quinta-feira, dezembro 05, 2019

A submissão


Digo-te a verdade como quem confessa um pecado. Ouves e respondes que compreendes. Além disso, acreditas que é assim que deve ser. Ofereces-te em plenitude, carne, fome e alma, tudo meu. Só me pedes em troca devoção. É tua!
Numa ausência de pudor, concedo-te a honra de querer fazer do teu corpo a tela da minha arte. Pintar a tua pele em tons de vermelho agreste. Riscos pincelados por desejos violentos, proibidos e hereges, ainda assim reais como nós dois.
Escutar, nos teus gritos de agonia, uma composição sinfónica. O estalar implacável do couro a impulsionar sem misericórdia os limites da dor. A tua voz tremida a implorar (falsamente) um pouco de compaixão que sabes eu não ter.
Vais-me provocando e inebriando a cada gemido. Insinuas-te com pedidos de tormenta, enquanto te entregas com submissão ao teu Mestre e Senhor. Mostras-me que és superior ao medo e eu gosto. Quanto mais severo melhor e tu sabes.
Não me acanho em dominar-te. Devoto-me para ti em tudo que sou. Reverencio-te entre as torturas perversas que te administro. Essas, que só tu conheces, nascidas no poço mais negro da minha imaginação. As lágrimas não te quebram e a cada recuperar de fôlego suplicas por mais. Dou-te!
Aceito o desafio. Transformas em jogo o que é perigoso. Já não é luxuria, é guerra! Talvez, quem sabe, até exista ali um profundo acto de amor. Tanto faz. É indiferente. Seja o que for não recuso e retribuo. Inflamam-se os instintos e tem de haver um vencedor. Tu ou eu?

sábado, novembro 30, 2019

Sentido oculto


Amava eu, sem saber, o impossível. Até que o teu corpo apareceu e o confundi com o próprio Cosmos. Perdi-me durante algum tempo nessa ilusão. Não passou muito até que conhecesse as tuas curvas, vielas ou arestas. Transformaste-te numa ausência de novidade. Depois ficou tudo tão aborrecido e não tardou até querer mais mundos a descobrir.
Foste embora. Ainda assim não demorou até que voltasses, com outro rosto, outra voz e outra pele. Desta vez não foi a carne que me cativou. Tinhas lá dentro, atrás da cor, do toque, do aroma e sabor, algo que só um sentido oculto podia conhecer. Chamei-lhe poesia e entreguei-me nas estrofes. Foi lindo até que te começaste a repetir. Deixaste-me viciado e já não chegavas, queria mais de ti.
Mas tu tens muitas aparências e chamei-te continuadamente para te conhecer sem fim. Vieste, sempre sem te copiares. Uma nova viagem desconhecida. Um novo cântico original. Percorri os caminhos, decorei os pormenores e estudei a tua ciência. No entanto, não demorava até seres tédio. Transformavas-te em algo enfadonho, impossível de suportar para a minha inquietude.
Como qualquer adicto, tive noção da minha dependência por ti. Contudo, eu, indigente, admito que não tenho forças, nem desejo de abandonar esta minha degradação. Portanto, continuas a chegar no teu infinito. Tu, nas tuas versões incontáveis, tornas-te tudo que ambiciono. Eu, igual a ti, nos outros tantos de mim. Como um, parte dum todo sem o saber. Acusa-me de desassossego! E eu não nego que amo o impossível!

terça-feira, novembro 26, 2019

Quando uma criança imagina


Quando o pensamento é jovem a sua força pode linear destinos, ainda que, de forma esboçada, ausente de pormenores. Isto porque a juventude é naturalmente desprovida de conhecimento sobre a vivência humana. O futuro pode assim ser traçado, porque um dia uma criança idealizou que assim seria. Como um argumento cru, resumido ao mínimo.
Julgo eu, que esta força, provém exactamente da ignorância infantil face àquilo que a fantasia pode alcançar e que esta seja, de facto, um propulsor para a vontade do Universo. Sem bases científicas que apoiem esta minha avaliação, não me ocorre outra denominação para o poder do pensamento, a não ser magia!
Sem me julgar mago, olho para a minha própria existência e comparo-a com aquilo que um dia a criança que fui imaginou. As aventuras, os amores e as conquistas. Retiro todos os cenários que servem de entulho e resumo-me a sentimentos. Num golpe de ironia eles estão lá, os mesmos que um dia desejei, ofertados pelas leis da vida.
Claro que, com toda a azáfama com que somos confrontados na nossa qualidade de seres humanos, tudo fica confuso. Torna-se inevitável questionar o que nos rodeia, seja material, regras impostas, ou vontades alheias. É fácil esquecer o que queremos, quando não existe a percepção de que, para sentir, há que percorrer um caminho que sirva de aprendizagem.
Há coisas que doem viver e a fantasia morre aos poucos na ambição dos adultos. Dei por mim a cumprir pena de amargura porque, na inocência da criança que fui, cometi o crime de um dia desejar o que não compreendia. Esta conclusão está repleta de ironia, contudo vou tentando encará-la de frente. Não como um herói, mas alguém que assimila as respostas depois de uma revelação.
No fundo, posso dizer que a magia se limita a duas coisas: pensar e sentir. Todo o resto são adornos impostos pela ilusão em que crescemos. Cingindo-me, assim, a esta mera reflexão ao fim da tarde, sem reconhecer qualquer autoridade nas minhas próprias palavras. Quem compreender, compreendeu. Quem discordar, discordou. Pouco mais há a dizer…

