segunda-feira, abril 20, 2026

A inversão


Corpo estendido no chão. Imóvel. Rodeado de pó parido pela terra seca. Olho para o azul fantasma em cima de mim. Uma tela sapiscada por pinceladas brancas, tridimensionais, numa geometria caótica em constante mutação. Itens abstratos, os quais parecem dançar ao vento sem qualquer intenção de fazer sentido. Viajam não sei para onde. Talvez um lugar onde o longe não existe. De vez em quando passam aviões. Todos com destino e hora de chegada. Condições bem estudadas pela organização humana. Deixam, atrás de si, um rasto a desenhar uma linha reta perfeita. Traços a lembrar a sua passagem pelo cenário aéreo. Atrevem-se a perturbar a falta de coerência das imagens mutantes que preenchem o meu campo visual.

De repente, pela força do pensamento meditativo, invertem-se as leis da física. Já não ė o meu corpo estendido na terra suja. Afinal, sou eu quem está a voar! Abaixo de mim está um chão feito de infinito. A cor azul celeste é uma cortina numa janela feita de estrelas, galáxias e mistérios. Todos escondidos debaixo da tela salpicada à qual antes chamava céu. Afinal não caí na imundice seca, nem sequer padeço de imobilidade, em vez disso carrego nas minhas costas o mundo inteiro como um Atlas alado. Não são as nuvens nem os aviões que viajam. Estão todos parados. O movimento é meu. Sou eu, a voar na direção do inalcançável e contemplo o cenário estático abaixo de mim a ficar para trás, nos cantos vazios do esquecimento.

O mundo pesa mas não paro. As asas são feitas de éter. A gravidade é uma ilusão. A queda é meramente decorativa. Uma lembrança amarga da condição humana. Carrego o planeta às costas por fardo ou condenação. Sigo, assim, pelo destino incompreendido, como quem cumpre a missão de ser gente. Longe está a chegada, tal como distante está a partida. Vou. Sem qualquer rota traçada. Observador da existência com a curiosidade de uma criança e a tranquilidade de um velho. Equilibro-me entre o real e a fantasia. A vitalidade e a indiferença. Uma recordação e profecia. Conheço-me e descubro-me em simultâneo. Neste momento onde a minha consciência rasa a loucura, encontro uma lucidez cristalina, onde se revela o meu lugar no universo.


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