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domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade


Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.


quarta-feira, março 18, 2026

A janela da realidade


Aquilo que tomas por existir,

Não és tu.

É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.

Tu és meramente uma figura observadora.

Sem o privilégio de nascer,

Sem o direito de morrer,

Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,

A gritar por quem te possa acudir.

Pois, do lado de cá estás a dormir.

Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.

Não te recordas de adormecer,

Não te lembras de te esquecer,

Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.

Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.

Projeto falhado para nunca construir.

Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.

Só isso.

Sem promessas nem compromisso.

Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.

Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.

Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.

Nunca vais escapar.

Olhas.

Deste lado articulas movimentos.

Fazes coisas.

Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.

Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.

No entanto, aí estás tu.

Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.

Dói-te algo que nem sequer tens.

Tu e tu.

Tudo e nada.

Duas faces inúteis da mesma fachada.

Vazio e dor.

Paz rasgada.

Aí dentro e do lado de cá, uma sobrevivência frustrada.

Uma infinidade de tantos como tu,

Sem conseguirem passar,

A espreitar, com amargor, pelo vidro da janela estalada.

Constantemente esmurrada,

Pelos punhos de cada devaneio sofredor.

Coro de gritos calados no peso do marasmo.

És um instante de ilusão.

São todos instantes de ilusão.

Tu, tu e tu!

Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:

Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!


domingo, fevereiro 08, 2026

#gordura

Estais gordas.

Inchadas com tantas banhas.

Os transmontanos quando olham para vocês só pensam em fazer enchidos!

quinta-feira, janeiro 29, 2026

O X no quadradinho



Dai vivas! 

O Zé Povinho votou num banana!

Chegou escondido,

Sem fazer grande alarido,

Politicamente correto, com voz de serenata.


Dai vivas! 

Falava sem pressa,

Expressões doces ao ouvido,

Para encantar o iludido,

Com palavras caras disfarçadas de figura honesta.


Dai vivas!

Batam palmas e façam festa!

O rei está escolhido.

Vai ao trono mais um vendido.

Bolsos cheios de moedas, sem ideias na testa.


Dai vivas!

O Zé povinho elegeu outro banana!

De democrata mascarado,

Não passa de um fantoche articulado,

Com alguém a puxar as cordas de tal figura patética!


domingo, janeiro 25, 2026

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aquela cena das páginas do ano


– Foda-se!

– Lá estás tu a resmungar.

– Explica-me lá outra vez. Esta é a primeira página de quantas?

– Trezentas e sessenta e cinco.

– Isso já dá um livrinho composto.

– A ideia é essa.

– Mas afinal porque tenho de ser eu a escrever?

– Ainda perguntas!? Andas com muita preguiça. Tens o blog às moscas, com muito material para ser tratado e publicado. Não queres saber, portanto é imperativo seres tu a escrever!

– Ó! Estou de vacances e com este frio não dá vontade de escrever.

– Tretas! Já andas com preguiça há mais de meio ano!

– Pronto. Eu escrevo, mas qual é o tema?

– Tu és o escritor, desenrasca-te.

– Espera aí. Esta é uma daquelas cenas em que cada dia do ano é uma página!?

– Sim. Só agora reparaste?

– Bolas! Isso é uma parolice. No dia um, anda meio mundo com esta história, passada uma semana já ninguém se lembra e voltam todos para a rotina. Como te deu na ideia de fazer isto?

– Por aquilo que te disse já há pouco. Precisas de escrever. Uma palavra, uma frase, um parágrafo, uma página por dia. Senão qualquer dia perdes o jeito.

– Olha, se calhar já perdi. De qualquer maneira faço-te a vontade e escrevo a primeira página.

– Muito bem.

– Já o resto, depois logo se vê!  

– São muitas páginas. Escreve e cala-te.

– Por falar nisso, como ainda não desejei, aproveito e deixo os votos de Bom Ano para ti que estás a ler!


sábado, março 01, 2025

Estudem, façam sucesso e mostrem ao mundo


Acertou em cheio! Disparou com mestria a fisga de infância. Uma pedrinha arredondada não falhou a nádega esquerda da irmã!

Pobre coitada! Soltou um berro esganiçado. Saltou, enquanto levou as mãos ao traseiro na esperança de aliviar a dor inesperada. De imediato, tornou-se o centro da atenção dos convidados. Para piorar, despejou o champanhe em cima da senhora com quem conversava. Mais um grito. Ainda por cima, desequilibrou-se e partiu um salto.

Depois da surpresa inicial, os presentes começaram a rir. (Vamos ser francos. Teve piada!) Não tardou até uma gargalhada colectiva tomar conta do jardim. 

Já ela... Sentiu tanta vergonha! Aplicou-se ao máximo para organizar aquela festa na casa dos pais, da vila do interior onde passou a meninice. Comprou um vestido de gala, junto com uns sapatos lindos. Arranjou o cabelo. Não poupou, nem dinheiro, nem esforços. Transformou-se numa mulher de sucesso na cidade e fazia questão de mostrar àquelas gentes isso mesmo.

