terça-feira, dezembro 19, 2023

Conto de Natal em cinquenta palavras


Era véspera de Natal. Uma criança encontrou um porquinho perdido e trouxe-o consigo. Já em casa, pediu ajuda para cuidar dele. A família, indiferente a esta época, nunca preparava ceia. Ao verem o porquinho, reuniram-se. Aconchegaram-no, partilharam comida. Passaram a noite em união. O porquinho presenteou-os com o Espírito Natalício.

Conto elaborado para um desafio do Laboratório de Escrita

quinta-feira, dezembro 07, 2023

Anoitece mais cedo no outono


É engraçado, ou no mínimo curioso, como estas coisas funcionam. 

Com a chegada do outono e a insistência das primeiras chuvas, sentia falta de algo. Nada que fosse material, uma roupa quente pudesse aconchegar, ou uma comida mais forte pudesse satisfazer. Não. Nada disso. Era uma sensação inexplicável. Como se alguma coisa lá dentro mendigasse por atenção. 

A hora mudou, anoiteceu mais cedo. O tempo escuro convidou a sentar-se no sofá para um pouco de descanso antes do jantar. Navegou sem destino pela internet, até se deparar com uma imagem a representar todas as fases da lua. Compreendeu o significado. A sua espiritualidade estava a chamar. 

Pousou o portátil. Dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta do meio, da mesa de cabeceira. Dentre os vários objetos pessoais, alcançou uma bolsinha de pano. Apesar de estar misturada com todas as outras coisas mundanas, pegou nela com reverência e acariciou-a. Tinha um fio que a fechava, libertou-o e de dentro tirou um baralho de tarot. 

Olhou demoradamente para a arte em cada carta. Para o comum mortal, tratava-se apenas um pedaço de papel com um desenho bonito. Podia ser só isso. E se fosse, mesmo assim era tanto. No entanto, nas suas mãos, eram coisas vivas. Mensagens por decifrar. Sabia que o oráculo precisava de atenção. Ou o melhor, o seu próprio espírito precisava de atenção.

Com um suspiro profundo, sentou-se na cama. A luz suave do candeeiro convidava à introspecção. Os dedos deslizavam com suavidade sobre a superfície lisa das cartas. Cada uma passava pelas suas mãos  devagar. Todos os pormenores das imagens desenhadas com grande cuidado, tinham um segredo. Pequenos detalhes que todos juntos formavam em simultâneo, um mistério e uma resposta. Arte e magia numa simbiose perfeita. 

Começou a embaralhar as cartas. Mesmo sendo um processo simples, demorou até se certificar de estarem todas bem misturadas. Finalmente, quando sentiu ser o momento certo, parou. Com os olhos fechados e a mente aberta, cortou o baralho a meio. Retirou a carta de cima da metade de baixo. Como estava virada não podia saber qual era. Ainda assim, sentia a energia dela. Vibrava, quase como se estivesse viva. 

Virou-a. Era a Roda da Fortuna. Carta número dez. Representa o movimento constante da vida, as mudanças inevitáveis, todos os ciclos da experiência humana. Não sentiu surpresa ao verificar o resultado. Das setenta e oito possíveis foi exactamente aquela a escolhida. A mesma que fala das fases pelas quais passamos de forma cíclica. 

Olhou para a carta com um sorriso nos lábios. Interpretou como uma mensagem de esperança. Parecia completamente adequada para o momento. Sentiu-se bem.

Olhou para todas as outras cartas também. Cada uma tinha o seu espaço. Refletiu sobre o significado delas. Eram um espelho da alma. Falavam sobre a sua jornada espiritual. Como se desprendeu de muitas coisas pesadas. Dos desafios enfrentados. A força conquistada para chegar até ali. Compreendeu e aceitou o convite para continuar a crescer. Agradeceu, depois, ao oráculo pela mensagem.

Juntou o baralho novamente e guardou-o na bolsinha de pano. Voltou a colocá-lo na gaveta, ainda com mais reverência. Naquele cantinho escondido, mas tão especial. Sentiu-se mais leve. A chuva lá fora parecia menos insistente e o outono menos melancólico.

