domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade


Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.