terça-feira, maio 09, 2023

Flatulência matinal


No alvorecer de uma manhã serena,

Quando a aurora beija o céu com delicadeza,

E a natureza desperta com toda a sua beleza,

Um fenômeno surge, uma sinfonia amena.


Ecoa pelo quarto um som inusitado,

Sai a flatulência matinal, num soltar gasoso,

Um ruído engraçado, subtil e airoso,

Acorda o silêncio com o seu som desavergonhado.


Nasce do vento que sai sem aviso,

Um suspiro musical, engraçado e fugaz,

Faz-nos sorrir, na sua falta de pudor mordaz,

Eleva o humor num instante impreciso.


Ah, flatulência matinal, és fonte de riso,

Peculiaridade do corpo, sem disfarce ou máscara,

E mesmo que pareça um tema de pouca graça,

És uma lembrança de que soltar é preciso.


Assim, despertemos com bom humor e leveza,

Aceitar os sinais do corpo com simpatia,

A flatulência matinal, na sua singela melodia,

Lembra-nos da nossa humanidade, e da sua natureza.


Costumo brincar com o chatgtp e pedir para fazer poemas ou textos sobre temas inusitados. 99% das vezes saem coisas até interessantes, mas muito longe da criatividade humana. Quando lhe pedi para fazer um poema sobre 'flatulência matinal', escreveu este que publiquei. Ou melhor, uma outra versão onde fiz pequenos ajustes para o meu tipo de escrita e rima. Nada que tirasse a essência do poema original. 
Mesmo sem ser completamente da minha autoria, decidi publicar, já que achei imensa piada ao rimar do chatgpt. Principalmente com este tema!

segunda-feira, abril 10, 2023

Sem destino nenhum

– Ainda não deixaste de fumar?

– Tem calma, depois deste desisto. – Deu uma passa longa e logo a seguir atirou o cigarro fora juntamente com a caixa vazia. – É hoje que fugimos?

– Ó sim. – Anuiu confiante. – Vem comigo. – Caminharam até uma carrinha estilo furgão, antiga. Talvez fosse dos anos oitenta ou até anterior. Entre a descoloração e algumas amolgadelas meio reparadas, nem dava para perceber a marca, quanto mais o ano.

– O que é isto?

– O nosso meio de transporte.

– Esta coisa anda sem se desfazer aos bocados?

– Podes ter a certeza disso. Aliás, eu, pessoalmente tratei de verificar a estrutura e o motor. Podemos dar a volta ao mundo e não nos vai deixar mal.

– Se tu o dizes, eu acredito em ti.

– Temos tudo que precisamos. – Abriu a porta traseira e mostrou. Revelou um interior generosamente grande. Lá dentro estava apenas um colchão insuflável.

– Parece uma casa acolhedora. – Admirou toda a área vazia. – Teto não nos vai faltar. 

– Não podíamos dormir à chuva.

– O que fizeste às tuas tralhas?

– Vendi. – Riu-se. – Temos de ter dinheiro para comer.

– Também fiz o mesmo. Parece que estamos ricos. Temos a barriga cheia sempre garantida.

– Vamos. – Entraram.

– Onde foste desencantar esta coisa? É enorme. Mais parece um camião americano. – Deitou-se no assento. – Consegues conduzi-la pelo menos?

– Eu conduzo qualquer coisa. Até uma nave espacial se for preciso. – Brincou.

– Que temos aqui? – A sua atenção virou-se para um rádio antigo de cassetes. – Isto traz-me recordações. Ainda funciona?

– Nem duvides. Não só funciona como traz uma colecção de músicas para a gente ouvir. – Abriu o porta-luvas e caíram dezenas de cassetes antigas. Sem dúvida, não eram utilizadas há mais de duas décadas, pelo menos.

– Ui tantas! – Verificou algumas com curiosidade. – Tens a certeza que isto toca mesmo?

– Coloca uma. Não há como experimentar.

– Tens razão. – Segurava uma caixa na mão. Abriu-a, retirou a cassete e colocou na ranhura. Já não se lembrava bem como se usava uma coisa daquelas. Não era difícil. Ao carregar no play começou a tocar "125 azul" dos Trovante.

– Nem de propósito. Excelente banda sonora. – Ligou o motor da carrinha velha sem qualquer dificuldade. – Eu disse que o motor estava bom. – Sorriu.

– Vamos mesmo fazer isto? – Tocou-lhe na mão e devolveu o sorriso.

