar das órbitas, tal era a fúria sentida por ela.

– Ainda não percebeste. Ele não era um idiota qualquer. – Joaquim fez uma pausa dramática. – Reconheci aquela caneta mais tarde, quando cheguei a casa, e não tive dúvidas.

– Como assim, reconheceste a caneta? Explica bem explicado!

Joaquim tirou um pequeno estojo do bolso. Abriu e mostrou uma caneta antiga.

– Deram-me este presente quando entrei para a escola primária. Na altura foi muito cara. A ideia era usá-la quando fosse adulto. Depois, com o surgimento das novas tecnologias deixei de escrever à mão e passei a fazer as minhas notas no telemóvel. Nunca cheguei a usar a caneta. Por isso, ficou escondida numa gaveta e já não me lembrava dela, até ontem. O homem usava exatamente esta mesma caneta. Sabes o que isso significa?

Sara não respondeu. Atónita, limitou-se a esperar a resposta.

Joaquim segurou a caneta diante dos olhos dela.

– Aquele homem era eu, vindo do futuro!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


quarta-feira, junho 29, 2022

Baseado numa história real

– Então deixa-me recapitular para ver se percebi! Tu vais participar numa competição de escrita, mas deixas tudo para o último dia? – disse ela preocupada.

– Exatamente. – respondeu ele com tranquilidade.

– Tu tens noção de que fazer as coisas à pressa e em cima do tempo pode correr muito mal? A isso chama-se procrastinação! O mais certo é qualquer dia falhares o prazo! – chamou-lhe a atenção.

– Relaxa. Tu stressas demais. Eu sou assim. Já sabes desta superstição. Tenho de mandar as coisas no último dia. Se possível, até no último minuto.

– Não tens medo de qualquer dia não entregares na data-limite?

– Se calhar até tenho, mas a minha imaginação só funciona assim, sob pressão. – Soltou um sorriso convencido – Até hoje nunca tive problemas.

– Estamos a falar de criar, escrever, fazer a revisão e enviar. Se juntarmos a isso tudo o teu trabalho, vida pessoal, passatempos, compromissos e para finalizar essa tua preguiça mundialmente famosa, muito me admira conseguires entregar as coisas a tempo e horas.

– Mas eu tenho essa superstição. Não posso fazer nada. Portanto, sou fiel a mim mesmo. Não vou mudar. Todos temos as nossas manias e eu não sou exceção. – teimou.

– Pois a minha superstição é fazer as coisas dentro do prazo e com atenção.

– Confia em mim. Vou enviar o conto dentro da data-limite.

O nosso suposto candidato a escritor em part-time respondeu assim à sua amiga. Estava plenamente confiante na sua habilidade de construir uma narrativa no último momento.

Por mera curiosidade abriu o Facebook e foi consultar as publicações guardadas. O prazo do desafio era até dia quatorze. “Ainda tenho tempo”, pensou confiante. Mesmo assim, olhou para o calendário do computador para confirmar a data atual. “Provavelmente devia estar para aí no dia cinco”. Julgou.

Olhou para o canto inferior direito do ecrã. Para sua surpresa já estava no dia quatorze! Engoliu em seco. Pegou no telemóvel para confirmar a data e de facto já estava mesmo no dia quatorze!

Nunca foi muito bom a saber a quantas anda, ainda por cima, nesta altura de calor e festas, perdeu completamente a noção dos dias.

– Foda-se! – exclamou! Já estava a meio da tarde. Se calhar não devia deixar assim tanto para a última. Afinal não tinha assim tanto tempo para trabalhar. Agora só havia duas soluções: desistir ou fazer jus à sua superstição de fazer as coisas mesmo em cima da hora.

Saiu e procurou um local entre a natureza. Sentou-se. Abriu o processador de texto do telemóvel e começou a escrevinhar ideias. Alguma coisa havia de fazer sentido no meio de tantas frases soltas.

