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quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aquela cena das páginas do ano


– Foda-se!

– Lá estás tu a resmungar.

– Explica-me lá outra vez. Esta é a primeira página de quantas?

– Trezentas e sessenta e cinco.

– Isso já dá um livrinho composto.

– A ideia é essa.

– Mas afinal porque tenho de ser eu a escrever?

– Ainda perguntas!? Andas com muita preguiça. Tens o blog às moscas, com muito material para ser tratado e publicado. Não queres saber, portanto é imperativo seres tu a escrever!

– Ó! Estou de vacances e com este frio não dá vontade de escrever.

– Tretas! Já andas com preguiça há mais de meio ano!

– Pronto. Eu escrevo, mas qual é o tema?

– Tu és o escritor, desenrasca-te.

– Espera aí. Esta é uma daquelas cenas em que cada dia do ano é uma página!?

– Sim. Só agora reparaste?

– Bolas! Isso é uma parolice. No dia um, anda meio mundo com esta história, passada uma semana já ninguém se lembra e voltam todos para a rotina. Como te deu na ideia de fazer isto?

– Por aquilo que te disse já há pouco. Precisas de escrever. Uma palavra, uma frase, um parágrafo, uma página por dia. Senão qualquer dia perdes o jeito.

– Olha, se calhar já perdi. De qualquer maneira faço-te a vontade e escrevo a primeira página.

– Muito bem.

– Já o resto, depois logo se vê!  

– São muitas páginas. Escreve e cala-te.

– Por falar nisso, como ainda não desejei, aproveito e deixo os votos de Bom Ano para ti que estás a ler!


terça-feira, novembro 25, 2025

A poesia é o momento

Dá-me versos com sentimento. 

Se te peço um poema, faço-o por vício de viajar em mundo alheio.

Uma visita guiada entre o extraordinário e o rotineiro.

Palavras pintadas como paisagens cantam beleza num horizonte cheio.

A sinestesia violenta dos sentidos ansiosos pelo paladar de um devaneio.

A poesia é o momento. 

A rima nasce do instante onde o pensamento grita e o papel serve de parteiro.

Letras desenhadas pela anarquia metafísica com a cor inquieta do tinteiro. 

Declaro-me mendigo a suplicar uma esmola em forma de verso verdadeiro.

Não negues esta oferta caridosa a quem tem fome de um universo inteiro.

Pois numa estrofe cabe o firmamento... 


quinta-feira, julho 31, 2025

É já amanhã, 20 anos!

Pois é, é já amanhã dia 1 de Agosto! Este espaço faz 20 anos! 

Estou numa fase em que não tenho tido motivação para escrever. Às vezes acontece. Não sei quanto tempo vai durar, mas este ano não tem sido produtivo a nível de escrita. Nem tem de ser. Afinal de contas isto é só um recanto onde eu brinco com as palavras. De qualquer forma fico muito contente por ele existir e por todas as coisas escritas que aqui vou deixando. 

Quase todos os anos assinalo esta data com esta música e faço disso um ritual agradável. E já lá vão 20!

Deixo um abraço a todos que descobrem este canto e decidem comentar! 

Feliz dia 1 de Agosto para todos!

sábado, março 01, 2025

Estudem, façam sucesso e mostrem ao mundo


Acertou em cheio! Disparou com mestria a fisga de infância. Uma pedrinha arredondada não falhou a nádega esquerda da irmã!

Pobre coitada! Soltou um berro esganiçado. Saltou, enquanto levou as mãos ao traseiro na esperança de aliviar a dor inesperada. De imediato, tornou-se o centro da atenção dos convidados. Para piorar, despejou o champanhe em cima da senhora com quem conversava. Mais um grito. Ainda por cima, desequilibrou-se e partiu um salto.

Depois da surpresa inicial, os presentes começaram a rir. (Vamos ser francos. Teve piada!) Não tardou até uma gargalhada colectiva tomar conta do jardim. 

Já ela... Sentiu tanta vergonha! Aplicou-se ao máximo para organizar aquela festa na casa dos pais, da vila do interior onde passou a meninice. Comprou um vestido de gala, junto com uns sapatos lindos. Arranjou o cabelo. Não poupou, nem dinheiro, nem esforços. Transformou-se numa mulher de sucesso na cidade e fazia questão de mostrar àquelas gentes isso mesmo.

Agora estava no chão. Gozada por todos. Ficou furiosa. Olhou para cima e viu o irmão a rir como um desalmado na janela do quarto. Aquela brincadeira não ia ficar impune! Já não era uma miúda franzina para suportar as humilhações das travessuras dele. Não tinha idade para chamar os pais para virem em seu socorro. Nem um valente puxão de orelhas ia resolver a situação. Era tempo de se vingar!

terça-feira, fevereiro 25, 2025

Viagem para o trabalho


Certos acontecimentos deviam trazer um rótulo com a indicação: 'mau augúrio'. A sério, um grande letreiro com sinal de aviso. A vida não vem com instruções e as pessoas não sabem interpretar estas coisas.

Naquele dia fui trabalhar mais tarde duas horas. O comboio daquele horário estava muito mais vazio em comparação com a hora de ponta. Sentei-me tranquilo num banco sozinho. À minha frente estava apenas uma senhora entretida a tricotar. 

Ao contrário dos outros dias, onde estava rodeado de outras criaturas ensonadas, cujo dever laboral obrigava a encher o vagão, pude observar o cenário do trajeto. Vilas, casas, campos, pessoas, foram alvo da minha atenção através do vidro, já debaixo do sol do meio da manhã. Era agradável viajar assim. 

Perto da última estação antes da ponte vi um grupo enorme, com cerca de cem crianças. Pela aparência faziam parte de um jardim de infância. Tinham entre três e cinco anos e vestiam um bibe colorido. Corriam entre brincadeiras despreocupadas num descampado. Algumas mulheres olhavam para elas com aspecto zeloso. Até aqui tudo normal. 

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

São Valentim no Admirável Mundo Novo

Nunca tinha visto tal coisa na vida! Os meus olhos estavam completamente fixos na cena! Sabem aquelas pessoas estarrecidas quando vêm alguém numa cadeira de rodas? Era essa a minha cara a olhar para aquilo!

Um estalar de dedos diante do meu rosto chamou-me de volta à realidade.

– Hey! Estou aqui! – Resmungou a minha namorada.

– Desculpa, mas estás a ver aquilo!? – Apontei com subtileza para a mesa ao lado, onde um homem de cabelo branco apreciava um belo jantar romântico com um robô feminino.

– E depois!? Não te chega a visão mesmo à tua frente? – Empinou o peito. Um decote bem generoso fazia sobressair o seu par de mamas irrepreensível. As quais fez questão de realçar com as mãos abertas de lado.

– Calma. Não precisas insinuar-te tanto! – Exclamei envergonhado. – Mas não achas bizarro o homem ter trazido um robô para um jantar romântico?

– Se ele gosta de chapa e hidráulicos, é problema dele. Não sejas preconceituoso, já não estamos em 2025, está no direito de o fazer. – Bufou-me amuada. – Já eu, sou de carne e osso. Se gostas disto, espero bem que a tua atenção se vire para mim!

– Certo. Certo. Tens razão. – Resignei-me.

Tinha gasto uma pequena fortuna ao reservar a noite de São Valentim naquele restaurante chique. Não era para qualquer um. Pagava-se bem caro, acreditem. Queria dar um jantar de sonho à minha namorada. A sério, a ideia era essa. Não tenho culpa se a curiosidade levou a melhor.

O homem com a acompanhante robótica estragou-me os planos. Nem imaginam como era difícil ignorar algo tão fora do comum. Tinha de admirar a capacidade dos engenheiros ao concederem a máquina. Apesar de manter o aspecto mecânico, o design era incrível, com as curvas do corpo a manterem linhas femininas. Para não falar na linguagem corporal, a imitar os gestos de uma dama digna da alta sociedade. 

Só não compreendi porque não preferia uma mulher verdadeira!? Não me julguem. Vocês questionavam o mesmo, isso eu sei!

Fomos servidos com todo o luxo. Nada a reclamar nesse sentido. O jantar continuou, embora o romantismo nem tanto. De vez em quando lá me escapava o olhar, para ser imediatamente repreendido pelo pigarrear chateado da minha companheira.