– Sim. Hoje vamos 'arrancar sem destino nenhum'.


domingo, abril 02, 2023

Que as mulheres não me interpretem mal...


As mulheres que amei quando era jovem estão todas velhas!

Não me refiro àquela velhice decrepita, cheia de rugas profundas e deformações corporais. Nada disso. A beleza física mantém-se, mesmo a rasar a meia idade. Silhuetas firmes bem delineadas, a servir de guarida a uma pele macia e bem cuidada. Aparência irrepreensível, como se quer numa mulher moderna e dona de si. Nada contra, pelo contrário.

Falo da vulgaridade do dia-a-dia. O espírito de aventura foi trocado pelo zelo do lar. As corridas na natureza substituídas pelo exercício no ginásio da moda. As conversas flutuam entre o preço das compras, as mazelas que vão aparecendo aqui e ali, ou o enredo da novela. Tudo nelas gira em torno de rotinas mundanas. Nada mais, só isso. São de uma banalidade violenta, chata, enfadonha, deixando-as completamente desinteressantes.

Olho-me ao espelho e reflicto. Talvez o meu género masculino não tenha deixado crescer o petiz dentro de mim. Uma criança endiabrada a fugir das responsabilidades adultas. Também as tenho, mas não sou dominado por elas. Se calhar o erro está em mim, ou não. Abomino a ideia de seguir o caminho que a maioria segue. Eu amo o infinito. As incógnitas escondidas do Universo. Preciso de inquietude para saber quem sou.

A mudança é inevitável. O tempo traz consigo as escolhas que nos transformam. Cada um de nós percorre um caminho diferente. O que para mim é tédio, para os outros pode ser infinitamente gratificante. Olho para os homens com quem elas decidiram partilhar a vida, no conforto da família. É possível terem encontrado um equilíbrio. Ou simplesmente encontraram uma satisfação acolhedora.

Dou por mim a fazer comparações. Sem julgamentos. Apenas uma certa necessidade de compreender o crescimento humano. Sou diferente deles, com certeza. Na minha natureza observadora não deixo de sentir simpatia por quem faz o que é suposto fazer. A sociedade tradicional assim manda. Afinal de contas somos bichos e até os animais se confortam entre si. Ainda bem que assim é.

Deixo o meu enigma para depois. Tenho outros amores à minha espera. Seja nas palavras que escrevo, nas cores da natureza, na arte que consumo, ou nos corpos de outras mulheres que me cativam com o seu próprio mundo. Ofereço-lhes também um pouco do meu, nestes encontros de quem não tem amarras. Cada um leva um pouco do outro. Talvez seja outra forma de criar pontes. De viajar. Ou até mesmo de crescer.

Ironicamente, ao ler o texto do início, não me parece assim tão original. Já houve alguém que escreveu sobre isto e chegou a conclusões semelhantes. Paciência. É sinal que não estou assim tão à parte. Mas não devemos ser muitos. Uns nas ciências, outros das letras, todos com as suas utopias. Deduzo ser algo natural, haver quem se ocupe dos mistérios da existência. Mesmo sendo inútil fazê-lo.


sábado, fevereiro 25, 2023

O Pianista


Já repararam como o acto de chorar pode representar vários sentimentos? Para os bebés é uma forma de chamar a atenção, já para os adultos pode ser: dor; angústia; desgosto; alívio; alegria; emoção... Calhou a este último ser o responsável pelas lágrimas de uma plateia inteira. Tomados pela comoção, cada um dos espectadores, expressou-se com gotículas salgadas a escorrerem pelo rosto. Isto antes de se conseguirem levantar para uma monumental e demorada ovação de pé. 

No palco, o pianista tentava agradecer por toda a aclamação, com uma linguagem corporal tímida. Parecia até, estar a pedir desculpa por existir a toda aquela gente. Após longos minutos, lá conseguiu convencer os espectadores a parar com as palmas. Contudo, passados poucos segundos, começaram todos a gritar em uníssono «MAIS»! 

O pianista, no alto do seu apogeu, declinou. Tentava acalmar a assistência sem sucesso. A sua cabeça rodava em negação. A plateia não se contentava com aquela resposta e insistiam «MAIS»! «MAIS»! «MAIS»! 

«NÃO»! A voz do pianista ecoou por toda a sala de espetáculos. Soltou um grito visceral, uma ordem imperativa saída diretamente da alma. Calaram-se todas as vozes insistentes. Ficou apenas o silêncio. 

