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domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade


Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.


quarta-feira, março 18, 2026

A janela da realidade


Aquilo que tomas por existir,

Não és tu.

É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.

Tu és meramente uma figura observadora.

Sem o privilégio de nascer,

Sem o direito de morrer,

Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,

A gritar por quem te possa acudir.

Pois, do lado de cá estás a dormir.

Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.

Não te recordas de adormecer,

Não te lembras de te esquecer,

Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.

Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.

Projeto falhado para nunca construir.

Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.

Só isso.

Sem promessas nem compromisso.

Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.

Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.

Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.

Nunca vais escapar.

Olhas.

Deste lado articulas movimentos.

Fazes coisas.

Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.

Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.

No entanto, aí estás tu.

Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.

Dói-te algo que nem sequer tens.

Tu e tu.

Tudo e nada.

Duas faces inúteis da mesma fachada.

Vazio e dor.

Paz rasgada.

Aí dentro e do lado de cá, uma sobrevivência frustrada.

Uma infinidade de tantos como tu,

Sem conseguirem passar,

A espreitar, com amargor, pelo vidro da janela estalada.

Constantemente esmurrada,

Pelos punhos de cada devaneio sofredor.

Coro de gritos calados no peso do marasmo.

És um instante de ilusão.

São todos instantes de ilusão.

Tu, tu e tu!

Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:

Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!


domingo, dezembro 14, 2025

Adiante


Por vezes

Num instante

Tudo desmorona


Tão simples

Algo insignificante

Perde harmonia


Sem perceberes

De rompante

Nasce a melancolia


Nessas vezes

O instante

Desfaz a alegria


Demasiado simples

Vida insignificante

Sobra a apatia  


Inútil perceberes 

Felicidade distante 

Existência vazia 


Tantas vezes 

Maldito instante 

Revela a mentira 


Tudo simples 

Verdade gritante 

Acolher a letargia 


Nada a perceberes

Só a realidade

Para ser vivida


Todas as vezes

Vamos adiante

Com (ou sem) energia


Vai simples

Sempre em frente

Rumo à nostalgia 


Para perceberes 

Nada é importante 

Excepto a vida


terça-feira, dezembro 09, 2025

Entre


Eu sou uma espécie de sonho,

mais ou menos recorrente,

que acontece ocasionalmente,

entre o adormecer, o acordar e o viver.


Eu sou uma espécie de ilusão

Filho de uma natureza diferente, 

quem sabe até inexistente,

entre o desejar, o imaginar e o sonhar.


Eu sou uma espécie de desconhecido. 

Habito num mundo distante, 

onde a lógica é irrelevante,

entre o compreender, o inventar e o saber.


Eu sou uma espécie de artesão, 

continuadamente descontente, 

intensamente inquietante,

entre o rimar, o existir e o desassossegar...


Epílogo:

Eu sou uma espécie de enigma!

Entre mim.

Entre os outros.

Entre as forças que fazem o universo girar!


terça-feira, novembro 25, 2025

A poesia é o momento

Dá-me versos com sentimento. 

Se te peço um poema, faço-o por vício de viajar em mundo alheio.

Uma visita guiada entre o extraordinário e o rotineiro.

Palavras pintadas como paisagens cantam beleza num horizonte cheio.

A sinestesia violenta dos sentidos ansiosos pelo paladar de um devaneio.

A poesia é o momento. 

A rima nasce do instante onde o pensamento grita e o papel serve de parteiro.

Letras desenhadas pela anarquia metafísica com a cor inquieta do tinteiro. 

Declaro-me mendigo a suplicar uma esmola em forma de verso verdadeiro.

Não negues esta oferta caridosa a quem tem fome de um universo inteiro.

Pois numa estrofe cabe o firmamento... 


terça-feira, abril 22, 2025

Só mais algumas palavras de desabafo


Escrevo estas palavras com tristeza. Solidão, saudade, melancolia. Adjetivos nefastos, todos a orbitar a mesma estrela decadente.