Depois de uma horita debaixo duma árvore, à sombra, inspirado pela brisa fresca, lá conseguiu elaborar uma história. Contudo, ainda tinha até à meia-noite para enviar. Por isso guardou o ficheiro para fazer a revisão mais tarde. Tinha tempo suficiente.

Depois de jantar foi ver a Lua. Estava cheia, enorme e especialmente bonita naquela noite quente. Ideal para os românticos. Quando viu as horas, onze da noite, lembrou-se do desafio de escrita. – Bolas! – resmungou.

Lá correu para o computador. Fez umas quantas alterações e ficou satisfeito. Escreveu o e-mail, anexou o ficheiro e sentiu-se orgulhoso. Nesse momento reparou na data da mensagem enviada: “dia 15 às 00.01”!

Soltou o palavrão mais usado pelos portugueses. Tinha sido vítima do próprio tema do desafio: “Escrever um texto sobre uma superstição que se concretiza”.

Desta vez a superstição dele falhou por um minuto. Talvez para a próxima dê ouvidos à sua amiga.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


sábado, abril 30, 2022

Duas Dimensões

– Achas que o gajo se drogou para pintar isto? – perguntou enquanto olhavam para o quadro, como se fosse uma tela de cinema.

– Não. Provavelmente viu uma pizza cair na esquina de um móvel qualquer e ficou com esta ideia em mente – respondeu enquanto comia mais uma pipoca.

– Uma pizza em formato de relógio?

– Não… – Riu-se. – Uma pizza redonda como as outras. Os relógios também são redondos, juntou as duas coisas e a ideia nasceu assim. As ideias aparecem dessa forma, ao juntar memórias.

– O Salvador Dalí devia ser do signo Peixes – comentou ao encher a mão de pipocas.

– Lá vens tu com os signos. Os Peixes não são os únicos capazes de criar surrealismo.

– Em matéria de criatividade os Peixes estão no topo da tabela do zodíaco. 

– Já vou ver – bufou. Mastigou mais umas pipocas, pegou no telemóvel e consultou a internet. – Nada disso. Onze de Maio. É Touro –concluiu.

– Então é uma surpresa. Não sabia que os Touros também fazem arte. Adiante. Gosto como de uma coisa em duas dimensões consegue representar um ambiente em três dimensões. Faz-nos viajar com a mente – reflectiu entre os estalidos do seu mastigar.

– É pena não conseguimos entrar lá dentro. Gostava de saber como funcionam as leis da física naquele sítio. Será que algum cientista já ponderou esse estudo?

– Lá estás tu a divagar. Isto é uma obra de arte, a ciência não tem nada a ver com isto. É para observar e pensar.

– Pensar no quê? – O balde de pipocas já começava a mostrar o fundo.

– Como a vida tem os seus limites e através da arte podemos tornar o irreal possível.

Nesse momento a conversa foi interrompida. Dezenas de polícias armados até aos dentes irromperam pela casa adentro.

– Mãos no ar, vocês estão presos pelo roubo no quadro “A Persistência da Memória”!

Riam como crianças enquanto obedeciam às ordens.

– Pois! Conseguimos roubar e só agora é que nos apanharam! E isto porque nós mandámos a carta com a nossa morada! – Riram-se ainda mais enquanto os polícias puxavam das algemas para os prender.

– Espero que a comunicação social esteja lá fora. Queremos ter o nosso momento de fama! – Gabavam-se com orgulho por terem conseguido fazer aquele assalto. – Considerem esta a nossa obra de arte!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


terça-feira, abril 05, 2022

Sonho voador

 «Hoje é um dia memorável para a jovem República Portuguesa!». Os jornalistas presentes escutavam as palavras do novo Presidente da República, embora dividissem a atenção com o receio da plataforma onde se encontravam cair, pois ela elevava-se cada vez mais no ar como por magia.