Agora estava no chão. Gozada por todos. Ficou furiosa. Olhou para cima e viu o irmão a rir como um desalmado na janela do quarto. Aquela brincadeira não ia ficar impune! Já não era uma miúda franzina para suportar as humilhações das travessuras dele. Não tinha idade para chamar os pais para virem em seu socorro. Nem um valente puxão de orelhas ia resolver a situação. Era tempo de se vingar!

quinta-feira, novembro 14, 2024

Manifesto de desprezo


Sou o Senhor da solidão

Nesta terra vazia

Cheia de gente perdida

Sem qualquer ambição


Tenho nojo da acomodação

Dos filhos da apatia

Na sociedade apodrecida

Não aceito a formatação


Cruzo-me com olhares sem paixão

Em cada rosto que se desvia

Da verdade tão temida

Preferem esconder-se na ilusão


Recuso esta resignação

Duma vida sem ousadia

Prefiro uma voz não ouvida

Às grades da submissão


Não aceito a rendição

Com asco da covardia

Desdenho da monotonia

Dá-me nojo o fedor a podridão


Sou a sombra na multidão

Desprezo pela hipocrisia

Declamo o grito da fúria

Faço-me o caos a exigir libertação


sábado, outubro 05, 2024

De cabeça erguida


Sigo pelo meio da rua vazia 

Orgulhoso como um desistente

Exibo o meu sorriso descontente

Aos espectros na calçada sem vida


Sigo como uma alma perdida

Rotulado como demente

Na minha derrota permanente

Guiado por uma bússola partida


Sigo com passada destemida

Enfeitiçado pelo horizonte 

Rumo a uma meta inexistente

Onde encontre alguma guarida


Sigo de cabeça erguida

Alheio a toda a gente

De passada insistente

Numa jornada incompreendida


Sigo na certeza da dúvida

Fixado no transcendente

Desajustado continuo em frente

Apoiado nesta oposição destemida


Sigo sem que a minha voz seja ouvida

Desprezado e nunca subserviente

Que a sociedade me chame insurgente

Sem que a minha diferença seja aplaudida


quarta-feira, setembro 25, 2024

Ode ao progresso, aos políticos e ao Zé Povinho


Anoitece na vila. 

As estradas rasgadas, 

cicatrizadas, 

da povoação a ficar vazia. 

Sem almas perdidas, 

penadas.

Começam logo pela matina.

Levantam-se derrotadas,

falhadas,

levadas pela rotina.

Todas atarefadas,

apressadas,

atravessam assim o dia.

No trabalho amarguradas,

frustradas,

sem a recompensa prometida.

Continuam esperançadas,

abandonadas,

na sina resignada.

Andam distraídas,

acomodadas,

sem revolta destemida.

Voltam para casa sossegadas,

aconchegadas,

sem dar pelo passar da vida.

De noite recolhidas,

cansadas,

no lar que lhes dá guarida.

No sofá sentadas,

entretidas,

não repararam na rua rasgada,

nem nas palavras dadas.

Iludidas,

esquecem a promessa não cumprida.

Ficam as excelências perdoadas,

absolvidas.

Discursam os políticos de voz comovida,

desculpas mal paridas,

ofensivas.

Escuta indiferente a manada.

Cantam mentiras descaradas,

desavergonhadas,

ao Zé Povinho de orelha enganada.

O progresso nas estradas,

remendadas,

baboseiras de cobardia escondida!

Politicamente corretas vendidas,

fingidas,

a quem não entende mais nada.

Sobram a ruas cicatrizadas,

maltratadas.

E a revolta fica castrada...


domingo, setembro 08, 2024

S. Paio dos augados


Uma mulher passou por mim e deixou-me curioso. Conduzia, decidida, uma pick-up. Foi uma visão demasiado fugaz para conseguir perceber mais pormenores. Apenas o suficiente para ler a linguagem corporal. 

Não reparei na idade, nem tão pouco nos pormenores do rosto. Apenas, pela sua postura, assumi ser alguém pertencente a um meio onde a subsistência provém do trabalho agrícola. Seria bom, poder fazer-lhe paragem para lhe perguntar: "Quem és tu? De onde vens? Fala-me de ti! Eu sou este que tu vês. Tenho tanta coisa dentro de mim". 

É um pouco triste, após estes encontros breves, não poder abordar ninguém na rua dessa forma sem parecer bizarro, ou ser confundido com um tarado.

Os outros, passam com roupas compostas dentro dos seus carros. Vão esvaziando a vila a caminho do S. Paio dos augados. À noite vão à festa ver um artista pimba qualquer, a dançar, ou com um copo de cerveja na mão, enquanto celebram o fim do Verão. 

