quarta-feira, junho 15, 2022

A brutalidade (O Narrador XV)


Já acordaste? Vê lá se te despachas porque estão-te a chamar.

Sim, sou eu, o teu Narrador! Estou de volta para traduzir em palavas os teus sentimentos mais agrestes.

Queres saber porque te vim acordar? É preciso escrever sobre “a maior lição que a vida te deu”. Não olhes assim para mim. O tema pode ser difícil, ou melhor, demasiado abrangente. Mas tu és capaz! Afinal de contas, já aprendeste tantas.

O sono das ilusões pode ser profundo. Existem até pessoas incapazes de despertar para a realidade. Sabes que doi. É uma coisa cruel! Bruta! Violenta! Completamente diferente daquilo prometido na infância pelos adultos. Grandes mentirosos! Sim, eu sei, não devemos usar tantos adjectivos, no entanto, o Narrador sou eu e escrevo como me der na real gana. As coisas são como são e as palavras existem para serem ditas. Mesmo que a verdade seja pesada demais!

Vamos lá! Não queres que comece aqui a bater tachos e panelas para te dar ânimo! Upa! É preciso escrever, mesmo com a alma a doer! (Olha rimou. Lembra-me para depois escrever um poema.) Adiante.

Qual é a lição que vais escolher: que a juventude não dura sempre? Que não somos imortais? Que os sonhos não são fáceis de alcançar? Que o amor dói? (isso acontece a todos) Outra coisa…

Sobre a amizade! Acertei?

Não me critiques por excesso de ques no texto. Eu sou só uma espécie de alter ego criado pela tua mente para dar aos teus pensamentos a capacidade de serem expressos por palavras. Talvez tenha alguma autonomia na minha própria vontade, mas sou só o Narrador da tua vida. Nada mais. Contudo, assumi esta missão de forma genuína. Não é suposto que escreva de maneira chique, mas sim, que deite cá para fora aquilo que te atormenta.

Bem, já acordaste qualquer coisa, ou pelo menos parece. Já consegues abrir os olhos. Hora de trabalhar, ou melhor, escrever. Vamos voltar ao tema central deste texto. Como a amizade pode ser falsa!

Tanta moral que anda por aí a pregar o valor da amizade. “Todos juntos vencemos qualquer mal” e coisas assim do género. Tretas inventadas para dar corpo aos argumentos de desenhos animados e histórias da carochinha.

Portanto, resumindo, lá estavas tu, com o futuro todo pela frente. Sem medo. Com a força toda dos heróis. Parecia um palco e tu lá no centro, para ser a atração principal numa peça majestosa. O cenário estava pronto. Era lindo. Os amigos estavam lá na plateia para bater palmas pela tua glória. Não havia nada que pudesse falhar, mas falhou! 

Sem saberes como, desmoronou tudo em cima de ti. Foi num instante. Sem avisar. Quando deste conta estavas debaixo do peso do entulho. Já não havia palco, só ruínas!

Ok, foi só um contratempo. Estavas de rastos, sem forças, ainda assim, não te faltava a esperança. Era altura de apelar aos valores da entreajuda, os mesmos que julgavas indiscutíveis. Chamaste pelos amigos que certamente viriam em tua ajuda. Afinal, nada podia parar a força da amizade!

Esperaste. Estavam a demorar. Esperaste mais um pouco e nunca mais chegavam. Continuaste a esperar. De vez em quando surgia uma voz a dizer “já vou”. Sem nunca vir. E tu esperaste…

Ao longe podias vê-los e escutá-los, ocupados com a sua própria vida cheia de alegrias, onde não havia cenários desmoronados, muito menos o teu nome presente nas conversas. Desviavam o olhar da tua direção com desdém. Como quem sente nojo. Talvez porque a consciência lhes doesse, ou porque a verdade sobre a fragilidade humana era violenta e cruel. O azar calhou-te a ti e o que eles tinham a ver com isso? Nada! 

Por causa desta lição, concluíste: A amizade é uma mentira!

Agora sobravas tu. Aos poucos, na tua solidão, foste afastando o entulho. Lambeste as feridas e continuaste. Depois, com a bagagem cheia de cicatrizes, já eras outra pessoa. Não tinhas amigos e não te faziam falta. Os outros, quem nunca veio para te ajudar, ficaram lá no passado. Foram material didático para uma lição bem dura.