O político, de pose orgulhosa, exibindo o seu bigode perfeitamente enrolado nas pontas, continuou a preferir o discurso triunfante. «Guardem na memória esta data na Primavera de mil novecentos e onze. Provamos, com esta tecnologia, sermos capazes de dominar os céus, tal como já fizemos com os oceanos e é com grande euforia que os convidei para esta viagem inaugural.» Apontou vitorioso para o navio alado, ornado com a bandeira Portuguesa, enquanto este se ia erguendo sempre mais alto.

Fez-se ouvir uma salva de palmas por parte dos convidados rendidos à admiração. O presidente chamou o engenheiro responsável por aquela majestosa máquina voadora. Era um rapaz bem vestido, sem qualquer tipo de pelo facial, algo raro naquela época. Mostrava-se envergonhado pelos aplausos. Agradeceu e explicou: «Os meus pares afirmam que motores de combustão são o futuro dos veículos de transporte, mas eu e a minha equipa conseguimos provar o contrário, nós tornamos o motor a vapor muito mais eficiente. Basta uma pequena chama de uma vela, ou mesmo um fósforo, para aquecer toda a caldeira de água. Não precisamos de ocupar espaço com combustíveis, podendo voar durante semanas e até meses. Aquece em pouco tempo e todo o calor gerado é aproveitado, maximizado e utilizado sem desperdício. Vossas excelências podem comprovar por vós mesmos. Por baixo do navio existem bolsas de ar quente fazendo-o subir como um balão. Quando chegarmos à altitude certa, aí sim, os motores vão ser ligados e fazer este magnífico navio alado, a que demos o nome de Dom Afonso Henriques, chegar ao seu destino, do outro lado do Atlântico, no Brasil.»

Os convidados e os jornalistas já começavam a ganhar um certo medo por estarem de pé em cima daquelas enormes asas triangulares. Para lá de possibilitarem o voo, também serviam de plataforma e de varanda, onde as pessoas apoiadas no corrimão podiam observar o mundo lá em baixo. Indiferente aos receios engenheiro continuou a explicação: «Também, devido ao seu desenho aerodinâmico ele pode planar como uma ave durante centenas de quilómetros, tornando-o impossível cair!» Ouviu-se mais uma grande ovação, sendo interrompida pela voz projectada nas cornetas de comunicação.

«Senhoras e senhores, daqui fala o vosso capitão. Chegámos à altura limite de segurança exterior e vamos preparar o voo a grande altitude. Pedimos a todos que entrem a bordo.» Eram dezenas as pessoas a passear pelas asas daquela embarcação aérea peculiar, com um formato pontiagudo na dianteira. Estavam maravilhadas por pairarem acima da cidade, com os habitantes a olhar para eles lá de baixo, perplexos.

O engenheiro indicou o caminho e, para alívio de muitos, entraram de forma ordeira, ocuparam os seus lugares nos quatro pisos do navio, divididos por áreas de lazer, descanso, suites, gabinetes e simples lugares de passageiros. Com todos já instalados no interior, ouviu-se o vapor a circular nos canos e os potentes motores começaram o seu trabalho, propulsionando a enorme aeronave pelo céu dentro, até chegar acima das nuvens. Os viajantes aproximaram-se das janelas, maravilhados pela paisagem. Era mágico. Assistiam a algo que acreditavam ser impossível. Muitos até julgavam estarem num sonho. Todos, sem excepção, elogiavam aquela máquina revolucionária.

Alguns graduados militares aproximaram-se do engenheiro, propondo, dada a capacidade de voo do navio alado, poder largar bombas sobre qualquer país inimigo a partir daquela altitude. O engenheiro declinou e afirmou: «O objectivo desta criação é unir o mundo e não destruir.»

Mais uma vez o capitão falou pelas cornetas: «A partir daqui vamos continuar a nossa viagem a planar, sem usar os motores, nem mais nenhum tipo de combustível, a não ser água e uma pequena chama acesa. Desfrutem a viagem.»