Paguei e fomos embora. Não sem antes de dar mais um longo reparo no casal improvável ao meu lado. Obviamente, quando cheguei a casa tive de me esforçar mesmo bastante para recuperar o romantismo desejado. Foi difícil, mas lá consegui.

Uns dias depois, no trabalho, todos os funcionários estavam empolgados pois íamos receber a visita do chefe internacional da firma. Colocamo-nos em fila para cumprimentar a comitiva estrangeira. Queríamos fazer excelente figura para mostrar a nossa eficiência e organização. Afinal quem nunca quis impressionar os maiorais?

Um grupo de pessoas, com visual executivo, entrou na sala. O diretor da minha sucursal mostrava-se orgulhoso das instalações e dos funcionários. Indicou o caminho a um homem cuja aparência acusava ser o patrão. Qual não é o meu espanto quando o reconheço do restaurante!? A seu lado estava o robô feminino.

Falavam alemão. Mas eu tinha a certeza de os ter ouvido falar português no restaurante. Logo alemão! Uma língua da qual não percebia patavina. Riam-se numa conversa animada. Ou pelo menos parecia.

Ao conhecerem os meus colegas, o homem falava alemão e o robô servia de intérprete. Cumprimentava e seguia para o próximo. Bolas! Sabia falar português e a mim não me enganava. Não precisava de tradução nenhuma. Aquela encenação era só para intimidar.

Chegaram ao pé de mim. O meu diretor apresentou-me como chefe de projetos. Suponho eu, pois o meu cargo era esse. Das palavras arranhadas só compreendi o meu nome.

– Já conheço o senhor. – Traduziu o robô com o seu rosto a imitar as feições humanas. – Estávamos no mesmo restaurante, na outra noite.

Havia um grande ecrã na parede do salão, usado para fazer apresentações. Pela graça da tecnologia moderna o robô usou-o para mostrar uma imagem daquele jantar no restaurante:

A minha namorada a gesticular junto às mamas, enquanto eu fazia um ângulo de noventa graus com a cabeça na direção da mesa do suposto chefe ‘alemão’. 

Depois fez zoom na minha cara. O filme do momento era composto de milhares de frames, contudo escolheu propositadamente aquele onde parecia mais parvo. Olhos esbugalhados, boca aberta e aparência de matarruano. Uma careta digna dum episódio do ‘Mr. Bean’.

Os meus colegas tentavam conter o riso. Dividiam a atenção entre mim e o ecrã. Alguns sussurravam entre si. Ia sofrer uma avalanche de piadas. Já podia imaginar o suplicio.

Engoli um sorriso forçado. Cumprimentei o homem e de seguida o robô como se fosse gente. – Muito prazer. Sinto-me honrado. – Disse, a tentar disfarçar o embaraço.

– O prazer é todo nosso. – Respondeu o robô. 

Ao saírem, deu-me um aceno de despedida e piscou o olho. A sério, piscou mesmo o olho! 

Amaldiçoei os engenheiros capazes de criar aquela máquina maquiavélica, com cara, olhos e boca como gente. Já não bastava ser a companhia romântica do patrão, ainda era um supercomputador com pernas e braços. Pior ainda, capaz de compreender e usar a ironia contra mim.

Fui gozado pelo algoritmo de um ser artificial. De igual modo pelo seu proprietário, o qual, também era meu chefe. De certa forma meu proprietário igualmente, pois pagava-me um bom ordenado. Por isso era capaz de comprar jantares em restaurantes de luxo. Tudo não passava de um círculo vicioso.

Enfim. A vida continuava. Restou-me suportar as piadas dos colegas e aceitar as coisas como são. É um ‘Admirável Mundo Novo’, concluí.


Nota: a ação ocorre em 2035, num futuro muito próximo.



Informação: Este conto é propriedade intelectual de António Silva, no caso do seu conteúdo ser publicado noutros lugares sem os devidos créditos ou autorização, serão tomadas medidas segundo o Código do Direito de Autor.

terça-feira, dezembro 19, 2023

Conto de Natal em cinquenta palavras


Era véspera de Natal. Uma criança encontrou um porquinho perdido e trouxe-o consigo. Já em casa, pediu ajuda para cuidar dele. A família, indiferente a esta época, nunca preparava ceia. Ao verem o porquinho, reuniram-se. Aconchegaram-no, partilharam comida. Passaram a noite em união. O porquinho presenteou-os com o Espírito Natalício.

Conto elaborado para um desafio do Laboratório de Escrita

quarta-feira, novembro 15, 2023

Capítulo perdido

Noutro dia, enquanto vasculhava uns ficheiros antigos, encontrei os primeiros capítulos de uma história que comecei a escrever há uns 25 anos, mais ou menos (sei que naquela altura ainda não se usavam telemóveis. As pessoas comuns pelo menos). 

Infelizmente, por preguiça, talvez, não lhe dei continuidade. Contudo gostei de recordar estas primeiras ideias concretas, passadas para o papel. Decidi partilhar o primeiro capítulo aqui, visto também ainda não existirem blogs. 

Não alterei o texto e deixei tal como escrevi. Pessoalmente acho estranhamento bom para a idade e principalmente falta de experiência. 

Quem quiser passar algum tempo a ler, pode dar a sua opinião. Aqui fica:

Vejo agora o caixão a descer à terra. Bem para o fundo, onde ficará esquecido. Lá dentro o corpo morto do meu pai. Mas ao contrário do seu corpo, as suas lembranças que eu julgava há muito esquecidas e enterradas, vêm agora ao de cima, criando em mim um sentimento desagradável. Não sei se são remorsos ou se são pena. Pena de não ter sido de outra maneira. A minha mãe morreu quando eu ainda era pequeno. O meu pai sempre me tentou proteger. Tentou fazer os dois papeis de mãe e de pai. Por isso era duro para mim. Por isso também eu vivia em conflito com ele. Mas agora é tarde. Tarde para remediar o que está feito. Enquanto o caixão desce à terra as lembranças continuam a vir ao de cima atormentando-me. Mas porque é que eu me estou a sentir assim? Desde cedo lhe declarei guerra. Aquela guerra que os adolescentes declaram aos pais. Ele nunca me tentou compreender. Nunca me deu a liberdade que eu queria. Por isso quando cheguei à idade adulta sai de casa, ignorando totalmente os conselhos dele. Deixando-o numa grande solidão. A culpa foi dele. Ele nunca tentou compreender-me. Mas agora me apercebo que eu também não o tentei compreender a ele. Mas agora já é tarde. O caixão já está no fundo e começa agora a ser coberto por terra. Já é tarde para ter uma conversa com ele. Por um momento quase me deu vontade de chorar, como as minhas tias. Por que é que elas choram assim? Afinal também o deixaram sozinho. Também devem estar com remorsos. Mas eu não vou chorar. Afinal ele era meu inimigo. Desde cedo lhe declarei guerra, e ninguém chora a morte de um inimigo. Por isso mantenho a minha postura rígida e inabalável. Estão agora a tapar a cova. Quero sair dali mas ainda tenho de aturar os abraços das minhas tias. Grandes chatas. Choram tanto. Porquê? 

- Estás bem? 

- Sim estou. - A pergunta da Joana quebrou os meus pensamentos de raiva. Tinha de sair dali rápido. 

- Vamos embora daqui. 

- Já? Tens a certeza? 

- Sim. Ainda quero passar por casa do meu pai e chegar à cidade cedo. – A Joana era minha namorada. Nunca lhe tinha falado muito acerca do meu pai, embora estivéssemos praticamente noivos e eu partilhasse todos os meus segredos com ela, esse era um aspecto da minha vida que ignorava. Provavelmente já se tinha apercebido que o meu relacionamento com ele não era dos melhores, mas não imaginava que isto pudesse acontecer e me fosse deixar tão abalado. Procurava não mostrar qualquer tipo de sentimento mas ela sabia que naquele momento, eu estava a lutar com os meus fantasmas. Com certeza queria falar comigo fazer com que desabafasse com ela, queria evitar isso a todo custo. – Vamos.  