Voltou para a sala, sentou-se no sofá e pegou no portátil novamente. Contudo, em vez de navegar sem rumo pela internet, decidiu escrever. Começou com frases soltas sobre a vida e os sentimentos. Depois, as palavras fluíam com facilidade, libertas na inspiração do éter. Nasciam poemas e prosas. Ideias e pensamentos. As páginas do processador de texto ficavam assim cheias pela criatividade outonal.

Quando terminou, sentiu uma satisfação aconchegante. Ouvia a chuva a cair. Sorriu. Respondeu ao apelo do seu espírito e sabia disso. Concluiu que o mundo interior também precisa de atenção.

Talvez por isso exista o outono. A noite vinha mais cedo porque é suposto o corpo abrandar. A chuva caia lá fora, pois o aconchego convidava a imaginação a sair. Era esse o pequeno grande mistério refugiado naquele momento. Tão simples e perfeito.


quarta-feira, novembro 15, 2023

Capítulo perdido

Noutro dia, enquanto vasculhava uns ficheiros antigos, encontrei os primeiros capítulos de uma história que comecei a escrever há uns 25 anos, mais ou menos (sei que naquela altura ainda não se usavam telemóveis. As pessoas comuns pelo menos). 

Infelizmente, por preguiça, talvez, não lhe dei continuidade. Contudo gostei de recordar estas primeiras ideias concretas, passadas para o papel. Decidi partilhar o primeiro capítulo aqui, visto também ainda não existirem blogs. 

Não alterei o texto e deixei tal como escrevi. Pessoalmente acho estranhamento bom para a idade e principalmente falta de experiência. 

Quem quiser passar algum tempo a ler, pode dar a sua opinião. Aqui fica:

Vejo agora o caixão a descer à terra. Bem para o fundo, onde ficará esquecido. Lá dentro o corpo morto do meu pai. Mas ao contrário do seu corpo, as suas lembranças que eu julgava há muito esquecidas e enterradas, vêm agora ao de cima, criando em mim um sentimento desagradável. Não sei se são remorsos ou se são pena. Pena de não ter sido de outra maneira. A minha mãe morreu quando eu ainda era pequeno. O meu pai sempre me tentou proteger. Tentou fazer os dois papeis de mãe e de pai. Por isso era duro para mim. Por isso também eu vivia em conflito com ele. Mas agora é tarde. Tarde para remediar o que está feito. Enquanto o caixão desce à terra as lembranças continuam a vir ao de cima atormentando-me. Mas porque é que eu me estou a sentir assim? Desde cedo lhe declarei guerra. Aquela guerra que os adolescentes declaram aos pais. Ele nunca me tentou compreender. Nunca me deu a liberdade que eu queria. Por isso quando cheguei à idade adulta sai de casa, ignorando totalmente os conselhos dele. Deixando-o numa grande solidão. A culpa foi dele. Ele nunca tentou compreender-me. Mas agora me apercebo que eu também não o tentei compreender a ele. Mas agora já é tarde. O caixão já está no fundo e começa agora a ser coberto por terra. Já é tarde para ter uma conversa com ele. Por um momento quase me deu vontade de chorar, como as minhas tias. Por que é que elas choram assim? Afinal também o deixaram sozinho. Também devem estar com remorsos. Mas eu não vou chorar. Afinal ele era meu inimigo. Desde cedo lhe declarei guerra, e ninguém chora a morte de um inimigo. Por isso mantenho a minha postura rígida e inabalável. Estão agora a tapar a cova. Quero sair dali mas ainda tenho de aturar os abraços das minhas tias. Grandes chatas. Choram tanto. Porquê? 

- Estás bem? 

- Sim estou. - A pergunta da Joana quebrou os meus pensamentos de raiva. Tinha de sair dali rápido. 

- Vamos embora daqui. 

- Já? Tens a certeza? 