E assim, o ‘Dom Afonso Henriques’, imponente e seguro, tal como um pássaro totalmente confiante nas suas asas, atravessou o oceano Atlântico, por cima de todos os outros navios que navegavam pelo mar. Portugal voltava a fazer história conquistando desta vez os céus!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


quarta-feira, janeiro 19, 2022

Sorrateiro e invisível

Olhou para o espelho durante alguns momentos, o mesmo para o qual tinha olhado antes daquela noite em que tudo mudou. Recordou-se das feições, da roupa que usava, do entusiasmo que sentia, mas principalmente da inocência daquele tempo em que a juventude era a sua imortalidade. Abandonou esses pensamentos e focou-se no agora. Abriu a porta de casa e observou a azáfama da cidade. O escuro já se fazia sentir, contudo era disfarçado pela iluminação das ruas. Parecia que continuava a ser dia a julgar pelo tamanho da multidão.

Saiu. Misturou-se entre eles. Era apenas mais um rosto entre tantos. Deslocava-se com rapidez, como um espectro. Uma sombra que surge no canto do olho e desaparece de imediato. Conhecedor da vida nocturna da cidade, depressa encontrou um trajecto que o levou aos becos menos movimentados. Sabia o seu destino e chegou até lá com ligeireza. Agora só restava esperar na penumbra duma esquina.

Ela apareceu. Uma mulher tão bonita. Cheia de juventude e de sonhos. Inocente, tal como ele já foi, sem saber o que a noite esconde.

Observou-a. Trazia um sorriso leve e vestia-se com tonalidades coloridas, como sempre. Era perfeita. Sabia isso desde o primeiro momento em que a viu e confirmava-o a cada vez que a seguia, pelas ruas da sua rotina que conhecia tão bem.

Aproximou-se por trás dela. Sorrateiro e invisível. Ela não o percebeu. Nunca o tinha percebido mesmo depois de ele o ter feito inúmeras vezes, como um ritual quase sagrado. Silencioso, chegou-se cada vez mais perto, a escassos milímetros. Podia sentir o perfume e o calor que emanava do corpo dela. Contemplou-lhe o pescoço longo, com a linha da jugular a insinuar-se entre o cabelo que dançava a cada passo que dava. Tão linda, tão perfeita, em cada gesto e cada traço.

Era difícil resistir à atração. Chegava a ser violento saber que podia tomá-la facilmente. Uma mão na boca silenciava o grito. A outra arrastava-a pela noite dentro. Podia ser dele. Toda dele. Mas hoje não… Como todas as outras vezes deixou-a ir. Amanhã voltava novamente para a idolatrar, seguindo-a em segredo e nas sombras.

Regressou a casa e olhou novamente o espelho. A ausência de reflexo incomodava-o. Restava-lhe a lembrança da sua imagem dos tempos em que era um jovem. Só isso. Um pequeno vínculo que o ligava à humanidade.

O dia aproximava-se e o vampiro abandonou aquelas memórias. Era hora de descansar. Talvez na próxima noite não fosse capaz de resistir à sede, ou talvez continuasse a fingir que também ele podia amar.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


quarta-feira, dezembro 15, 2021

Amor em tempos modernos

Ele teve o azar de nascer um tipo romântico! As mulheres é que deviam ser românticas e não os homens. A emancipação do sexo feminino trouxe muitas coisas novas, incluindo falarem e praticarem abertamente as suas fantasias. Obviamente que ele não se opunha a este direito essencial, mas ele era apenas um tipo romântico, não percebia nada de taradices. O que ele queria do sexo, pouco mais era do que a posição do missionário e dormir enroscado com a sua amada. Tão simples quanto isso. No entanto, para mal dos seus pecados, a sua namorada era uma pervertida escondida atrás das suas boas maneiras e óculos de leitora compulsiva. Isso levou-os até aquele momento. Afinal de contas o que é que ele percebia de BDSM!?

Alguém se lembrou de escrever um livro chamado ‘As Cinquenta Sombras de Grey’, que deixou as mulheres todas a fantasiar com sadomasoquismo. A namorada dele também leu, gostou e quis experimentar. Insistiu tanto que ele teve de ceder. Agora olhava para o corpo despido dela amarrado na cama, deitada de barriga para baixo, vendada e amordaçada, com o traseiro exposto à sua mercê.

