segunda-feira, setembro 14, 2020

Qual é o teu sonho?

Nunca compreendi porque chamam "sonhos" aos nossos projectos, ideias, ou ambições. Sonhar é algo que pertence ao sono. Uma realidade abstracta que ocorre enquanto dormimos, sem relevância maior, destinada apenas ao esquecimento. 

Dizem os entendidos que é o cérebro, com os seus mistérios, a reordenar os pensamentos. Nada de especial, portanto. Pelo contrário até, apenas um computador a desfragmentar toda a sua informação. Visto por este prisma nada existe de extraordinário em sonhar. Ainda que, tenho de admitir, seja algo que levante curiosidade pela sua excentricidade. 

Mas voltando ao pensamento inicial, aplicar o termo "sonhar" para aquilo que desejamos, indica, só por si mesmo, algo não realizável. 

Não! Eu não "sonho" dessa forma! 

Prefiro expressões como fantasioso, imaginativo, inconformado, visionário, idealista! 

Não! Não me perguntem qual é o meu "sonho"! 

Eu sou daqui. Não estou a dormir. Estou acordado. Talvez até demais. 

Estar acordado por vezes dói mas só assim consigo ver com precisão as linhas com que é tecido o mundo. A realidade crua em que a nossa forma se perde entre os chamados "sonhos por realizar". 

Posso imaginar uma utopia, impossível do ponto de vista humano, contudo se a descrever numas quantas linhas esta passa a ter o estatuto de ideia. Depois, quem sabe, pode inspirar outros, com saber suficiente para a tornar realidade. 

Seja como for, a fantasia que criei acordado, ganhou forma. Algo palpável para quem compreende a linguagem dos que pensam para lá da linha do horizonte.

A maior parte das pessoas, desses que têm "sonhos", são os mesmos que excluem gente como nós. Os que vivemos rodeados por arte e poesia. Nós, os que conhecem a realidade e sabem que ela não basta.

Tu, que estás aí desse lado, a ler estas palavras e identificas-te nelas como se fossem as tuas próprias, fica a saber que a tua condição não é única, muito menos isolada. És somente fruto do desprezo de quem não consegue ver mais do que os limites pelos quais são rodeados. 

Não aceites os julgamentos nem conselhos dessa gente comum. Dizem que "sonham" e por isso acham-se diferentes. Não passam de cópias uns dos outros. Do nosso mundo não sabem nada e nós também não os queremos cá! 

Deste lado da fantasia só as nossas verdades nos podem orientar!


segunda-feira, setembro 07, 2020

Interlúdio entre o dormir


Despertei a uma hora inexistente da madrugada. Os outros lá de casa dormiam no mais profundo silêncio do seu descanso. Como se fossem somente parte do cenário. Apenas sombras por distinguir na penumbra. Vultos cuja história caiu em esquecimento.
Na escuridão pareciam evidenciar-se cores que não conhecia. Tonalidades berrantes que desafiavam a realidade. Sei que não estava a sonhar nem tão pouco semi-desperto. Quem sabe, estava num estado de consciência ainda desconhecido da sabedoria humana. Um momento longe do real que, talvez mais tarde, fosse remetido ao esquecimento do verdadeiro acordar.
Sabia apenas que a noite já ia longa e a manhã não devia tardar muito. Não procurei o relógio, creio que tentar orientar-me no tempo ia destruir a incógnita do momento. É um acto de heresia estragar o mistério de ocasiões assim, onde o pensamento se eleva acima da carne humana e da ciência que a rege.
Por vezes, acontecem revelações em instantes como este. Sem percepção temporal da sua dimensão. Embora, desta vez não tenha nada em especial a desafiar a minha inquietação. Ou, quem sabe, estava demasiado desatento para conseguir entender qualquer epifania nocturna. 
Para além do desassossego não entendi outro propósito. Eu, com os meus devaneios, numa tentativa poética de transcender a banalidade. Creio que foi só isso. Nada com uma grandiosidade que mereça relevo nos porquês da existência.
Baixei as pálpebras e busquei conforto na roupa da cama para regressar novamente ao sono. Sei apenas que este chegou novamente para camuflar os meus pensamentos neste simples interlúdio entre o dormir. 
Contudo, de forma contrária ao esperado, o dia, na sua lucidez, recordou-me este momento. Algo que provavelmente não passou de meros segundos perdidos entre sonhos. Sem qualquer importância, mas que teima em desafiar a minha compreensão.
Seja como for, não ousei descartar o seu mistério. Gosto destes pequenos nadas que tanta coisa dizem. Há sempre algo que se esconde por detrás daquilo que não tem significado. Não consigo interpretar o seu intento e possivelmente seja esse o seu fascínio. 
Coisas pequenas que se vão acumulando na enormidade do pensar. Nada de especial com tanto para reflectir. Se não fosse assim a condição humana era crua, sem temperos e insuportável. Para concluir o devaneio, envolvo-me em pensamentos sobre coisa nenhuma e isso é lindo!

quinta-feira, setembro 03, 2020

Fulana, sicrana e beltrana

Acordei com o som de umas senhoras animadas que conversavam na rua. A julgar pelo timbre da voz, diria que a idade já lhes pesava um pouco, mas não o suficiente para lhes roubar o vigor das palavras. 