Os jovens, esses, desinibidos pelo álcool, fazem amor pela madrugada dentro. Despedem-se assim do fim da despreocupação das férias grandes. Na próxima semana começa a labuta para todos e com ela as responsabilidades adjacentes.

Depois, sobro eu. Uma criatura observadora destas lides da gente banal. Sigo na direção oposta em busca de outra festa, onde não exista música popular, ou falta de sobriedade. Amaldiçoo e abençoo esta minha índole solitária. Encaro mais um dia nesta busca perpétua sobre o significado de existir no meio dos outros. Perdido. Em busca de me encontrar. Embora, com uma certeza firme, disso nunca vir a acontecer.

Passou a mulher da pick-up e já vai longe. Passou o Zé Povinho para o arraial e deixei-os ir. As ruas ficaram nuas, sem o som dos automóveis a poluir o asfalto, nem passos apressados na calçada ao lado. A estrada está assim despida. Ao ponto de se poder caminhar sobre ela sem o perigo do atropelo. Por aí continuo esta minha reflexão ocasional e sigo o meu caminho sem rumo.


quarta-feira, julho 10, 2024

Encontro casual entre dois conhecidos


– Noutro dia cumprimentei-te e não me ligaste nenhuma!

– É porque estava distraído.

– É mais porque estavas noutro mundo! Diz antes assim.

– Eu estou sempre noutro mundo.

– Não estás nada, porque estou a olhar para ti.

– Estou lá, mas aqui sou só uma ilusão, criada de forma a ser perceptível pelos sentidos humanos. Uma mera projecção quadrimensional de algo incompreensível para a pequenez da nossa mente.

– Dizes cada coisa! Valha-me Deus!

– Digo o que preciso de dizer.

– Tu és mas é maluco. Olha, para mim, só existe este mundo.

– A teoria de existir só este mundo não é satisfatória. Isto de ser de carne e osso não faz sentido. Nascer, crescer e morrer, com algum entulho pelo meio é estúpido.

– Não sejas assim! A vida não é só isso, também amamos, temos trabalho e família.

– Não posso negar a importância dessas coisas. São boas e faz sentido cultivar. No entanto, como disse, são entulho para nos iludir!

– Irra, tu és impossível! Então, nós somos o quê?

– Simples engrenagens numa máquina, à qual chamamos sociedade. Somos educados para fazer parte deste sistema, tão antigo quanto os primeiros grupos organizados de seres humanos. Somos redundantes, substituíveis e irrelevantes, sem termos noção disso.

– E continuas com essa conversa.

– Claro. Fazem-nos acreditar no contrário, na nossa importância e capacidade de chegarmos ao topo. E nós, bem-mandados, acreditamos. Além de sermos apenas isso, também educamos as gerações seguintes para fazerem igual. Por isso, a simples existência deste mundo tão básico, não me convence. Tem de haver mais. Portanto, estou sempre aqui e lá, naquele outro mundo incompreensível onde só se chega através da fantasia.

– Valha-me Minha Nossa Senhora! Não percebo nada do que estás para aí a dizer. És mesmo maluco. Olha, até logo.

– Até logo.


Baseado numa conversa real.


quinta-feira, abril 04, 2024

Elas ainda andam aí


Corre beata, não vá chegares atrasada à missa. Vai e presta muita atenção. Ouve bem o sermão do padre. Certifica-te da afinação do coro. E principalmente não esqueças de reparar nos outros. Vê se estão vestidos a preceito e se comportam com reverência. Não te esqueças, tu também, de mostrar uma cara pesarosa. É teu dever dar o exemplo de como bem adorar a Deus. Na fila para tomar a hóstia mantém a cabeça baixa, porém os olhos atentos. Da esquerda à direita, percorre com a visão todos os cantos da assembleia, sem esquecer nenhum pormenor. Guarda na memória todas as falhas. O Senhor precisa do teu zelo para conhecer estas faltas.

Mas beata, não basta seres assídua e assertiva na Eucaristia dominical. Tens de ir muito mais além. Todos têm de saber que estás aqui para servir. Portanto, há muito trabalho a fazer para cuidar do rebanho. É teu dever dar catequese, instruir a juventude, ir aos escuteiros, procissões, orações, estar presente em tudo o que é grupos, seja paróquia ou diocese. Nas palestras deves estar bem visível para todos saberem quem és. Serva fiel e dedicada da santa igreja. Exemplo de boas práticas. O nome certo, ao qual recorrer na hora de ser preciso planear. Não ligues a quem diz, 'os que estão em todo lado fazem tudo mal'. Obviamente não te conhecem, muito menos a tua perfeição.