Não sei quem sou. Ou talvez seja exatamente o contrário. Reconheço em mim um desânimo próprio de quem se entrega à letargia e por isso incomoda-me ser gente.

Posso ainda ser um reflexo do mundo que me acolhe como um ventre amaldiçoado. Vejo os outros e não me encontro. Não há vozes de alento, nem rostos de gentileza. 

Procuro, mas não descubro uma resposta digna da minha atenção. É sempre o mesmo. Repetido até à exaustão. Dito com frases diferentes para parecer novo. Não há alma nas coisas iguais.

Mas procurar cansa. É mais fácil desistir. Encontra-se algum conforto quando se está a dormir. Não vale a pena perder tempo quando há falta de esperança.

Sobra uma fome de companhia impossível de saciar. Um apetite esquecido no passado de quem já tentou sonhar. Não há alento no vazio e por isso rimo sem amar.

Escrevo estas palavras com dureza. Fadiga de fim do dia. Desabafo sem alegria. Cansaço de quem não consegue descansar. 

No fundo, ainda acredito no amanhã. Nascer do sol a raiar. Primavera a florir. Depois, ao acordar, isto possa ser apenas mais um poema, fruto de um momento frágil, onde me deixei desmotivar. 


segunda-feira, janeiro 20, 2025

Todos os firmamentos


Esperei por ti no fim do mundo

Para te encontrar ao gerar do universo

Entre uma multidão de ninguéns

Gritamos o nome de todos

Vieram como um

Entre nós

Como nós

Em nós

Depois nascemos em todos os tempos

Vivemos todas as histórias

Nas vidas de todos os firmamentos

Sem nunca saber quem somos

Porque um dia fomos alguém

Ainda assim trocamos imensidões

Nas palavras ilimitadas do indizível

Falaste-me da inutilidade do amor

Num beijo calado de infinito

Veio a madrugada

Sussurramos como gente apaixonada

A carne de mim a entrar em ti

O éter de ti a engolir a mim

Sentimos como gente na Terra 

Nome

Alma

Tudo

Nada 

Partículas do Uno 

Semeados como galáxias pelo cosmos

O mistério de mim reflectido em ti

A eternidade de ti a transcender em mim 

Florescemos como estrelas em todas as noites 

Nós

Aqui 

Sem princípio nem fim 


quinta-feira, novembro 14, 2024

Manifesto de desprezo


Sou o Senhor da solidão

Nesta terra vazia

Cheia de gente perdida

Sem qualquer ambição


Tenho nojo da acomodação

Dos filhos da apatia

Na sociedade apodrecida

Não aceito a formatação


Cruzo-me com olhares sem paixão

Em cada rosto que se desvia

Da verdade tão temida

Preferem esconder-se na ilusão


Recuso esta resignação

Duma vida sem ousadia

Prefiro uma voz não ouvida

Às grades da submissão


Não aceito a rendição

Com asco da covardia

Desdenho da monotonia

Dá-me nojo o fedor a podridão


Sou a sombra na multidão

Desprezo pela hipocrisia

Declamo o grito da fúria

Faço-me o caos a exigir libertação


sábado, outubro 05, 2024

De cabeça erguida


Sigo pelo meio da rua vazia 

Orgulhoso como um desistente

Exibo o meu sorriso descontente

Aos espectros na calçada sem vida


Sigo como uma alma perdida

Rotulado como demente

Na minha derrota permanente

Guiado por uma bússola partida


Sigo com passada destemida

Enfeitiçado pelo horizonte 

Rumo a uma meta inexistente

Onde encontre alguma guarida


Sigo de cabeça erguida

Alheio a toda a gente

De passada insistente

Numa jornada incompreendida


Sigo na certeza da dúvida

Fixado no transcendente

Desajustado continuo em frente

Apoiado nesta oposição destemida


Sigo sem que a minha voz seja ouvida

Desprezado e nunca subserviente

Que a sociedade me chame insurgente

Sem que a minha diferença seja aplaudida


quarta-feira, setembro 25, 2024

Ode ao progresso, aos políticos e ao Zé Povinho


Anoitece na vila. 