No meu quarto não consegui perceber o teor da amena cavaqueira. Aqui e ali conseguia compreender qualquer coisa, embora não fosse preciso grande especialista para chegar à conclusão de que se tratavam de coscuvilhices. 

Não estava totalmente desperto mas certos fragmentos ditos chegavam a mim: "Fulana isto, sicrana aquilo, beltrana acoloutro". Alguns vocábulos que o meu ouvido captava e denunciavam o tema daquele falatório matinal. 

No meio das frases por vezes surgia uma gargalhada que se contagiava a todas as outras intervenientes, já, logo de seguida, o tom das vozes baixava quase para murmúrios completamente imperceptíveis. O assunto, por vezes, mudava de sentido rapidamente. 

Achei toda aquela cena divertida e caricata. O estereótipo de velhas alcoviteiras ali mesmo ao pé de mim, vivo, na pele enrugada daquelas mulheres sem pressa.  Entretidas com a sua tagarelice que me serviu de despertador.

Não me levantei para observar pela janela os seus rostos. Em vez disso deixei-me ficar na cama com a figura delas a ser desenhada pela minha imaginação. Acredito que a recordação tem mais piada assim. Não quis que a realidade me estragasse a imagem.

O sono tinha cumprido a sua função de retemperar as minhas forças físicas e anímicas. Não havia melancolia, nem irritação, só uma preguiça banal, típica no ser humano comum. Fiquei grato por ser dessa maneira. Acordar de forma banal sem o peso do sentir.

A manhã começou assim entre vocábulos alheios. Com uma pequena história, sem nada de verdadeiramente interessante, para contar. De qualquer maneira decidi aceitá-la como uma dádiva e como recompensa decidi transcrevê-la sobre a forma de conto, mesmo que desinteressante.

É tão simples quanto isto. Sem me preocupar com ideias magnificentes, deixo por escrito, em palavras embelezadas, para que conste no futuro a quem por aqui passe a ler, de que, neste dia em particular, acordei contente!


segunda-feira, agosto 31, 2020

Olhem para mim: sou uma princesa!

Nunca me senti uma princesa. Claro que a minha masculinidade não ajuda, embora tenha a certeza de que existe uma versão masculina de princesa num conto de fadas. 

Já fui (ou ainda sou) um guerreiro; bruto; glorioso; pirata; monte de merda; asqueroso; estúpido; inteligente ou iluminado, creio que não faltam adjectivos para descrever todas as minhas acções. Se calhar até fui um príncipe encantado num conto de fadas qualquer e nem me apercebi. 

Contudo gostava de um dia sentir o que as princesas do imaginário sentem ao serem amadas na beleza da fragilidade. Por ausência de estímulos de candura, não consigo imaginar tal cenário. É pena. Frustrante até, já que nem nas palavras apoiadas na imaginação consigo conceber tais sensações. 

Não tenho culpa te ter sido privado da inocência. Foram tantos aqueles que me ma roubaram que já lhes perdi a conta. Tenho alguns guardados na mágoa que ao crescer se fez violência. A memória não serve só para guardar rancor, nem tão pouco as mãos para fazer justiça, embora a boca tenha sede de vingança. 

Será que as princesas têm alguma coisa disto no seu pensamento? Acredito que não, ou pelo menos é assim que as descrevem. Com uma total ausência de maldade ou raiva. E eu tenho inveja delas. Muita inveja!

Não se deviam iludir as crianças com contos que não passam de armadilhas para tornar a existência ainda mais penosa. Dói ainda mais quando essa ilusão ainda teima em persistir na idade adulta. Chamam-lhe esperança. Dão-lhe um estatuto de sentimento maior e dizem que é o último a morrer. Esquecem-se no entanto de referir que a esperança não passa de um analgésico para as agonias do dia-a-dia.