«A peça não está completa, muito menos é da minha autoria. Eu não mereço os vossos elogios». Desabafou o pianista, perante os rostos surpreendidos que o encaravam atónitos. 

«Ouvi os primeiros acordes num sonho, quando era criança. Ficaram entranhados na memória. Eram uma presença constante em tudo o que eu fazia. Aquela harmonia não me abandonava, estava constantemente a ouvi-la na minha mente, por isso, decidi aprender música». Explicou o pianista. 

«Depois, enquanto crescia, sabia que tinha de encontrar o resto da melodia. Comecei então a procurar nos pequenos pormenores da vida. Aos poucos descobri o segredo. Certas cores transformavam-se em notas musicais. Algumas paisagens convertiam-se em pequenos trechos, assim como os beijos no calor da adolescência». 

O pianista projectava a sua voz intensa por todo o teatro. Chegava a todos sem qualquer auxílio de equipamento sonoro. «Aprendi mais tarde o nome do fenómeno; chama-se sinestesia. Acontece quando o cérebro interpreta algo com um sentido trocado, no meu caso imagens, sabores, toques, são interpretados como música. Em cada acorde, em cada pequeno trecho descoberto, eu acrescentava à partitura. Aos poucos, foi ficando mais completa até se transformar naquilo que toquei para vocês hoje». 

O público escutava a explicação com curiosidade. Certamente acreditavam que a genialidade daquele pianista estava acompanhada por uma dose generosa de loucura. Talvez não estivessem a enganados. 

O músico, calou-se de forma abrupta. Ficou quieto e encarou-os durante alguns momentos. Logo a seguir correu para o piano. Pegou nos papéis da partitura e acrescentou mais umas quantas notas. «Vocês querem mais? Então eu dou-vos mais»! 

Acomodou-se na sua pose concentrada, sentiu as teclas e tocou durante cerca de trinta segundos. Isto, se fossem contados pelo relógio. Já para a plateia, o tempo estendeu-se. Cada nota parecia uma viagem e aquele meio minuto transformou-se num universo inteiro. 

«Gostaram»? O pianista voltou até à borda do palco. «Esta parte escrevi com as vossas lágrimas. Mais um pequeno acrescento à obra completa. Mas como disse, eu não posso receber o mérito da sua autoria». 

Começou a andar de um lado para o outro. «Esta composição, é da autoria do próprio Criador. É a música da vida! Talvez contenha até o segredo do Universo e existe em todas as coisas. Eu só me limito a tocar aquilo que consigo entender. No entanto, podem acreditar. Vai chegar o dia em que eu vou conseguir completar a melodia. Depois, tudo fará sentido». 

«Porquê»? Os rostos fixos no pianista adivinhavam a pergunta. «Porque desde o nascimento; desde a primeira estrela; desde a primeira centelha de criação; esta sinfonia está lá. Com todos os Enigmas do entendimento humano respondidos. ». Quietou-se por alguns instantes. 

«Quem sabe, tudo se resuma à consciência solitária de cada um de nós, perante a nossa própria fragilidade. Contudo, na minha opinião, não precisamos de enfrentar esta existência sozinhos. Podemos encontrar conforto e inspiração nas histórias, na arte, na sabedoria e naqueles que nos rodeiam». 

O seu discurso mais parecia uma declamação poética. As palavras surgiam-lhe na boca de forma espontânea, sem qualquer tipo de reflexão ou ensaios prévios.

«Devemos procurar a verdade, a beleza e a bondade no mundo e em nós mesmos, encontrar assim um sentido para a nossa vida e um lugar no cosmos. A nossa pequenez torna cada momento precioso e único. Então, que todos possamos vivenciar esta liberdade, amar intensamente e aprender sempre»!

Quem já teve um momento de revelação ou uma ideia grandiosa, certamente reconheceu a expressão iluminada no rosto do pianista. A mesma de quem consegue ver a ordem escondida no caos.

«Quando finalmente completar a partitura, talvez toda a nossa ignorância desapareça e algo novo nasça, gerado nos alicerces da sabedoria. A vida é, assim, um misto de descoberta, viagem e despedida. Uma melodia interpretada por todos os sentidos, como esta peça musical que partilho e componho convosco»… 

Deixou a frase a meio e olhou para o piano com uma lágrima a cair do seu próprio rosto antes de continuar. «Julguei estar a compor um requiem para um homem só, quando afinal era uma epopeia para cada um de nós»! 


quarta-feira, fevereiro 22, 2023

Peixes significa poesia


No signo dos Peixes há mistérios,

Mundos submersos e mundos sérios.