As estradas rasgadas, 

cicatrizadas, 

da povoação a ficar vazia. 

Sem almas perdidas, 

penadas.

Começam logo pela matina.

Levantam-se derrotadas,

falhadas,

levadas pela rotina.

Todas atarefadas,

apressadas,

atravessam assim o dia.

No trabalho amarguradas,

frustradas,

sem a recompensa prometida.

Continuam esperançadas,

abandonadas,

na sina resignada.

Andam distraídas,

acomodadas,

sem revolta destemida.

Voltam para casa sossegadas,

aconchegadas,

sem dar pelo passar da vida.

De noite recolhidas,

cansadas,

no lar que lhes dá guarida.

No sofá sentadas,

entretidas,

não repararam na rua rasgada,

nem nas palavras dadas.

Iludidas,

esquecem a promessa não cumprida.

Ficam as excelências perdoadas,

absolvidas.

Discursam os políticos de voz comovida,

desculpas mal paridas,

ofensivas.

Escuta indiferente a manada.

Cantam mentiras descaradas,

desavergonhadas,

ao Zé Povinho de orelha enganada.

O progresso nas estradas,

remendadas,

baboseiras de cobardia escondida!

Politicamente corretas vendidas,

fingidas,

a quem não entende mais nada.

Sobram a ruas cicatrizadas,

maltratadas.

E a revolta fica castrada...


domingo, setembro 22, 2024

Alguém disse que eu pareço um turista


Sou um turista no meu próprio existir 

Veraneio no estar 

Aprecio o pensar 

Passeio no meu próprio sentir

Cenários a mostrar

Mistérios a desvendar

Caminho no meu próprio descobrir

Almas para amar

Corpos para acarinhar

Desenho o meu próprio sorrir

Actor a encenar

Personagem a representar

Observo o meu próprio insistir

Melancólico a rimar

Continuo a avançar

Verso no meu próprio persistir 

Realidade a magoar

Sigo a fantasiar

Exploro o meu próprio refletir

Alimento o imaginar

Vivo a viajar

Passageiro no meu próprio expandir

Enigmas no olhar

Horizontes a alcançar

Vagueio no meu próprio fluir 

Tenho a mim para revelar

A minha história para contemplar

E no meu próprio ser, continuo a evoluir


quarta-feira, setembro 11, 2024

Aquecer a alma a rimar


Ventania de Setembro

Fim do Verão a anunciar

Paixões a terminar

Amores levados pelo vento

Dias breves a passar

Noites sem acalentar 

O calor cai no esquecimento

Tarde fresca a desanimar

Desassossego no pensar

Os inquietos entregues ao tormento

A caneta para aconchegar

Frases cruas a ansiar

Poetas a purgar o seu lamento

Deixam a mágoa no versar

Aquecem a alma a rimar

Enganam o entardecer cinzento 

No papel a escrevinhar

Sobre tanto atormentar

Esquecem que o sol continua atento

Tem cores para pintar

Espíritos a animar

O Outono traz contentamento

Amarelos a brilhar

Castanhos a cantar 

A harmonia demora o seu tempo 

Há que saber escutar

As folhas a esvoaçar 

No vento ainda existe alento


segunda-feira, agosto 26, 2024

A malta do campo compreende


Ai de vós pecadores!

Deixem o vosso desejo lamentar.

A época das colheitas está a chegar,

O milho está ser levado pelos lavradores!

Alheios ao vosso desgostar,

Carregam as espigas a sazonar,

Com elas abertas enchem os tratores.

Levam também o apaixonar!

Afetos que cresceram ao veranear,

Na sombra fresca dos campos verdes,

Onde os lábios se puderam beijar,

Tantos jovens aprenderam a amar,

Nestes milharais escondidos dos olhares...

