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sábado, dezembro 24, 2022

As cores que enganam a noite


O vampiro não compreende o Natal. Tantas luzes coloridas a violar a escuridão da noite. Gente feliz a passear pelas ruas da cidade sem se importarem com o frio. 

Fazem-se embrulhos para as prendas compradas porque assim manda a tradição. Os padres rezam missa em igrejas cada vez mais vazias. Há sempre uma religião que substitui a outra. Há sempre hereges que dizem adorar o Deus menino, para de seguida se vergarem à publicidade do Pai Natal. Hoje quem manda é o paganismo, o consumismo, ou também a política, ou então a alegria de ter companhia. 

Os sem-abrigo ficam invisíveis. Lá vai havendo um olhar mais atento pronto a dispensar uma esmola. Os mendigos apenas querem qualquer coisa quente, algo para o corpo, enganar o estômago e manter a ilusão viva de um amanhã melhor. 

Os solitários, também ninguém os escuta. Ficam escondidos Como se as festas lhes fossem proibidas.

Lá longe, está a guerra. Pobres coitados nos títulos das notícias. Apenas isso. Não há vampiros na guerra. Só pessoas de carne e osso que mal reparam na data. Cada dia que passa é uma vitória, sem Pai Natal com presentes, ou padres com homilias.

O vampiro saiu para caçar e não demorou até encontrar uma presa. Mordeu, como mandam os seus instintos, a veia mais proeminente. Bebeu, mas estava vazio. Precisava de mais. Sentir os sonhos da sua vítima. Contudo no Natal os sonhos são escassos. 

Continuou a procurar. Não tardou até capturar outro humano, bebeu mais uma vez e sabia a nada. Olhou para a cidade. Tinha a consciência de que ali não ia encontrar alimento. Em cada ano que passava a multidão tinha menos vida.

As cores enganam a noite, ludibriam também os sentimentos. O riso do Pai Natal fascina as crianças. Os enfeites mascaram todo o cinzento na paisagem da existência. Sonhadores deixam de o ser. Trocam a sua fantasia por aquela que é vendida.

Esta festa toda é muito confusa para quem só quer simplicidade. Perdido no meio de tantos pedidos, o vampiro lamentou desejar apenas um pouco de amor.


quarta-feira, janeiro 19, 2022

Sorrateiro e invisível

Olhou para o espelho durante alguns momentos, o mesmo para o qual tinha olhado antes daquela noite em que tudo mudou. Recordou-se das feições, da roupa que usava, do entusiasmo que sentia, mas principalmente da inocência daquele tempo em que a juventude era a sua imortalidade. Abandonou esses pensamentos e focou-se no agora. Abriu a porta de casa e observou a azáfama da cidade. O escuro já se fazia sentir, contudo era disfarçado pela iluminação das ruas. Parecia que continuava a ser dia a julgar pelo tamanho da multidão.

Saiu. Misturou-se entre eles. Era apenas mais um rosto entre tantos. Deslocava-se com rapidez, como um espectro. Uma sombra que surge no canto do olho e desaparece de imediato. Conhecedor da vida nocturna da cidade, depressa encontrou um trajecto que o levou aos becos menos movimentados. Sabia o seu destino e chegou até lá com ligeireza. Agora só restava esperar na penumbra duma esquina.

Ela apareceu. Uma mulher tão bonita. Cheia de juventude e de sonhos. Inocente, tal como ele já foi, sem saber o que a noite esconde.

Observou-a. Trazia um sorriso leve e vestia-se com tonalidades coloridas, como sempre. Era perfeita. Sabia isso desde o primeiro momento em que a viu e confirmava-o a cada vez que a seguia, pelas ruas da sua rotina que conhecia tão bem.

Aproximou-se por trás dela. Sorrateiro e invisível. Ela não o percebeu. Nunca o tinha percebido mesmo depois de ele o ter feito inúmeras vezes, como um ritual quase sagrado. Silencioso, chegou-se cada vez mais perto, a escassos milímetros. Podia sentir o perfume e o calor que emanava do corpo dela. Contemplou-lhe o pescoço longo, com a linha da jugular a insinuar-se entre o cabelo que dançava a cada passo que dava. Tão linda, tão perfeita, em cada gesto e cada traço.