- Sim. Ainda quero passar por casa do meu pai e chegar à cidade cedo. – A Joana era minha namorada. Nunca lhe tinha falado muito acerca do meu pai, embora estivéssemos praticamente noivos e eu partilhasse todos os meus segredos com ela, esse era um aspecto da minha vida que ignorava. Provavelmente já se tinha apercebido que o meu relacionamento com ele não era dos melhores, mas não imaginava que isto pudesse acontecer e me fosse deixar tão abalado. Procurava não mostrar qualquer tipo de sentimento mas ela sabia que naquele momento, eu estava a lutar com os meus fantasmas. Com certeza queria falar comigo fazer com que desabafasse com ela, queria evitar isso a todo custo. – Vamos.  

Entramos no meu carro, ainda tinha de passar pela casa do meu pai, a casa da minha infância que agora era minha. Ele vivia numa vila calma, afastada da cidade. Grande parte da minha família vivia ali. Eu tinha nascido, tinha crescido ali, mas contam-se pelos dedos as vezes que lá voltei depois que vim para a cidade estudar. Acabei o curso, arranjei um emprego e sem saber como passaram-se seis anos. Seis anos que devem ter sido de terrível solidão para o meu pai. Lá estão eles outra vez, os sentimentos de culpa. Agora já é tarde, mas não os consigo afastar. Vou calado enquanto conduzo pelas ruas da vila. A Joana também vai calada, ainda bem. E eis que lá está ela, a casa do meu pai. Mais um fantasma que tinha de enfrentar. Era uma vivenda grande de dois andares, qualquer habitante da cidade a acharia fantástica para passar as férias e o fim de semana, mas a mim só me trazia más recordações.  

- É aqui? – Pergunta a Joana com ar admirado. Aquele ar de pessoa nascida na cidade. 

- Sim. – Respondo com ar de quem não quer muitas perguntas. 

É espantoso como nada tinha mudado desde que eu sai dali. Era uma casa tão grande. Não sei o que irei fazer com ela. Vende-la? Deve ser a melhor solução. Mas também não a queria vender a qualquer um, talvez alguém de família a queira comprar. A Joana continua admirada. Provavelmente acha estranho eu não lhe ter dito que o sitio onde cresci era assim. Logo a ela que achava a vida na cidade tão acelerada. Pela cara dela, até aposto que era capaz de se mudar para aqui. É melhor ver-me livre da casa enquanto é tempo, senão depois de ficarmos noivos ainda me convence a ficar com ela, para passarmos os fins de semana e coisas do género.  

- Que casa fantástica! 

- Sim. É uma boa casa. – É obvio que ela está ansiosa por entrar. Por explorar todos os recantos. De certeza que vai fazer tudo ao seu alcance para me impedir de a vender. 

Ao abrir a porta senti logo aquele seu cheiro característico, que me trás de volta sentimentos amargos. Continuava tudo inquietamente na mesma. 

- Bem. Não me vens mostrar o sitio onde cresceste.  

- Porque não vais tu sozinha. Eu sei que gostas de explorar. Eu quero ficar só por uns momentos. Depois vou ter contigo. 

- De certeza que posso? 

