domingo, setembro 06, 2026

Nulidade


Ai de mim que estou a morrer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a viver!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou para nascer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que estou a crescer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero aprender!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que quero florescer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de mim que quero ganhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a lutar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de mim que estou a perder!...

    ...e ninguém quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Eu sou NADA!


Ai de ti que estás a sonhar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres vencer!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que queres conquistar!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que estás a imaginar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que procuras um lugar!...

    ...e ninguém quer saber!

Ai de ti que te queres engrandecer!...

    ...e ninguém quer saber!


Ai de ti que queres o prometido!...

    ...e o mundo não quer saber!

Ai de ti que esperas recompensa!...

    ...e os outros não querem saber!

Ai de ti que acreditas na mentira!...

    ...e a sociedade não quer saber!


Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

Nada!

NADA!

Tu és NADA!


    ...e ninguém quer saber!




sexta-feira, julho 31, 2026

Sim é já amanhã!

Estou num daqueles momentos em que a poesia fugiu. 

Queria dizer algo, sobre algo, nas algo, não me deixa rimar. 

Está a chegar mais um aniversário e é momento para celebrar. 

A escrita está calada mas outras artes se levantam. Acredito que não vou tardar em voltar. 

Toda a gente tem coisas a dizer, uns por boca, outros a escrever. 

Mesmo neste momento de silêncio escrito, vamos ouvir a música do costume. Até porque amanhã é o dia 1 de agosto!


 

domingo, junho 07, 2026

A invisibilidade


Os momentos mais solitários da minha vida aconteceram quando me encontrava rodeado de gente. 

Estavam todos presentes menos eu. Apenas o meu corpo, em representação da minha pessoa, dava a ilusão de também estar ali.

Contudo, a diferença entre mim e ninguém, era, unicamente, o meu espírito distante a observar aquela multidão da qual não fazia parte.

Havia uma conversa, onde era incapaz de escutar, ou sequer mesmo fingir prestar atenção. Em vez disso gritava silêncio na tentativa infrutífera de calar todas as bocas.

Era fantasma sem voz, sem capacidade de me firmar entre os restantes. 

Eu não pertencia ali! 

Eu não queria estar ali! 

Nada de mim se encaixava ali!

A solidão dói quando há tanta companhia. Os outros, era como se me batessem com a sua existência, a exibirem os rostos, as palavras, os sorrisos e gestos. 

Já eu, só podia retribuir com vazio. Era um eco calado num espelho onde me via invisível.

Estava sempre longe. Muito longe.

Seria eu o problema? Não. 

Seriam os outros o problema? Não. 

Simplesmente, é assim que as coisas são. 

Algo no meu esboço foi desenhado sem as medidas corretas para ser como os demais. Aceitei isso. Pouco mais havia a fazer, se a minha índole é diferente e segue num caminho alternativo devido a algum desígnio Cósmico.

Assim sendo, fiz de mim a minha própria companhia.

Aos outros descendentes de Adão e Eva, virei-lhes as costas. Filtrei as suas vozes como ruído e fui embora mesmo estando ali.

Digo o que penso sem levar em conta o julgamento alheio. 

Então, sempre que falo neste assunto, lá aparece alguém a lembrar-se da minha existência. Umas quantas almas caridosas, prontas a salvar-me desta solidão inaceitável segundo os padrões sociais. 

Depois, parece uma competição de bons samaritanos.

Querem todos resgatar-me. Abeiram-se de mim com frases feitas, lidas nas redes sociais, as quais parecem dar um mestrado nesta ciência complexa do existir. 

Sou incapaz de assimilar esta poluição literária a contaminar a internet. Muito menos, proferidas por vozes sem alma.

Calem-se! 

Estejam calados! 

E mantenham-se calados!

Enxoto estas criaturas com o desdém próprio de quem já foi rejeitado e não acredita em promessas mentirosas. 

Xô! 

Fora daqui! 

Ide-vos! 

A visão da vossa figura já é penitência em demasia. Deixem-me estar com a minha própria companhia!

Outros como eu? 

Existem, com toda a certeza. Já encontrei alguns. Mas, iguais a mim, andam entretidos com a sua própria solidão. 