Foste encontrando outros. Não exactamente amigos, mas companheiros de viagem temporários. Cada um com o seu destino, contudo, respeitavam-te, bem como tu a eles. Seguiram juntos enquanto os trilhos se juntavam, depois, separavam-se com um sorriso e um agradecimento. Ocasionalmente, um “até já”. Sem obrigações nem espectativas. 

Olhas agora para ti, um ser eremita assumido, com um grande orgulho nisso e outra tanta dose de amargura. Ergueste-te sem ajuda de supostos amigos e fizeste da solidão a tua maior força e companheira. Tornaste-te quase uma criatura misantropa, não por vontade própria, mas por imposição das ilusões da sociedade.

Talvez estejas a ter uma postura injusta, nem todos são assim. Apesar de tudo ainda tens alguns amigos e de certa forma mantêm-se fiéis, mesmo a conhecer essa tua mágoa. Lá encontram um pouco de empatia para te compreender. No entanto, já é tarde demais para reparar o dano, porque "o mal feito pelo homem não pode mais ser desfeito". Dás na mesma medida que recebes. Sem nunca esperar grande coisa em troca.

Essa é uma das lições mais duras que a vida te deu: a amizade é relativa, oportunista e falível. Só podes confiar em ti. Tão simples e tão triste quanto isso.


Texto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita 


sábado, abril 30, 2022

Duas Dimensões

– Achas que o gajo se drogou para pintar isto? – perguntou enquanto olhavam para o quadro, como se fosse uma tela de cinema.

– Não. Provavelmente viu uma pizza cair na esquina de um móvel qualquer e ficou com esta ideia em mente – respondeu enquanto comia mais uma pipoca.

– Uma pizza em formato de relógio?

– Não… – Riu-se. – Uma pizza redonda como as outras. Os relógios também são redondos, juntou as duas coisas e a ideia nasceu assim. As ideias aparecem dessa forma, ao juntar memórias.

– O Salvador Dalí devia ser do signo Peixes – comentou ao encher a mão de pipocas.

– Lá vens tu com os signos. Os Peixes não são os únicos capazes de criar surrealismo.

– Em matéria de criatividade os Peixes estão no topo da tabela do zodíaco. 

– Já vou ver – bufou. Mastigou mais umas pipocas, pegou no telemóvel e consultou a internet. – Nada disso. Onze de Maio. É Touro –concluiu.

– Então é uma surpresa. Não sabia que os Touros também fazem arte. Adiante. Gosto como de uma coisa em duas dimensões consegue representar um ambiente em três dimensões. Faz-nos viajar com a mente – reflectiu entre os estalidos do seu mastigar.

– É pena não conseguimos entrar lá dentro. Gostava de saber como funcionam as leis da física naquele sítio. Será que algum cientista já ponderou esse estudo?

– Lá estás tu a divagar. Isto é uma obra de arte, a ciência não tem nada a ver com isto. É para observar e pensar.

– Pensar no quê? – O balde de pipocas já começava a mostrar o fundo.

– Como a vida tem os seus limites e através da arte podemos tornar o irreal possível.

Nesse momento a conversa foi interrompida. Dezenas de polícias armados até aos dentes irromperam pela casa adentro.

– Mãos no ar, vocês estão presos pelo roubo no quadro “A Persistência da Memória”!

Riam como crianças enquanto obedeciam às ordens.

– Pois! Conseguimos roubar e só agora é que nos apanharam! E isto porque nós mandámos a carta com a nossa morada! – Riram-se ainda mais enquanto os polícias puxavam das algemas para os prender.

– Espero que a comunicação social esteja lá fora. Queremos ter o nosso momento de fama! – Gabavam-se com orgulho por terem conseguido fazer aquele assalto. – Considerem esta a nossa obra de arte!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


terça-feira, abril 05, 2022

Sonho voador

 «Hoje é um dia memorável para a jovem República Portuguesa!». Os jornalistas presentes escutavam as palavras do novo Presidente da República, embora dividissem a atenção com o receio da plataforma onde se encontravam cair, pois ela elevava-se cada vez mais no ar como por magia.