Fiz-lhe um sinal afirmativo com a cabeça e logo ela subiu as escadas para explorar o 1º andar. Estava agora sozinho na sala de estar. Estava tudo na mesma. Exactamente como me lembrava desde a mais tenra infância. Os sofás, as paredes, as pinturas, a mesa, a lareira e por cima a espada que a adornava. Incrível. A espada do meu pai. Desde sempre que ali esteve, por cima da lareira. Guardada como se fosse um objecto sagrado. Gostava de saber a sua história, acho que nunca a vou saber. Sempre achei aquela espada fantástica, sempre me senti atraído por ela. Mas por alguma razão que desconheço o meu pai nunca me deixou tocar-lhe. Lembro-me que várias vezes em criança a ia buscar, ou para brincar, ou para mostrar aos meus amigos, ou simplesmente para apreciar a sua beleza. Sempre que o meu pai descobria que tinha pegado nela era uma bronca dos diabos. Cheguei a apanhar várias tareias por causa disso. Ele nem gostava que eu olhasse para a ela. Não sei qual era a sua obsessão pela espada mesmo que valesse uma fortuna, não havia razão para agir daquela maneira. Mas agora ele não estava ali. Estava morto. Já não me podia dizer nada. Por isso vou pegar-lhe. Sem hesitar peguei-lhe, já não me parecia tão pesada como em criança. Agora já era adulto e tinha força suficiente para a manejar. Lentamente comecei a tirá-la para fora da bainha, era realmente bela. Mais bela e fascinante do que me lembrava. Já devia de ser bastante antiga, dois ou três séculos talvez? Mas continua bela e afiada, devia valer uma pequena fortuna. Gostava de saber a sua história. Quem sabe pertenceu a um cavaleiro? Quem sabe quantas pessoas já matou? Em quantas guerras já participou? Quem sabe se pertenceu a um rei? Quem sabe? São só fantasias. Já pareço outra vez criança, a olhar para aquela fantástica espada por cima da lareira e a imaginar. Possivelmente nem era tão antiga quanto eu pensava. Mas não deixava de estar fascinado, ali, com aquela fantástica espada na minha mão. Engraçado, desde que lhe peguei, todos os sentimentos de culpa que me atormentavam desapareceram. De repente fui invadido por uma felicidade quase insana. Não sei de onde é que ela veio. Mas sentia-me bem. Sentia-me agora poderoso, invencível, com aquela espada na mão. Sentia-me capaz de dominar o mundo. Foi então, que, num acto, quase sem pensar, ergui a espada no ar com as duas mãos. Nesse momento todos os meus sentimentos de raiva, ódio e culpa vieram juntar-se ao sentimento de euforia que estava a sentir. Nesse momento, enlouqueci! Então com toda a minha força, dei um golpe na mesa. Esta ficou dividida em dois. A lâmina da espada atravessou a madeira como manteiga no Verão. E eu, sentia-me bem, tão bem! 

- Jorge?! Que se passa? Que barulho foi esse? – O meu momento de felicidade foi interrompido bruscamente. A Joana, atraída pelo som da mesa a partir desceu as escadas completamente apavorada. – Meu deus! Que fizeste? – Eu fiquei parado, a olhar para a cara assustada dela. Quase me deu vontade de rir, tentando adivinhar os seus pensamentos. Ao ver-me ali, com uma espada na mão, depois de ter cortado uma mesa a meio com um só golpe. Sempre me conheceu como sendo uma pessoa calma. E agora ao ver-me ali naquela figura. Possivelmente pensa que a vou atacar a seguir. 

- Tem calma. Não se passa nada. 

- Tenho calma! Tenho calma, dizes tu?! Para é que fizeste isso? E essa espada? Onde é que arranjaste essa espada? – Coitada. Estava completamente apavorada. Mas não sei o que a assustava mais? Se a minha acção? Se a minha aparente descontracção? 

- Sim, tem calma. Estou só a despejar a minha raiva.  

- A despejar a tua raiva?! Partiste a mesa a meio! A espada. Dá-me a espada, antes que faças mais alguma tolice. – A cara dela estava fantástica. Quase que não conseguia conter o riso, ao vê-la assim, tão assustada. 

- Acalma-te. – Voltei a embainhar a espada e dirigi-me a ela. Abracei-a e dei-lhe um beijo na testa. Todo o seu corpo tremia. Coitada. Não consegui deixar de esboçar um sorriso. - Acalma-te. Agi sem pensar. Desculpa. Não queria assustar-te. – Depois das minhas palavras e da minha manifestação de afecto, ela acalmou-se um pouco. 

- Pregaste-me um susto tão grande. Olha, eu sei que isto tudo está a ser difícil para ti. Eu compreendo-te. Podes falar comigo se quiseres. Vai fazer-te bem. Porque fizeste isso? – Sim, estava agora mais calma. Abraçou-se também a mim. 

- Olha. Esta era a espada do meu pai. – Dei-lhe a espada, para ela ver. Um pouco a medo pegou-lhe e lentamente começou a desembainha-la. - Não tenhas medo, toca-lhe. Vê como é bela. Quando era pequeno, o meu pai não me deixava tocar-lhe. Agora, quando a vi… Vieram-me ao de cima algumas recordações. Agi sem pensar. Foi uma idiotice. Desculpas me?  