Ocasionalmente, encontramo-nos por aí. Trocamos umas quantas palavras sobre isto e aquilo e depois vamos à nossa vida sem grandes amarras.

Talvez seja um espírito livre. Um filho da natureza. Um entendedor das manhas do mundo. Seja o que for, não me entendo eu, estando no meio dos outros.

Sou assim e pronto. Nada mais há a dizer, ou fazer. 

As engrenagens da sociedade continuam a rodar. Cada qual no seu lugar.

As mentes das pessoas continuam a pensar. Cada uma com o seu julgar. 

À volta do sol o planeta continua a orbitar. Cada dia com o seu rodar. 

E aqui, debaixo do céu, estou eu a divagar sobre a solidão e a angústia de socializar.


segunda-feira, abril 20, 2026

A inversão


Corpo estendido no chão. Imóvel. Rodeado de pó parido pela terra seca. Olho para o azul fantasma em cima de mim. Uma tela sapiscada por pinceladas brancas, tridimensionais, numa geometria caótica em constante mutação. Itens abstratos, os quais parecem dançar ao vento sem qualquer intenção de fazer sentido. Viajam não sei para onde. Talvez um lugar onde o longe não existe. De vez em quando passam aviões. Todos com destino e hora de chegada. Condições bem estudadas pela organização humana. Deixam, atrás de si, um rasto a desenhar uma linha reta perfeita. Traços a lembrar a sua passagem pelo cenário aéreo. Atrevem-se a perturbar a falta de coerência das imagens mutantes que preenchem o meu campo visual.

De repente, pela força do pensamento meditativo, invertem-se as leis da física. Já não ė o meu corpo estendido na terra suja. Afinal, sou eu quem está a voar! Abaixo de mim está um chão feito de infinito. A cor azul celeste é uma cortina numa janela feita de estrelas, galáxias e mistérios. Todos escondidos debaixo da tela salpicada à qual antes chamava céu. Afinal não caí na imundice seca, nem sequer padeço de imobilidade, em vez disso carrego nas minhas costas o mundo inteiro como um Atlas alado. Não são as nuvens nem os aviões que viajam. Estão todos parados. O movimento é meu. Sou eu, a voar na direção do inalcançável e contemplo o cenário estático abaixo de mim a ficar para trás, nos cantos vazios do esquecimento.

O mundo pesa mas não paro. As asas são feitas de éter. A gravidade é uma ilusão. A queda é meramente decorativa. Uma lembrança amarga da condição humana. Carrego o planeta às costas por fardo ou condenação. Sigo, assim, pelo destino incompreendido, como quem cumpre a missão de ser gente. Longe está a chegada, tal como distante está a partida. Vou. Sem qualquer rota traçada. Observador da existência com a curiosidade de uma criança e a tranquilidade de um velho. Equilibro-me entre o real e a fantasia. A vitalidade e a indiferença. Uma recordação e profecia. Conheço-me e descubro-me em simultâneo. Neste momento onde a minha consciência rasa a loucura, encontro uma lucidez cristalina, onde se revela o meu lugar no universo.


quarta-feira, março 18, 2026

A janela da realidade


Aquilo que tomas por existir,

Não és tu.

É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.

Tu és meramente uma figura observadora.

Sem o privilégio de nascer,

Sem o direito de morrer,

Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,

A gritar por quem te possa acudir.

Pois, do lado de cá estás a dormir.

Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.

Não te recordas de adormecer,

Não te lembras de te esquecer,

Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.

Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.

Projeto falhado para nunca construir.

Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.

Só isso.

Sem promessas nem compromisso.

Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.

Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.

Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.

Nunca vais escapar.

Olhas.

Deste lado articulas movimentos.

Fazes coisas.

Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.

Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.

No entanto, aí estás tu.

Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.

Dói-te algo que nem sequer tens.

Tu e tu.

Tudo e nada.

Duas faces inúteis da mesma fachada.

Vazio e dor.

Paz rasgada.

Aí dentro e do lado de cá, uma sobrevivência frustrada.

Uma infinidade de tantos como tu,

Sem conseguirem passar,

A espreitar, com amargor, pelo vidro da janela estalada.

