segunda-feira, novembro 02, 2020

A rotina também tem história

Hoje é um dia em que não acontece nada de especial. Em quase tudo é semelhante a todos os outros em que também nada de relevante acontece. Levanto-me da cama como sempre. É dia de trabalho e por isso saio para cumprir a minha rotina. 

Na casa do costume os cães ladram ruidosamente à minha passagem. Tento fazer-lhes festas mas eles não desistem de proteger o seu domínio com latidos agressivos. Mesmo assim cumprimento-os como se fossem gente e continuo o meu caminho. 

Do outro lado da rua dois homens aparam um um arbusto, a meio de uma conversa tão sem sentido, quanto hilariante, dada a falta de conhecimento sobre as artes da política que eles tanto criticam. As mesmas que comentavam com a mestria de quem compreende a melhor forma de governar o mundo, sendo, na ideia deles, capazes de manter o povo satisfeito em todos os seus sectores. 

O caminho é o mesmo, os rostos com quem me cruzo são iguais, as saudações repetem-se. Mudam-se as roupas, também algumas cores no cenário, mas pouco mais. O trajecto não tem nada de especial. 

No trabalho a senda é a mesma, sem outra vontade, a não ser aquela de que o dever tem de ser cumprido em troca de um salário. 

Depois volto para casa. Pelas mesmas ruas, pelos mesmos caminhos. Abrando um pouco a velocidade e assobio uma melodia qualquer para tentar criar algo de minimamente empolgante na minha vagareza, embora sem sucesso. 

Chegado ao meu lar, encontro os mesmos rostos, aqueles com quem escolhi partilhar o fado de viver. Dou-lhes todo o afecto na conversa de circunstância que acompanha os afazeres diários. 

Já quando a noite chega, surge o cansaço da labuta que, imperceptível, sem que eu tenha reparado nele, força o meu corpo a descansar. Não tarda o sono chega sem chamamento. 

Prepara-se assim a madrugada, onde dorme o homem e acorda a consciência, para que um dia banal, como este, se transforme em palavras que não o deixam cair em esquecimento.


terça-feira, outubro 27, 2020

Tu que pregas


Vai-te embora!

Não tens fantasia

Não tenho paciência para gente vazia

Sai daqui agora!

Vai-te sem demora!

Não suporto essa voz que me entedia

Não me prometas uma vida mal parida

Tens uma alegria castradora!

És de uma banalidade avassaladora!

Não cheiras a poesia

Não me sabes a companhia

Em raiva açoito-te com uma vara!

E como um bicho escorraço-te daqui para fora!



quinta-feira, outubro 22, 2020

Peças de lego

Por vezes imagino-te como um ser transexual. Dividido em múltiplas identidades, livres de qualquer estereótipo ou preconceito. Corpo desenhado numa aparente confusão assexuada sem pudor, nem o mínimo objectivo de fazer qualquer sentido.

Desmonto-te e remonto-te com novas peças coloridas nos vários tons de pele, partes masculinas e femininas, transgénero. Gordura e magreza; fealdade e beleza; perfeição e grotesco. Acrescento também partes de bichos como nas lendas de outrora. Reinvento-te de todas as maneiras possíveis e imagináveis, como uma criança brinca com lego. 

Suponho que é assim que Deus monta todos os seres humanos, como um brinquedo com peças de encaixar. Imagina, constrói e dá vida à sua história. Nós, variações da mesma personagem reinventada vezes e vezes sem conta. Aparentemente conscientes no comando dos nossos julgamentos. 

Depois, refugio-me a ponderar sobre estes meus pensamentos estranhos e sobre aquilo que verdadeiramente nos define como humanos. Um pedaço de software instalado num hardware. Um robô de carne e osso a tomar decisões estabelecidas pela programação matemática designa o nosso suposto livre arbítrio. 

Recentemente li um estudo que dizia que o cérebro toma as decisões mesmo antes de termos consciência delas. É tão estranho! 

Claro que estas conclusões tiram toda a ideia de romantismo à existência. 

A própria ciência diz que o futuro já passou, nós, simplesmente é que não nos lembramos dele. Isto deixa-me a questionar: porque é que eu tenho compreensão de mim mesmo? Se afinal tudo já está pré-programado e até acontecido. 

Qual é o sentido, para alguém que não passa de um figurante num jogo cósmico, ter noção de si mesmo?

Apesar de tudo gosto de acreditar que nós somos algo grandioso. Tu e eu como um só e tudo o resto como nós. Tão gigantes como o pó e tão pequenos como as estrelas! 

O teu corpo feito de tantos outros, baseado numa única ideia. Todas as bocas vão dar à tua alma pelos caminhos do prazer e da dor. Eu húmido, tu erecta, na mistura dos sentidos para lá do que o corpo dita. Engolidos pelo fascínio daquilo a que chamam amor. 

