Sentimentos, aventuras, pensamentos, histórias, poemas, ideias e escrita caseira...
sábado, maio 15, 2021
Sem desistir
quarta-feira, maio 05, 2021
Tal como os tolos
Há um certo cansaço na alma. Não sei de onde vem. Tenho teorias que não servem para nada, para tentar explicar esta fadiga existencial. Diz-me tu, com a tua ignorância sobre a minha pessoa, de onde vem este tormento?
Parece que todos sabem mais sobre mim do que eu mesmo. Por outro lado, eu também pareço saber mais dos outros do que de mim mesmo. Isto eu posso explicar. Acredito que é algo que está embutido nesta coisa de ser português: escárnio, maldizer e opinar sobre tudo e mais alguma coisa. Falamos dos acontecimentos alheios porque a nossa própria vida é uma narrativa aborrecida.
Ouvir os sábios dá-me tédio. Ouvir os ignorantes dá-me nojo. Ouvir seja quem for, sobre o que quer que seja, não me satisfaz. Quero saber mais, sobre todas as coisas, mas não encontro professores à altura. Onde estão vocês com tanto para ensinar?
A escola é uma prisão. Os livros com a matéria explicada são enfadonhos. A escrita no quadro não elucida a vontade de saber. Entretanto esqueço-me deste cansaço que me acompanha. Ou será preguiça?
Procrastinação!
Viste? Escrevi uma palavra 'cara'. Faz-me sentir um erudito. Um daqueles doutores quaisquer que aparecem na televisão a comentar os assuntos com que a sociedade se entretém. Falam num tom de voz sereno, para causar boa impressão. Dão aquela ilusão de autoridade com que argumentam a sua posição, sobre o que quer que seja, ao serem questionados. Já viste essa gente a falar assim na televisão?
Por vezes vejo. Não compreendo ao certo do que falam, embora gostasse de ser dali. Daquela terra onde eles vivem. Um sítio falado. Onde também vivem os outros. Nesse lugar onde eu pareço ser apenas uma miragem.
No entanto, os outros são tão chatos!
É estranho, sabes? Não os suporto, contudo tenho um desejo misterioso de ser como eles. Básico!
Mas, o que importo eu em comparação com tudo o resto? Tenho esta mania insuportável de desejar a Utopia! Para mal dos meus pecados, essa suposta perfeição, só existe nas palavras que transcrevem o pensamento daqueles que ousam fantasiar com o impossível.
Mas afinal, qual é o mal de desejar o impossível?
Não dá para morar nas palavras, nas imagens, ou em qualquer arte que dê vida ao imaginário. Mesmo assim eu estou lá! Sentado num trono feito sem matéria. Rodeado dos maiores prazeres que não existem. A descansar, porque fiquei exausto a fazer qualquer coisa de que não me lembro. Tal como os tolos, sou feliz assim. Será que sou?
Diz-me algo que me alivie a inquietude. Deixa-me uma mensagem com indicações para um porto seguro onde não existam naufrágios. A alegoria ficou bonita mas eu nem sequer navego, só imagino.
De qualquer forma não sei o caminho. Nem sei ao certo aonde estou. Só assim me tenho guiado. Sem destino concreto. Talvez agora esteja parado para aliviar este cansaço. Numa pausa breve. Quanto ao resto não sei.
segunda-feira, abril 26, 2021
Prazer exclusivo
Vi uma mosca varejeira generosamente gorda pousada em cima de uma flor no jardim. Parecia que a sua "boca" saboreava alguma parte viscosa que compunha a cor amarela da dita flor.
Tomado pela preguiça e pela minha posição sentada, desejei ser como um daqueles lagartos, que conseguem atirar a língua para longe para poderem capturar a sua presa.
O universo, com toda a sua imaginação criativa, não quis que os seres humanos tivessem esse dote natural. No entanto ali estava eu descontraidamente no jardim com vontade de comer uma mosca apetitosamente gorda.
