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domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




quarta-feira, março 18, 2026

A janela da realidade


Aquilo que tomas por existir,

Não és tu.

É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.

Tu és meramente uma figura observadora.

Sem o privilégio de nascer,

Sem o direito de morrer,

Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,

A gritar por quem te possa acudir.

Pois, do lado de cá estás a dormir.

Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.

Não te recordas de adormecer,

Não te lembras de te esquecer,

Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.

Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.

Projeto falhado para nunca construir.

Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.

Só isso.

Sem promessas nem compromisso.

Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.

Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.

Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.

Nunca vais escapar.

Olhas.

Deste lado articulas movimentos.

Fazes coisas.

Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.

Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.

No entanto, aí estás tu.

Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.

Dói-te algo que nem sequer tens.

Tu e tu.

Tudo e nada.

Duas faces inúteis da mesma fachada.

Vazio e dor.

Paz rasgada.

Aí dentro e do lado de cá, uma sobrevivência frustrada.

Uma infinidade de tantos como tu,

Sem conseguirem passar,

A espreitar, com amargor, pelo vidro da janela estalada.

Constantemente esmurrada,

Pelos punhos de cada devaneio sofredor.

Coro de gritos calados no peso do marasmo.

És um instante de ilusão.

São todos instantes de ilusão.

Tu, tu e tu!

Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:

Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!


quinta-feira, maio 20, 2021

Ode aos que odeiam

Podia dizer-te que o ódio vem dos outros. Mas isso era mentira. O ódio é uma coisa que nasce no âmago do teu corpo. Uma hormona qualquer produzida pelo próprio diabo que vai subindo até ao cérebro, consumindo os recursos que deviam ser gastos para evoluir. 

O ódio toma conta do corpo com a força do próprio inferno. Corre pelas veias, violento, sem responder a argumentos de dissuasão. Assustada, a tua consciência foge para um esconderijo esquecido numa zona longínqua da mente. 

A sabedoria cala-se, já que os seus conselhos são inúteis. A lógica desaparece. Tudo o que resta são instintos grosseiros. Resquícios do animal que o ser humano já foi antes de (supostamente) evoluir. Um bicho sem conhecimento dos sentimentos nobres que elevam a alma. 

O ódio faz surgir uma nova versão tua. Alguém que desconheces. Não se trata de uma transformação de personalidade. Pelo contrário! É sim, a autodestruição daquilo que conhecemos como sendo a nossa pessoa. 

A Paz, se algum dia a sentiste, desapareceu na memória como um sonho distante. E se, por algum acaso, essa dita Paz vier à tona do pensamento num dia de nostalgia, vai servir apenas de combustível para inflamar ainda mais a tua raiva. 

Vai chegar um tempo em que tentas recordar como é a alegria. É difícil. Vai ser apenas uma palavra num dicionário inútil da tua língua materna. Ou de outra língua qualquer que deseje transcrever esse sentimento bizarro no sentir de gente revoltada. 

Depois, saberás que te perdeste algures no caminho. Viraste numa esquina errada. Não encontraste a companhia certa. Aconteceu não sei o quê. Vais querer saber de ti, mas não vais encontrar respostas sobre o teu paradeiro. 

O ódio moldou-te a consciência à sua imagem. Vais sentir nojo. Muito nojo. Dos outros. Daquela coisa que fez nascer em ti essa semente raivosa. E de ti! Principalmente de ti! Porque te deixaste levar pela ausência de Amor. Porque és menos do que um dia desejaste. Tudo por culpa desse ódio maldito que não te deixa crescer. 

Mas isso é hoje. “Amanhã é outro dia”, como diz o povo. Não percas a esperança. Purifica-te. Limpa essa sujidade do pensamento. Ergue a cabeça com orgulho. Sentes ódio; contudo não és ódio. Algo melhor está por vir. Outro tu está por nascer.


quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Os adjectivos mais baixos


Hoje, declarei novamente guerra ao mundo. Fi-lo com a violência de quem, num acto extremo, bate com o punho cerrado na mesa. De maneira a que os alicerces da sabedoria, concebidos pela grandiosidade da ignorância humana, estremeçam.
Afirmei o meu caos, sem qualquer tipo de dúvida, àqueles que se haviam esquecido de que eu era invencível e imortal. Depois disso, fulminei-os com o olhar pintado de brutalidade. E eles, sem misericórdia, arderam nas chamas do ódio mais puro e implacável.
Espezinhei-os como o pó. Castrados e sem nome. Desprovidos de qualquer dignidade, ou a altivez que julgavam ter. Mesmo assim, numa réstia de bondade, deixei que fossem elevados a menos de nada, para os poupar da erradicação total da memória.
A esses, dei-lhes, portanto, a honra de constarem na história como os ridículos… Os asquerosos… Os repugnantes… Os que são apelidados com os adjectivos mais baixos, no vocabulário de todas os dialectos criados, em qualquer civilização já existente, ou ainda por vir.
No entanto, há em mim uma sede por crueldade, que não nego. Foi plantada na minha génese pela providencia divina, e eu acarinho-a como uma espécie de autoridade, para que pratique justiça contra quem ameace a minha tão amada serenidade. São os tais, vermes imundos, o alvo da minha ira castigadora.
Seja como for, não os identifiquei como inimigos. Apenas um ligeiro incomodo, como um dia mais nublado, ou uma comichão passageira. Nada mais. Interpretem este gesto como um ensinamento a todos vocês que um dia vão sentir o sabor da revolta contra quem vos tentar subjugar.

quinta-feira, abril 19, 2018

Entre a multidão de condenados


O homem acordou. O dia estava cinzento, tal como todos os outros quando se cumpre uma pena de prisão. Era assim a sua sentença, penosa e injusta.
Sem saber qual o crime que cometera, nem tão pouco o direito de se defender, fecharam-no numa cela de carne e osso. Um qualquer juiz celestial decretou que assim seria. Condenado à solidão e ignorância da humanidade.
Tem acatado o seu mandato cabisbaixo e submisso. Sofrido as amarguras da clausura com a mansidão de quem procura purgar as suas faltas sendo culpado (mesmo sem o saber). No entanto, na sua essência, uma revolta cresce. Traz consigo uma ânsia por justiça e liberdade.
Olha-se no espelho mas o reflexo não lhe diz quem é. Repete o seu nome mas tudo que sente é alheio. A única coisa verdadeira são as lágrimas de mágoa que verte sem que ninguém o escute.
Saiu para a rua e misturou-se na multidão de condenados. Amaldiçoou os que se riam e os que pregavam felicidade. Tudo era mentira.
Foi no meio desses que, levou as mãos ao rosto, e num acto de desespero enterrou as unhas entre a pele. Numa força sobre-humana, cravou-as como formões entre o crânio, os olhos e a área nasal. Estilhaçou os ossos, que ao ceder lançaram um som crepitante, dividindo a face a meio.
Os outros. Os que nada sabiam. Pararam horrorizados pela cena a que apelidaram grotesca. Olhavam assustados, no mais absoluto terror, ao presenciar o acto de suposta loucura.
Forçava os dedos cada vez mais até que finalmente toda a cara rasgou verticalmente. Foi então que começou a puxar para cada um dos lados, enquanto o sangue que escorria pintava a sua cor.
Da sua boca soltava-se um grito de pleno desespero. Talvez fosse a dor dos nervos em agonia; ou talvez fosse a alma em êxtase por conseguir a evasão.
Quando finalmente toda a cabeça se rompeu o brado calou-se. O corpo, desprovido de alento que o sustentasse, caiu no chão. Uma poça carmesim foi crescendo até reclamar a sua glória.
Sobrou o silêncio.
Depois, sem mais detalhes a acrescentar, para aqueles que ousem perguntar, surge a questão: A pena estava cumprida?

terça-feira, setembro 19, 2017

Seja o teu nome vingança!