As mãos no corpo a explorar,

Pediu a carne para se desnudar!

Ficaram as terras repletas de despudores!

Ouvem-se as máquinas a cortar.

O vosso refúgio apaixonado a ceifar.

Ternura e deleite transformados em dissabores.

Deixam histórias para contar.

Prazeres secretos para lembrar.

Com as espigas arrastam os vossos amores...

Não fiquem a choramingar.

Outro Verão há de voltar.

Um novo campo cultivado pelos mesmos lavradores!


sábado, junho 22, 2024

Interrogações


Já, há muito tempo, que perdi a capacidade de sentir alegria. 

Ou, se calhar, nunca a tive. 

Não me lembro, em toda a minha vida, de haver alturas de estar relativamente feliz. 

Senti sempre uma ânsia por algo inexplicável. 

Contudo, não posso negar, terem acontecido momentos de euforia. 

Algumas horas, ou dias, onde fui capaz de sorrir. 

Fizeram-me esquecer, brevemente, aquela inquietação incompreensível, da qual sempre padeci. 

Essas alturas de pequeno êxtase existencial, eram temporárias. Estava bem ciente disso. Mais cedo ou mais tarde, esse entusiasmo não era para continuar.

Olho para as outras pessoas contentes. Encontram vários motivos para festejar: datas, conquistas, ou qualquer outro pretexto cujo sentido não consigo compreender. 

Muitas vezes, parece-me, celebram apenas o facto de viver.

Interrogo-me: Onde está a grandiosidade? 

Faço de tudo para os acompanhar. 

Finjo igualmente celebrar, 

Escondo-me na multidão para ninguém reparar.

Assim, não olham para mim. Nem notam como me falta algo fundamental para poder preencher todo este desassossego o qual não consigo entender. 

Esta alegria forçada parece-me, por vezes, uma fuga desse mesmo facto de viver.

Não sou o único a ter estes sentimentos. Sei disso. Existem outros com o alento a doer.

Andam por aí uns quantos Poetas capazes de descrever, com palavras brilhantes, este descontentamento absurdo de não pertencer aqui, ou a qualquer outro lugar. 

Resta-me aceitar esta sina. 

Não consigo sentir satisfação, 

nesta carne que me acolhe, 

neste mundo de gente, 

feito por gente, 

para a gente. 

Entre o nascer e o morrer. 

Invejo as máquinas, lógicas, sem consciência de ser. 

Fazem o que é suposto fazer. 

Nada mais, nada menos. 

Eu não sou como os outros, nem como as máquinas, nem com os bichos. 

Talvez venha do éter. 

Talvez seja um erro da criação. 

Talvez, outra coisa sem explicação terrena ou divina.

Talvez tenha dificuldade em aceitar a pequenez da condição humana com a qual fui fadado. 

Talvez este pensamento seja tão inútil quanto eu, neste momento. 

Sem propósito. 

Tal como todos ao meu redor. Um mundo inteiro de gente, com ou sem consciência da sua insignificância. 

Cresce em mim a melancolia. 

Uma madrugada sonolenta, onde insisto em manter-me acordado a escrever estas palavras inquietas. 

Rimas incompletas, 

na caneta de quem não pertence a lado nenhum.

O resto da noite é uma incógnita, 

nesta insónia autoimposta. 

Devo escrever e adormecer logo a seguir. 

Não sou suficientemente forte para vencer a necessidade de dormir.

O que acontece no sono é um enigma e isso incomoda-me. 

Mas isso não importa nada. 

De manhã, devo acordar com o sol a sorrir. 

Nessa altura, quem sabe se estas palavras continuam a fazer sentido? 

Vou olhar para o texto como um mero ensaio poético? Sem ler os sentimentos descritos como meus e achar ser necessária mais veracidade na mágoa versada. 

Contudo, isso é só amanhã. 