Debaixo da mordaça ela conseguiu exprimir algumas palavras, que mais pareciam grunhidos: “Quando é que começas”!?

Ele engoliu em seco. Não tinha a certeza se tinha coragem para fazer aquilo. Talvez fosse a fantasia de muitos homens, mas não era a dele. Contudo perguntou: “Preparada?”. Ela soltou um sim abafado. Ele subiu o braço e deu a primeira chicotada, sem qualquer reação da parte dela. Bateu mais algumas vezes sem que ela reagisse.

“Cebola!”, acabou por gritar debaixo da mordaça. Era a palavra-passe que tinham combinado para um caso de urgência. Pensou que era uma palavra estranha. Mas se ela gritou é porque algo estava errado! Apressou-se a soltá-la das amarras. “Estás bem?”, perguntou preocupado.

“Que diabo estás tu a fazer?”, respondeu extremamente irritada. Ele encolheu os ombros sem perceber o que se estava a passar. Ela levantou-se bastante incomodada e pegou no chicote que ele usou. Viu com estranheza que não era o mesmo que tinha trazido consigo. “Não acredito que me chicoteaste com um fio de lã”.

“Mas o chicote ia doer muito! Por isso fiz esse de lã para não doer…”, respondeu confuso.

“A ideia é essa! Agora vou eu mostrar-te como se faz! Tira a roupa!”, ordenou ela furiosa.

Ele estava atrapalhado, mas obedeceu prontamente. Ela atirou-o para cima da cama e colocou-o na mesma posição em que ela estava antes, deixando-o totalmente à sua mercê. Amarrou-o severamente e amordaçou-o, enquanto proferia palavras brutas. “Agora vais ver como se faz!”, resmungou ela, dando-lhe uma forte palmada no traseiro. Estranhamente ele achou aquilo tudo muito excitante.

Depois, sem qualquer sinal de aviso ela usou o chicote verdadeiro e... “FWWIIIIP”! Fez-se ouvir o som do cabedal a atravessar o ar.

A partir daqui, acredito que não vale a pena descrever o resto da cena. Passo logo para o dia seguinte. O nosso amigo romântico estava vigorosamente feliz. Isto, apesar dos colegas de trabalho repararem que ele estava com dificuldades em sentar-se…

É assim o amor dos tempos modernos!...


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


domingo, dezembro 05, 2021

Dia de festa

O menino estava tão bonito, parecia um padre em ponto pequeno. O hábito branco, cabelo penteado imaculadamente e um terço na mão, faziam-no parecer um pequeno anjo, enquanto posava para a fotografia! Quem olhava para ele não podia imaginar que se tratava do maior reguila do vilarejo. Era conhecido por todos os habitantes pelas suas travessuras endiabradas, que, apesar de lhe valerem algumas valentes tareias, nunca deixou de fazer.

Naquele tempo, início dos anos oitenta, a primeira comunhão era um evento extremamente importante nos vilarejos do interior. Um rito marcante de passagem na infância.

Nesse ano, as catequistas treinaram as crianças para um momento especial, em que o padre, durante a celebração, perguntava aos pequenos qual era o dia mais importante da vida deles? Ao que os pequenos respondiam em uníssono: "É o dia da minha comunhão"!

Tudo isto foi ensaiado vezes sem conta até à perfeição. Só que, no dia da missa, com a igreja cheia de gente e toda engalanada, o padre, ao fazer a pergunta, deparou-se com um silêncio total por parte das crianças. Tendo em conta que estavam intimidadas pela solenidade do momento, repetiu, sem que tivesse resposta novamente.

Ao reparar na timidez nos rostos dos pequenos, repetiu uma terceira vez. E mais uma vez ficaram em silêncio, para frustração do padre e das catequistas. Só o nosso pequeno reguila ganhou coragem de tomar a palavra, e com o dedo levantado disse bem alto: “É o dia em que o meu pai mata o porco”!