- Desculpo. Claro que desculpo. Mas que foi uma idiotice, foi. – Aquela cara de susto já lhe tinha passado. Olhava agora, também fascinada, a espada. – Esta espada era do teu pai? É muito bonita. E também deve ser bastante antiga. 

- Sim. Deve ser. Mas o meu pai nunca me contou nada acerca dela. A única coisa que sei, é que ele não me deixava tocar-lhe.  

- É compreensível. Esta espada é fantástica. Deve valer bastante dinheiro. E além disso, é perigoso para uma criança tocar numa coisa destas. Vê só como é afiada. 

De facto. Depois de um golpe daqueles, a lâmina continuava extremamente afiada, como uma espada nova. Aliás toda ela brilhava, como se tivesse acabado de ser construída. Era realmente muito bela. Era uma espada digna de um rei. Digna mesmo de um deus. De um deus da guerra. 

- Vamo-nos embora. Voltas cá noutro dia. Esta casa traz-te recordações amargas. E hoje não me parece que estejas preparado para lidar com elas. 

- Sim, vamos. - A Joana tinha razão. Era melhor ir-me embora. Mas a espada vai comigo. 

- Que fazes? Não me digas que levas a espada contigo? Não achas melhor deixá-la ai. 

- Não. Vou levá-la comigo. Agora é minha. – A Joana achou aquilo estranho, mas não me disse mais nada. 

A viagem até à cidade correu normalmente. Passamos quase todo o tempo calados, fingindo esquecer o sucedido. Mas eu notava na Joana ainda uma certa inquietação. Já eram umas 11 horas da noite quando chegamos a casa dela. 

- Ficas bem? – Pergunta-me. – Não queres que fique contigo? 

- Não te preocupes. Eu fico bem. Vai tu para casa. Os teus pais já devem estar preocupados. 

- Está certo. Mas se precisares de alguma coisa, se precisares de falar, não hesites. Telefona-me. E outra coisa, tem cuidado com a espada. Não mates ninguém pelo caminho. – Disse ela. Tentando mostrar que o incidente em casa do meu pai não a tinha afectado. Mas a espada veio todo o caminho no banco de trás do carro, a lembrar-lhe o sucedido . Por certo vai ter dificuldades em dormir hoje à noite. 

Prossigo a viagem em direcção a minha casa. Não consigo deixar de pensar no dia de hoje. Como começou. Com todos aqueles sentimentos amargos a atormentar-me. Como me senti quando segurei a espada, completamente louco. E como me sinto agora. Como se nada de especial tivesse acontecido. Ainda bem. Se continuasse a sentir remorsos, acho não iria conseguir dormir à noite. Mas não consigo de deixar de achar estranho. Mudar de sentimentos assim tão rápido. Nem parece meu. 

Passo agora por uma rua morta. Ainda não é muito tarde, mas já não se vê ninguém. Nunca tinha reparado como a cidade parece tão calma à noite. Está tudo tão sossegado! Mas no meio da calmaria, algo me chama a atenção. Três indevidos com cara de poucos amigos, rodeiam uma rapariga que parece estar muito assustada. O local não estava muito iluminado, o que o tornava perfeito para um assalto. - Vejam só a minha sorte. No meio da calmaria, fui deparar com um assalto. – As luzes do meu carro assustaram os bandidos. Certamente pensavam estar sozinhos. Porém este facto não os fez desistir. Continuaram a cercar a rapariga, certamente convencidos que eu ia seguir o meu caminho, fingindo não ter visto nada. O que é que eu vou fazer? A rapariga olhava para mim com esperança que a ajudasse. Os bandidos continuavam empenhados. O que é que eu vou fazer? Se eu sair do carro para a ajudar, eles podem estar armados. Além disso são três. O que podia eu fazer contra eles. O melhor é seguir o meu caminho e esquecer. Não. Não posso fazer isso. Não me posso acobardar dessa maneira. Parei o carro e apaguei as luzes. Os bandidos olhavam agora para mim, mas continuavam no mesmo sitio. Peguei na espada, segurando-a atrás das costas, e sai do carro. Não havia luz suficiente na rua para me poderem ver em condições. Com a espada sinto-me protegido. 