Entramos no meu carro, ainda tinha de passar pela casa do meu pai, a casa da minha infância que agora era minha. Ele vivia numa vila calma, afastada da cidade. Grande parte da minha família vivia ali. Eu tinha nascido, tinha crescido ali, mas contam-se pelos dedos as vezes que lá voltei depois que vim para a cidade estudar. Acabei o curso, arranjei um emprego e sem saber como passaram-se seis anos. Seis anos que devem ter sido de terrível solidão para o meu pai. Lá estão eles outra vez, os sentimentos de culpa. Agora já é tarde, mas não os consigo afastar. Vou calado enquanto conduzo pelas ruas da vila. A Joana também vai calada, ainda bem. E eis que lá está ela, a casa do meu pai. Mais um fantasma que tinha de enfrentar. Era uma vivenda grande de dois andares, qualquer habitante da cidade a acharia fantástica para passar as férias e o fim de semana, mas a mim só me trazia más recordações.  

- É aqui? – Pergunta a Joana com ar admirado. Aquele ar de pessoa nascida na cidade. 

- Sim. – Respondo com ar de quem não quer muitas perguntas. 

É espantoso como nada tinha mudado desde que eu sai dali. Era uma casa tão grande. Não sei o que irei fazer com ela. Vende-la? Deve ser a melhor solução. Mas também não a queria vender a qualquer um, talvez alguém de família a queira comprar. A Joana continua admirada. Provavelmente acha estranho eu não lhe ter dito que o sitio onde cresci era assim. Logo a ela que achava a vida na cidade tão acelerada. Pela cara dela, até aposto que era capaz de se mudar para aqui. É melhor ver-me livre da casa enquanto é tempo, senão depois de ficarmos noivos ainda me convence a ficar com ela, para passarmos os fins de semana e coisas do género.  

- Que casa fantástica! 

- Sim. É uma boa casa. – É obvio que ela está ansiosa por entrar. Por explorar todos os recantos. De certeza que vai fazer tudo ao seu alcance para me impedir de a vender. 

Ao abrir a porta senti logo aquele seu cheiro característico, que me trás de volta sentimentos amargos. Continuava tudo inquietamente na mesma. 

- Bem. Não me vens mostrar o sitio onde cresceste.  

- Porque não vais tu sozinha. Eu sei que gostas de explorar. Eu quero ficar só por uns momentos. Depois vou ter contigo. 

- De certeza que posso? 

Fiz-lhe um sinal afirmativo com a cabeça e logo ela subiu as escadas para explorar o 1º andar. Estava agora sozinho na sala de estar. Estava tudo na mesma. Exactamente como me lembrava desde a mais tenra infância. Os sofás, as paredes, as pinturas, a mesa, a lareira e por cima a espada que a adornava. Incrível. A espada do meu pai. Desde sempre que ali esteve, por cima da lareira. Guardada como se fosse um objecto sagrado. Gostava de saber a sua história, acho que nunca a vou saber. Sempre achei aquela espada fantástica, sempre me senti atraído por ela. Mas por alguma razão que desconheço o meu pai nunca me deixou tocar-lhe. Lembro-me que várias vezes em criança a ia buscar, ou para brincar, ou para mostrar aos meus amigos, ou simplesmente para apreciar a sua beleza. Sempre que o meu pai descobria que tinha pegado nela era uma bronca dos diabos. Cheguei a apanhar várias tareias por causa disso. Ele nem gostava que eu olhasse para a ela. Não sei qual era a sua obsessão pela espada mesmo que valesse uma fortuna, não havia razão para agir daquela maneira. Mas agora ele não estava ali. Estava morto. Já não me podia dizer nada. Por isso vou pegar-lhe. Sem hesitar peguei-lhe, já não me parecia tão pesada como em criança. Agora já era adulto e tinha força suficiente para a manejar. Lentamente comecei a tirá-la para fora da bainha, era realmente bela. Mais bela e fascinante do que me lembrava. Já devia de ser bastante antiga, dois ou três séculos talvez? Mas continua bela e afiada, devia valer uma pequena fortuna. Gostava de saber a sua história. Quem sabe pertenceu a um cavaleiro? Quem sabe quantas pessoas já matou? Em quantas guerras já participou? Quem sabe se pertenceu a um rei? Quem sabe? São só fantasias. Já pareço outra vez criança, a olhar para aquela fantástica espada por cima da lareira e a imaginar. Possivelmente nem era tão antiga quanto eu pensava. Mas não deixava de estar fascinado, ali, com aquela fantástica espada na minha mão. Engraçado, desde que lhe peguei, todos os sentimentos de culpa que me atormentavam desapareceram. De repente fui invadido por uma felicidade quase insana. Não sei de onde é que ela veio. Mas sentia-me bem. Sentia-me agora poderoso, invencível, com aquela espada na mão. Sentia-me capaz de dominar o mundo. Foi então, que, num acto, quase sem pensar, ergui a espada no ar com as duas mãos. Nesse momento todos os meus sentimentos de raiva, ódio e culpa vieram juntar-se ao sentimento de euforia que estava a sentir. Nesse momento, enlouqueci! Então com toda a minha força, dei um golpe na mesa. Esta ficou dividida em dois. A lâmina da espada atravessou a madeira como manteiga no Verão. E eu, sentia-me bem, tão bem! 

- Jorge?! Que se passa? Que barulho foi esse? – O meu momento de felicidade foi interrompido bruscamente. A Joana, atraída pelo som da mesa a partir desceu as escadas completamente apavorada. – Meu deus! Que fizeste? – Eu fiquei parado, a olhar para a cara assustada dela. Quase me deu vontade de rir, tentando adivinhar os seus pensamentos. Ao ver-me ali, com uma espada na mão, depois de ter cortado uma mesa a meio com um só golpe. Sempre me conheceu como sendo uma pessoa calma. E agora ao ver-me ali naquela figura. Possivelmente pensa que a vou atacar a seguir. 

- Tem calma. Não se passa nada. 

- Tenho calma! Tenho calma, dizes tu?! Para é que fizeste isso? E essa espada? Onde é que arranjaste essa espada? – Coitada. Estava completamente apavorada. Mas não sei o que a assustava mais? Se a minha acção? Se a minha aparente descontracção? 

- Sim, tem calma. Estou só a despejar a minha raiva.  

- A despejar a tua raiva?! Partiste a mesa a meio! A espada. Dá-me a espada, antes que faças mais alguma tolice. – A cara dela estava fantástica. Quase que não conseguia conter o riso, ao vê-la assim, tão assustada. 

- Acalma-te. – Voltei a embainhar a espada e dirigi-me a ela. Abracei-a e dei-lhe um beijo na testa. Todo o seu corpo tremia. Coitada. Não consegui deixar de esboçar um sorriso. - Acalma-te. Agi sem pensar. Desculpa. Não queria assustar-te. – Depois das minhas palavras e da minha manifestação de afecto, ela acalmou-se um pouco. 

- Pregaste-me um susto tão grande. Olha, eu sei que isto tudo está a ser difícil para ti. Eu compreendo-te. Podes falar comigo se quiseres. Vai fazer-te bem. Porque fizeste isso? – Sim, estava agora mais calma. Abraçou-se também a mim. 

- Olha. Esta era a espada do meu pai. – Dei-lhe a espada, para ela ver. Um pouco a medo pegou-lhe e lentamente começou a desembainha-la. - Não tenhas medo, toca-lhe. Vê como é bela. Quando era pequeno, o meu pai não me deixava tocar-lhe. Agora, quando a vi… Vieram-me ao de cima algumas recordações. Agi sem pensar. Foi uma idiotice. Desculpas me?  

- Desculpo. Claro que desculpo. Mas que foi uma idiotice, foi. – Aquela cara de susto já lhe tinha passado. Olhava agora, também fascinada, a espada. – Esta espada era do teu pai? É muito bonita. E também deve ser bastante antiga. 

- Sim. Deve ser. Mas o meu pai nunca me contou nada acerca dela. A única coisa que sei, é que ele não me deixava tocar-lhe.  

- É compreensível. Esta espada é fantástica. Deve valer bastante dinheiro. E além disso, é perigoso para uma criança tocar numa coisa destas. Vê só como é afiada. 

De facto. Depois de um golpe daqueles, a lâmina continuava extremamente afiada, como uma espada nova. Aliás toda ela brilhava, como se tivesse acabado de ser construída. Era realmente muito bela. Era uma espada digna de um rei. Digna mesmo de um deus. De um deus da guerra. 

- Vamo-nos embora. Voltas cá noutro dia. Esta casa traz-te recordações amargas. E hoje não me parece que estejas preparado para lidar com elas. 

- Sim, vamos. - A Joana tinha razão. Era melhor ir-me embora. Mas a espada vai comigo. 

- Que fazes? Não me digas que levas a espada contigo? Não achas melhor deixá-la ai. 