Sonhadores do Zodíaco, assim são,

Voam na sensibilidade e intuição.


Amam o impossível que há no Universo,

Vivem de alma inquieta e feitio intenso,

Buscam desvendar o segredo do infinito,

Alcançar o inatingível com o espírito.


Nos seus pensamentos profundos,

Como nas águas sombrias dos abismos.

Onde o medo e a poesia se deixam levar,

Para, juntos criarem uma beleza sem par.


Mergulham nas emoções mais intensas,

Fazem dos sentimentos as suas crenças.

Encontram nas artes sua verdade,

E no amor a mais alta liberdade.


sábado, dezembro 31, 2022

Entre o já e o talvez


Já esperei que a vida acontecesse, atrás da secretária da rotina.
Já me despistei com violência, à velocidade da ilusão.
Já tentei ser quem não sou, no palco dos outros.
Já julguei ser um poeta, porque escrevi algumas rimas.
Agora, depois de tantos "já", duvido que tenha aprendido alguma coisa para lá de frases feitas.
Já faço a vida acontecer, mas a rotina continua lá.
Já não me despisto, mas continuo a perseguir ilusões.
Já tenho o meu próprio palco, mas ainda não sei quem sou.
Já não acredito que seja poeta, mas cada vez vou escrevendo mais rimas.
Agora, depois de acumular tantos "já", assumo com humildade a minha ignorância. Pretendo continuar a aprender coisas novas, para conseguir crescer um pouco de cada vez. Ser como uma criança a descobrir o mundo, entre sentimentos de admiração.
Vou procurar também momentos de alegria. Descobrir algum tipo de esperança na companhia dos outros. Olhar para lá do horizonte e viver o amor na partilha de sonhos. Depois, volto aqui para escrever sobre isto, como já tantas vezes escrevi. Espero fazê-lo com um sorriso verdadeiro no rosto. É só isto que desejo. 
Talvez seja muito, quando a inquietude é tudo que conheço. 
Talvez seja pouco, quando a minha humanidade me convida a algo maior do que eu próprio. 
Talvez nada disso importe, já que cada um tem o seu caminho a percorrer. 
Hoje só faz sentido ser assim, com expectativas livres e a vontade de conhecer aquilo que de melhor o desconhecido pode dar!

sábado, dezembro 24, 2022

As cores que enganam a noite


O vampiro não compreende o Natal. Tantas luzes coloridas a violar a escuridão da noite. Gente feliz a passear pelas ruas da cidade sem se importarem com o frio. 

Fazem-se embrulhos para as prendas compradas porque assim manda a tradição. Os padres rezam missa em igrejas cada vez mais vazias. Há sempre uma religião que substitui a outra. Há sempre hereges que dizem adorar o Deus menino, para de seguida se vergarem à publicidade do Pai Natal. Hoje quem manda é o paganismo, o consumismo, ou também a política, ou então a alegria de ter companhia. 

Os sem-abrigo ficam invisíveis. Lá vai havendo um olhar mais atento pronto a dispensar uma esmola. Os mendigos apenas querem qualquer coisa quente, algo para o corpo, enganar o estômago e manter a ilusão viva de um amanhã melhor. 

Os solitários, também ninguém os escuta. Ficam escondidos Como se as festas lhes fossem proibidas.

Lá longe, está a guerra. Pobres coitados nos títulos das notícias. Apenas isso. Não há vampiros na guerra. Só pessoas de carne e osso que mal reparam na data. Cada dia que passa é uma vitória, sem Pai Natal com presentes, ou padres com homilias.

O vampiro saiu para caçar e não demorou até encontrar uma presa. Mordeu, como mandam os seus instintos, a veia mais proeminente. Bebeu, mas estava vazio. Precisava de mais. Sentir os sonhos da sua vítima. Contudo no Natal os sonhos são escassos. 

Continuou a procurar. Não tardou até capturar outro humano, bebeu mais uma vez e sabia a nada. Olhou para a cidade. Tinha a consciência de que ali não ia encontrar alimento. Em cada ano que passava a multidão tinha menos vida.

As cores enganam a noite, ludibriam também os sentimentos. O riso do Pai Natal fascina as crianças. Os enfeites mascaram todo o cinzento na paisagem da existência. Sonhadores deixam de o ser. Trocam a sua fantasia por aquela que é vendida.

Esta festa toda é muito confusa para quem só quer simplicidade. Perdido no meio de tantos pedidos, o vampiro lamentou desejar apenas um pouco de amor.