Constantemente esmurrada,

Pelos punhos de cada devaneio sofredor.

Coro de gritos calados no peso do marasmo.

És um instante de ilusão.

São todos instantes de ilusão.

Tu, tu e tu!

Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:

Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!


quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Todo o vocabulário do indizível

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando nos encontramos naquele dia, à entrada, e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter 'roubado' um beijo quando me foste visitar. Doaste um pouco do teu tempo para estar comigo e os nossos olhos brilharam. 

Arrependo-me de não te ter trazido para o meu mundo de aventuras e, em contrapartida, encontrar refúgio nas tuas coisas banais.

Arrependo-me de não ter vivido um amor falhado ao teu lado. Quem sabe como seríamos depois? Ódio, indiferença, amizade, ou esquecimento. 

O pior é ser uma história nunca acontecida. A tormenta de ter o pensamento visitado pelas ramificações de possibilidades nascidas da palavra 'se'. 

Querer algum conteúdo para completar versos apaixonados, ainda que a sua sina seja desvanecer.

Resta-me divagar sobre o inexistente.

Procurar nos recantos da memória por fragmentos dos teus rostos. Um sorriso, um tom de voz, um odor, uma cor. Embora só consiga sentir o brilho no nosso olhar. Isso é tudo e quiçá seja suficiente. 

Mesmo assim não me entendo como um dos participantes, mas sim como um observador passivo, limitado a apresentar uma imagem capaz de descrever uma emoção.

Contudo quero mais, porque a poesia devora todos os sentimentos para alimentar as suas rimas.

As estrofes por escrever consomem-me as madrugadas.

Dentro de mim grita-se a palavra amar, com todos os seus derivados!

Paixão;

Desejo;

Toque;

Fome;

Atração e medo.

Bem como todo o vocabulário existente dentro do indizível!

Já tu, tens tanta vida em ti, pois um só corpo não te chega. Se calhar nem lhe chamo vida. Talvez imensidão seja uma palavra mais correta para te poder descrever. 

Tu existes. Tens lágrimas e alegria. 

Eu existo. Tenho inquietação e silêncios.

Portanto, confesso ao éter o meu arrependimento, na esperança desassossegada que os teus ouvidos escutem estas palavras.

Por favor deixa-me ser poeta!

Ainda tenho um beijo para te 'roubar', num encontro qualquer, onde o nossos olhos brilhem.


domingo, fevereiro 08, 2026

#gordura

Estais gordas.

Inchadas com tantas banhas.

Os transmontanos quando olham para vocês só pensam em fazer enchidos!

quinta-feira, janeiro 29, 2026

O X no quadradinho



Dai vivas! 

O Zé Povinho votou num banana!

Chegou escondido,

Sem fazer grande alarido,

Politicamente correto, com voz de serenata.


Dai vivas! 

Falava sem pressa,

Expressões doces ao ouvido,

Para encantar o iludido,

Com palavras caras disfarçadas de figura honesta.


Dai vivas!

Batam palmas e façam festa!

O rei está escolhido.

Vai ao trono mais um vendido.

Bolsos cheios de moedas, sem ideias na testa.


Dai vivas!

O Zé povinho elegeu outro banana!

De democrata mascarado,

Não passa de um fantoche articulado,

Com alguém a puxar as cordas de tal figura patética!


domingo, janeiro 25, 2026

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aquela cena das páginas do ano


– Foda-se!

– Lá estás tu a resmungar.

– Explica-me lá outra vez. Esta é a primeira página de quantas?

– Trezentas e sessenta e cinco.

– Isso já dá um livrinho composto.

– A ideia é essa.

– Mas afinal porque tenho de ser eu a escrever?

– Ainda perguntas!? Andas com muita preguiça. Tens o blog às moscas, com muito material para ser tratado e publicado. Não queres saber, portanto é imperativo seres tu a escrever!

– Ó! Estou de vacances e com este frio não dá vontade de escrever.

– Tretas! Já andas com preguiça há mais de meio ano!

– Pronto. Eu escrevo, mas qual é o tema?

– Tu és o escritor, desenrasca-te.

– Espera aí. Esta é uma daquelas cenas em que cada dia do ano é uma página!?