- Não. Vou levá-la comigo. Agora é minha. – A Joana achou aquilo estranho, mas não me disse mais nada. 

A viagem até à cidade correu normalmente. Passamos quase todo o tempo calados, fingindo esquecer o sucedido. Mas eu notava na Joana ainda uma certa inquietação. Já eram umas 11 horas da noite quando chegamos a casa dela. 

- Ficas bem? – Pergunta-me. – Não queres que fique contigo? 

- Não te preocupes. Eu fico bem. Vai tu para casa. Os teus pais já devem estar preocupados. 

- Está certo. Mas se precisares de alguma coisa, se precisares de falar, não hesites. Telefona-me. E outra coisa, tem cuidado com a espada. Não mates ninguém pelo caminho. – Disse ela. Tentando mostrar que o incidente em casa do meu pai não a tinha afectado. Mas a espada veio todo o caminho no banco de trás do carro, a lembrar-lhe o sucedido . Por certo vai ter dificuldades em dormir hoje à noite. 

Prossigo a viagem em direcção a minha casa. Não consigo deixar de pensar no dia de hoje. Como começou. Com todos aqueles sentimentos amargos a atormentar-me. Como me senti quando segurei a espada, completamente louco. E como me sinto agora. Como se nada de especial tivesse acontecido. Ainda bem. Se continuasse a sentir remorsos, acho não iria conseguir dormir à noite. Mas não consigo de deixar de achar estranho. Mudar de sentimentos assim tão rápido. Nem parece meu. 

Passo agora por uma rua morta. Ainda não é muito tarde, mas já não se vê ninguém. Nunca tinha reparado como a cidade parece tão calma à noite. Está tudo tão sossegado! Mas no meio da calmaria, algo me chama a atenção. Três indevidos com cara de poucos amigos, rodeiam uma rapariga que parece estar muito assustada. O local não estava muito iluminado, o que o tornava perfeito para um assalto. - Vejam só a minha sorte. No meio da calmaria, fui deparar com um assalto. – As luzes do meu carro assustaram os bandidos. Certamente pensavam estar sozinhos. Porém este facto não os fez desistir. Continuaram a cercar a rapariga, certamente convencidos que eu ia seguir o meu caminho, fingindo não ter visto nada. O que é que eu vou fazer? A rapariga olhava para mim com esperança que a ajudasse. Os bandidos continuavam empenhados. O que é que eu vou fazer? Se eu sair do carro para a ajudar, eles podem estar armados. Além disso são três. O que podia eu fazer contra eles. O melhor é seguir o meu caminho e esquecer. Não. Não posso fazer isso. Não me posso acobardar dessa maneira. Parei o carro e apaguei as luzes. Os bandidos olhavam agora para mim, mas continuavam no mesmo sitio. Peguei na espada, segurando-a atrás das costas, e sai do carro. Não havia luz suficiente na rua para me poderem ver em condições. Com a espada sinto-me protegido. 

- Hei? O que é que se passa aqui? Estes homens estão a importuna-la, senhora? – Perguntei. Foi o acto mais corajoso que tinha feito, até hoje. 

- Por favor. Ajude-me. – Pediu-me a rapariga, apavorada. 

- Hê pá. Vai-te embora se não queres morrer hoje. – Disse um dos bandidos puxando por uma navalha, dando uma risada. – Mata-o. – Diz outro. 

- Por favor. Ajude-me. – Voltou a pedir a rapariga. 

Nesse momento, o bandido que empunhava a navalha, saltou sobre mim. Então novamente num acto sem pensar, desembainhei a espada. E sem o mínimo de piedade desfrutei um golpe no homem. Um golpe tão violento, que lhe abriu o peito e lhe cortou a mão, tudo de uma só vez. O que fez jorrar sangue, como se fosse uma fonte. Um dos companheiros veio em seu socorro, não se mostrando impressionado. Com a ponta da lâmina fiz-lhe um golpe nos olhos.  

- Os meus olhos! Os meus olhos! Estou cego! Não vejo nada! – Gritou em agonia. Levando as mãos às vistas todas ensanguentadas, caindo de joelhos. 

- Estás cego? Compra um cão. – Respondi-lhe. E num acto completamente sádico, sem mostrar um único sentimento. Enterrei-lhe a espada na cabeça. Jorrando novamente um rio de sangue. 

O terceiro tentou fugir. Mas tropeçou e caiu no chão, de barriga para baixo. Espetei-lhe várias vezes a espada nas costas. Foi o que teve a morte mais clemente. Ao acabar de executar os bandidos, olhei para a rapariga. Estava perplexa com o acontecido. Sorri-lhe e perguntei. – Está bem? – Ela olhou para mim, ainda tentou dizer qualquer coisa. Mas fugiu, assustada. Vejam só! Fugiu! Acabei de a salvar. E é assim que me agradece. Então reparei nos corpos mortos e mutilados dos bandidos. E no sangue que escorria da lâmina da espada. E na enorme poça, na calçada. Parecia um rio. Fantástico. Nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Só então ai me apercebi verdadeiramente do que tinha feito. Tinha acabado de matar três homens, de uma maneira tão violenta, que ainda me custa a acreditar que o tivesse feito. Não admira que a rapariga fugisse. Depois de ver tanta carnificina. Meu Deus! O que é que eu vou fazer? Vou ser preso e acabar os meus dias na prisão. Não. Não. Não pode ser. Ao ver aquele cenário de morte e pior, ao saber que fui eu que o provoquei, começou-me a dar vómitos. Tinha de sair dali. Meti-me no carro e arranquei. Só pensava em chegar a casa, limpar completamente o sangue da espada e tentar esquecer. Se isso fosse possível. 


segunda-feira, julho 31, 2023

É amanhã dia 1 de Agosto...

Eu sei que tenho andado demasiado preguiçoso para criar qualquer coisa que se leia. Mas isto, ou se escreve qualquer coisa que mereça ser lida, ou então mais vale estar quieto. É o que tenho feito. 

Não tenho dúvidas que daqui por algum tempo a criatividade volta, até lá, olha... Este espaço faz anos no dia 1 de Agosto e eu gosto de recordar a data. É um cantinho perdido na internet, mas é meu. Não é um livro, nem sequer me atrevo a dizer que tenho qualidade para me dizer escritor. Contudo as palavras saem e lá vou deixando o resultado aqui. Nem sei se isto ainda tem visitantes! 

Já aprimorei a minha escrita ao longo destes anos. Está melhor, mas ainda não encontrei o meu estilo. Este próprio texto, podia estar melhor escrito. Não faz mal, é como se estivesse a falar contigo num café a beber um copo. É assim que gosto de imaginar os leitores que se dão ao trabalho de ler aquilo que escrevo. Alguém que encontro num café e com quem troco umas quantas palavras sobre a vida, a fantasia e outras coisas que habitam o nosso pensamento. 

Talvez seja um narrador de sentimentos, ou um contador de inutilidades, seja como for, é para isso que este blog serve: dar guarida a coisas escritas sem um objetivo concreto. 

Portanto, é mais um aniversário deste 'mundo diferente' que assinalo. Parabéns a mim e às coisas que por aqui estão escritas!



sábado, novembro 12, 2022

"Para sempre. Aqui estou."

"Para sempre. Aqui estou." O rapaz soltou estas palavras com a cara mais séria do mundo.

O pai, o mesmo que era suposto apoiar o filho, não conseguiu conter uma gargalhada barulhenta. O rosto ficou vermelho com tanto riso e as lágrimas começaram a cair em abundância, mais parecia um desenho animado. A certo momento atirou-se para o chão onde se começou a rebolar no meio daquelas gargalhadas surreais.

O filho só queria um conselho sobre quais as melhores palavras a dizer à rapariga por quem estava apaixonado. Supostamente o pai seria a melhor escolha para esta função, ou assim julgava ele. Mas ao ver aquela figura desconchavada a contorcer-se pelo chão como uma minhoca bailarina, ficou bem arrependido por lhe ter pedido ajuda. Nunca pensou vir a ser tão gozado pelo próprio pai!

Alertada por aquele chinfrim a mãe não tardou a aparecer para ver o que se passava. Ao deparar-se com aquela cena, questionou pasmada: “Mas que maluqueira é esta”!?

O filho com cara de amuado não respondeu. O pai tentava recuperar o fôlego do riso. Com algum esforço lá conseguiu sentar-se no chão. “O nosso filho gosta de uma rapariga. Estava a ensaiar comigo o que lhe ia dizer”. Fez uma pausa para ganhar mais ar. “Então disse que ia ficar com ela para sempre”!

A mãe também se riu. Contudo, na sua sensibilidade maternal lá se foi abraçar ao filho. “Estou tão feliz por ti. Estás a crescer tão rápido e numa idade tão bonita”. Apertou-o entre os seus braços protetores. “A primeira paixão é sempre memorável. Mas tenho de te avisar que na adolescência apaixonamo-nos ‘para sempre’ uma data de vezes”. Explicou, enquanto o pai acenava com a cabeça em concordância.

“Quantas vezes achas, quer eu, quer o teu pai, nos apaixonamos eternamente por outras pessoas, antes de ficarmos um com o outro”?

“Não faço ideia.” Murmurou o rapaz um pouco envergonhado com aquela conversa tão íntima com os pais.

A mãe continuou: “Muitas! É uma altura tão bonita da vida. Deves aproveitar ao máximo e dizer aquilo que sentes. Só assim se aprende a viver”!

Por esta altura o pai já se tinha levantado e não ria como um maluco. Também se foi abraçar ao filho. “Vai lá dizer à moça que estás com ela ‘para sempre’. Se a coisa não resultar nós estamos aqui para ti e ‘para sempre’, nunca duvides disso”.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


domingo, julho 24, 2022

Como terminar uma relação

– Queres acabar comigo!? – bufou Sara com aqueles olhos enormes completamente abertos, sem pestanejar.

–  Sim – respondeu Joaquim, como quem está resignado.

– Espero bem que isto seja uma brincadeira! Investi vários anos nesta relação. Sempre fui bem clara ao querer construir um futuro contigo. Crescemos juntos até aqui e fazemos juras de amor praticamente desde a adolescência. Sacrifiquei-me e dei tudo de mim. Entreguei-me de corpo e alma e acreditava fazeres o mesmo. Criámos uma vida juntos, por amor de Deus! – lembrava Sara. – Agora estamos quase na meia-idade e acabas desta maneira!? – O tom danado da voz dela, juntamente com os olhos esbugalhados, quase tornavam a cena cómica, não fosse o facto de ela estar mesmo extremamente zangada.

– Não é uma brincadeira. Infelizmente estou a falar a sério – argumentou Joaquim.

– Por favor, dá-me uma boa explicação! – exigiu Sara, com o rosto a transparecer fúria.

 

Um dia antes

Não era comum ele andar de comboio. Detestava as confusões. Aglomerados de gente entretida com conversas banais. O Joaquim gostava da sua vida simples e amiga do ambiente. Nada de discotecas, festas, ou outras ocasiões com a participação de muitas pessoas. Adorava a sua existência pacata junto da companheira, Sara. Morava longe das cidades, onde não há pressas. Quando precisava de se deslocar, utilizava o seu carro elétrico, do qual tinha um particular orgulho, pois tinha-o comprado com as suas poupanças.

Naquele dia, como teve de tratar de uns assuntos naquela zona, mesmo sozinho, decidiu fazer uma viagem turística pela linha do Vouga. Alguém lhe disse ser uma viagem bonita, por paisagens naturais. Lembrou-se igualmente das histórias da avó, ela falava bastante sobre os passeios naquela linha “no tempo dela”. Esses argumentos despertaram-lhe a curiosidade e foi.

Ficou um pouco desapontado quando viu uma locomotiva a diesel, pois esperava uma clássica a vapor. Para compensar, as carruagens eram de madeira, completamente vintage. Cheiravam a antigamente. Reparou na grande quantidade de turistas a participar na viagem. Imaginava os passageiros de outros tempos, com roupas típicas, a deslocarem-se entre a casa e a cidade para trabalhar, sem imaginarem que no futuro aquela vida dura ia ser recordada como uma forma de turismo.

Entrou numa carruagem e sentou-se num banco qualquer. Imediatamente, um homem mais velho, possivelmente na casa dos sessenta, sentou-se em frente a ele. Vestia de forma peculiar. Usava um chapéu largo e um casaco castanho, apesar do dia estar quente. A primeira impressão de Joaquim foi a de ser um figurante, contudo o fulano pegou num caderno de apontamentos e numa caneta daquelas antigas, com recarga de tinta. O homem olhava em volta e ia escrevinhando enquanto o comboio seguia o seu trajeto. Aparentava não dar importância aos cenários por onde passavam, estava só concentrado na sua escrita.

Abstraído a olhar pela janela, Joaquim deixou de lhe dar atenção. Era de facto uma viagem bonita, como lhe tinham prometido. Só quando estava a chegar ao destino reparou no homem novamente e em como este o olhava com alguma curiosidade. Continuou a fixá-lo durante alguns segundos até escrever algo no caderno.

Na chegada, o homem arrancou uma folha e dobrou-a em quatro. Levantou-se logo de seguida e saiu apressadamente, deixando o papel dobrado no assento. Joaquim pegou nele e tentou localizar o homem entre o grande número de turistas a bloquear a saída. Não o conseguiu encontrar no meio de tanta gente. A curiosidade do Joaquim impeliu-o então a ler a folha esquecida. "Acaba com a Sara", dizia o bilhete.

 

De regresso ao presente

– Deixa ver se percebi! Vais terminar uma relação de anos comigo porque um idiota qualquer deixou um bilhete no comboio a dizer para acabares comigo! Não te parece ridículo? – Sara continuava incrédula. Mantinha os enormes olhos abertos, pareciam estar prestes a saltar das órbitas, tal era a fúria sentida por ela.

– Ainda não percebeste. Ele não era um idiota qualquer. – Joaquim fez uma pausa dramática. – Reconheci aquela caneta mais tarde, quando cheguei a casa, e não tive dúvidas.

– Como assim, reconheceste a caneta? Explica bem explicado!

Joaquim tirou um pequeno estojo do bolso. Abriu e mostrou uma caneta antiga.

– Deram-me este presente quando entrei para a escola primária. Na altura foi muito cara. A ideia era usá-la quando fosse adulto. Depois, com o surgimento das novas tecnologias deixei de escrever à mão e passei a fazer as minhas notas no telemóvel. Nunca cheguei a usar a caneta. Por isso, ficou escondida numa gaveta e já não me lembrava dela, até ontem. O homem usava exatamente esta mesma caneta. Sabes o que isso significa?

Sara não respondeu. Atónita, limitou-se a esperar a resposta.

Joaquim segurou a caneta diante dos olhos dela.

– Aquele homem era eu, vindo do futuro!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


quarta-feira, junho 29, 2022

Baseado numa história real

– Então deixa-me recapitular para ver se percebi! Tu vais participar numa competição de escrita, mas deixas tudo para o último dia? – disse ela preocupada.

– Exatamente. – respondeu ele com tranquilidade.

– Tu tens noção de que fazer as coisas à pressa e em cima do tempo pode correr muito mal? A isso chama-se procrastinação! O mais certo é qualquer dia falhares o prazo! – chamou-lhe a atenção.

– Relaxa. Tu stressas demais. Eu sou assim. Já sabes desta superstição. Tenho de mandar as coisas no último dia. Se possível, até no último minuto.

– Não tens medo de qualquer dia não entregares na data-limite?

– Se calhar até tenho, mas a minha imaginação só funciona assim, sob pressão. – Soltou um sorriso convencido – Até hoje nunca tive problemas.

– Estamos a falar de criar, escrever, fazer a revisão e enviar. Se juntarmos a isso tudo o teu trabalho, vida pessoal, passatempos, compromissos e para finalizar essa tua preguiça mundialmente famosa, muito me admira conseguires entregar as coisas a tempo e horas.

– Mas eu tenho essa superstição. Não posso fazer nada. Portanto, sou fiel a mim mesmo. Não vou mudar. Todos temos as nossas manias e eu não sou exceção. – teimou.

– Pois a minha superstição é fazer as coisas dentro do prazo e com atenção.

– Confia em mim. Vou enviar o conto dentro da data-limite.

O nosso suposto candidato a escritor em part-time respondeu assim à sua amiga. Estava plenamente confiante na sua habilidade de construir uma narrativa no último momento.

Por mera curiosidade abriu o Facebook e foi consultar as publicações guardadas. O prazo do desafio era até dia quatorze. “Ainda tenho tempo”, pensou confiante. Mesmo assim, olhou para o calendário do computador para confirmar a data atual. “Provavelmente devia estar para aí no dia cinco”. Julgou.

Olhou para o canto inferior direito do ecrã. Para sua surpresa já estava no dia quatorze! Engoliu em seco. Pegou no telemóvel para confirmar a data e de facto já estava mesmo no dia quatorze!

Nunca foi muito bom a saber a quantas anda, ainda por cima, nesta altura de calor e festas, perdeu completamente a noção dos dias.

– Foda-se! – exclamou! Já estava a meio da tarde. Se calhar não devia deixar assim tanto para a última. Afinal não tinha assim tanto tempo para trabalhar. Agora só havia duas soluções: desistir ou fazer jus à sua superstição de fazer as coisas mesmo em cima da hora.

Saiu e procurou um local entre a natureza. Sentou-se. Abriu o processador de texto do telemóvel e começou a escrevinhar ideias. Alguma coisa havia de fazer sentido no meio de tantas frases soltas.

Depois de uma horita debaixo duma árvore, à sombra, inspirado pela brisa fresca, lá conseguiu elaborar uma história. Contudo, ainda tinha até à meia-noite para enviar. Por isso guardou o ficheiro para fazer a revisão mais tarde. Tinha tempo suficiente.

Depois de jantar foi ver a Lua. Estava cheia, enorme e especialmente bonita naquela noite quente. Ideal para os românticos. Quando viu as horas, onze da noite, lembrou-se do desafio de escrita. – Bolas! – resmungou.

Lá correu para o computador. Fez umas quantas alterações e ficou satisfeito. Escreveu o e-mail, anexou o ficheiro e sentiu-se orgulhoso. Nesse momento reparou na data da mensagem enviada: “dia 15 às 00.01”!

Soltou o palavrão mais usado pelos portugueses. Tinha sido vítima do próprio tema do desafio: “Escrever um texto sobre uma superstição que se concretiza”.

Desta vez a superstição dele falhou por um minuto. Talvez para a próxima dê ouvidos à sua amiga.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


terça-feira, abril 05, 2022

Sonho voador

 «Hoje é um dia memorável para a jovem República Portuguesa!». Os jornalistas presentes escutavam as palavras do novo Presidente da República, embora dividissem a atenção com o receio da plataforma onde se encontravam cair, pois ela elevava-se cada vez mais no ar como por magia.

O político, de pose orgulhosa, exibindo o seu bigode perfeitamente enrolado nas pontas, continuou a preferir o discurso triunfante. «Guardem na memória esta data na Primavera de mil novecentos e onze. Provamos, com esta tecnologia, sermos capazes de dominar os céus, tal como já fizemos com os oceanos e é com grande euforia que os convidei para esta viagem inaugural.» Apontou vitorioso para o navio alado, ornado com a bandeira Portuguesa, enquanto este se ia erguendo sempre mais alto.

Fez-se ouvir uma salva de palmas por parte dos convidados rendidos à admiração. O presidente chamou o engenheiro responsável por aquela majestosa máquina voadora. Era um rapaz bem vestido, sem qualquer tipo de pelo facial, algo raro naquela época. Mostrava-se envergonhado pelos aplausos. Agradeceu e explicou: «Os meus pares afirmam que motores de combustão são o futuro dos veículos de transporte, mas eu e a minha equipa conseguimos provar o contrário, nós tornamos o motor a vapor muito mais eficiente. Basta uma pequena chama de uma vela, ou mesmo um fósforo, para aquecer toda a caldeira de água. Não precisamos de ocupar espaço com combustíveis, podendo voar durante semanas e até meses. Aquece em pouco tempo e todo o calor gerado é aproveitado, maximizado e utilizado sem desperdício. Vossas excelências podem comprovar por vós mesmos. Por baixo do navio existem bolsas de ar quente fazendo-o subir como um balão. Quando chegarmos à altitude certa, aí sim, os motores vão ser ligados e fazer este magnífico navio alado, a que demos o nome de Dom Afonso Henriques, chegar ao seu destino, do outro lado do Atlântico, no Brasil.»

Os convidados e os jornalistas já começavam a ganhar um certo medo por estarem de pé em cima daquelas enormes asas triangulares. Para lá de possibilitarem o voo, também serviam de plataforma e de varanda, onde as pessoas apoiadas no corrimão podiam observar o mundo lá em baixo. Indiferente aos receios engenheiro continuou a explicação: «Também, devido ao seu desenho aerodinâmico ele pode planar como uma ave durante centenas de quilómetros, tornando-o impossível cair!» Ouviu-se mais uma grande ovação, sendo interrompida pela voz projectada nas cornetas de comunicação.

«Senhoras e senhores, daqui fala o vosso capitão. Chegámos à altura limite de segurança exterior e vamos preparar o voo a grande altitude. Pedimos a todos que entrem a bordo.» Eram dezenas as pessoas a passear pelas asas daquela embarcação aérea peculiar, com um formato pontiagudo na dianteira. Estavam maravilhadas por pairarem acima da cidade, com os habitantes a olhar para eles lá de baixo, perplexos.

O engenheiro indicou o caminho e, para alívio de muitos, entraram de forma ordeira, ocuparam os seus lugares nos quatro pisos do navio, divididos por áreas de lazer, descanso, suites, gabinetes e simples lugares de passageiros. Com todos já instalados no interior, ouviu-se o vapor a circular nos canos e os potentes motores começaram o seu trabalho, propulsionando a enorme aeronave pelo céu dentro, até chegar acima das nuvens. Os viajantes aproximaram-se das janelas, maravilhados pela paisagem. Era mágico. Assistiam a algo que acreditavam ser impossível. Muitos até julgavam estarem num sonho. Todos, sem excepção, elogiavam aquela máquina revolucionária.

Alguns graduados militares aproximaram-se do engenheiro, propondo, dada a capacidade de voo do navio alado, poder largar bombas sobre qualquer país inimigo a partir daquela altitude. O engenheiro declinou e afirmou: «O objectivo desta criação é unir o mundo e não destruir.»

Mais uma vez o capitão falou pelas cornetas: «A partir daqui vamos continuar a nossa viagem a planar, sem usar os motores, nem mais nenhum tipo de combustível, a não ser água e uma pequena chama acesa. Desfrutem a viagem.»

E assim, o ‘Dom Afonso Henriques’, imponente e seguro, tal como um pássaro totalmente confiante nas suas asas, atravessou o oceano Atlântico, por cima de todos os outros navios que navegavam pelo mar. Portugal voltava a fazer história conquistando desta vez os céus!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


sexta-feira, janeiro 07, 2022

Coisas escritas

O Universo é uma narrativa escrita pela mão mágica dum criador.

Uma divindade estranhamente infantil.

Um Pai Cósmico de imaginação fértil,

Que, na sua fantasia infinita desenhou o mundo, do qual se fez editor.

E assim nascemos nós, como palavras escritas.

Vidas contadas entre derrotas e conquistas.

Curiosos, também ansiamos por criar histórias entre a dor e o amor.

Fazemos do mistério a nossa liberdade,

Traduzimos para palavras a nossa curiosidade.

Esquecemos as personagens que somos e ansiamos por algo maior.

Crescemos até ao expoente do pensamento,

Criamos Universos pela caneta do sentimento.

Nós, as palavras, o criador, rivais no mesmo carisma impulsionador!

Porque a imaginação não pode ser calada.

A inquietação jamais pode ser travada,

Sem medo do falhanço as histórias vivem pelas mãos de qualquer autor!

Sina desassossegada, sem nunca terminar.

Universo que acontece com tanto para contar.

Ideias que nascem como infinitos, paridas por gente, ou algum Deus escritor…


Poema elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


quarta-feira, dezembro 15, 2021

Amor em tempos modernos

Ele teve o azar de nascer um tipo romântico! As mulheres é que deviam ser românticas e não os homens. A emancipação do sexo feminino trouxe muitas coisas novas, incluindo falarem e praticarem abertamente as suas fantasias. Obviamente que ele não se opunha a este direito essencial, mas ele era apenas um tipo romântico, não percebia nada de taradices. O que ele queria do sexo, pouco mais era do que a posição do missionário e dormir enroscado com a sua amada. Tão simples quanto isso. No entanto, para mal dos seus pecados, a sua namorada era uma pervertida escondida atrás das suas boas maneiras e óculos de leitora compulsiva. Isso levou-os até aquele momento. Afinal de contas o que é que ele percebia de BDSM!?

Alguém se lembrou de escrever um livro chamado ‘As Cinquenta Sombras de Grey’, que deixou as mulheres todas a fantasiar com sadomasoquismo. A namorada dele também leu, gostou e quis experimentar. Insistiu tanto que ele teve de ceder. Agora olhava para o corpo despido dela amarrado na cama, deitada de barriga para baixo, vendada e amordaçada, com o traseiro exposto à sua mercê.

Debaixo da mordaça ela conseguiu exprimir algumas palavras, que mais pareciam grunhidos: “Quando é que começas”!?

Ele engoliu em seco. Não tinha a certeza se tinha coragem para fazer aquilo. Talvez fosse a fantasia de muitos homens, mas não era a dele. Contudo perguntou: “Preparada?”. Ela soltou um sim abafado. Ele subiu o braço e deu a primeira chicotada, sem qualquer reação da parte dela. Bateu mais algumas vezes sem que ela reagisse.

“Cebola!”, acabou por gritar debaixo da mordaça. Era a palavra-passe que tinham combinado para um caso de urgência. Pensou que era uma palavra estranha. Mas se ela gritou é porque algo estava errado! Apressou-se a soltá-la das amarras. “Estás bem?”, perguntou preocupado.

“Que diabo estás tu a fazer?”, respondeu extremamente irritada. Ele encolheu os ombros sem perceber o que se estava a passar. Ela levantou-se bastante incomodada e pegou no chicote que ele usou. Viu com estranheza que não era o mesmo que tinha trazido consigo. “Não acredito que me chicoteaste com um fio de lã”.

“Mas o chicote ia doer muito! Por isso fiz esse de lã para não doer…”, respondeu confuso.

“A ideia é essa! Agora vou eu mostrar-te como se faz! Tira a roupa!”, ordenou ela furiosa.

Ele estava atrapalhado, mas obedeceu prontamente. Ela atirou-o para cima da cama e colocou-o na mesma posição em que ela estava antes, deixando-o totalmente à sua mercê. Amarrou-o severamente e amordaçou-o, enquanto proferia palavras brutas. “Agora vais ver como se faz!”, resmungou ela, dando-lhe uma forte palmada no traseiro. Estranhamente ele achou aquilo tudo muito excitante.

Depois, sem qualquer sinal de aviso ela usou o chicote verdadeiro e... “FWWIIIIP”! Fez-se ouvir o som do cabedal a atravessar o ar.

A partir daqui, acredito que não vale a pena descrever o resto da cena. Passo logo para o dia seguinte. O nosso amigo romântico estava vigorosamente feliz. Isto, apesar dos colegas de trabalho repararem que ele estava com dificuldades em sentar-se…

É assim o amor dos tempos modernos!...


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


domingo, dezembro 05, 2021

Dia de festa

O menino estava tão bonito, parecia um padre em ponto pequeno. O hábito branco, cabelo penteado imaculadamente e um terço na mão, faziam-no parecer um pequeno anjo, enquanto posava para a fotografia! Quem olhava para ele não podia imaginar que se tratava do maior reguila do vilarejo. Era conhecido por todos os habitantes pelas suas travessuras endiabradas, que, apesar de lhe valerem algumas valentes tareias, nunca deixou de fazer.

Naquele tempo, início dos anos oitenta, a primeira comunhão era um evento extremamente importante nos vilarejos do interior. Um rito marcante de passagem na infância.

Nesse ano, as catequistas treinaram as crianças para um momento especial, em que o padre, durante a celebração, perguntava aos pequenos qual era o dia mais importante da vida deles? Ao que os pequenos respondiam em uníssono: "É o dia da minha comunhão"!

Tudo isto foi ensaiado vezes sem conta até à perfeição. Só que, no dia da missa, com a igreja cheia de gente e toda engalanada, o padre, ao fazer a pergunta, deparou-se com um silêncio total por parte das crianças. Tendo em conta que estavam intimidadas pela solenidade do momento, repetiu, sem que tivesse resposta novamente.

Ao reparar na timidez nos rostos dos pequenos, repetiu uma terceira vez. E mais uma vez ficaram em silêncio, para frustração do padre e das catequistas. Só o nosso pequeno reguila ganhou coragem de tomar a palavra, e com o dedo levantado disse bem alto: “É o dia em que o meu pai mata o porco”!

Isto fez com que uma gargalhada geral percorresse a igreja. Com excepção das catequistas que não esconderam a vergonha, bem como do padre que ficou vermelho de raiva!

Aqui, convém lembrar que o dia da matança do porco era também uma ocasião festiva nos vilarejos do interior. Juntavam-se familiares e amigos em alegre convívio. Comia-se com fartura, bebiam-se uns copos, diziam-se umas piadas, e as regras rígidas daquele tempo pareciam abrandar com esta festa caseira. Tudo à custa do pobre animal, cujo único crime foi ficar gordo. Obviamente que o nosso pequeno traquina gostava desse dia, em que podia fazer umas brincadeiras mais malandrecas e escapar-se dos castigos com facilidade.

Para azar do nosso rapazola, e apesar das gargalhadas que ecoavam na igreja, esta era a sua primeira comunhão e tinha de se portar muito bem. A julgar pela cara de desagrado dos pais (secretamente divertidos), parece que não se ia livrar de umas boas palmadas.

Com tudo isto, o nosso pequeno traquina fez jus à sua fama; o padre e as catequistas aprenderam que as crianças são imprevisíveis; o povo daquele vilarejo ia-se recordar daquela primeira comunhão durante muito tempo; e nas futuras matanças do porco esta história ia ser recordada com entusiasmo por muitos anos.


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


quarta-feira, outubro 20, 2021

A cidade

“Eu tinha de voltar àquela cidade”. Devo começar assim um texto, ou um conto, ou qualquer coisa que se escreva para alguém ler depois (ou ninguém, ou apenas eu sozinho numa viagem ao passado).

Gosto que me dêem uma orientação para que as palavras saiam. Uma ordem imperativa para escrever as emoções, senão, ficam cá dentro acumuladas como lixo. Tenho de escrever como se fosse algum tipo de obrigação religiosa, ou melhor, um exorcismo de demónios que moram cá dentro à espera de que a porta da loucura se abra para o exterior.

Assim foi feito: “Eu tinha de voltar àquela cidade”. Mas afinal a que cidade devo eu voltar? Nem sequer gosto de cidades. Pessoas que andam pelas ruas claustrofóbicas, trânsito aglomerado como um bando de formigas cujo destino é ser apenas mais um número.

Talvez só conheça as cidades erradas e esteja a fazer juízos incorrectos. Ou, talvez, não compreenda quem vive para lá do meu mundinho grandiosamente pequeno. Não interessa, vou continuar a escrever.

Voltar a uma cidade que não conheço, fazer amizade com gente que nunca vi, passear tranquilamente nas avenidas sem que os passos dos outros me incomodem. Parece quase inconcebível.  

Dou por mim, assim, a escrever sobre essa cidade hipotética que só existe na minha fantasia. Sinceramente gostaria de voltar lá. A essa tal cidade, onde nunca estive (e a minha imaginação tem dificuldade em criar). Cheia de gente e apartamentos pequenos, sem quintais, ou ruas quase vazias. Assistir aos programas de entretenimento de domingo à noite e comentar, como se aquilo importasse para alguma coisa.

Mas eu não sou assim. Valem as palavras escritas. Servem de viagem a esse lugar que me pediram para voltar. O homem não é só feito de corpo. A imaginação também conta como um sítio real. Acho que todos os filhos da fantasia sabem disso.

Desta vez apresento uma cidade sem nome, onde mora quem não conheço, com histórias que nunca aconteceram, em que a inquietação se dispersa pelas vielas perdidas no meio dos prédios que não existem. Onde eu gostaria de ter voltado, sem nunca lá ter ido antes.

Pediram para escrever sobre uma cidade e eu escrevi. Mas a realidade é que só escrevi sobre mim e peço desculpa por isso (ou talvez não).


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita

domingo, outubro 17, 2021

As mentes não foram feitas para ser lidas

Sentaram-se na mesa frente a frente. Apesar de ser um encontro informal, houve uma altura em que cruzaram olhares. Não se pode contabilizar o tempo que demorou. Talvez fosse um segundo, um minuto, ou até mais, ou ainda menos. Quem sabe? Neste tipo de situações, que mais parecem uma eternidade, é impossível dizer. Mas na realidade, pouco ou nada importa.

Ele olhava-a, como se saísse de si mesmo para dentro dela. Um arrepio percorreu-lhe o corpo como se a pele ganhasse vida própria; o coração disparou como num susto violento; os membros bloquearam como se a vontade já não pertencesse a ela. Era apenas um olhar, mas ela sentiu muito mais do que isso. Era como se o interior da sua pele, escrito com os segredos e desejos mais profundos, se transformasse em folhas de papel e ela fosse um livro que ele podia ler através dos seus olhos. Ele folheava cada página sem pressa, enquanto consumia cada palavra com uma atenção sobrenatural.

O canto da boca dele começou a curvar para cima dando início a um sorriso dominador. Nessa altura, ela, com toda a força de vontade que conseguiu acumular por detrás da sua mente nua, desviou o olhar. Ainda assim, continuava a senti-lo, dentro de si, a ler a sua mente sem pedir autorização. Sentiu muita vergonha, ficou corada, com medo, rendida, num misto impossível de emoções. Presa na eternidade daquele momento. Sem qualquer tipo de muralha que a escondesse daquele olhar penetrante.

– Sente-se bem? – Perguntou ele com a gentileza de quem sabia a sua fragilidade interna.

– Sim, sim, claro! – Respondeu atabalhoadamente.

– Por momentos julguei que estivesse nervosa. Não foi essa a ideia com que fiquei quando me falaram da sua reputação. – Entregou-lhe uma pasta com um relatório sobre um projecto qualquer. Ela soltou um risinho ridículo, como uma adolescente aparvalhada.

– Não! Quer dizer... Não sei quem foi que lhe disse isso, mas pode ter a certeza que sou extremamente profissional naquilo que faço. – Abriu a pasta escondendo o rosto no relatório.

– Eu sei. – Afirmou ele com uma serenidade convicta na voz. – Espero que o relatório seja suficientemente claro. – Rematou com uma ironia subtil, já que ela não se conseguia concentrar na leitura por causa dos nervos inquietos. Já nem se reconhecia. Nem sequer conseguia ler o título escrito em letras grandes e maiúsculas que pareciam que se misturavam de forma confusa e ilegível.

Ela engoliu em seco. Pouco mais sabia daquele homem do que o seu nome, a sua profissão e que tinham marcado aquela reunião para tratar de negócios. Mas ele sabia tudo sobre ela. Parecia impossível! O pensamento de uma pessoa não pode ser lido, mesmo assim ela sabia que ele conseguia fazer isso. Seria a sua cabeça a pregar-lhe partidas? Estava louca? Não! A expressão dele mantinha-se fixada nela. Continuava a ler os segredos dela sem qualquer tipo de pudor.

– Então, o que me diz sobre o relatório? – Perguntou diante do silêncio dela.

– Eu... – Não foi capaz de continuar a resposta. Finalmente conseguiu ler as verdadeiras palavras no documento. Destacava-se o título: “FICHA DE PERSONAGEM''. Seguia-se, o seu nome, idade, com todas as características possíveis e imagináveis sobre si própria. – Eu... Não sou real! – Concluiu.

– Eu sei. – Confirmou o autor.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita

A festa

No dia em que eu desisti, o mundo fez uma festa em minha honra. 

Os povos de todas as culturas saíram à rua, com cantos, danças e foguetes. Pegaram-me em ombros para desfilar comigo nas avenidas enquanto toda a gente clamava o meu nome e me batia palmas com um entusiasmo eufórico. 

Os governos declararam feriado e na comunicação social não se falava noutra coisa. A alegria contagiou a Terra inteira por causa do meu nome superior. 

Então, levaram-me ao topo do edifício mais alto e todos gritaram em uníssono para que fizesse um discurso de vitória. Excitado pela euforia, abri os braços e saboreei aquele momento de glória absoluta. 

Durante vários momentos, longos, deixei que focassem em mim todo o seu êxtase. Depois, com as palmas das mãos viradas para baixo, gesticulei um sinal a multidão para que fizessem silêncio. Obedeceram quase de imediato, conseguiram acalmar a energia e calaram-se para me escutar, tal era a fome pelas minhas palavras sabias. 

Olhei-os com clemência e projectei a minha voz na direcção dos quatro cantos do planeta bradando: 

«Hoje desisti!» imediatamente fez-se ouvir uma monumental salva de palmas. Voltei a pedir silêncio e continuei: 

«Desisti com orgulho, parece que todo o peso do mundo saiu de cima das minhas costas e por isso sinto-me leve que quase parece que consigo voar!» As palmas soaram novamente junto com palavras de incentivo. Assim que voltou a calmaria continuei: 

«Contudo, não posso voar, nem o quero! Não quero ser mais do que aquilo que posso ser, por isso, hoje, sou novamente um de vocês! Um herói que não tem vergonha de desistir! Sem a obrigação de me superar a qualquer preço!» Veio mais uma ovação. 

«Por favor não me dêem mais vivas.» Disse, com a emoção estampada no rosto para que todos me vissem. 

«Esta leveza é o símbolo da Liberdade que todos merecemos. Sem qualquer tipo de autoridade que me diga que a responsabilidade deve ser assumida a todo o custo, mesmo que não a queira, ou que ma tentem impingir! Hoje, regresso à condição de ser humano, frágil, longe das grandes glórias com que me tentaram iludir.» Desta vez ouvi menos palmas e reparei que a multidão se começava a dispersar rapidamente. 

«Obrigado!» Agradeci aos poucos que restaram com uma ligeira vénia. Também esses não me ligaram muito. Estavam ali parados, inertes e distantes, como se não tivessem mais nada para fazer. Nem sequer lhes mereci um olhar minimamente atento.

A minha voz emotiva já não interessava a ninguém. Toda a festa grandiosa feita em meu nome, era agora uma memória descartável, como se nunca tivesse acontecido. Sobrou a leveza da minha decisão. Juntamente com a tranquilidade de ser Livre.


quinta-feira, agosto 19, 2021

Interlúdio colorido

Sentou-se à sombra dos castanheiros, sentiu a brisa fresca que corria, inspirou e apreciou o cheiro da natureza. Soube-lhe bem. 

Apercebeu-se que sentia cansaço, com a azáfama nem tinha dado conta. "É estranho quando uma pessoa não se apercebe que está cansada, seja pelo trabalho, pela companhia, ou ainda até pelo próprio pensamento." Refletiu. Por isso encostou-se ao tronco robusto da árvore e descansou. 

Olhou em volta e contemplou a beleza colorida que estava em seu redor. Por ser Verão os girassóis estavam abertos. Eram imensos, altos como as árvores de fruto que se espalhavam pela quinta. Nunca tinha reparado que eram tantos, nem que podiam ser tão altos, ou que havia tanta variedade de fruta naquele lugar que parecia pequeno para quem olhava na rua. 

Relaxou como já não fazia há muito tempo, tanto que já não se lembrava de alguma vez o ter feito. Não olhou para o relógio. Não era preciso. Aliás seria até pecaminoso contar o tempo daquela pausa. Também por lá estavam alguns cães e gatos que dormiam tranquilamente sem preocupações. Afinal de contas os bichos não tinham as mesmas obrigações dos humanos. Não precisavam de medir o tempo e provavelmente por isso pareciam tão tranquilos.

É estranho como de repente tudo que lhe atormentava o pensamento desapareceu como se fosse insignificante. A tranquilidade era soberana. Sem vozes irritantes. Apenas o barulho das folhas que dançavam com a brisa. Aqui e ali os pássaros chilreavam e ao longe ouvia-se um pequeno moinho que girava. "Que sossego maravilhoso!"

Interrogou-se porque não parava assim mais vezes. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe dos outros e de tudo. Só o momento e a natureza. Mais nada parecia importar. Os dias são longos em Agosto e isso é tão bom. A vila desacelera do lado de fora das sebes, parecendo querer acompanhar o ritmo da natureza.

As cores invadiram-lhe a alma. O céu azul, o verde nas folhas que dançam, o amarelo dos girassóis, o arco-íris da perfeição num dia de sol a irradiar uma pequena quinta. 

A calma afasta a pressa. A Paz deixa de ser apenas uma palavra e ganha um significado palpável na oração calada de quem contempla a sua própria pequenez.