Depois, beata, não esqueças igualmente de anotar todos os erros dos outros trabalhadores na messe. Aparecem aqui e ali, sem fazer nenhum. Se não fosses tu, nada ia para a frente. Nem sequer o padre, coitado, se aguentava de pé. Ainda assim, guarda estes pensamentos para ti. Não os partilhes com ninguém, a não ser com duas ou três almas preocupadas da tua confiança. Cinco ou seis vá. Porque afinal não vale a pena levares esta cruz sozinha ao calvário da tua glória. Umas quantas palavras, inocentes de pecado, não fazem mal. São meros desabafos. Essa gente pouco ou nada faz e é teu dever divulgar as suas faltas junto das tuas amigas da paróquia. E se aparecerem mais algumas, são bem-vindas. Não é maldizer, quando se fala a verdade.

Acima de tudo, beata, lembra-te: A modéstia é uma virtude essencial na fé cristã. Quando estiveres a contar sobre a tua devoção e trabalho árduo, deixa bem claro, não fazes isso por vaidade, mas sim por um bem maior. Não se trata de arrogância quando há humildade a mais. Isso é o que dizem as más línguas com inveja de ti. Nada pode ser mais justo do que dar a conhecer aos outros quão boa católica praticante és tu. Participativa e informada. Conta-lhes tudo, para te virem agradecer essa entrega enorme. Podiam, às vezes, não reparar. Não estás nisto por louvores, mas uma palavra de elogio sabe sempre bem ouvir. Ainda por mais, quando estão tantos contra ti.

E assim, beata, aproveita e olha para dentro de ti. Pergunta se, esta tua constante presença atenta, pronta a apontar os erros dos outros, não é uma necessidade gritante de carência e aprovação? Esse teu comportamento crítico não será o reflexo da tua própria insegurança? Enquanto estás a apontar os erros dos outros, estás ocupada, longe da tua própria companhia. Consegues distrair a mente do pensamento sombrio de não seres suficientemente capaz. Uma ilusão que te faz sentir superior e mais digna. Néscia! Não sabes tu estar a preencher o teu vazio com ainda mais vazio? Acorda! A vida está lá fora, escusas de fugir para dentro de uma igreja. Enfrenta o mundo sem acusares a torto e a direito. Todos temos as nossas falhas, faz parte da experiência humana. Para de julgar, pois, acredita, quando viras as costas também te julgam a ti! 

Então, beata, quando reparares, continuas sozinha. Num canto, a ver aqueles que acusaste a conviver entre si sem te ligarem nenhuma. Quando deres conta, condenaste-te a ti própria ao isolamento. Até mesmo quem coscuvilhava contigo, abandonou-te a mercê das tuas acusações. Só te sobras a ti mesma e o constante vazio, o qual nunca conseguiste preencher. Já agora, peço desculpa por te estar a rotular. Estou a fazer contigo o que tu fazes com os outros. Não era minha intenção, mas olha, aconteceu. Para me redimir, vou ''pregar para outra freguesia''. Deixo-te com as minhas falhas para anotares, comentares e julgares. Sempre te manténs entretida. Vais evitando assim, a tua própria companhia.



sábado, março 23, 2024

O Perfume do desdém


Tu, que és filho de ‘Fulano Tal’,

Meu amigo,

faz bom proveito disso.

Sobe lá para cima do teu pedestal.

Olha para baixo, sempre com desprezo.

Vê os pequeninos a batalhar, no imundo patamar, onde deambulam os inferiores.

Se te der volta à barriga, procura uma latrina.

Não te inibas de cagar, sobre a cabeça dos menores.

Pelo assento aberto, acomoda o teu cu elitista, e manda os intestinos defecar, em cima de quem olha para o ar.

Borra aqueles que se conformam, somente em te invejar.

Olha para eles, pintados de castanho, com a tinta mole das tuas fezes. 

Ri-te, grita alto para te ouvirem gargalhar. 

Encara isso como uma esmola: 

Poderem sentir o teu fedor, na mesma mesa que os alimenta.

Se alguém te vier incomodar, por causa do mau cheiro, dá-lhe um bocado de perfume, para aliviar o queixume e parar de te chatear.

Depois, 

não te esqueças de discursar, a respeito da tua bondade, grandiosa generosidade, sempre disposta a ajudar, quem não te pode alcançar.

Contudo, 

Devo avisar-te: 

Não te aproximes muito da berma! 

Escorregar é fácil e cair também. 

Eles podem apanhar-te, todos juntos assimilar-te.

Então,

Não vale a pena gritares, por ajuda lá em cima. 

Ela não vem.

Uma vez no andar de baixo, já não és conhecido de ninguém.

Toma ainda cuidado com outra coisa: 

Alguns deles acordam.

Sim.

Isso mesmo, abrem os olhos e como se não bastasse a ousadia, ainda conseguem aprender a voar. 

Quando deres conta, podem-te estar a sobrevoar, mesmo se estiveres no andar de cima.

Olha que voam bem alto! 