Parte.
Parte tudo!
Destrói a realidade.
Contenta-te apenas com o caos!
Bruto,
Violento,
Sedento de sangue!
Na pele dos outros,
Carne em agonia,
Bocas em gritos.
Sonhos desfeitos a calar o teu vazio!
Raiva.
Arde em raiva!
Seja o teu nome vingança!
Selvagem,
Implacável,
Justiça pela tua mão!
Onde mora o mal,
Sem misericórdia,
Hipótese de perdão,
No rosto do arrependimento.
Dor manchada na parede do teu querer!
Rasga.
Rasga tudo!
Sem que o passado se escreva.
Desfaz as páginas do livro da mágoa!
Tirano,
Indomável,
Tudo em ti é liberdade!
Não te ditam leis,
Regras castradoras,
Mundo a teus pés.
Alma do desassossego no teu viver!

quinta-feira, junho 22, 2017

Infinita ironia


Ali estava ele cheio de expectativas para o futuro, momentos antes do espectáculo começar. Era jovem, cheio de ideias, de planos e projectos para concretizar, carregado de energia. Pronto para ser o herói daquela encenação magnífica. Nada podia destruir a sua vitalidade. O seu momento de glória estava próximo.
No entanto, Deus, na  sua infinita ironia estalou nos dedos esboçando um sorriso malandro. Então, com a Sua ordem, todo o palco ruiu  em segundos, transformando o cenário em escombros.
A sua inocência caiu por terra. Vieram as lágrimas, a dor, a mágoa, a tristeza e a desilusão. O espectáculo ficou adiado. Para  breve disseram os homens na sua ignorância (ou hipocrisia). Ele acreditou e aguardou. Afinal que mais podia fazer? Restava-lhe acreditar na mentira.
O tempo passou. O breve que lhe haviam prometido teimava em tardar mais e mais. E atrás dos tempos vieram mais tempos, longos e insípidos. A audiência cansou-se de esperar e rapidamente abandonaram a sala. Um após outro. Sem hesitarem, sem interesse e sem vontade de voltarem.
O guião da peça já há muito que tinha ficado esquecido. Ou melhor, destruído pela revolta, o ódio, a raiva e a fúria. De nada servia, já que o cenário foi erradicado para sempre devido a um capricho divino.
Ele, o outrora futuro herói, ficou sozinho. Até as emoções o abandonaram. Restou a esperança, como é seu dever, para lhe fazer companhia nas longas horas de vazio. Mas mesmo essa o abandonou. Afinal porque havia de o acompanhar, se já nem na mentira acreditava?
Então, sem esperança, tudo desapareceu. Até a solidão deixou de doer, também foi embora como tudo o resto. Ele ficou vazio, desprovido de ambição, desejo ou vontade. Para o resto das pessoas ele ficou esquecido para gáudio delas. Arrumado, ocultado, demasiado longe das suas memórias. Ele tornou-se nada.
Foi então que, no meio da nulidade em que tornara, se apercebeu que estava livre. Solto de sentimentos humanos que nada mais causam do que mágoa. Sem o peso da consciência a acusa-lo dos pecados humanos. Sem a ganância a pressiona-lo. Liberto dos grilhões que o prendem à existência mundana.
E também estava rico, pois o vazio podia ser preenchido a seu bel-prazer e por isso tornou-se o seu novo palco. Transformou-se, então, num artista, guerreiro, poeta, criador, a preencher a sua nova existência apenas com a sua vontade… De certa forma rival de Deus, que na Sua infinita ironia, foi derrotado! Ou, com tanto sofrimento, teceu o destino que sempre desejou àquele homem. Quem saberá dizer?

sábado, outubro 29, 2016

Sem grandes motivos...


Existe ódio escondido dentro de mim. À espera. Sei que ele não se vê nem se acredita, mesmo assim ele está lá oculto. Vagueia dissimulado na ternura do meu olhar, na alegria do meu ser, no entusiasmo da minha voz... Está cravado, sem piedade, num canto qualquer da minha alma inexplorada.
Adormecido...
Quem sabe se um dia vai acordar? Talvez atiçado pelo medo, ou por uma qualquer crueldade da existência. Ou, quem sabe ainda, sem motivo algum.
Por vezes interrogo-me se essa fúria indomável não tem personalidade própria? Não precisa explicações para ser, nem de ciência para acontecer. Simplesmente é!
Engrandece-se sem justificação a meio de um poema que se propunha feliz. Surge imprevisível como a lâmina de uma navalha, perfeitamente afiada, a rasgar a carne. Nasce do nada a romper a noite num ataque violento à nossa certeza.
Quem odeia não precisa de grandes motivos. Apenas de um instinto selvagem a recusar toda a justiça, como se as regras impostas fossem veneno para todos que desejam mais. Talvez até sejam, porque debaixo da capa da vida que nos cobre está uma história proibida de desejos malditos...