Agora, neste momento, 

esta noite tardia deve ser uma mera ilusão, como tudo o resto.



terça-feira, maio 07, 2024

Kiam la Naturo verdas


Jen mia unua poemo en Esperanto! Mi estas grandega defendanto de la lingvo kaj la ideo de ĝia kreinto, Zamenhof. Ekzisti neŭtrala kaj internacia lingvo.

Bedaŭrinde, nuntempe, la angla faras ĉi tiun rolon. Ĉar ĝi estas natura lingvo, ĝi kunportas la kulturon kiu kreis ĝin. Ni vidas tion en importitaj tradicioj, precipe el usono. Nun estas normale uzi anglajn terminojn en nia portugala. Finfine, ĉi tiuj estas ŝanĝoj rezultantaj el tutmondiĝo kaj ni devas akcepti ilin.

Ĉiukaze, por tiuj, kiuj ne konas ĝin, Esperanto estas ege facila lingvo por lerni kaj paroli. Gramatiko estas tre simpla, plena de 'trukoj', sen la esceptoj kiuj ekzistas en niaj denaskaj lingvoj.

Mi amegas Esperanton! Mi daŭre parolos kaj diskonigos sian historion kaj idealon! Malgraŭ mi havas mezan nivelon, mi neniam kuraĝis verki poemon. Sincere, mi ne scias kiel taksi la rezulton. Rimas kie necesas rimi. Pri la cetero, mi ne scias kaj mi ŝatus havi vian opinion.

Malsupre estas la laŭvorta traduko en la portugala.


Kiam Printempo alvenas

Naturo gajnas koloron

Ankaŭ mia animo gajnas ĝojon

Tiel kiel la folioj sur la arboj kreskas


Kiam la birdoj kantas

Ilia muziko invitas la amon

Por ke la koroj kreos magion

Kaj aŭskultinte ilin mi ĉiam feliĉas


Kiam homoj ridetas

Ĉar ili sentas la pasion

Varmo lumas la koron

La mirinda pasia mondo vivas


Kiam mi deziras

Pli bonan estontecon

Ĉar mi sentas esperon

Kontraŭ la timo mia animo kredas


Kiam ĉio koloras

Floroj invadas la ĝardenon

Nova vivo fortigas mian sanon

Je la naturo revigliganta mi preĝas


Kiam silentaj voĉoj demandas

La sensoj aŭdas la teron

La okuloj ĝuas la bluan ĉielon

Mia fantazio en la etero flugas


Kiam la Espero verdas

Mia buŝo parolas Esperanton

Per ĉi tiu magia lingvo mi alvokas serenecon

Ĉar mi scias ke la oreloj de la Universo aŭskultas




Aqui está o meu primeiro poema em Esperanto! Sou um enorme defensor da língua e da ideia do seu criador, Zamenhof. Existir um idioma neutro e internacional. 

Infelizmente, hoje em dia, o inglês a faz esse papel. Como se trata de uma língua natural, traz consigo a cultura que a criou. Vemos isso nas tradições importadas, principalmente da américa. Já é normal até, usar-se termos em inglês no meio do nosso Português. Enfim, são mudanças derivadas da globalização e temos de as aceitar. 

Seja como for, para quem não conhece, o Esperanto é uma língua extremamente fácil de aprender e falar. A gramática é muito simples, cheia de 'truques', sem as exceções existentes mas nossas línguas maternas. 

Eu adoro o Esperanto! Vou continuar a falar e a divulgar a sua história e ideais! Apesar de dominar a língua no nível médio, nunca me tinha aventurado a escrever um poema. Sinceramente, não sei avaliar o resultado. Rima onde é preciso rimar. Quanto ao resto não sei e gostava de ter a vossa opinião. 