Mais do que podes imaginar! 

Alguns com vontade de vingar, o martírio que os fizeste passar.

Os céus pertencem a eles. 

Aos ousados,

Injustiçados, 

os quais alcançaram os ares. 

De voar, nada sabes. 

Já nasceste no topo, 

sem asas, 

nem vontade de explorar.

Não sabias que havia mais topo.

E ainda mais! 

Igualmente, têm necessidade de cagar. 

Quanto ao resto, já sabes: 

As fezes obedecem à lei da gravidade.

Quando deres conta, só tens tempo de lhes ver a sombra... 

Não preciso explicar como vai acabar.

De herói, a renegado. 

De gozão, a gozado. 

De chique, a borrado.

De castanho, pintado.

Se estiveres todo cagado, ninguém te vai querer cheirar.

Finalmente,

fica bem ciente,

o cheiro da merda é sempre igual.

seja de gente banal,

ou filho de ‘Fulano Tal’!



Dedicado aos meus professores do 6º ano. 


segunda-feira, dezembro 25, 2023

Tempo de Natal


O Deus Menino nasceu pequenino, mesmo sendo maior do que o mundo. Encarnou na pobreza e foi deitado nas palhinhas. Dizem os padres ser uma mensagem de amor e humildade por parte do criador. Todos sabemos que a humanidade não compreendeu isto. 

Igual a qualquer outra criança foi gerado para crescer exposto ao ódio, fome, peste e guerra. A sua imagem devia ser adorada com amor e devoção. Em vez disso, é usada como decoração em cenários de riqueza, onde abundância só chega a alguns.

A criança divina, rei de todos os povos, foi coroada ainda bebé com uma coroa de espinhos.

De repente já é um homem. Vê luzes brilhantes e escuta canções alegres, parecem ocultar a dor de quem grita calado nos lugares longínquos. 

É proibido falar de sofrimento como se este fosse uma coisa real. Serve para alimentar as notícias, para quem tem fome de tragédia poder lamentar como se isso aliviasse a consciência. Dá-se uma esmola aqui e ali para afastar a culpa, não vá ela pesar na mesa farta da noite de consoada.

Desigualdade, injustiça e crueldade. Ganância e egoísmo, disfarçados de generosidade. Celebravam o seu nascimento com festas extravagantes e presentes caros, enquanto os invisíveis olham cá fora pela janela, ao frio, com a inveja própria de quem só lhe resta o sonho.

Nós sabemos e continuamos.

E o Deus Menino chora porque o Natal é tristeza.


domingo, abril 02, 2023

Que as mulheres não me interpretem mal...


As mulheres que amei quando era jovem estão todas velhas!

Não me refiro àquela velhice decrepita, cheia de rugas profundas e deformações corporais. Nada disso. A beleza física mantém-se, mesmo a rasar a meia idade. Silhuetas firmes bem delineadas, a servir de guarida a uma pele macia e bem cuidada. Aparência irrepreensível, como se quer numa mulher moderna e dona de si. Nada contra, pelo contrário.

Falo da vulgaridade do dia-a-dia. O espírito de aventura foi trocado pelo zelo do lar. As corridas na natureza substituídas pelo exercício no ginásio da moda. As conversas flutuam entre o preço das compras, as mazelas que vão aparecendo aqui e ali, ou o enredo da novela. Tudo nelas gira em torno de rotinas mundanas. Nada mais, só isso. São de uma banalidade violenta, chata, enfadonha, deixando-as completamente desinteressantes.

Olho-me ao espelho e reflicto. Talvez o meu género masculino não tenha deixado crescer o petiz dentro de mim. Uma criança endiabrada a fugir das responsabilidades adultas. Também as tenho, mas não sou dominado por elas. Se calhar o erro está em mim, ou não. Abomino a ideia de seguir o caminho que a maioria segue. Eu amo o infinito. As incógnitas escondidas do Universo. Preciso de inquietude para saber quem sou.

A mudança é inevitável. O tempo traz consigo as escolhas que nos transformam. Cada um de nós percorre um caminho diferente. O que para mim é tédio, para os outros pode ser infinitamente gratificante. Olho para os homens com quem elas decidiram partilhar a vida, no conforto da família. É possível terem encontrado um equilíbrio. Ou simplesmente encontraram uma satisfação acolhedora.

Dou por mim a fazer comparações. Sem julgamentos. Apenas uma certa necessidade de compreender o crescimento humano. Sou diferente deles, com certeza. Na minha natureza observadora não deixo de sentir simpatia por quem faz o que é suposto fazer. A sociedade tradicional assim manda. Afinal de contas somos bichos e até os animais se confortam entre si. Ainda bem que assim é.