sábado, junho 18, 2016

A Arena


O falo ergueu-se decididamente, ostentando toda a sua virilidade! Não porque houvesse uma fêmea para copular, mas por pura demonstração de orgulho e masculinidade. Chamou a si, dessa forma, um pouco da origem animal que o homem tem.
Todas as mulheres que apreciavam aquele espectáculo, que supostamente seria apenas uma execução violenta e injusta para gáudio da assistência, não ficaram indiferentes àquela manifestação de audácia. Nesse instante algumas murmuravam entre sí, outras coravam, outras até, mostrando algum pudor junto dos maridos, afastavam o olhar. Ainda assim, não conseguiam esconder a curiosidade.
O juiz, tomado pela fúria contra aquele condenado que devia estar a implorar pela própria vida, quebrado pelo medo e a humilhação dos derradeiros momentos, ordenou que a arena se enchesse de guerreiros para que o sangue do maldito insolente fosse derramado.
Os gladiadores entraram em grupo. Eram eles, as suas espadas e armaduras, contra a nudez e coragem daquele homem.
Em poucos instantes rodearam-no. Confiantes na sua força e treino deixaram que o primeiro avançasse para iniciar o martírio. Mas a morte não iria acontecer com rapidez. Sabiam que a multidão queria um bom espectáculo, portanto cada um daria um golpe que esvaia aos poucos e dolorosamente a vida do pobre homem.
Aparentemente sem medo, o pénis mantinha-se erecto quando a primeira espada investiu. O movimento foi rápido. Quase imperceptível. O gladiador, que devia estar a festejar um golpe cobarde, estava agora no chão, sem vida. A espada, essa, com a sua lâmina afiada, estava agora na mão do condenado despido.
Houve um momento de silêncio incrédulo por toda a arena antes que acontecesse uma reacção. Vários guerreiros avançaram em simultâneo para vingar o colega. Um a um iam caindo vítimas da fúria do condenado. Parecia até fácil demais matar gladiadores para aquele homem despido. Todos se inanimaram a seus pés.
O impensável acontecera. A multidão começava agora a gritar pelo condenado em cânticos de incentivo. O juiz, tomado de uma raiva descontrolada, mandou avançar mais soldados que entraram em grande número.
O pénis recolhera ao isolamento da flacidez para não estorvar a percepção da mente atenta à batalha. Os gestos eram rápidos, frios, eficazes e implacáveis, sem qualquer tipo de erro. Saiam naturais para aquele combatente experiente. Quase inumanos aos olhos dos que assistiam. A morte, essa, vinha rápida e indolor para aqueles que caiam.
Não tardou até que não houvesse mais soldados, nem gladiadores, nem carrascos. Somente um homem nu em cima de uma pilha de cadáveres, munido apenas de uma espada, da sua pele e da sua coragem, ovacionado por uma multidão eufórica.
Já não estava mais sozinho, passara de condenado a herói. Queria agora justiça!
Olhou por entre a assistência eufórica e numa expressão que só aqueles que procuram a vingança podem compreender, usou a espada para apontar aquele que o condenara somente para satisfazer a sua fome de sadismo.
«Tu!» Exclamou!
A voz ecoou pela arena atiçando a multidão que em uníssono bradava: «Tu! Tu! Tu! Tu! Tu!» Repetia-se o grito cada vez mais forte para o juiz que provava agora o mesmo medo que gostava de impingir. Exigiam que o próximo fosse ele. Desonrado, sem soldados que o protegessem foi atirado para arena pelo povo em euforia.
Envolto em pavor ajoelhou-se e começou a chorar. Em palavras soltas entre soluços implorou pela vida à visão da silhueta despida do agora novo rei da arena.
Tal súplica não foi atendida.
Desta vez o golpe não veio rápido. Em passos lentos o homem aproximou-se do juiz. Segurou-o pelos cabelos esticando-lhe o pescoço. Ergueu a espada e saudou a multidão. Desceu depois a lâmina lentamente até à garganta do cobarde e sem qualquer tipo de pressa foi cortando a carne, certificando-se de que a agonia ia durar o mais possível.
O corpo caiu enfim. A tua tirania acabou ali depois da humilhação.
As palmas faziam-se ouvir por toda a arena. Era um ovacionar ensurdecedor pois tinha nascido um novo rei!