O político, de pose orgulhosa, exibindo o seu bigode perfeitamente enrolado nas pontas, continuou a preferir o discurso triunfante. «Guardem na memória esta data na Primavera de mil novecentos e onze. Provamos, com esta tecnologia, sermos capazes de dominar os céus, tal como já fizemos com os oceanos e é com grande euforia que os convidei para esta viagem inaugural.» Apontou vitorioso para o navio alado, ornado com a bandeira Portuguesa, enquanto este se ia erguendo sempre mais alto.

Fez-se ouvir uma salva de palmas por parte dos convidados rendidos à admiração. O presidente chamou o engenheiro responsável por aquela majestosa máquina voadora. Era um rapaz bem vestido, sem qualquer tipo de pelo facial, algo raro naquela época. Mostrava-se envergonhado pelos aplausos. Agradeceu e explicou: «Os meus pares afirmam que motores de combustão são o futuro dos veículos de transporte, mas eu e a minha equipa conseguimos provar o contrário, nós tornamos o motor a vapor muito mais eficiente. Basta uma pequena chama de uma vela, ou mesmo um fósforo, para aquecer toda a caldeira de água. Não precisamos de ocupar espaço com combustíveis, podendo voar durante semanas e até meses. Aquece em pouco tempo e todo o calor gerado é aproveitado, maximizado e utilizado sem desperdício. Vossas excelências podem comprovar por vós mesmos. Por baixo do navio existem bolsas de ar quente fazendo-o subir como um balão. Quando chegarmos à altitude certa, aí sim, os motores vão ser ligados e fazer este magnífico navio alado, a que demos o nome de Dom Afonso Henriques, chegar ao seu destino, do outro lado do Atlântico, no Brasil.»

Os convidados e os jornalistas já começavam a ganhar um certo medo por estarem de pé em cima daquelas enormes asas triangulares. Para lá de possibilitarem o voo, também serviam de plataforma e de varanda, onde as pessoas apoiadas no corrimão podiam observar o mundo lá em baixo. Indiferente aos receios engenheiro continuou a explicação: «Também, devido ao seu desenho aerodinâmico ele pode planar como uma ave durante centenas de quilómetros, tornando-o impossível cair!» Ouviu-se mais uma grande ovação, sendo interrompida pela voz projectada nas cornetas de comunicação.

«Senhoras e senhores, daqui fala o vosso capitão. Chegámos à altura limite de segurança exterior e vamos preparar o voo a grande altitude. Pedimos a todos que entrem a bordo.» Eram dezenas as pessoas a passear pelas asas daquela embarcação aérea peculiar, com um formato pontiagudo na dianteira. Estavam maravilhadas por pairarem acima da cidade, com os habitantes a olhar para eles lá de baixo, perplexos.

O engenheiro indicou o caminho e, para alívio de muitos, entraram de forma ordeira, ocuparam os seus lugares nos quatro pisos do navio, divididos por áreas de lazer, descanso, suites, gabinetes e simples lugares de passageiros. Com todos já instalados no interior, ouviu-se o vapor a circular nos canos e os potentes motores começaram o seu trabalho, propulsionando a enorme aeronave pelo céu dentro, até chegar acima das nuvens. Os viajantes aproximaram-se das janelas, maravilhados pela paisagem. Era mágico. Assistiam a algo que acreditavam ser impossível. Muitos até julgavam estarem num sonho. Todos, sem excepção, elogiavam aquela máquina revolucionária.

Alguns graduados militares aproximaram-se do engenheiro, propondo, dada a capacidade de voo do navio alado, poder largar bombas sobre qualquer país inimigo a partir daquela altitude. O engenheiro declinou e afirmou: «O objectivo desta criação é unir o mundo e não destruir.»

Mais uma vez o capitão falou pelas cornetas: «A partir daqui vamos continuar a nossa viagem a planar, sem usar os motores, nem mais nenhum tipo de combustível, a não ser água e uma pequena chama acesa. Desfrutem a viagem.»