Deixo o meu enigma para depois. Tenho outros amores à minha espera. Seja nas palavras que escrevo, nas cores da natureza, na arte que consumo, ou nos corpos de outras mulheres que me cativam com o seu próprio mundo. Ofereço-lhes também um pouco do meu, nestes encontros de quem não tem amarras. Cada um leva um pouco do outro. Talvez seja outra forma de criar pontes. De viajar. Ou até mesmo de crescer.

Ironicamente, ao ler o texto do início, não me parece assim tão original. Já houve alguém que escreveu sobre isto e chegou a conclusões semelhantes. Paciência. É sinal que não estou assim tão à parte. Mas não devemos ser muitos. Uns nas ciências, outros das letras, todos com as suas utopias. Deduzo ser algo natural, haver quem se ocupe dos mistérios da existência. Mesmo sendo inútil fazê-lo.


sábado, fevereiro 25, 2023

O Pianista


Já repararam como o acto de chorar pode representar vários sentimentos? Para os bebés é uma forma de chamar a atenção, já para os adultos pode ser: dor; angústia; desgosto; alívio; alegria; emoção... Calhou a este último ser o responsável pelas lágrimas de uma plateia inteira. Tomados pela comoção, cada um dos espectadores, expressou-se com gotículas salgadas a escorrerem pelo rosto. Isto antes de se conseguirem levantar para uma monumental e demorada ovação de pé. 

No palco, o pianista tentava agradecer por toda a aclamação, com uma linguagem corporal tímida. Parecia até, estar a pedir desculpa por existir a toda aquela gente. Após longos minutos, lá conseguiu convencer os espectadores a parar com as palmas. Contudo, passados poucos segundos, começaram todos a gritar em uníssono «MAIS»! 

O pianista, no alto do seu apogeu, declinou. Tentava acalmar a assistência sem sucesso. A sua cabeça rodava em negação. A plateia não se contentava com aquela resposta e insistiam «MAIS»! «MAIS»! «MAIS»! 

«NÃO»! A voz do pianista ecoou por toda a sala de espetáculos. Soltou um grito visceral, uma ordem imperativa saída diretamente da alma. Calaram-se todas as vozes insistentes. Ficou apenas o silêncio. 

«A peça não está completa, muito menos é da minha autoria. Eu não mereço os vossos elogios». Desabafou o pianista, perante os rostos surpreendidos que o encaravam atónitos. 

«Ouvi os primeiros acordes num sonho, quando era criança. Ficaram entranhados na memória. Eram uma presença constante em tudo o que eu fazia. Aquela harmonia não me abandonava, estava constantemente a ouvi-la na minha mente, por isso, decidi aprender música». Explicou o pianista. 

«Depois, enquanto crescia, sabia que tinha de encontrar o resto da melodia. Comecei então a procurar nos pequenos pormenores da vida. Aos poucos descobri o segredo. Certas cores transformavam-se em notas musicais. Algumas paisagens convertiam-se em pequenos trechos, assim como os beijos no calor da adolescência». 

O pianista projectava a sua voz intensa por todo o teatro. Chegava a todos sem qualquer auxílio de equipamento sonoro. «Aprendi mais tarde o nome do fenómeno; chama-se sinestesia. Acontece quando o cérebro interpreta algo com um sentido trocado, no meu caso imagens, sabores, toques, são interpretados como música. Em cada acorde, em cada pequeno trecho descoberto, eu acrescentava à partitura. Aos poucos, foi ficando mais completa até se transformar naquilo que toquei para vocês hoje». 

O público escutava a explicação com curiosidade. Certamente acreditavam que a genialidade daquele pianista estava acompanhada por uma dose generosa de loucura. Talvez não estivessem a enganados. 

O músico, calou-se de forma abrupta. Ficou quieto e encarou-os durante alguns momentos. Logo a seguir correu para o piano. Pegou nos papéis da partitura e acrescentou mais umas quantas notas. «Vocês querem mais? Então eu dou-vos mais»! 

Acomodou-se na sua pose concentrada, sentiu as teclas e tocou durante cerca de trinta segundos. Isto, se fossem contados pelo relógio. Já para a plateia, o tempo estendeu-se. Cada nota parecia uma viagem e aquele meio minuto transformou-se num universo inteiro. 

«Gostaram»? O pianista voltou até à borda do palco. «Esta parte escrevi com as vossas lágrimas. Mais um pequeno acrescento à obra completa. Mas como disse, eu não posso receber o mérito da sua autoria». 

Começou a andar de um lado para o outro. «Esta composição, é da autoria do próprio Criador. É a música da vida! Talvez contenha até o segredo do Universo e existe em todas as coisas. Eu só me limito a tocar aquilo que consigo entender. No entanto, podem acreditar. Vai chegar o dia em que eu vou conseguir completar a melodia. Depois, tudo fará sentido». 

«Porquê»? Os rostos fixos no pianista adivinhavam a pergunta. «Porque desde o nascimento; desde a primeira estrela; desde a primeira centelha de criação; esta sinfonia está lá. Com todos os Enigmas do entendimento humano respondidos. ». Quietou-se por alguns instantes. 