segunda-feira, abril 21, 2014

A brutidade


Estou inflamado de ódio!
Bruto, violento, implacável! Tenho uma vontade imensurável de obter justiça. Esquecer todos os valores morais e apertar lentamente o pescoço de quem atenta contra a minha paz. Ver o terror nos seus olhos cobardes com medo da dor, até que sinta o estalido da coluna vertebral a quebrar.
Mas isso é pouco! Quero matar mil vezes e mil vezes ainda é pouco! Muito pouco!
Quero vingar-me com sadismo de todas as mágoas que me consomem! EXIJO JUSTIÇA!!! Com a crueldade de um demónio a castigar severamente os pecados dos malditos!
Tudo em mim é fúria. Um mar de violência vindo das profundezas mais tenebrosas do meu ser toma-me, com vagas de selvajaria e reduz a minha humanidade ao sentido mais grosseiro do estado animal.
Garras afiadas como espadas para cortar a pele, caninos salientes para arrancar a carne, olhos a emanar ódio como uma força invisível que empurra para o inferno. Sem perdão!
Não me tentem chamar à razão. Afastem-se se não quiserem ser arrastados pelo caos que se gerou! Ninguém é inocente e a consciência está adormecida pelo sangue em brasa!
Deixem que o monstro que acordou em mim sacie a sua fome grotesca por justiça e crueldade...

segunda-feira, março 10, 2014

Falemos de amor


Dizem que o amor é a força mais poderosa do mundo. Concordo. 
Claro que existem excepções e quando as circunstancias são propícias, a força mais poderosa é exactamente a oposta. O ódio!
O ódio é analgésico, inflama, revitaliza, torna objectivo quem o sente, dando-lhe capacidades devastadoras. Faz renascer!
Sim, o ódio é violento, sanguinário, furioso, implacável, sem qualquer tipo de afecto ou misericórdia. Molda a pessoa com uma frieza insensível e mune-a com brutalidade.
Alguém capaz de vencer, arruinar, arrasar, aniquilar sem piedade o inimigo e ficar de pé perante todos os ataques! 
Digam lá se isto não é força?
Podem argumentar que o ódio corrói. Destrói a pessoa por dentro. Têm razão. E depois? Às vezes "é necessário ter o caos dentro de si para criar uma estrela"! A remissão virá depois...
Apercebi-me agora que era suposto falar de amor. Fica para a próxima.

sábado, outubro 26, 2013

BRUTO


Fúria maldita! A raiva toma conta de mim como um fogo que me assoma e tenho inveja de quem sente tranquilidade. Hoje tudo em mim é ódio! Tanta gente no mundo, tantos dramas com eles… Posso ser apenas mais um e se calhar no meio de todos sou apenas ninguém, mas permitam-me ser egoísta: sinto-me, irado, raivoso, violento, bruto e monstruoso! Exijo justiça sem remorsos, sem perdão… Não aceito desculpas por parte de quem me ofende! Quero que padeçam! Simplesmente isso!
Quanto a mim, apenas desejo voltar para a serenidade…