– Sim. Só agora reparaste?

– Bolas! Isso é uma parolice. No dia um, anda meio mundo com esta história, passada uma semana já ninguém se lembra e voltam todos para a rotina. Como te deu na ideia de fazer isto?

– Por aquilo que te disse já há pouco. Precisas de escrever. Uma palavra, uma frase, um parágrafo, uma página por dia. Senão qualquer dia perdes o jeito.

– Olha, se calhar já perdi. De qualquer maneira faço-te a vontade e escrevo a primeira página.

– Muito bem.

– Já o resto, depois logo se vê!  

– São muitas páginas. Escreve e cala-te.

– Por falar nisso, como ainda não desejei, aproveito e deixo os votos de Bom Ano para ti que estás a ler!


domingo, dezembro 14, 2025

Adiante


Por vezes

Num instante

Tudo desmorona


Tão simples

Algo insignificante

Perde harmonia


Sem perceberes

De rompante

Nasce a melancolia


Nessas vezes

O instante

Desfaz a alegria


Demasiado simples

Vida insignificante

Sobra a apatia  


Inútil perceberes 

Felicidade distante 

Existência vazia 


Tantas vezes 

Maldito instante 

Revela a mentira 


Tudo simples 

Verdade gritante 

Acolher a letargia 


Nada a perceberes

Só a realidade

Para ser vivida


Todas as vezes

Vamos adiante

Com (ou sem) energia


Vai simples

Sempre em frente

Rumo à nostalgia 


Para perceberes 

Nada é importante 

Excepto a vida


terça-feira, dezembro 09, 2025

Entre


Eu sou uma espécie de sonho,

mais ou menos recorrente,

que acontece ocasionalmente,

entre o adormecer, o acordar e o viver.


Eu sou uma espécie de ilusão

Filho de uma natureza diferente, 

quem sabe até inexistente,

entre o desejar, o imaginar e o sonhar.


Eu sou uma espécie de desconhecido. 

Habito num mundo distante, 

onde a lógica é irrelevante,

entre o compreender, o inventar e o saber.


Eu sou uma espécie de artesão, 

continuadamente descontente, 

intensamente inquietante,

entre o rimar, o existir e o desassossegar...


Epílogo:

Eu sou uma espécie de enigma!

Entre mim.

Entre os outros.

Entre as forças que fazem o universo girar!


terça-feira, novembro 25, 2025

A poesia é o momento

Dá-me versos com sentimento. 

Se te peço um poema, faço-o por vício de viajar em mundo alheio.

Uma visita guiada entre o extraordinário e o rotineiro.

Palavras pintadas como paisagens cantam beleza num horizonte cheio.

A sinestesia violenta dos sentidos ansiosos pelo paladar de um devaneio.

A poesia é o momento. 

A rima nasce do instante onde o pensamento grita e o papel serve de parteiro.

Letras desenhadas pela anarquia metafísica com a cor inquieta do tinteiro. 

Declaro-me mendigo a suplicar uma esmola em forma de verso verdadeiro.

Não negues esta oferta caridosa a quem tem fome de um universo inteiro.

Pois numa estrofe cabe o firmamento... 


quinta-feira, julho 31, 2025

É já amanhã, 20 anos!

Pois é, é já amanhã dia 1 de Agosto! Este espaço faz 20 anos! 

Estou numa fase em que não tenho tido motivação para escrever. Às vezes acontece. Não sei quanto tempo vai durar, mas este ano não tem sido produtivo a nível de escrita. Nem tem de ser. Afinal de contas isto é só um recanto onde eu brinco com as palavras. De qualquer forma fico muito contente por ele existir e por todas as coisas escritas que aqui vou deixando. 

Quase todos os anos assinalo esta data com esta música e faço disso um ritual agradável. E já lá vão 20!

Deixo um abraço a todos que descobrem este canto e decidem comentar! 

Feliz dia 1 de Agosto para todos!

terça-feira, abril 22, 2025

Só mais algumas palavras de desabafo


Escrevo estas palavras com tristeza. Solidão, saudade, melancolia. Adjetivos nefastos, todos a orbitar a mesma estrela decadente.