«Quem sabe, tudo se resuma à consciência solitária de cada um de nós, perante a nossa própria fragilidade. Contudo, na minha opinião, não precisamos de enfrentar esta existência sozinhos. Podemos encontrar conforto e inspiração nas histórias, na arte, na sabedoria e naqueles que nos rodeiam». 

O seu discurso mais parecia uma declamação poética. As palavras surgiam-lhe na boca de forma espontânea, sem qualquer tipo de reflexão ou ensaios prévios.

«Devemos procurar a verdade, a beleza e a bondade no mundo e em nós mesmos, encontrar assim um sentido para a nossa vida e um lugar no cosmos. A nossa pequenez torna cada momento precioso e único. Então, que todos possamos vivenciar esta liberdade, amar intensamente e aprender sempre»!

Quem já teve um momento de revelação ou uma ideia grandiosa, certamente reconheceu a expressão iluminada no rosto do pianista. A mesma de quem consegue ver a ordem escondida no caos.

«Quando finalmente completar a partitura, talvez toda a nossa ignorância desapareça e algo novo nasça, gerado nos alicerces da sabedoria. A vida é, assim, um misto de descoberta, viagem e despedida. Uma melodia interpretada por todos os sentidos, como esta peça musical que partilho e componho convosco»… 

Deixou a frase a meio e olhou para o piano com uma lágrima a cair do seu próprio rosto antes de continuar. «Julguei estar a compor um requiem para um homem só, quando afinal era uma epopeia para cada um de nós»! 


segunda-feira, agosto 29, 2022

A superioridade do polegar oponível

Gosto de ver a vizinha estender roupa. Fá-lo com gestos ágeis a denunciar uma mestria natural. Os pequenos pormenores tornam o processo hipnótico. Desde a sacudidela energética nas vestes, sempre acompanhada de um baque abafado, até à forma quase mecânica como coloca as molas na corda. Em pouco tempo fica tudo ao penduro, à espera que sol cumpra a sua função. Há uma pureza cativante em tudo isto.

É uma jovem adulta e mãe recente. Tem cabelo arranjado e usa um vestido fino de Verão que lhe facilita os movimentos despachados com faz a lida da casa. O visual dela é completamente moderno, no entanto, faz-me lembrar as mulheres de outros tempos. Aquelas que lavavam no rio, de lenço na cabeça, avental e saia comprida, como se vê nos grupos etnográficos, ou até mesmo como via a minha avó na labuta caseira.

Tudo completamente fascinante para um curioso do inútil como eu. Observo-a, sem qualquer malicia. Vou reflectindo sobre as suas acções. O porquê de tanto zelo na limpeza da roupa? Do cuidado nos afazeres que a habitação obriga? Isto, ao mesmo tempo que mantem a jovialidade, ao brincar com a criança ou no namoriscar do seu marido. Uma engrenagem fulcral no funcionamento da família, entre a mocidade e a responsabilidade.

Isto é a vontade da génese humana. Matrimonio, emprego, lar. Crescer, trabalhar, dar continuidade à sua linhagem através da prole. A sapiência divide-nos dos animais. Temos as nossas ciências, máquinas, dinheiro e conforto. A superioridade do polegar oponível. Porém, no essencial, será que existem diferenças de maior para com os outros seres com quem dividimos o mundo? Talvez a verdadeira liberdade seja constatar esta verdade.

A vizinha continua a estender a roupa. Os bichos a fazer coisas de bichos. Eu, no refúgio de pensamentos esdrúxulos, tão supérfluos quanto a existência. A realidade é diminuta para quem se alimenta de fantasia. Os cinco sentidos são tão limitados como uma prisão. Sobram as artes para dar continuidade aquilo que falta. A consciência, fertilizada pela inquietude, serve de ventre para a criatividade. Depois, como quem coloca as molas na corda, deixo as palavras ficar ao penduro, à espera de um leitor para servir de sol. 


quarta-feira, junho 15, 2022

A brutalidade (O Narrador XV)


Já acordaste? Vê lá se te despachas porque estão-te a chamar.

Sim, sou eu, o teu Narrador! Estou de volta para traduzir em palavas os teus sentimentos mais agrestes.

Queres saber porque te vim acordar? É preciso escrever sobre “a maior lição que a vida te deu”. Não olhes assim para mim. O tema pode ser difícil, ou melhor, demasiado abrangente. Mas tu és capaz! Afinal de contas, já aprendeste tantas.

O sono das ilusões pode ser profundo. Existem até pessoas incapazes de despertar para a realidade. Sabes que doi. É uma coisa cruel! Bruta! Violenta! Completamente diferente daquilo prometido na infância pelos adultos. Grandes mentirosos! Sim, eu sei, não devemos usar tantos adjectivos, no entanto, o Narrador sou eu e escrevo como me der na real gana. As coisas são como são e as palavras existem para serem ditas. Mesmo que a verdade seja pesada demais!