domingo, novembro 17, 2019

Afinal de contas


Um porco gigante viu uma cidade ao longe. O ruído que dali advinha chamou-lhe a atenção e aproximou-se entre grunhidos curiosos. Os prédios levantavam-se da terra, diferentes de qualquer rocha ou planta que conhecia. Entre eles, dispersavam pequenas criaturas a guinchar. Não lhes deu grande importância para além do interesse natural que o impeliu até àquele lugar barulhento. (Afinal de contas, o que é que um porco, tenha ele o tamanho que tiver, percebe de construções e vivências humanas?)
As pessoas, essas, dotadas de compreensão, atemorizaram-se pelo tamanho desmedido do animal que se aproximava. Como bichos que também são, submeteram-se aos instintos mais básicos e, possuídos pelo medo, fugiram em corrida desesperada, ao som dos gritos inúteis de socorro escutados por ninguém. Os automóveis, com a sua velocidade, de nada valiam, quando as estradas que os albergavam ficaram obstruídas pela confusão atropelada. (Afinal de contas, o que é que um ser humano pode fazer contra um suíno de proporções monstruosas?)
O porco, que não compreendia aquela organização, baixou o seu focinho e foi derrubando, sem grande resistência, todas as construções que se encontravam no seu caminho. O que não caía com a investida frontal, não resistia ao balançar do seu traseiro. Já debaixo das suas patas, veículos, tijolos, ou carne, eram esmagados de igual forma. O som de crepitação e ranger era, de certa forma, divertido aos ouvidos do animal, que, entretido, lá continuava o seu percurso. (Afinal de contas, um porco, não tem qualquer remorso, ou discernimento entre o bem e o mal, ainda menos manter respeito por leis humanas!)
As pessoas, na sua pequenez, não conseguiam correr o suficiente para escapar à incursão violenta. Se não ficassem esmagadas debaixo do tamanho colossal daquele invasor desastrado, encontravam a sua aflição debaixo dos escombros. Mesmo aqueles que se esquivavam destes destinos, haviam de ser abocanhados pela besta, que com eles saciava a sua fome depois de os mastigar convenientemente. Aqueles que tinham fé, lá se iam confortando nas preces que libertavam. (Afinal de contas, os seres humanos nada podiam fazer contra as surpresas da natureza, a mesma que julgavam conhecer!)
O porco, continuava na sua brincadeira de destruição. Quando algo não cedia à força do seu peso, não hesitava em morder até que caísse. Por vezes cheirava as pequenas criaturas barulhentas e caçava-as com a boca. Triturava-as com os dentes e sentia a sua textura crocante antes de as engolir. Os seus passos prosseguiam devastadores, até que conseguiu arrasar a cidade. Para ele todo aquele cenário fazia muito mais sentido assim, um amontoado de entulho que se confundia com o resto da paisagem natural. Apenas mais um monte de terra, como todos os outros que se avistavam pelo horizonte. (Afinal de contas, um porco, tenha ele o tamanho que tiver, não tem qualquer entendimento pela evolução humana! E porque haveria de ter?)