Afinal de contas qual será o sabor de uma mosca? E porque haveria eu de a querer comer se não faz parte da minha dieta?
Acredito que fazia mais sentido se quisesse comer a flor. Mas não sei porquê pareceu-me que tinha um sabor azedo. Nunca me lembro de ter comido uma flor, talvez o tenha feito na minha meninice e o meu cérebro retenha essa memória no meu subconsciente.
Existiam outras varejeiras pousadas em outras flores espalhadas pelo jardim. Mas essas não me cativaram. Só aquela. Talvez fosse o seu brilho esverdeado que me chamasse a atenção, embora, provavelmente fosse apenas por estar diretamente de frente para o meu campo visual.
Não tendo uma língua extensível de lagarto, portanto, deixei a mosca continuar pousada sobre a flor a fazer o que as moscas fazem pousadas nas flores.
No entanto a curiosidade continuou focada no inseto e lamentei que não falasse português, ou qualquer outra língua de gente. Acredito que uma conversa entre um humano preguiçoso e uma mosca gorda pousada sobre uma flor trouxesse algumas revelações sobre os mistérios da existência.
Contudo, talvez não existam mistérios nenhuns. Cada bicho tem o seu prazer, exclusivo da espécie a que pertence. Eu com a minha preguiça, a mosca com a sua flor, o mundo a fazer sentido para alguém que o compreenda.
O pensamento é estranho e isso é lindo. Vai por caminhos impossíveis onde o corpo não chega com a sua limitação tridimensional. Basta saber que é assim. Mas será que é mesmo assim?
quinta-feira, abril 22, 2021
Vitória suja
Gente contra mim? Eles que venham!
Não sou difícil de encontrar no meio da multidão. Não sobressaio entre os demais, não sou como eles cheios me moda. Não tenho nada que seja digno de referência. Basta procurarem o mais distraído.
Essa gente, se querem batalhar, que venham.
De vez em quando também é preciso andar à porrada senão uma pessoa fica mole. Só precisam de sentir o cheiro a miséria humana. Se conseguirem atravessar o pântano que eu sou, talvez me consigam vencer. Convém que não tragam roupa muito clara, pode ganhar uma mancha ou outra por causa do terreno enlameado e depois parece mal.
Não me declaro imbatível. Pelo contrário. Até devo cair ao chão com facilidade. Então, se me apanharem pelas costas mais fácil se torna.
Que venham por trás de mim, atolados no lodaçal imundo. Tenham atenção para não se rasgarem nos espetos dos silvais. Se só conhecem perfumes, não se preocupem, o nariz vai-se habituando aos odores nauseabundos que se estendem por quilómetros nunca contados.
Que venham pela mansinha para que não os oiça.
Contudo, quase nunca querem vir. Mesmo a convite e de guarda baixa. Se a lonjura não os demover, certamente a profundidade da lama vai engoli-los até às profundezas do desespero. Eles não querem vitórias sujas. Desejam coisas fáceis que fiquem bem nas palavras aborrecidas dos discursos.
De vez em quando lá aparecem alguns, que na brutalidade vinda dum instinto qualquer lá me conseguem bater com golpes violentos de um ego sem força. Nesse caso dou-lhes a honra de me levarem de vencida. Gritarem, para que o mundo inteiro oiça, uma vitória grandiosa contra nada!
sábado, março 27, 2021
Livro do Novo Génesis 11
Naquele tempo a humanidade tinha-se dispersado pela Terra inteira e criado fronteiras, com países, línguas e culturas diferentes tal como fora designado em Babel.
Contudo, os homens, atingiram uma grande capacidade tecnológica e, se quisessem, podiam falar uma só língua e completar entendimentos entre todos. Deus, ao ver isto, decidiu testar os homens e enviou uma praga para que se unissem como um só povo, numa só sabedoria e compaixão uns pelos outros.