Isto fez com que uma gargalhada geral percorresse a igreja. Com excepção das catequistas que não esconderam a vergonha, bem como do padre que ficou vermelho de raiva!

Aqui, convém lembrar que o dia da matança do porco era também uma ocasião festiva nos vilarejos do interior. Juntavam-se familiares e amigos em alegre convívio. Comia-se com fartura, bebiam-se uns copos, diziam-se umas piadas, e as regras rígidas daquele tempo pareciam abrandar com esta festa caseira. Tudo à custa do pobre animal, cujo único crime foi ficar gordo. Obviamente que o nosso pequeno traquina gostava desse dia, em que podia fazer umas brincadeiras mais malandrecas e escapar-se dos castigos com facilidade.

Para azar do nosso rapazola, e apesar das gargalhadas que ecoavam na igreja, esta era a sua primeira comunhão e tinha de se portar muito bem. A julgar pela cara de desagrado dos pais (secretamente divertidos), parece que não se ia livrar de umas boas palmadas.

Com tudo isto, o nosso pequeno traquina fez jus à sua fama; o padre e as catequistas aprenderam que as crianças são imprevisíveis; o povo daquele vilarejo ia-se recordar daquela primeira comunhão durante muito tempo; e nas futuras matanças do porco esta história ia ser recordada com entusiasmo por muitos anos.


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


domingo, outubro 17, 2021

As mentes não foram feitas para ser lidas

Sentaram-se na mesa frente a frente. Apesar de ser um encontro informal, houve uma altura em que cruzaram olhares. Não se pode contabilizar o tempo que demorou. Talvez fosse um segundo, um minuto, ou até mais, ou ainda menos. Quem sabe? Neste tipo de situações, que mais parecem uma eternidade, é impossível dizer. Mas na realidade, pouco ou nada importa.

Ele olhava-a, como se saísse de si mesmo para dentro dela. Um arrepio percorreu-lhe o corpo como se a pele ganhasse vida própria; o coração disparou como num susto violento; os membros bloquearam como se a vontade já não pertencesse a ela. Era apenas um olhar, mas ela sentiu muito mais do que isso. Era como se o interior da sua pele, escrito com os segredos e desejos mais profundos, se transformasse em folhas de papel e ela fosse um livro que ele podia ler através dos seus olhos. Ele folheava cada página sem pressa, enquanto consumia cada palavra com uma atenção sobrenatural.

O canto da boca dele começou a curvar para cima dando início a um sorriso dominador. Nessa altura, ela, com toda a força de vontade que conseguiu acumular por detrás da sua mente nua, desviou o olhar. Ainda assim, continuava a senti-lo, dentro de si, a ler a sua mente sem pedir autorização. Sentiu muita vergonha, ficou corada, com medo, rendida, num misto impossível de emoções. Presa na eternidade daquele momento. Sem qualquer tipo de muralha que a escondesse daquele olhar penetrante.

– Sente-se bem? – Perguntou ele com a gentileza de quem sabia a sua fragilidade interna.

– Sim, sim, claro! – Respondeu atabalhoadamente.

– Por momentos julguei que estivesse nervosa. Não foi essa a ideia com que fiquei quando me falaram da sua reputação. – Entregou-lhe uma pasta com um relatório sobre um projecto qualquer. Ela soltou um risinho ridículo, como uma adolescente aparvalhada.

– Não! Quer dizer... Não sei quem foi que lhe disse isso, mas pode ter a certeza que sou extremamente profissional naquilo que faço. – Abriu a pasta escondendo o rosto no relatório.

– Eu sei. – Afirmou ele com uma serenidade convicta na voz. – Espero que o relatório seja suficientemente claro. – Rematou com uma ironia subtil, já que ela não se conseguia concentrar na leitura por causa dos nervos inquietos. Já nem se reconhecia. Nem sequer conseguia ler o título escrito em letras grandes e maiúsculas que pareciam que se misturavam de forma confusa e ilegível.