Era bom adormecer para acordar uns tempos mais tarde com um beijo de uma desconhecida a quem passaria a amar incondicionalmente, para sempre, numa felicidade constante. Só que, convém estar ciente de que se me deitar a dormir permanentemente, o corpo vai-se encher de chagas pútridas e as necessidades fisiológicas vão se acumular até tornar o ambiente nauseabundo. Isto para não falar na falta de nutrição que vai deixar a figura humana esquelética eliminando todos os traços de beleza.

Nos contos de fadas, escondem sempre a miséria da condição humana. Ninguém quer saber dos feios, dos aleijados, dos magoados, ou dos excluídos. Esses, não merecem histórias, só o ignorar dos olhares que passam. Esses, são os que sonham, mesmo sabendo que sonhar dói e ninguém se importa!


segunda-feira, agosto 24, 2020

Onde as tentações se prostituem

Eu sou um observador de mim mesmo. Vejo-me com curiosidade quase científica. Neste processo divido-me em dois. Posso classificar um, como sendo sábio, caridoso e compreensivo; o outro, um bicho humano, com todos os instintos e sentidos a que essa condição obriga. Igual a vocês, na nobreza ou decadência. 

Olho por mim como um pai bondoso cuida do filho. Por vezes orgulho-me daquela pessoa de carne e osso que sou. Sinto uma satisfação momentânea pelas pequenas conquistas que, chegam quase a ser um roçar na felicidade. Outras vezes repreendo-me severamente. Não tolero a ignorância propositada que por vezes abraço sem motivo algum. 

Presto atenção os meus pensamentos. Não deixo que tomem um rumo que me leve ao afastamento da gnose. Tarefa árdua quando a minha vontade teima em se ancorar aos pequenos pedaços de coisa nenhuma que a sociedade me atira, como uma esmola a um mendigo. Desprezo quando assim é. Enoja-me a pequenez com que me tentam iludir.

Fiz um caminho até aqui, duro. Marcou-me com calos e cicatrizes no corpo e na alma. Houve amor mas esqueci-o rapidamente entre as muitas vielas onde as tentações se prostituem. Essas histórias estão escritas por aí, escondidas entre os textos que me fazem. Não lhes dou importância em demasia. Somente um acréscimo que pouco ocupa na memória.

Destacam-se os momentos em que segui sozinho, perdido, sem qualquer tipo de orientação. Mesmo implorando aos céus na esperança que algum deus clemente me escutasse. Nunca obtive êxito nas minhas preces. Nesses desgostos amargos e consecutivos, cheguei à conclusão que não devia procurar nos outros aquilo que devia encontrar em mim.

Fecundei a minha imaginação, as minhas forças, os meus impulsos e a minha sabedoria, numa orgia anárquica escrita com o sangue da fantasia. Todas as minhas arestas me pariram em simultâneo. Surgi eu, o observador! Nasci-me para me tornar a minha própria Divindade, sem templos, sem adoradores, sem milagres, nem tão pouco glória. Não me dei credo nem dogmas.

Talvez me conheças nestas linhas que se vão escrevendo entre a fúria e a tranquilidade. Mas não me mostro muito. Vou cumprindo uma espécie de missão de guia, para esse outro eu que anda desencontrado aqui neste mundo de gente sem rumo. Somos como uma simbiose entre o oculto e a aparência. Não vou dar mais explicações para aquilo que não se quer explicado. O mistério deseja a sua parte de mim e eu devotado a conhecer as suas entranhas. 

Contudo isso são outras façanhas de um meu eu desconhecido até de mim mesmo. Viro também a minha atenção para vocês. Os corpos habitados por alma que comigo se cruzam. Tendes também os vossos segredos e inutilidades que me vão cativando. Mas isso fica para depois, quando não tiver muito a dizer sobre as minhas próprias considerações...

segunda-feira, agosto 10, 2020

Palavras soltas ao caos

O meu eu eu eu
Poema ema gema
Gema e gemo
Gememos todos (onde isto vai parar)
Por causa dos tordos
Voando nos céus.
Por causa dos cacos
Voando pelo caos
As palavras gemem
Transmutam-se
Penetram a alma aberta
Palavras sem nexo
Inventadas
Desnudadas
Entram, saem, ficam
Explodem
Gemos por traduzir
Eu como remendos
Nós como remendos
Cicatrizes em uníssono
A solidão morre no gemo
A solidão vive no gemo
O gemo esquece a solidão
O gemo vive e eu não sei
Eu eu eu
Procuro o poema a vir-se
Não sei o que digo
Digo sem querer dizer
Agora estou a morrer
Agora estou a viver
Agora sou-me a gemer!


Nota: poema escrito a partir das primeiras seis linhas cuja autora não quis dar continuação mas eu achei que deviam ter um término.