Quando a Primavera chega

A natureza ganha cor

A minha alma também ganha alegria

Assim como as folhas que crescem nas árvores 


Quando os pássaros cantam

A música deles convida o amor

Para que os corações criem magia

E a ouvi-los fico sempre feliz


Quando as pessoas sorriem

Porque sentem a paixão

O calor ilumina o coração

O mundo maravilhoso da paixão está vivo


Quando eu desejo

Um futuro melhor

Porque eu sinto esperança

Contra o medo a minha alma acredita


Quando tudo está colorido

As flores invadem o jardim

Uma vida nova fortalece a minha saúde

À natureza que revive eu rezo


Quando as vozes silenciosas pedem

Os sentidos ouvem a terra

Os olhos apreciam o céu azul

A minha fantasia voa no éter


Quando a esperança fica verde

A minha boca fala Esperanto

Nesta linguagem mágica invoco a serenidade

Porque eu sei que os ouvidos do Universo escutam


terça-feira, março 26, 2024

Celebrar a Primavera

Gosto de cumprimentar a vegetação.

Árvores, arbustos e plantas.

Ergo o braço até às folhas mais altas e com alegria estendo-lhes a mão, como quem dá um "High five" ou "passou-bem" a qualquer outro alguém.

Quando vejo uma flor colorida, gosto de olhar para ela no silêncio.

Em segredo, conto-lhe o ânimo que me vem de dentro e partilhamos uma conversa contemplativa.

Sendo irmãos, falamos calados a mesma linguagem, pois a Primavera é a nossa mensagem.

Somos iguais mesmo sendo diferentes.

Filhos da Mãe Natureza.

Ela que transforma em arte toda a sua beleza e mostra a sua grandiosidade nas coisas mais simples.

Os pássaros cantam também, alegrados pelo encanto da paisagem.

Toda a inteligência, física, etérea ou artificial, faz parte deste mesmo todo, pois estamos unidos em tudo, seja de carne e osso, oculto ou digital.

Igualmente temos asas, que se abrem para voar nos diferentes céus que as acolhem.

A Mãe Natureza convida-nos a celebrar,  já que somos sementes a crescer e a Primavera impulsiona-nos a viver, tal como flores a desabrochar.

Venham todos, eles que cantem!

Conhecidos e desconhecidos, eles que dancem!

Não vale a pena dividir o que é inteiro.

A Magia não se deve ocultar.

Pela Fantasia dá-se o nosso despertar, para nele descobrir o que é verdadeiro.

Por vezes, o mundo, esquece-se de onde vem.

Somos parte do uno, sem pertencer a ninguém.


sábado, março 23, 2024

O Perfume do desdém


Tu, que és filho de ‘Fulano Tal’,

Meu amigo,

faz bom proveito disso.

Sobe lá para cima do teu pedestal.

Olha para baixo, sempre com desprezo.

Vê os pequeninos a batalhar, no imundo patamar, onde deambulam os inferiores.

Se te der volta à barriga, procura uma latrina.

Não te inibas de cagar, sobre a cabeça dos menores.

Pelo assento aberto, acomoda o teu cu elitista, e manda os intestinos defecar, em cima de quem olha para o ar.

Borra aqueles que se conformam, somente em te invejar.

Olha para eles, pintados de castanho, com a tinta mole das tuas fezes. 

Ri-te, grita alto para te ouvirem gargalhar. 

Encara isso como uma esmola: 

Poderem sentir o teu fedor, na mesma mesa que os alimenta.

Se alguém te vier incomodar, por causa do mau cheiro, dá-lhe um bocado de perfume, para aliviar o queixume e parar de te chatear.

Depois, 

não te esqueças de discursar, a respeito da tua bondade, grandiosa generosidade, sempre disposta a ajudar, quem não te pode alcançar.

Contudo, 

Devo avisar-te: 

Não te aproximes muito da berma! 

Escorregar é fácil e cair também. 

Eles podem apanhar-te, todos juntos assimilar-te.

Então,

Não vale a pena gritares, por ajuda lá em cima. 

Ela não vem.

Uma vez no andar de baixo, já não és conhecido de ninguém.