sábado, janeiro 12, 2013

DEMASIADO SIMPLES



Invoquei uma tempestade tal como um Deus de outras eras. O céu enegreceu com nuvens arrasadoras. Ergui o braço, abri a mão, dei ordem a relâmpagos e trovões que rachassem a noite e abalassem estruturas. Chamei ventos de força devastadora e chuvas impiedosas! Domei energias violentas capazes de assustar qualquer coragem.
Deixei que o som da tormenta manifestasse o meu poder. Eu, que me tornara o dono da semente do caos. Destruidor implacável, insensível ao medo. Arquitecto de incontáveis martírios. 
Por entre os rugidos e uivos daquela intempérie sem sentido, procurei no meu íntimo um pouco de humanidade que me sobrava. Lembrei-me de quem era: mero humano. Submisso aos sentimentos, ao tempo que passa, à carne e ao mundo. Fiquei furioso. Uma raiva extrema entrou em mim fazendo-me soltar um grito irado, de tal maneira que a própria tempestade se afastou temerosa.
Um silêncio leve foi-se chegando, como uma criança curiosa e uma calmaria desceu sobre o mundo. Compreendi a minha missão. Era demasiado simples, portanto, impossível de reparar enquanto se desejam quimeras. Voltei então à minha essência sem o peso de desejos insanos. Pus de lado as tempestades. Cobri-me com a sabedoria fazendo dela minha aliada. E assim, com a Fé dos destemidos lancei-me no meu caminho. 

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sábado, outubro 27, 2012

A SUA JUSTIÇA



A raiva corre pelas minhas veias como um fogo infernal! Ah, quem me dera ser um anjo vingador para rasgar o peito dos opressores! Sem hesitar cortar gargantas arrogantes e desmembrar corpos tirânicos!
Desanima-me a condição humana por ser consumido por um ódio destruidor que não me deixa ficar saciado! – Tenho fome e sede de justiça! – Grito com toda a força da minha revolta!
Resta-me a esperança na centelha divina que habita no meu íntimo. Que me torna uno com Deus e me pacifica quando a cólera se apodera dos meus sentimentos. Deixo nas mãos Dele, o derradeiro juiz, a sentença que merecem e consequente castigo.
Não desejo o mal, não desejo a discórdia, não desejo tanto ódio, que me cobre de vergonha, a habitar em mim… Submeto-me à humildade e suplico a Deus que faça acontecer a Sua Justiça…

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sábado, junho 09, 2012

DIREITO



Não me tirem o direito de amar… 
Tirar a alguém o direito de amar e de ser amado, é o mesmo que lhe tirar o direito de viver! Há muitos que o querem fazer. E se assim é, não vale a pena pregar valores, moral e bons costumes, pois é tudo mentira.
Se tirarem a alguém o direito de amar, estão a dar-lhe o dever de odiar! E se o amor move montanhas, o ódio certamente as destrói! 
Aqui fica o recado: Se impedirem alguém de amar, preparem-se para receber o seu ódio e por consequência, a vossa destruição…

sábado, maio 19, 2012

AUTORIDADE


Qual é o segredo do sofrimento?
Só mesmo aqueles que sofrem podem responder a esta pergunta porque têm autoridade para tal.
Existem aqueles que acham que sofrem e inventam sentidos deturpados, carregados de um certo positivismo narcótico.
Existem também aqueles que do sofrimento sabem apenas que existe, mas falam dele como se mestres fossem no assunto. Enumerando mil e uma razoes. Filosofam sobre ficar mais forte ou mais sábio. Prontificam-se sempre a julgar quem os contradiz, especialmente se for um sofredor… Mas que sabem eles disso? Mais valia estarem calados. A única resposta verdadeira que podem dar é o de não quererem sofrer.
Mantém-se a questão. Com a resposta calada na boca dos que a conhecem, tendo o fardo de nunca a poderem revelar, sob pena da incompreensão...


sábado, março 31, 2012

UM ANJO E UM DEMÓNIO



- O que és tu?
A voz acordou-me do meu sonho (ou chamou-me a ele). Não sabia bem diferença do que era real ou não.
- Sabes bem o que sou! Sou fruto da tua criação… – Respondi irritado.
- Não fui eu que te criei, apenas te dei as ferramentas para te criares a ti mesmo. Por isso, volto a perguntar: O que és tu?
A voz não iria parar de argumentar enquanto não respondesse. Portanto eu fiz-lhe a vontade: - Sou um demónio… – Respondi.
- Que resposta tão básica. Nem parece teu! Dá-me uma resposta que me satisfaça e deixo-te ir.
Suspirei. Não tinha paciência para aquela conversa. O meu mundo não era ali. – Deixa-me em paz. – Disse, na esperança que me soltasse.
- Não. Sabes muito bem que não. Só quando me deres a resposta. – Afirmou a voz com tom severo.
- Um anjo. – Voltei a responder.
- Outro cliché! Um anjo e um demónio. Já está muito visto. Não és assim tão básico. Exijo que me digas o que és? – A voz tornou-se mais severa e agressiva. Não tinha outra hipótese que não responder.
- Maldito sejas! – Gritei raivoso porque a voz era a minha única arma. – Fizeste de mim algo incompreensível, inexplicável e queres te diga agora o que sou? Pois eu digo-te o que sou: Sou indomável, invencível, ordem e caos! Mestre da minha própria existência! Tu não me dominas e jamais o farás! Sou muito mais que o Infinito!
A voz não respondeu. Mas senti-a dentro de mim a esboçar um sorriso enquanto se dissipava.
Não sei se era um acordar de um sonho, ou um adormecer transcendente. Mas o que eu respondi, está respondido e é a verdade…