- Hei? O que é que se passa aqui? Estes homens estão a importuna-la, senhora? – Perguntei. Foi o acto mais corajoso que tinha feito, até hoje. 

- Por favor. Ajude-me. – Pediu-me a rapariga, apavorada. 

- Hê pá. Vai-te embora se não queres morrer hoje. – Disse um dos bandidos puxando por uma navalha, dando uma risada. – Mata-o. – Diz outro. 

- Por favor. Ajude-me. – Voltou a pedir a rapariga. 

Nesse momento, o bandido que empunhava a navalha, saltou sobre mim. Então novamente num acto sem pensar, desembainhei a espada. E sem o mínimo de piedade desfrutei um golpe no homem. Um golpe tão violento, que lhe abriu o peito e lhe cortou a mão, tudo de uma só vez. O que fez jorrar sangue, como se fosse uma fonte. Um dos companheiros veio em seu socorro, não se mostrando impressionado. Com a ponta da lâmina fiz-lhe um golpe nos olhos.  

- Os meus olhos! Os meus olhos! Estou cego! Não vejo nada! – Gritou em agonia. Levando as mãos às vistas todas ensanguentadas, caindo de joelhos. 

- Estás cego? Compra um cão. – Respondi-lhe. E num acto completamente sádico, sem mostrar um único sentimento. Enterrei-lhe a espada na cabeça. Jorrando novamente um rio de sangue. 

O terceiro tentou fugir. Mas tropeçou e caiu no chão, de barriga para baixo. Espetei-lhe várias vezes a espada nas costas. Foi o que teve a morte mais clemente. Ao acabar de executar os bandidos, olhei para a rapariga. Estava perplexa com o acontecido. Sorri-lhe e perguntei. – Está bem? – Ela olhou para mim, ainda tentou dizer qualquer coisa. Mas fugiu, assustada. Vejam só! Fugiu! Acabei de a salvar. E é assim que me agradece. Então reparei nos corpos mortos e mutilados dos bandidos. E no sangue que escorria da lâmina da espada. E na enorme poça, na calçada. Parecia um rio. Fantástico. Nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Só então ai me apercebi verdadeiramente do que tinha feito. Tinha acabado de matar três homens, de uma maneira tão violenta, que ainda me custa a acreditar que o tivesse feito. Não admira que a rapariga fugisse. Depois de ver tanta carnificina. Meu Deus! O que é que eu vou fazer? Vou ser preso e acabar os meus dias na prisão. Não. Não. Não pode ser. Ao ver aquele cenário de morte e pior, ao saber que fui eu que o provoquei, começou-me a dar vómitos. Tinha de sair dali. Meti-me no carro e arranquei. Só pensava em chegar a casa, limpar completamente o sangue da espada e tentar esquecer. Se isso fosse possível. 


quarta-feira, novembro 08, 2023

Cântico sem destino

Ai de mim, coitado,

Que nasci em corpo de gente,

Sem saber ao que estava fadado.

Depois do meu destino traçado,

Lançaram-me em frente, 

Ao encontro do futuro guardado.

Indiferente a qualquer cuidado,

Firme como um crente,

Segui entusiasmado.

Julguei não poder ser travado.

Era tão inocente,

Quando descobri estar enganado.

A verdade tornou-me atormentado.

Tudo ficou diferente.

Fui maltratado.

Por ter fantasia, fui intimidado.

Conheci a maldade oprimente.

O terror de ser injuriado.

Regras a fazer-me acobardado.

Derrotaram-me assim, impunemente.

Fiquei acomodado.

Esquecido em algum lado.

Deixei-me esvanecer lentamente.

Mas alguém contou-me algo vedado.

Falou de rebeldia e ser ousado.

Escutei atentamente.

Ensinou-me a ser malmandado.

A voz não disse nada errado.

Ouvi rebeldemente.

Tornei-me despertado.

Sem medo de ser arriscado.

Revelei-me ousadamente.

Estava danado,

Contra quem era incontestado,

Desobedeci violentamente.