No entanto, quando deparados com a peste enviada pelo Senhor, em vez de se unirem, os homens criaram ainda mais motivos para se dividirem. O nome de Deus justificou as mais variadas religiões que em nada o serviam; os governantes só se preocuparam com o vil o dinheiro; os políticos pregavam ideologias, que nada mais serviam a não ser para criar separação, e acusavam-se uns aos outros, cada um garantindo a sua própria verdade; os criminosos passeavam tranquilamente entre os demais sem medo de castigo pelos seus actos; aconteciam guerras alheias a tudo o resto; a ciência funcionou para criar uma cura, mas não sem antes garantir os lucros dos mais ricos; e o povo, convertido à ignorância, quebrava frequentemente as regras que serviam de protecção contra a doença dando-lhe continuidade.
Os que pereceram ficaram abandonados na história que a humanidade teimava em esquecer, mas não à sabedoria do Senhor que, ao assistir a todas estas coisas entristeceu-se.
Deus a observar todas estas divisões criadas pelo próprio homem verificou que a dispersão de Babel continuava a acontecer, e até se acentuou, apesar de todas as obras conquistadas pelo homem.
Apesar de tudo nem todos se dividiam e aqueles que procuravam a união para combateram a praga enviada pelo Senhor, fizeram-no com toda a ciência e força que a condição humana permitia. Deus compadeceu-se dessa gente inconformada escrevendo o nome deles todos no livro da vida.
Ainda existiam outros, que, parecendo alheios à peste, colocaram os olhos nas estrelas e partiram para o Cosmos em máquinas que desafiavam o entendimento. Esses, olhando para a Terra a partir das estrelas perceberam a sua própria pequenez e decidiram explorar outros mundos vazios para se engrandecem. Por isso enviaram para esses mundos distantes outras máquinas capazes de escutar, ver, pensar e imitar o homem na sua curiosidade. Deus olhou para estas máquinas com interesse e comparou-os a Adão e Eva a habitar o Paraíso, inocentes como crianças, ainda sem a percepção do pecado.
Os homens estavam a imitar a Sua própria criação. Tal como em Babel isso podia ser entendido como desafiar a Sua Santidade, no entanto o Senhor decidiu que não valia a pena castigar os homens ainda mais, pois eles já se castigavam a eles mesmos pela ausência de união.
segunda-feira, março 08, 2021
Nunca te questionaste assim?
Já te aconteceu acordar de manhã sem saber quem és, ou onde estás?
Despertar sem memórias numa espécie de vazio incógnito onde não existe mais nada a não ser uma interrogação?
Sabes, aquele momento, enquanto os olhos absorvem a primeira luminosidade, adoptam um instinto inicial e arrastam consigo os restantes sentidos. O corpo, letárgico pelo sono, recupera os movimentos que o adormecer quedou. As recordações começam a surgir como um manual de instruções para o teu próprio ser.
Deram-te um nome e por isso deves ser assim conhecido. Fizeste isto portanto é suposto fazeres aquilo. Gostas destas coisas, logo tens de odiar aquelas. Tudo isto surge num repente empurrado pelos instintos humanos e nunca questionas se todas estas obrigações fazem sentido. São como ordens para cumprir devido a um suposto passado. Para isso acolhes, um pouco de consciência que te é fornecido para completar esses desígnios.
É estranho não é?
Por vezes parece existir qualquer coisa de irreal no viver. Uma imposição autoritária sobre a nossa pessoa. Toco-me mas não me sinto eu. Olho-me mas não tenho a certeza que aquela figura seja a minha.
E se for tudo mentira?
Nunca te questionaste assim?
Se tudo que julgamos verdadeiro não passa de um mero figurino numa tela em movimento?
Talvez tudo faça sentido para alguém, ou para algo, que não suporta o fardo da carne humana. Uma divindade cósmica que as civilizações têm errado em denominar acertadamente. A história daqueles que se apoiam sobre duas pernas é pequena e responde a muito pouco quando comparada com todo o desconhecido.
Aqui, nesta terra onde habitam os que pensam, sentem e sonham, sobra a inquietação a quem ousa perguntar sobre o que é de facto real.