sábado, novembro 26, 2011

COISAS QUE ME FAÇAM ACONTECER



Há dias em que conversas banais me incomodam. Falar sobre o tempo, a crise, a vida dos vizinhos, de não sei quê, de não sei das quantas, de não sei quem! Perdoem-me o desabafo: Mas a vida é muito mais que isto! Irritam-me coisas tão básicas!
Apelidem-me de arrogante, louco, frio ou até mesmo de monstro. Para mim tanto me faz! Mas falem-me de coisas com beleza. Coisas que me façam sonhar. Coisas que me façam acontecer!
Não me deixem adormecer no marasmo das banalidades. Alimentem-me com vida para que nasça em mim mais vida e todo eu seja criação!
Argumentem o que quiserem, mas o meu punho vai bater forte na mesa, sempre com a mesma convicção: A vida não é uma coisa banal!


sábado, outubro 02, 2010

FUJAM OU COMBATAM



Fujam! Fujam todos! E levem a vossa vida convosco!

Vêm aí as velhas alcoviteiras para vos enumerarem os pecados!


Escondam as vossas posses, desejos, sonhos e caprichos! Escondam! Que elas roubam tudo!


As velhas alcoviteiras estão vivas, mas esqueceram-se de viver a vida que têm, por isso alimentam-se das vidas dos outros!


Fujam! Fujam sem olhar para trás! Se têm medo da moral e bons costumes! Senão vão ser julgados pela boca de quem se esquece de viver!


Quem tiver coragem, fique comigo! Vamos combater essa gente! Traz contigo a tua má fama com todo o tipo de impropérios e obscenidades!


Se nos acusarem de renegados, mostraremos que somos ainda piores! Se nos apedrejarem, respondamos atirando pedras ainda maiores! Se nos quiserem linchar em praça pública, com as suas foices, gadanhas e inchadas, cavemos as suas sepulturas com os seus próprios instrumentos!


Venham amigos, venham! Vamos como chuva intensa, limpar a terra dessa corja!


Vamos queimar essa gente, como bruxas em fogueiras da inquisição! Arrancar-lhes as línguas e dá-las de comer aos porcos!


Vamos escrever os seus nomes com carvão negro em paredes brancas, para que sejam sinónimo de sujidade!


Fujam! Ou venham combater! Mas nunca se submetam à vontade de gente sem vida!

sábado, agosto 07, 2010

ENSAIO



Peço desculpa a quem deseja que eu ame, mas hoje não sou capaz. Não consigo ver gente feliz. A simples ideia de saber que existe gente cheia de felicidade irrita-me. Hoje sou filho do ódio! Este sentimento asqueroso tomou conta de mim. Deixou o meu coração gélido e um fogo ardente no meu estômago, que me vai consumindo por dentro. Se o ódio é o meu pai, a vida é a minha mãe (ou madrasta). Apelidem-me de monstro, besta, animal… Mas afastem-se de mim. Metem-me nojo! Se o ódio existe, é porque serve para ser sentido. Logo, não deve haver nada de extraordinário naquilo que sinto. Raiva, ansiedade, solidão, inveja, desespero, até mesmo loucura! Tudo misturado, como se fosse uma poção maléfica, no caldeirão de uma bruxa malvada, pronta a ser julgada, torturada, queimada pela inquisição! E eu aqui perdido no meio, sem saber para onde ir. Enfim, suponho que seja apenas mais um dia na vida de uma pessoa normal…