Não sei quem sou. Ou talvez seja exatamente o contrário. Reconheço em mim um desânimo próprio de quem se entrega à letargia e por isso incomoda-me ser gente.

Posso ainda ser um reflexo do mundo que me acolhe como um ventre amaldiçoado. Vejo os outros e não me encontro. Não há vozes de alento, nem rostos de gentileza. 

Procuro, mas não descubro uma resposta digna da minha atenção. É sempre o mesmo. Repetido até à exaustão. Dito com frases diferentes para parecer novo. Não há alma nas coisas iguais.

Mas procurar cansa. É mais fácil desistir. Encontra-se algum conforto quando se está a dormir. Não vale a pena perder tempo quando há falta de esperança.

Sobra uma fome de companhia impossível de saciar. Um apetite esquecido no passado de quem já tentou sonhar. Não há alento no vazio e por isso rimo sem amar.

Escrevo estas palavras com dureza. Fadiga de fim do dia. Desabafo sem alegria. Cansaço de quem não consegue descansar. 

No fundo, ainda acredito no amanhã. Nascer do sol a raiar. Primavera a florir. Depois, ao acordar, isto possa ser apenas mais um poema, fruto de um momento frágil, onde me deixei desmotivar. 


domingo, abril 20, 2025

A arquitetura dos glúteos


Dentro da minha mente existe uma dimensão compacta. Nela encontram-se espaços tridimensionais em tudo semelhantes à nossa própria realidade. No entanto, libertos do tempo linear como o conhecemos. É aí, onde guardo inúmeros museus, cada um de grandes dimensões, dedicados às mais diversas formas de arte. 

Um deles tem como tema fundamental a anatomia feminina, com foco principal no traseiro. Tendo em conta o facto de tudo poder e dever ser analisado por um ponto de vista artístico, não podia deixar de edificar um monumento capaz de enaltecer esta característica da qual tanto sou apreciador. Assim o fiz!

Fadado pela minha heterossexualidade, não posso impedir os olhos de se fixarem nos glúteos mais arredondados. Suponho eu, ser a natureza a orquestrar os seus desígnios para a continuidade da espécie. Mas como posso eu limitar esta sensualidade a meros impulsos biológicos se a humanidade não me basta?

Encorajado pela minha memória fotográfica, guardo as nádegas mais perfeitas que observei até hoje. Seja em fotografia, escultura, pintura, poesia, mas principalmente, movimento. Uma mulher com rabo grande, sem passar das medidas exageradas e curvas bem desenhadas, é uma obra de arte viva. Merecedora de grandes multidões e todos os aplausos. 

Eu, sem querer ser arrogante mas sendo, considero-me um apreciador exímio de traseiros delineados com mestria. E faço questão de o mostrar ao mundo sem qualquer pudor! Até mesmo com a intenção de elevar este estilo de voyeurismo à categoria de contemplação plena desta majestosa obra prima, que é o cu de uma mulher!


sábado, março 01, 2025

Estudem, façam sucesso e mostrem ao mundo


Acertou em cheio! Disparou com mestria a fisga de infância. Uma pedrinha arredondada não falhou a nádega esquerda da irmã!

Pobre coitada! Soltou um berro esganiçado. Saltou, enquanto levou as mãos ao traseiro na esperança de aliviar a dor inesperada. De imediato, tornou-se o centro da atenção dos convidados. Para piorar, despejou o champanhe em cima da senhora com quem conversava. Mais um grito. Ainda por cima, desequilibrou-se e partiu um salto.

Depois da surpresa inicial, os presentes começaram a rir. (Vamos ser francos. Teve piada!) Não tardou até uma gargalhada colectiva tomar conta do jardim. 

Já ela... Sentiu tanta vergonha! Aplicou-se ao máximo para organizar aquela festa na casa dos pais, da vila do interior onde passou a meninice. Comprou um vestido de gala, junto com uns sapatos lindos. Arranjou o cabelo. Não poupou, nem dinheiro, nem esforços. Transformou-se numa mulher de sucesso na cidade e fazia questão de mostrar àquelas gentes isso mesmo.