terça-feira, novembro 05, 2019

A senda dos iguais


Muitas vezes aqueles que são "diferentes" dão por si a serem pressionados por gente básica para se comportarem de forma encaixar-se na sociedade, também ela básica, impregnada de regras e objectivos banais que não servem para mais nada a não ser aprisionar a mente e a vontade.
Uns deixam-se levar por essa gente cheia de vazio e acabam por se deixar absorver como parte do cenário. Depois, tanto fica por dizer…
Contudo, aqueles que se distinguem na multidão conhecem bem o seu valor. Vive neles um instinto de rebeldia. Conhecem bem os adjectivos que os diferenciam dos demais. A sabedoria, a arte, as ideias!
Há um momento em que surge a revolta. A solidão deixa de meter medo! Urge a coragem para enxotar toda essa gente tacanha para longe. Arreda-los para onde pertencem, atrás da cerca que satisfaz o rebanho.
Deixá-los ir na multidão para os seus afazeres. Rostos em grande número. Sem distinção uns dos outros. Mesmo com traços diferentes, a semelhança é dolorosa, tais são os gestos que os prendem uns aos outros na senda dos iguais.
Lá porque são muitos não oferecem novidade. Gente sem fantasia a repreender quem não se conforma! Audácia insultuosa! Que sabem eles do que é diferente?
Nada!
Não podem, nem têm como compreender!
Que continuem, confortados pelo entretenimento que vai surgindo no dia-a-dia como recompensa à sua obediência.
Já nós, aqui deste lado, onde o querer é profundo, temos outros pensares.
Comemoremo-nos! Nós, sozinhos, livres do fardo dessa gente. O Universo encarrega-se de nos trazer outros com o mesmo engenho para servir de companhia. Diferentes, alternativos, ou simplesmente curiosos, porque o mundo é vasto e o saber quer sempre mais!

quarta-feira, outubro 30, 2019

Prece sem destino concreto


Rezei a um Deus desconhecido. Aqueles que já conheço, têm tanto de humano que até dói, tornando inútil qualquer crença no seu nome.
Deixei que as minhas palavras, impulsionadas pelo pensamento, atravessassem as estrelas até aos confins do cosmos. Muito para lá do que a imaginação pode sonhar, ou que a ciência encontrar. Tinha esperança, de que nesse recanto impossível, resida uma entidade, real ou não, acima de todas as outras, que me possa escutar com a caridade benevolente que as divindades prometem a um simples homem como eu, na senda do dia-a-dia.
Em dias como este, em que a pequenez se agiganta e as forças são ridículas ante a vontade soberana do Universo, peço um conforto ou uma ponta de alegria. Nada de impossível a quem determina os desígnios do inefável. Somente um toque de generosidade sem mendigar em demasia.
O martírio da sabedoria, que se apresenta disfarçado de bênção, é um fardo pesado de carregar nas alturas em que a solidão se mostra vazia. Quando assim é, urge descobrir coisas novas. Nem que seja numa prece sem destino concreto.
A resposta que aguardava veio com a própria questão. O desconhecido manifesta-se numa procura incessante com ânsia inquieta. Nada mais há a desejar, a não ser isto: gnose e poesia, onde os sentimentos dançam nas diferentes interpretações de quem, na sua inocência, ou loucura, os tenta descrever sob a forma de linguagem.

domingo, outubro 13, 2019

Tu!


Tu metes nojo!
A merda que defecas tem mais valor do que a tua própria pessoa! Pois a merda pode estrumar um terreno agrícola e torna-lo fértil, enquanto tu, de nada serves ao mundo. Sem ideias, fantasia, ou produtividade. Não passas de um amontoado de carne, com uma espécie de sistema operativo básico, que vive de instintos naturais e ignorância pura.
Não agradeces o dom da sabedoria, nem abraças a possibilidade de a ter. És, em toda a tua pequenez, o sinónimo absoluto da palavra nojo!
O melhor que podias oferecer aos teus supostamente iguais, os mesmos que sofrem a limitação da humanidade, era seres extirpado desse rótulo. Perder o nome, esquecer o legado, não gerares qualquer descendência. Que a tua voz seja calada, as acções desprezadas, na mais verdadeira repugnância pela tua existência enfadonha.
Melhor seria se fosses desmembrado. O teu corpo mutilado atirado como um refugo para cima de uma pilha de esterco, para que apodreças por fora, tal como és por dentro!
E porque me dás asco, as palavras que te digo já vão em demasia. Mais do que isto, só um silêncio invisível te pode salvar, embora a salvação seja uma misericórdia amplamente exagerada a quem não merece a existência, seja carnal ou social. A concepção do teu viver foi um momento maldito, sem amor. Cuspo-te em cima. Pontapeio-te sem piedade. Toda a tortura e humilhação que te possa dar é pouca!
Tudo isto já ultrapassou qualquer valor que mereças. Por isso, nada mais direi sobre ti, a não ser: Tu metes nojo!