E assim, o ‘Dom Afonso Henriques’, imponente e seguro, tal como um pássaro totalmente confiante nas suas asas, atravessou o oceano Atlântico, por cima de todos os outros navios que navegavam pelo mar. Portugal voltava a fazer história conquistando desta vez os céus!


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


quarta-feira, janeiro 19, 2022

Sorrateiro e invisível

Olhou para o espelho durante alguns momentos, o mesmo para o qual tinha olhado antes daquela noite em que tudo mudou. Recordou-se das feições, da roupa que usava, do entusiasmo que sentia, mas principalmente da inocência daquele tempo em que a juventude era a sua imortalidade. Abandonou esses pensamentos e focou-se no agora. Abriu a porta de casa e observou a azáfama da cidade. O escuro já se fazia sentir, contudo era disfarçado pela iluminação das ruas. Parecia que continuava a ser dia a julgar pelo tamanho da multidão.

Saiu. Misturou-se entre eles. Era apenas mais um rosto entre tantos. Deslocava-se com rapidez, como um espectro. Uma sombra que surge no canto do olho e desaparece de imediato. Conhecedor da vida nocturna da cidade, depressa encontrou um trajecto que o levou aos becos menos movimentados. Sabia o seu destino e chegou até lá com ligeireza. Agora só restava esperar na penumbra duma esquina.

Ela apareceu. Uma mulher tão bonita. Cheia de juventude e de sonhos. Inocente, tal como ele já foi, sem saber o que a noite esconde.

Observou-a. Trazia um sorriso leve e vestia-se com tonalidades coloridas, como sempre. Era perfeita. Sabia isso desde o primeiro momento em que a viu e confirmava-o a cada vez que a seguia, pelas ruas da sua rotina que conhecia tão bem.

Aproximou-se por trás dela. Sorrateiro e invisível. Ela não o percebeu. Nunca o tinha percebido mesmo depois de ele o ter feito inúmeras vezes, como um ritual quase sagrado. Silencioso, chegou-se cada vez mais perto, a escassos milímetros. Podia sentir o perfume e o calor que emanava do corpo dela. Contemplou-lhe o pescoço longo, com a linha da jugular a insinuar-se entre o cabelo que dançava a cada passo que dava. Tão linda, tão perfeita, em cada gesto e cada traço.

Era difícil resistir à atração. Chegava a ser violento saber que podia tomá-la facilmente. Uma mão na boca silenciava o grito. A outra arrastava-a pela noite dentro. Podia ser dele. Toda dele. Mas hoje não… Como todas as outras vezes deixou-a ir. Amanhã voltava novamente para a idolatrar, seguindo-a em segredo e nas sombras.

Regressou a casa e olhou novamente o espelho. A ausência de reflexo incomodava-o. Restava-lhe a lembrança da sua imagem dos tempos em que era um jovem. Só isso. Um pequeno vínculo que o ligava à humanidade.

O dia aproximava-se e o vampiro abandonou aquelas memórias. Era hora de descansar. Talvez na próxima noite não fosse capaz de resistir à sede, ou talvez continuasse a fingir que também ele podia amar.


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


sexta-feira, janeiro 07, 2022

Coisas escritas

O Universo é uma narrativa escrita pela mão mágica dum criador.

Uma divindade estranhamente infantil.

Um Pai Cósmico de imaginação fértil,

Que, na sua fantasia infinita desenhou o mundo, do qual se fez editor.

E assim nascemos nós, como palavras escritas.

Vidas contadas entre derrotas e conquistas.

Curiosos, também ansiamos por criar histórias entre a dor e o amor.

Fazemos do mistério a nossa liberdade,

Traduzimos para palavras a nossa curiosidade.

Esquecemos as personagens que somos e ansiamos por algo maior.

Crescemos até ao expoente do pensamento,

Criamos Universos pela caneta do sentimento.

Nós, as palavras, o criador, rivais no mesmo carisma impulsionador!

Porque a imaginação não pode ser calada.

A inquietação jamais pode ser travada,

Sem medo do falhanço as histórias vivem pelas mãos de qualquer autor!

Sina desassossegada, sem nunca terminar.

Universo que acontece com tanto para contar.