Agora estava no chão. Gozada por todos. Ficou furiosa. Olhou para cima e viu o irmão a rir como um desalmado na janela do quarto. Aquela brincadeira não ia ficar impune! Já não era uma miúda franzina para suportar as humilhações das travessuras dele. Não tinha idade para chamar os pais para virem em seu socorro. Nem um valente puxão de orelhas ia resolver a situação. Era tempo de se vingar!

terça-feira, fevereiro 25, 2025

Viagem para o trabalho


Certos acontecimentos deviam trazer um rótulo com a indicação: 'mau augúrio'. A sério, um grande letreiro com sinal de aviso. A vida não vem com instruções e as pessoas não sabem interpretar estas coisas.

Naquele dia fui trabalhar mais tarde duas horas. O comboio daquele horário estava muito mais vazio em comparação com a hora de ponta. Sentei-me tranquilo num banco sozinho. À minha frente estava apenas uma senhora entretida a tricotar. 

Ao contrário dos outros dias, onde estava rodeado de outras criaturas ensonadas, cujo dever laboral obrigava a encher o vagão, pude observar o cenário do trajeto. Vilas, casas, campos, pessoas, foram alvo da minha atenção através do vidro, já debaixo do sol do meio da manhã. Era agradável viajar assim. 

Perto da última estação antes da ponte vi um grupo enorme, com cerca de cem crianças. Pela aparência faziam parte de um jardim de infância. Tinham entre três e cinco anos e vestiam um bibe colorido. Corriam entre brincadeiras despreocupadas num descampado. Algumas mulheres olhavam para elas com aspecto zeloso. Até aqui tudo normal. 

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

São Valentim no Admirável Mundo Novo

Nunca tinha visto tal coisa na vida! Os meus olhos estavam completamente fixos na cena! Sabem aquelas pessoas estarrecidas quando vêm alguém numa cadeira de rodas? Era essa a minha cara a olhar para aquilo!

Um estalar de dedos diante do meu rosto chamou-me de volta à realidade.

– Hey! Estou aqui! – Resmungou a minha namorada.

– Desculpa, mas estás a ver aquilo!? – Apontei com subtileza para a mesa ao lado, onde um homem de cabelo branco apreciava um belo jantar romântico com um robô feminino.

– E depois!? Não te chega a visão mesmo à tua frente? – Empinou o peito. Um decote bem generoso fazia sobressair o seu par de mamas irrepreensível. As quais fez questão de realçar com as mãos abertas de lado.

– Calma. Não precisas insinuar-te tanto! – Exclamei envergonhado. – Mas não achas bizarro o homem ter trazido um robô para um jantar romântico?

– Se ele gosta de chapa e hidráulicos, é problema dele. Não sejas preconceituoso, já não estamos em 2025, está no direito de o fazer. – Bufou-me amuada. – Já eu, sou de carne e osso. Se gostas disto, espero bem que a tua atenção se vire para mim!

– Certo. Certo. Tens razão. – Resignei-me.

Tinha gasto uma pequena fortuna ao reservar a noite de São Valentim naquele restaurante chique. Não era para qualquer um. Pagava-se bem caro, acreditem. Queria dar um jantar de sonho à minha namorada. A sério, a ideia era essa. Não tenho culpa se a curiosidade levou a melhor.

O homem com a acompanhante robótica estragou-me os planos. Nem imaginam como era difícil ignorar algo tão fora do comum. Tinha de admirar a capacidade dos engenheiros ao concederem a máquina. Apesar de manter o aspecto mecânico, o design era incrível, com as curvas do corpo a manterem linhas femininas. Para não falar na linguagem corporal, a imitar os gestos de uma dama digna da alta sociedade. 

Só não compreendi porque não preferia uma mulher verdadeira!? Não me julguem. Vocês questionavam o mesmo, isso eu sei!

Fomos servidos com todo o luxo. Nada a reclamar nesse sentido. O jantar continuou, embora o romantismo nem tanto. De vez em quando lá me escapava o olhar, para ser imediatamente repreendido pelo pigarrear chateado da minha companheira.