Ela engoliu em seco. Pouco mais sabia daquele homem do que o seu nome, a sua profissão e que tinham marcado aquela reunião para tratar de negócios. Mas ele sabia tudo sobre ela. Parecia impossível! O pensamento de uma pessoa não pode ser lido, mesmo assim ela sabia que ele conseguia fazer isso. Seria a sua cabeça a pregar-lhe partidas? Estava louca? Não! A expressão dele mantinha-se fixada nela. Continuava a ler os segredos dela sem qualquer tipo de pudor.

– Então, o que me diz sobre o relatório? – Perguntou diante do silêncio dela.

– Eu... – Não foi capaz de continuar a resposta. Finalmente conseguiu ler as verdadeiras palavras no documento. Destacava-se o título: “FICHA DE PERSONAGEM''. Seguia-se, o seu nome, idade, com todas as características possíveis e imagináveis sobre si própria. – Eu... Não sou real! – Concluiu.

– Eu sei. – Confirmou o autor.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita

A festa

No dia em que eu desisti, o mundo fez uma festa em minha honra. 

Os povos de todas as culturas saíram à rua, com cantos, danças e foguetes. Pegaram-me em ombros para desfilar comigo nas avenidas enquanto toda a gente clamava o meu nome e me batia palmas com um entusiasmo eufórico. 

Os governos declararam feriado e na comunicação social não se falava noutra coisa. A alegria contagiou a Terra inteira por causa do meu nome superior. 

Então, levaram-me ao topo do edifício mais alto e todos gritaram em uníssono para que fizesse um discurso de vitória. Excitado pela euforia, abri os braços e saboreei aquele momento de glória absoluta. 

Durante vários momentos, longos, deixei que focassem em mim todo o seu êxtase. Depois, com as palmas das mãos viradas para baixo, gesticulei um sinal a multidão para que fizessem silêncio. Obedeceram quase de imediato, conseguiram acalmar a energia e calaram-se para me escutar, tal era a fome pelas minhas palavras sabias. 

Olhei-os com clemência e projectei a minha voz na direcção dos quatro cantos do planeta bradando: 

«Hoje desisti!» imediatamente fez-se ouvir uma monumental salva de palmas. Voltei a pedir silêncio e continuei: 

«Desisti com orgulho, parece que todo o peso do mundo saiu de cima das minhas costas e por isso sinto-me leve que quase parece que consigo voar!» As palmas soaram novamente junto com palavras de incentivo. Assim que voltou a calmaria continuei: 

«Contudo, não posso voar, nem o quero! Não quero ser mais do que aquilo que posso ser, por isso, hoje, sou novamente um de vocês! Um herói que não tem vergonha de desistir! Sem a obrigação de me superar a qualquer preço!» Veio mais uma ovação. 

«Por favor não me dêem mais vivas.» Disse, com a emoção estampada no rosto para que todos me vissem. 

«Esta leveza é o símbolo da Liberdade que todos merecemos. Sem qualquer tipo de autoridade que me diga que a responsabilidade deve ser assumida a todo o custo, mesmo que não a queira, ou que ma tentem impingir! Hoje, regresso à condição de ser humano, frágil, longe das grandes glórias com que me tentaram iludir.» Desta vez ouvi menos palmas e reparei que a multidão se começava a dispersar rapidamente. 

«Obrigado!» Agradeci aos poucos que restaram com uma ligeira vénia. Também esses não me ligaram muito. Estavam ali parados, inertes e distantes, como se não tivessem mais nada para fazer. Nem sequer lhes mereci um olhar minimamente atento.

A minha voz emotiva já não interessava a ninguém. Toda a festa grandiosa feita em meu nome, era agora uma memória descartável, como se nunca tivesse acontecido. Sobrou a leveza da minha decisão. Juntamente com a tranquilidade de ser Livre.


quinta-feira, agosto 19, 2021

Interlúdio colorido

Sentou-se à sombra dos castanheiros, sentiu a brisa fresca que corria, inspirou e apreciou o cheiro da natureza. Soube-lhe bem. 