Era difícil resistir à atração. Chegava a ser violento saber que podia tomá-la facilmente. Uma mão na boca silenciava o grito. A outra arrastava-a pela noite dentro. Podia ser dele. Toda dele. Mas hoje não… Como todas as outras vezes deixou-a ir. Amanhã voltava novamente para a idolatrar, seguindo-a em segredo e nas sombras.

Regressou a casa e olhou novamente o espelho. A ausência de reflexo incomodava-o. Restava-lhe a lembrança da sua imagem dos tempos em que era um jovem. Só isso. Um pequeno vínculo que o ligava à humanidade.

O dia aproximava-se e o vampiro abandonou aquelas memórias. Era hora de descansar. Talvez na próxima noite não fosse capaz de resistir à sede, ou talvez continuasse a fingir que também ele podia amar.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


sábado, fevereiro 24, 2018

Quem acha que pode mudar o mundo


O vampiro apaixonou-se. Aconteceu com a brandura e a leveza de uma simples brisa. Até um monstro pode amar quando a serenidade assim convida. É tão difícil resistir a um rosto com luz própria!
Deus criou a perfeição no olhar de quem cora facilmente. É impossível suportar o arrepio que emana de uma troca de olhares; sorrisos que nascem tímidos pelo canto da boca; o riso contagiante de uma piada tola. Não há como resistir a uma alma cheia de vida!
Há também a beleza e a jovialidade. A pele perfeita de quem ainda não sentiu a amargura do viver. Os sonhos imaculados de quem acha que ainda pode mudar o mundo. A magia de uma alma gentil!
Como é que o vampiro não se podia apaixonar? Ainda que o amor fosse breve e frágil como uma flor que perde as pétalas, a atração é mais forte do que a natureza. O calor mais urgente do que a noite. O amar, mesmo que efémero, mais intenso do que o vazio!
O martírio chega no amanhã e na banalidade que cobre o ser. O cansaço da rotina, do mesmo corpo, do mesmo poema, do dia que está tão longe. Sai vencedora, como sempre, a perdição dos filhos da noite, ao enganar a inocência com o brilho feiticeiro da lua!
O vampiro esqueceu-se que afinal a paixão era mentira. Não tinha esse direito, reservado aos filhos do dia. Deixou-se encobrir na escuridão e no esquecimento. Mas não sem antes reclamar o sangue quente da jovem que o iludiu com esperança!
A voz terna, que antes encantava, deu lugar a um grito desesperado. Como quem sente o mergulho no terror mais absoluto do abismo. Esse é o tormento de quem perde a sua fantasia pelas mãos daqueles que se alimentam do sonhar dos outros!
O vampiro bebeu até se saciar. Saboreou ideais, viveres e amanhãs, para que nos seus dentes tudo se calasse. Um monstro merece o seu prémio depois de sentir o cheiro da luz. Depois tudo volta ao silêncio e a um secreto devaneio, que talvez um dia possa amar…

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Outras lembranças


O vampiro acordou.
Da noite apenas se lembrava de adormecer.
A luz entrava pelo quarto radiante. Levantou-se e foi até à janela. Sentiu o sol quente, o seu corpo quente, o seu sangue quente e suspirou.
Caminhou até ao espelho e observou a sua imagem. Demorou-se diante o seu próprio retrato. Tal como fazem os humanos, sentiu vaidade na sua figura.
Ouviu a azáfama lá fora. Era como se fosse um chamamento, por isso saiu à rua e viu-se rodeado por sorrisos de gente feliz que convivia alegremente.
Passeou-se entre as pessoas como quem se recorda com saudosismo da inocência de criança. Inebriou-se com o aroma daquele mundo colorido e deixou-se marear no entusiasmo.
De repente cruzou o seu olhar com outro rosto de traços femininos. Este dotado de uma beleza peculiar e de outra coisa não visível que não conseguia compreender.
Sentiu uma atracção imediata que o impeliu a aproximar-se. Contemplou a mulher. Era ainda mais resplandecente que todas as outras que passavam. Reconheceram-se de outras lembranças!
Uniram-se no toque. Do corpo dela emanava calor que o dominou como um veneno. Entregou-se àquele desejo. O abraço quente, o beijo quente, o amor quente…
O vampiro despertou.
Do dia apenas se lembrava de o sonhar.