Ideias que nascem como infinitos, paridas por gente, ou algum Deus escritor…


Poema elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita


quarta-feira, janeiro 05, 2022

O monumento

A minha alienação é magnifica
Um monumento erguido à decadência
No alicerce da minha inexistência 
Ergo com orgulho esta construção épica
Olho de longe pelo óculo da malicia
Um mundo devotado à ignorância
Entrego-me ao conforto da preguiça
Dou aos homens a minha ausência 
Ofereço-lhes a minha negligência 
Paridos sem bom-senso e sem lógica  
Do ventre analfabeto da violência 
Deixo-os ir na torrente da demência
E guardo para mim o que a vida tem de mágica

quarta-feira, dezembro 15, 2021

Amor em tempos modernos

Ele teve o azar de nascer um tipo romântico! As mulheres é que deviam ser românticas e não os homens. A emancipação do sexo feminino trouxe muitas coisas novas, incluindo falarem e praticarem abertamente as suas fantasias. Obviamente que ele não se opunha a este direito essencial, mas ele era apenas um tipo romântico, não percebia nada de taradices. O que ele queria do sexo, pouco mais era do que a posição do missionário e dormir enroscado com a sua amada. Tão simples quanto isso. No entanto, para mal dos seus pecados, a sua namorada era uma pervertida escondida atrás das suas boas maneiras e óculos de leitora compulsiva. Isso levou-os até aquele momento. Afinal de contas o que é que ele percebia de BDSM!?

Alguém se lembrou de escrever um livro chamado ‘As Cinquenta Sombras de Grey’, que deixou as mulheres todas a fantasiar com sadomasoquismo. A namorada dele também leu, gostou e quis experimentar. Insistiu tanto que ele teve de ceder. Agora olhava para o corpo despido dela amarrado na cama, deitada de barriga para baixo, vendada e amordaçada, com o traseiro exposto à sua mercê.

Debaixo da mordaça ela conseguiu exprimir algumas palavras, que mais pareciam grunhidos: “Quando é que começas”!?

Ele engoliu em seco. Não tinha a certeza se tinha coragem para fazer aquilo. Talvez fosse a fantasia de muitos homens, mas não era a dele. Contudo perguntou: “Preparada?”. Ela soltou um sim abafado. Ele subiu o braço e deu a primeira chicotada, sem qualquer reação da parte dela. Bateu mais algumas vezes sem que ela reagisse.

“Cebola!”, acabou por gritar debaixo da mordaça. Era a palavra-passe que tinham combinado para um caso de urgência. Pensou que era uma palavra estranha. Mas se ela gritou é porque algo estava errado! Apressou-se a soltá-la das amarras. “Estás bem?”, perguntou preocupado.

“Que diabo estás tu a fazer?”, respondeu extremamente irritada. Ele encolheu os ombros sem perceber o que se estava a passar. Ela levantou-se bastante incomodada e pegou no chicote que ele usou. Viu com estranheza que não era o mesmo que tinha trazido consigo. “Não acredito que me chicoteaste com um fio de lã”.

“Mas o chicote ia doer muito! Por isso fiz esse de lã para não doer…”, respondeu confuso.

“A ideia é essa! Agora vou eu mostrar-te como se faz! Tira a roupa!”, ordenou ela furiosa.

Ele estava atrapalhado, mas obedeceu prontamente. Ela atirou-o para cima da cama e colocou-o na mesma posição em que ela estava antes, deixando-o totalmente à sua mercê. Amarrou-o severamente e amordaçou-o, enquanto proferia palavras brutas. “Agora vais ver como se faz!”, resmungou ela, dando-lhe uma forte palmada no traseiro. Estranhamente ele achou aquilo tudo muito excitante.

Depois, sem qualquer sinal de aviso ela usou o chicote verdadeiro e... “FWWIIIIP”! Fez-se ouvir o som do cabedal a atravessar o ar.

A partir daqui, acredito que não vale a pena descrever o resto da cena. Passo logo para o dia seguinte. O nosso amigo romântico estava vigorosamente feliz. Isto, apesar dos colegas de trabalho repararem que ele estava com dificuldades em sentar-se…

É assim o amor dos tempos modernos!...


Conto elaborado para um desafio de escrita do site: Laboratório de Escrita