Apercebeu-se que sentia cansaço, com a azáfama nem tinha dado conta. "É estranho quando uma pessoa não se apercebe que está cansada, seja pelo trabalho, pela companhia, ou ainda até pelo próprio pensamento." Refletiu. Por isso encostou-se ao tronco robusto da árvore e descansou. 

Olhou em volta e contemplou a beleza colorida que estava em seu redor. Por ser Verão os girassóis estavam abertos. Eram imensos, altos como as árvores de fruto que se espalhavam pela quinta. Nunca tinha reparado que eram tantos, nem que podiam ser tão altos, ou que havia tanta variedade de fruta naquele lugar que parecia pequeno para quem olhava na rua. 

Relaxou como já não fazia há muito tempo, tanto que já não se lembrava de alguma vez o ter feito. Não olhou para o relógio. Não era preciso. Aliás seria até pecaminoso contar o tempo daquela pausa. Também por lá estavam alguns cães e gatos que dormiam tranquilamente sem preocupações. Afinal de contas os bichos não tinham as mesmas obrigações dos humanos. Não precisavam de medir o tempo e provavelmente por isso pareciam tão tranquilos.

É estranho como de repente tudo que lhe atormentava o pensamento desapareceu como se fosse insignificante. A tranquilidade era soberana. Sem vozes irritantes. Apenas o barulho das folhas que dançavam com a brisa. Aqui e ali os pássaros chilreavam e ao longe ouvia-se um pequeno moinho que girava. "Que sossego maravilhoso!"

Interrogou-se porque não parava assim mais vezes. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe dos outros e de tudo. Só o momento e a natureza. Mais nada parecia importar. Os dias são longos em Agosto e isso é tão bom. A vila desacelera do lado de fora das sebes, parecendo querer acompanhar o ritmo da natureza.

As cores invadiram-lhe a alma. O céu azul, o verde nas folhas que dançam, o amarelo dos girassóis, o arco-íris da perfeição num dia de sol a irradiar uma pequena quinta. 

A calma afasta a pressa. A Paz deixa de ser apenas uma palavra e ganha um significado palpável na oração calada de quem contempla a sua própria pequenez. 


terça-feira, julho 20, 2021

Ti Manel Velho

Ti Manel Velho vem pela estrada a mancar, apoiado numa bengala, firmando-se, sem que o seu corpo assimétrico caia no chão. Entre os seus lábios traz um cigarro aceso meio fumado. Caminha estranhamente rápido para alguém com problemas na locomoção.  

O cabelo grisalho e as rugas que lhe estilhaçam a pele do rosto, anunciam a idade avançada que lhe valeu a alcunha. Porém, aqueles que hoje já são adultos e pais de família, já o conheciam assim desde os tempos de criança, com a mesma idade dos seus próprios filhos. 

Nada na aparência daquela figura se tinha alterado com o passar do tempo. O homem idoso que hoje segue pela rua, bem podia ser o mesmo que o fazia há umas décadas atrás. Talvez fosse uma partida da memória, contudo, as rugas, o cabelo, a bengala, a roupa, ou o próprio cigarro sempre aceso, em nada mudaram comparando com as recordações de infância. 

Talvez aquele homem já tenha nascido velho, a mancar e a fumar. Saltado do ventre da sua mãe, pronto a percorrer as mesmas ruas, às mesmas horas, depois de um copo ou dois na tasca de sempre. Concebido com esse propósito por alguma vontade desconhecida do senso comum, sendo aquele o seu único objetivo nas fileiras da humanidade.

O resto da sua história, se algum dia existiu, ficou perdida no esquecimento da indiferença. Tudo o que tinha a dizer estava naqueles passos diários e rotineiros. Sem grande sabedoria e nenhuma evolução. Sempre a mesma figura sem ambição, sem qualquer sinal de modernidade. O que faz hoje, podia ter feito há cem anos atrás. Sobram aqueles que o observam, sempre igual, enquanto o mundo muda.