terça-feira, julho 15, 2014

A sentença


A noite foi surgindo de mansinho anunciando o momento. O caixão abriu e o vampiro acordou. O seu primeiro pensamento foi de desejo, tal como tinha sido o último antes do nascer do sol. A imagem de rosto angelical e traços femininos invadiu-lhe a mente e desejou. Não como um monstro anseia a sua presa, mas como um homem deseja uma mulher. Era assim desde que olhou para ela.
Queria apenas o seu sangue mas tudo que conseguiu sentir foi uma paixão infindável. Como se o seu coração bombeasse novamente calor e o seu cadáver fosse capaz de enfrentar o sol.
Amava…
Mas como pode ele sentir isso? Se já perdeu a sua humanidade há muito tempo. Demasiado para se lembrar de como é ser humano, quanto mais amar.
Então, porque é que ele a deseja?
Será capaz, de no mais fundo abismo negro do seu íntimo, sentir amor?
Sendo assim, será que existe redenção?
Não!
Foi Deus que o amaldiçoou com aquele castigo de amar sem o poder fazer. Que tortura insuportável era aquela. O desejo constante de beijar aqueles lábios quentes com a sua boca fria. Tocar aquele corpo rosado com as suas mãos desprovidas de vida. Para sua agonia apenas podia desejar!
Que saudades de quando era apenas um monstro. De matar! Destruir! Beber o sangue! Rasgar a carne com as suas presas! Desprovido de qualquer tipo de remorsos!
Sem dor. Sem medo. Sem castigo!
Ou pelo menos ele pensava assim. A sua punição não tardou a chegar e, para seu desespero, não podia ter um destino mais cruel. O mais terrível dos juízes sentenciou-o a uma condenação pior do que ao inferno.
Amar…

quinta-feira, dezembro 26, 2013

Apenas um sorriso


O vampiro estava escondido a observar o palacete. Decorria uma festa no salão de baixo. Havia comida, dança, sorrisos e conversas entusiasmadas. 
Os convidados chegavam em luxuosos automóveis. As mulheres, com corpos esculturais, exibiam vestidos luxuosos, cabelos artisticamente penteados e jóias brilhantes. Mesmo ao longe conseguia sentir o perfume delas como se fosse um convite. Os homens, esses, ostentavam fatos elegantes, devidamente aprumados, mostrando uma postura confiante típica de quem é bafejado pela riqueza.
Contemplava o que se passava lá dentro. Principalmente a forma jovial como dançavam ao som de uma pequena orquestra. Os passos bem treinados, os rodopios e principalmente a alegria que os pares sentiam, fizeram com que o vampiro desejasse estar lá dentro. Imaginou-se numa valsa a conduzir uma jovem de grande beleza e a ser o centro das atenções.
Naquela noite não queria sangue. Desejava apenas um sorriso. Um singelo sorriso que fosse verdadeiro. Era apenas isso que ansiava. Somente um sorriso.
Podia tentar entrar mas assim que os seguranças o avistassem iriam, certamente, confundi-lo com um velho mendigo, senil e sem-abrigo. Aquela gente não suporta pedintes. Seria escorraçado como um cão sarnento. Ou pior. Ninguém ia acreditar se dissesse que apenas desejava um sorriso.
Isto é. A menos que uma alma malfada o olhasse nos olhos e visse as trevas que se escondem no seu íntimo. Sentiria um terror absoluto. Até o mais forte dos homens treme perante a imagem de um monstro assim. Mesmo assim iriam atacá-lo. Teria de ser violento. Podia vir um, dois, três, dez, vinte, cem, duzentos, mil… Tanto faz. Todos iriam morrer pelas suas mãos. Tinha sido amaldiçoado pelo diabo (ou algo pior) e a sua sina era matar.
O vampiro manteve-se escondido a observar a festa. Naquela noite não queria sangue. Desejava apenas um sorriso. Um simples vislumbre de carinho por mais insignificante que fosse. Seria pedir demais?
Naquela noite tudo que o vampiro queria era um pouco de amor que lhe aliviasse o fardo, imensamente pesado, da solidão. Naquela noite o vampiro não queria matar, mas como em tantas outras, teria de cometer uma atrocidade e verter sangue inocente…