Vamos lá! Não queres que comece aqui a bater tachos e panelas para te dar ânimo! Upa! É preciso escrever, mesmo com a alma a doer! (Olha rimou. Lembra-me para depois escrever um poema.) Adiante.

Qual é a lição que vais escolher: que a juventude não dura sempre? Que não somos imortais? Que os sonhos não são fáceis de alcançar? Que o amor dói? (isso acontece a todos) Outra coisa…

Sobre a amizade! Acertei?

Não me critiques por excesso de ques no texto. Eu sou só uma espécie de alter ego criado pela tua mente para dar aos teus pensamentos a capacidade de serem expressos por palavras. Talvez tenha alguma autonomia na minha própria vontade, mas sou só o Narrador da tua vida. Nada mais. Contudo, assumi esta missão de forma genuína. Não é suposto que escreva de maneira chique, mas sim, que deite cá para fora aquilo que te atormenta.

Bem, já acordaste qualquer coisa, ou pelo menos parece. Já consegues abrir os olhos. Hora de trabalhar, ou melhor, escrever. Vamos voltar ao tema central deste texto. Como a amizade pode ser falsa!

Tanta moral que anda por aí a pregar o valor da amizade. “Todos juntos vencemos qualquer mal” e coisas assim do género. Tretas inventadas para dar corpo aos argumentos de desenhos animados e histórias da carochinha.

Portanto, resumindo, lá estavas tu, com o futuro todo pela frente. Sem medo. Com a força toda dos heróis. Parecia um palco e tu lá no centro, para ser a atração principal numa peça majestosa. O cenário estava pronto. Era lindo. Os amigos estavam lá na plateia para bater palmas pela tua glória. Não havia nada que pudesse falhar, mas falhou! 

Sem saberes como, desmoronou tudo em cima de ti. Foi num instante. Sem avisar. Quando deste conta estavas debaixo do peso do entulho. Já não havia palco, só ruínas!

Ok, foi só um contratempo. Estavas de rastos, sem forças, ainda assim, não te faltava a esperança. Era altura de apelar aos valores da entreajuda, os mesmos que julgavas indiscutíveis. Chamaste pelos amigos que certamente viriam em tua ajuda. Afinal, nada podia parar a força da amizade!

Esperaste. Estavam a demorar. Esperaste mais um pouco e nunca mais chegavam. Continuaste a esperar. De vez em quando surgia uma voz a dizer “já vou”. Sem nunca vir. E tu esperaste…

Ao longe podias vê-los e escutá-los, ocupados com a sua própria vida cheia de alegrias, onde não havia cenários desmoronados, muito menos o teu nome presente nas conversas. Desviavam o olhar da tua direção com desdém. Como quem sente nojo. Talvez porque a consciência lhes doesse, ou porque a verdade sobre a fragilidade humana era violenta e cruel. O azar calhou-te a ti e o que eles tinham a ver com isso? Nada! 

Por causa desta lição, concluíste: A amizade é uma mentira!

Agora sobravas tu. Aos poucos, na tua solidão, foste afastando o entulho. Lambeste as feridas e continuaste. Depois, com a bagagem cheia de cicatrizes, já eras outra pessoa. Não tinhas amigos e não te faziam falta. Os outros, quem nunca veio para te ajudar, ficaram lá no passado. Foram material didático para uma lição bem dura.

Foste encontrando outros. Não exactamente amigos, mas companheiros de viagem temporários. Cada um com o seu destino, contudo, respeitavam-te, bem como tu a eles. Seguiram juntos enquanto os trilhos se juntavam, depois, separavam-se com um sorriso e um agradecimento. Ocasionalmente, um “até já”. Sem obrigações nem espectativas. 

Olhas agora para ti, um ser eremita assumido, com um grande orgulho nisso e outra tanta dose de amargura. Ergueste-te sem ajuda de supostos amigos e fizeste da solidão a tua maior força e companheira. Tornaste-te quase uma criatura misantropa, não por vontade própria, mas por imposição das ilusões da sociedade.

Talvez estejas a ter uma postura injusta, nem todos são assim. Apesar de tudo ainda tens alguns amigos e de certa forma mantêm-se fiéis, mesmo a conhecer essa tua mágoa. Lá encontram um pouco de empatia para te compreender. No entanto, já é tarde demais para reparar o dano, porque "o mal feito pelo homem não pode mais ser desfeito". Dás na mesma medida que recebes. Sem nunca esperar grande coisa em troca.

Essa é uma das lições mais duras que a vida te deu: a amizade é relativa, oportunista e falível. Só podes confiar em ti. Tão simples e tão triste quanto isso.


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita