– Ainda não deixaste de fumar?
– Tem calma, depois deste desisto. – Deu uma passa longa e logo a seguir atirou o cigarro fora juntamente com a caixa vazia. – É hoje que fugimos?
– Ó sim. – Anuiu confiante. – Vem comigo. – Caminharam até uma carrinha estilo furgão, antiga. Talvez fosse dos anos oitenta ou até anterior. Entre a descoloração e algumas amolgadelas meio reparadas, nem dava para perceber a marca, quanto mais o ano.
– O que é isto?
– O nosso meio de transporte.
– Esta coisa anda sem se desfazer aos bocados?
– Podes ter a certeza disso. Aliás, eu, pessoalmente tratei de verificar a estrutura e o motor. Podemos dar a volta ao mundo e não nos vai deixar mal.
– Se tu o dizes, eu acredito em ti.
– Temos tudo que precisamos. – Abriu a porta traseira e mostrou. Revelou um interior generosamente grande. Lá dentro estava apenas um colchão insuflável.
– Parece uma casa acolhedora. – Admirou toda a área vazia. – Teto não nos vai faltar.
– Não podíamos dormir à chuva.
– O que fizeste às tuas tralhas?
– Vendi. – Riu-se. – Temos de ter dinheiro para comer.
– Também fiz o mesmo. Parece que estamos ricos. Temos a barriga cheia sempre garantida.
– Vamos. – Entraram.
– Onde foste desencantar esta coisa? É enorme. Mais parece um camião americano. – Deitou-se no assento. – Consegues conduzi-la pelo menos?
– Eu conduzo qualquer coisa. Até uma nave espacial se for preciso. – Brincou.
– Que temos aqui? – A sua atenção virou-se para um rádio antigo de cassetes. – Isto traz-me recordações. Ainda funciona?
– Nem duvides. Não só funciona como traz uma colecção de músicas para a gente ouvir. – Abriu o porta-luvas e caíram dezenas de cassetes antigas. Sem dúvida, não eram utilizadas há mais de duas décadas, pelo menos.
– Ui tantas! – Verificou algumas com curiosidade. – Tens a certeza que isto toca mesmo?
– Coloca uma. Não há como experimentar.
– Tens razão. – Segurava uma caixa na mão. Abriu-a, retirou a cassete e colocou na ranhura. Já não se lembrava bem como se usava uma coisa daquelas. Não era difícil. Ao carregar no play começou a tocar "125 azul" dos Trovante.
– Nem de propósito. Excelente banda sonora. – Ligou o motor da carrinha velha sem qualquer dificuldade. – Eu disse que o motor estava bom. – Sorriu.
– Vamos mesmo fazer isto? – Tocou-lhe na mão e devolveu o sorriso.
– Sim. Hoje vamos 'arrancar sem destino nenhum'.
1 comentário:
Um bonito conto que gostei de ler. Eram boas carrinhas as que a foto mostra
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Deixando saudações cordiais
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Poema: “” Desígnios da vivência ””…
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