Paguei e fomos embora. Não sem antes de dar mais um longo reparo no casal improvável ao meu lado. Obviamente, quando cheguei a casa tive de me esforçar mesmo bastante para recuperar o romantismo desejado. Foi difícil, mas lá consegui.

Uns dias depois, no trabalho, todos os funcionários estavam empolgados pois íamos receber a visita do chefe internacional da firma. Colocamo-nos em fila para cumprimentar a comitiva estrangeira. Queríamos fazer excelente figura para mostrar a nossa eficiência e organização. Afinal quem nunca quis impressionar os maiorais?

Um grupo de pessoas, com visual executivo, entrou na sala. O diretor da minha sucursal mostrava-se orgulhoso das instalações e dos funcionários. Indicou o caminho a um homem cuja aparência acusava ser o patrão. Qual não é o meu espanto quando o reconheço do restaurante!? A seu lado estava o robô feminino.

Falavam alemão. Mas eu tinha a certeza de os ter ouvido falar português no restaurante. Logo alemão! Uma língua da qual não percebia patavina. Riam-se numa conversa animada. Ou pelo menos parecia.

Ao conhecerem os meus colegas, o homem falava alemão e o robô servia de intérprete. Cumprimentava e seguia para o próximo. Bolas! Sabia falar português e a mim não me enganava. Não precisava de tradução nenhuma. Aquela encenação era só para intimidar.

Chegaram ao pé de mim. O meu diretor apresentou-me como chefe de projetos. Suponho eu, pois o meu cargo era esse. Das palavras arranhadas só compreendi o meu nome.

– Já conheço o senhor. – Traduziu o robô com o seu rosto a imitar as feições humanas. – Estávamos no mesmo restaurante, na outra noite.

Havia um grande ecrã na parede do salão, usado para fazer apresentações. Pela graça da tecnologia moderna o robô usou-o para mostrar uma imagem daquele jantar no restaurante:

A minha namorada a gesticular junto às mamas, enquanto eu fazia um ângulo de noventa graus com a cabeça na direção da mesa do suposto chefe ‘alemão’. 

Depois fez zoom na minha cara. O filme do momento era composto de milhares de frames, contudo escolheu propositadamente aquele onde parecia mais parvo. Olhos esbugalhados, boca aberta e aparência de matarruano. Uma careta digna dum episódio do ‘Mr. Bean’.

Os meus colegas tentavam conter o riso. Dividiam a atenção entre mim e o ecrã. Alguns sussurravam entre si. Ia sofrer uma avalanche de piadas. Já podia imaginar o suplicio.

Engoli um sorriso forçado. Cumprimentei o homem e de seguida o robô como se fosse gente. – Muito prazer. Sinto-me honrado. – Disse, a tentar disfarçar o embaraço.

– O prazer é todo nosso. – Respondeu o robô. 

Ao saírem, deu-me um aceno de despedida e piscou o olho. A sério, piscou mesmo o olho! 

Amaldiçoei os engenheiros capazes de criar aquela máquina maquiavélica, com cara, olhos e boca como gente. Já não bastava ser a companhia romântica do patrão, ainda era um supercomputador com pernas e braços. Pior ainda, capaz de compreender e usar a ironia contra mim.

Fui gozado pelo algoritmo de um ser artificial. De igual modo pelo seu proprietário, o qual, também era meu chefe. De certa forma meu proprietário igualmente, pois pagava-me um bom ordenado. Por isso era capaz de comprar jantares em restaurantes de luxo. Tudo não passava de um círculo vicioso.

Enfim. A vida continuava. Restou-me suportar as piadas dos colegas e aceitar as coisas como são. É um ‘Admirável Mundo Novo’, concluí.


Nota: a ação ocorre em 2035, num futuro muito próximo.



Informação: Este conto é propriedade intelectual de António Silva, no caso do seu conteúdo ser publicado noutros lugares sem os devidos créditos ou autorização, serão tomadas medidas segundo o Código do Direito de Autor.

segunda-feira, fevereiro 03, 2025

#Liberdade

A liberdade é um conceito humano impossível de alcançar.

Se és livre, porque nasces e morres?

Se és livre, porque não conheces os mistérios da existência?

Se és livre, porque não és tudo? 

A liberdade acaba na nossa própria humanidade.