sábado, abril 13, 2013

CRENÇA IMORTAL


O vampiro escreveu um poema numa língua antiga, já esquecida no tempo. Foi assolado por recordações de quando, no seu peito, um coração batia quente e nele corria sangue humano. Tempos esquecidos na memória das gentes em que ele era um poeta. Nos seus versos escrevia contos de amor, beleza e dor, quando o sol podia iluminar os seus dias.
Mas essas lembranças são longínquas e até difíceis de compreender. Muito tempo passou e atrás dos tempos vieram tempos. Tantos que já não conseguia contar. Civilizações nasceram, civilizações morreram. Impérios foram criados, impérios foram destruídos. Deuses desceram à Terra, Deuses ascenderam aos céus. Eras caíram sobre outras eras apagando a suas memórias e vestígios. Lendas ficaram algum tempo, adulteradas e depois esquecidas como todo o passado.
Só a poesia se mantém imutável. Serva da beleza, do amor e da dor. Mundos vieram, mundos esqueceram-se. Só a poesia continuou igual. Por isso o vampiro continuou a escrever versos com o sangue da sua memória, a dor da sua emoção, a beleza que tanto venera e uma crença imortal no amor…



sábado, novembro 03, 2012

SABER SONHAR



Naquele mausoléu o vampiro repousa o seu corpo frio enquanto a noite cai e o acaricia com ternura. Na sua mão tem um cálice com sangue, que vai ingerindo em pequenos goles. Mas o sangue dos vivos já não o satisfaz, pois têm corações quentes mas, no entanto, os sonhos deles são vazios e apáticos. Parece que o mundo lá fora está vazio de esperança.
Os humanos estão vivos, mas na sua falta de iniciativa são como mortos. O vampiro tem medo de ser arrastado por eles para a luz despojada de uma existência sem sonhos. Levando o seu cálice à boca, recorda tempos românticos naquele sangue que bebe e sonha com um futuro radiante. 
Fica feliz porque ainda sabe sonhar. Mas por enquanto repousa o seu corpo frio naquele mausoléu esquecido no tempo e tenta encontrar esperança naquele sangue vazio que bebe. Em breve a noite cairá por completo e o seu manto permitirá ao vampiro abandonar o seu refúgio, para mais uma demanda solitária.

 .

sábado, setembro 08, 2012

ESTRANHA IRONIA



Um fio de sangue escorre pelo dente pontiagudo, perfeitamente afiado. Uma tonalidade rubra suja-lhe o queixo depois de ter saciado a sua fome. Observa agora o corpo despido de uma mulher, que jaz pálida no chão. A pele rasgada na zona do pescoço, mesmo em cima da jugular, mostra que o ataque foi rápido e eficaz. Onde antes havia vida e juventude, sobrava agora uma carcaça escoada.
O vampiro, num gesto lento, limpa a boca à manga do casaco já desgastado pelo tempo. Aquele sangue jovem reabasteceu-o de energia, mas mesmo assim sentou-se junto ao cadáver que lhe serviu de refeição. Parecia que estava em busca de cansaço...
De seguida acariciou as curvas daquele rosto. Tentou sentir remorsos por ter destruído algo tão belo, mas já há muito que os tinha deixado de ter. Afinal de contas, tudo o que fez foi antecipar o que mundo faria. Mais cedo, ou mais tarde, toda aquela beleza seria destruída, junto com os sentimentos. A vida com a sua amargura ia-se encarregar de apagar o sorriso daquela face ternurenta.
De nada lhe serviam os remorsos. Talvez, numa estranha ironia, o vampiro tenha salvado aquele ser frágil de uma imensidão de mágoa. Levantou-se então, resignado com o seu destino obscuro e seguiu o seu caminho solitário…