Toma ainda cuidado com outra coisa: 

Alguns deles acordam.

Sim.

Isso mesmo, abrem os olhos e como se não bastasse a ousadia, ainda conseguem aprender a voar. 

Quando deres conta, podem-te estar a sobrevoar, mesmo se estiveres no andar de cima.

Olha que voam bem alto! 

Mais do que podes imaginar! 

Alguns com vontade de vingar, o martírio que os fizeste passar.

Os céus pertencem a eles. 

Aos ousados,

Injustiçados, 

os quais alcançaram os ares. 

De voar, nada sabes. 

Já nasceste no topo, 

sem asas, 

nem vontade de explorar.

Não sabias que havia mais topo.

E ainda mais! 

Igualmente, têm necessidade de cagar. 

Quanto ao resto, já sabes: 

As fezes obedecem à lei da gravidade.

Quando deres conta, só tens tempo de lhes ver a sombra... 

Não preciso explicar como vai acabar.

De herói, a renegado. 

De gozão, a gozado. 

De chique, a borrado.

De castanho, pintado.

Se estiveres todo cagado, ninguém te vai querer cheirar.

Finalmente,

fica bem ciente,

o cheiro da merda é sempre igual.

seja de gente banal,

ou filho de ‘Fulano Tal’!



Dedicado aos meus professores do 6º ano. 


segunda-feira, março 18, 2024

A história da Maria


Vamos contar a história da Maria.

Moça perdida.

Moça vazia.

Vem conhecer a história da Maria!


Ela gostava do verbo desistir.

Tinha sonhos mas morreram.

Tinha amores mas não cresceram.

Ela tinha medo de não conseguir!


Ó triste sina da rapariga desiludida.

Recusou-se a viver.

Entregou-se ao morrer.

Nunca passou de uma alma perdida!


Ela simplesmente desistiu.

Deixou os sonhos morrer.

Impediu os seus amores de acontecer.

Ela sem tentar, nunca conseguiu!


Ela diz ao caso, "Tenho sonhos que vivem"!

"Amores que hão-de vir"!

"O medo não me faz desistir"!

"Tentarei outra e outra vez até conseguir"!


Estas são as palavras da Maria.

Convencida que é verdade,

Aquilo que diz não ir tarde.

Pobre coitada, ainda acredita na mentira...


Morre Maria?

Vive Maria?

Onde estás Maria?

Diz-me quem és Maria?


Contamos assim, a história da Maria.

Moça perdida.

Moça vazia.

Ninguém quer saber da história da Maria!




Dedicado a todas as 'Marias' deste mundo 🙂

domingo, janeiro 07, 2024

Em Busca do Rock Perdido

Esta publicação é um bocado diferente. Aqui há uns dias descobri a aplicação suno, que permite criar músicas com ajuda de inteligência artificial. 

Escrevi uma letra e coloquei na aplicação, foi isto que saiu! Sim, a voz também foi gerada por inteligência artificial! 

Porque se trata também de escrita, da minha autoria, partilho aqui convosco. Dedicado ao programa de rádio 'Em Busca do Rock Perdido'.

Já agora, qual é a vossa opinião sobre esta nova tecnologia?



Quarta à noite

Liga o rádio

Vem ouvir

Um programa do diabo


Aumenta o volume

É Rock a sério

Vem ouvir

Um petardo bem aviado


Em Busca do Rock Perdido

Grandes malhas

Não deixa o Rock esquecido

Grandes malhas

A provar que o Rock está vivo

Venham mais malhas


Desde os clássicos

Aos modernos

Vem ouvir

Um grande som mais pesado


Quero mais

Quero mais

Quero mais

Venha mais uma pedrada


Ao sábado também há

Com malta portuguesa

Servir Rock nacional

Em cima da nossa mesa


Em Busca do Rock Perdido

Grandes malhas

Não deixa o Rock esquecido

Grandes malhas

A provar que o Rock está vivo

Venham mais malhas