Tu sabes a que me refiro?
Talvez nada seja o que parece ser. Se não fosse assim porque havia o ser humano de questionar se existe algo mais para lá dos sentidos?
Talvez tudo seja o que parece ser. Mas às vezes é tão pouco não é?
terça-feira, março 02, 2021
As mulheres sabem estas coisas
Lá dentro as luzes estão todas ligadas, como se quisessem enganar a noite. Ela observa com curiosidade. Está indecisa se deve entrar para o conforto do interior da casa ou, permanecer cá fora enquanto a penumbra cresce e o fresco lhe arrepia a pele. É como escolher entre a ilusão e a verdade. Ter, ou não, medo da fogueira onde as bruxas ardem.
Abraçou o próprio torso para sentir algum calor. Levou o pé atrás e recuou. Foi-se afastando das janelas iluminadas exageradamente. Escutava as vozes dos outros lá dentro em conversas entusiasmadas e sentiu que não era ali o seu lugar.
Virou-se para encarar o céu escurecido onde as primeiras estrelas começavam a cintilar. Sentia o chamamento. Sabia que a sua condição de mulher lhe dava acesso a sentidos não explorados pela ciência. Contudo, no seu âmago conhecia-os bem. Era capaz de ouvir algo que cantava na natureza. Sabia segredos que se mantinham ocultos. Coisas indizíveis que moldavam a sua silhueta e a sua mente feminina.
Foi caminhando pelo jardim, para longe da azáfama da casa. Olhou para o horizonte que misturava os montes à distância com a tela do firmamento. O contraste com as cores do dia parecia ocultar uma mensagem. Resolveu fazer uma prece silenciosa. Uma oração sem louvor, pedidos, ou agradecimentos. Rezar deve ser como uma viagem ao conhecimento do mundo antigo, à origem do inefável.
Tirou as sandálias veranis, para sentir melhor o chão que pisava. Soltou os cabelos e abanou-os como uma bandeira. De repente já não era ela. O frio tinha desaparecido e uma liberdade nua tomou conta de si. Sorriu, sem saber porquê, embora conhecendo o motivo. A lua cheia surgiu devagar por detrás da sombra em que a floresta se escondia.
A noite é feminina, tal como a lua, a floresta e toda a natureza que a acolhia.
Houve um silêncio profundo que parecia de reverência. Talvez só tenha durado uma pequena fracção de segundo. Contudo, ela não se importava com o tempo ou a sua duração. Ali não havia relógios e nem faziam falta. O tempo é o que se sente e deve ser medido pelo pensamento, não por uma máquina.
Alguém gritou pelo seu nome ao longe. Chamaram-na com voz de gente e perguntaram se não queria entrar. Sentiu-se importunada mas não se irritou. Os outros só conheciam o tempo que os ponteiros do relógio mostravam. Não quis explicar aquele momento só seu. Limitou-se a responder - Já vou!
Mas antes de ir demorou. Contemplou a lua mais um pouco enquanto esta subia até ao trono da noite.
O sol estava escondido, mesmo assim emprestou-lhe o seu brilho do outro lado do escuro. O universo tem esta dualidade: masculina e feminina. Contudo, faz com que ambos se encontrem em jogos de sedução. Esta verdade está presente em muitas das linhas que tecem a realidade e ela estava feliz por conhecer este segredo.
Foi caminhando sem pressa, com passos meditados para que a textura do solo se entranhasse nos seus pés descalços. Aproximou-se das janelas iluminadas. Escutou os outros que conversavam como quem dorme.
Ela também era dali: fazia parte da gente que vive no mundo, com casas, notícias, televisões, política e coisas que a sociedade tem. Não podia fugir desse propósito com que a condição humana a cingiu, portanto tinha de entrar. Colocou a mão na maçaneta e rodou.
Quando abriu a porta da casa o silêncio calou-se.
A noite tinha ficado lá fora.