Já não estava domado,

Muito menos acorrentado.

Contra quem me queria desistente,

Enfrentei o mundo inconformado,

Com a raiva do meu lado,

Combati ferozmente.

Já não estava derrotado.

Mas o mundo é gigante.

Uma luta constante.

Há sempre um caminho errado.

Dei por mim errante.

Numa busca desgastante,

Por um local encantado.

Segui por diante.

Perdido e distante,

Pelo meu rumo desnorteado.

Com pouco de contente,

Sigo a minha história inquietante.

Talvez um dia me sinta afortunado.

Ai de mim que nasci gente...


sábado, novembro 04, 2023

Os Poetas têm cada ideia!


Um porco grunhia ao longe.

Parece que estava vento.

O tempo,

passava rápido no relógio parado.

E nada,

apenas nada,

fazia nascer tudo no gemer das vozes famintas.

São rosas senhor,

são rosas...

Abertas no regaço.

Alguém comeu o pão todo.

E o diabo dos Poetas,

sacanas,

andam todos com o fogareiro aceso!

Cobardes.

Sem coragem de dizer diretamente,

aquilo que querem realmente:

Simplesmente pinar!

Fazem preliminares com palavras.

Faz de conta que a intenção é rimar.

E já agora,

se quiseres terminar o verso com estilo,

podes acrescentar o verbo amar!


Nota: ironia a certo tipo de poesia. (ou não)


segunda-feira, julho 31, 2023

É amanhã dia 1 de Agosto...

Eu sei que tenho andado demasiado preguiçoso para criar qualquer coisa que se leia. Mas isto, ou se escreve qualquer coisa que mereça ser lida, ou então mais vale estar quieto. É o que tenho feito. 

Não tenho dúvidas que daqui por algum tempo a criatividade volta, até lá, olha... Este espaço faz anos no dia 1 de Agosto e eu gosto de recordar a data. É um cantinho perdido na internet, mas é meu. Não é um livro, nem sequer me atrevo a dizer que tenho qualidade para me dizer escritor. Contudo as palavras saem e lá vou deixando o resultado aqui. Nem sei se isto ainda tem visitantes! 

Já aprimorei a minha escrita ao longo destes anos. Está melhor, mas ainda não encontrei o meu estilo. Este próprio texto, podia estar melhor escrito. Não faz mal, é como se estivesse a falar contigo num café a beber um copo. É assim que gosto de imaginar os leitores que se dão ao trabalho de ler aquilo que escrevo. Alguém que encontro num café e com quem troco umas quantas palavras sobre a vida, a fantasia e outras coisas que habitam o nosso pensamento. 

Talvez seja um narrador de sentimentos, ou um contador de inutilidades, seja como for, é para isso que este blog serve: dar guarida a coisas escritas sem um objetivo concreto. 

Portanto, é mais um aniversário deste 'mundo diferente' que assinalo. Parabéns a mim e às coisas que por aqui estão escritas!



segunda-feira, maio 29, 2023

No mundo


Em frente

Está a estrada que nunca percorri

O mundo que nunca explorei

Mulheres que nunca amei

Aventuras que nunca vivi


Em mim

Estão as lições que aprendi

As vezes que desanimei

Fraquezas que nunca superei

Todos os erros que cometi


Nos outros

Estão ideias que nunca entendi

Segredos que não desvendei

Mentiras que nunca perdoei

Histórias que nunca compreendi 


Aqui

Interrogo caminhos que nunca segui

Morrem os sonhos que não realizei

Sobram as mágoas que guardei

Doem as falhas que nunca admiti


No pensamento

Tenho palavras que nunca proferi

Mundos que nunca mostrei

Tudo o que um dia esperei

Narrativas que nunca escrevi


Cá dentro

Vivem sentimentos que nunca exprimi

Inseguranças que nunca enfrentei

Soltam-se lágrimas que nunca enxuguei

Gritam as limitações que sempre sofri


Cá fora

Procuro a felicidade que nunca sorri

Possibilidades que nunca tentei

Desejos que nunca partilhei

Todo o alento que ainda não senti