Encontramos a nossa casa no que é bizarro. Fugimos pelas veredas do impossível e ficamos no mesmo lugar, cingidos à nossa aparência, sem que nada mais importe apesar de tudo importar!


sábado, outubro 17, 2020

Conjugar


Está morto o verbo amar
Calado
Chorado
Faleceu de tanto se entregar
Adormecido
Aniquilado
Até que um beijo o fez ressuscitar
Atraído 
Encantado
Erguido com um breve olhar 
Revivido
Deslumbrado
Conjuga-se o verbo amar
Infinitamente apaixonado
Anuncia por todo o lado
Que ninguém o pode matar 
Nem desmembrado
Ou castrado 
O eterno verbo amar

quarta-feira, outubro 14, 2020

Os outros são um lugar longínquo

As paredes claustrofóbicas, sempre iguais, na mesma cor, no mesmo tamanho, nas mesmas janelas com o cenário imutável, impelem-me para o exterior. O sol brilha, porém, a sua cor não é suficiente para me aquecer com alegria. 

Percorro as ruas vazias de gente e de ânimo. O vento outonal parece manifestar fisicamente a solidão que me atormenta. As árvores teimam ainda em não se despir nem pintar as suas folhas com os tons quentes da estação. Também elas querem combater o calendário e manter a ilusão do verão na sua aparência. 

O calor parece amenizar qualquer tipo de desalento que possa tentar domar o espírito. A existência carente procura algo que a aqueça, seja no clima, no amor, na arte, ou na beleza, ou em tantas outras artimanhas que o ser humano encontra para dar algum sentido à sua vivência. 

A fantasia talvez me alegre se mais nada me cativar. Sei que lá, encontro sempre um refúgio onde a realidade não me alcança com as suas agruras. A criança existe novamente com a sua imaginação como companheira. Voltam as brincadeiras da meninice e os ralhetes dos adultos pouco importam. Quem manda agora sou eu "o grande". Soberano de toda a diversão mesmo que ela não exista. 

A ânsia de não sei quê pede-me um escape para não sei onde. Os outros tornaram-se um lugar longínquo. Abandonaram-me sem amor, causas, ou conformidade. Eu também não os procurei, entendi isso como um alívio ao fardo de ser gente. Contudo, atormenta-me saber que também sou como eles. Criatura embrenhada no sentir.

Toda a poesia que possa escrever não me afasta da herança que recebi da história deles como sociedade e inquieta-me saber que assim devo continuar. Indicam-me sem questionar as regras que devo seguir. É isso, ou o desassossego. Não há meio termo.

Escolhi, portanto, questionar: quem sou? Tal como todos os significados deste mundo. Mesmo em constante tumulto decidi acreditar em mim mesmo e consumir todos os sentimentos. A curiosidade não me deixa sossegar. Desejo o que está longe e só assim me compreendo. Pouco mais importa…


terça-feira, setembro 29, 2020

Simetria entre opostos


Já reparaste que tudo é resultado de um equilíbrio entre as forças cósmicas deste mundo. As estrelas mantêm-se a brilhar no firmamento devido à perfeição matemática da criação. Todos os corpos celestes existem em harmonia pela métrica imaculada do universo.
Acredito que o segredo da felicidade consiste na simetria entre opostos. O amor e o ódio; a raiva e a serenidade; o luxo e a pobreza; o pesado e o leve; o belo e o feio… Enfim, todas as dualidades opostas com o mesmo peso na balança. 
O caminho do centro é o certo. Convém é que sejamos nós, com sinceridade, a avaliar as medidas. É aqui que toda a razão falha. Confiar essa missão a seres de instinto duvidoso, como somos, certos apenas da nossa verdade, é por si só, uma ideia condenada ao fracasso.
Há que saber que apesar de criarmos uma consciência que nos dá a ilusão de sermos seres individuais, não somos cientes, ou sábios, nem conhecedores de grandes segredos. Aquilo que sabemos não é nada em comparação com a imensidão do infinito. Uma piada perante a perfeição. Um ultraje até à mera ideia de criação.
Regressemos ao início, desde o chamado "big bang" a todos os acontecimentos que foram surgindo em cadeia para que estivéssemos aqui. Humanóides. Dois braços e duas pernas. Homens e mulheres. Cada um com o seu cérebro dito inteligente. Animais racionais a brincar às divindades, ou meramente à sobrevivência.
Desde o aparecimento da luz, que deu lugar ao firmamento, ao surgimento da dita civilização, aos amores dos teus antepassados, ao momento da tua concepção, ao teu parto, e culminar na tua história pessoal. Há uma grandeza exageradamente espectacular nisto tudo. Não achas?
Contudo, teimamos na incompreensão e vamos seguindo, ignorantes…
Os opostos atraem-se mas não se completam. Equilibram-se. Cada um dos seu lado da teimosia. Eu sou éter e tu és chão. A dimensão do pensamento em oposição ao horizonte do autêntico. Cada qual com a sua legitimidade, embora sem saber ao certo o seu lugar para que o equilíbrio se mantenha.
Depois, tudo se torna complicado. Uma excentricidade de doutrinas e ciências que vão tentando romper um caminho a que chamamos sabedoria. Um emaranhado de sentidos que apontam para todas as direcções: perfeitamente opostos e perfeitamente simétricos!

terça-feira, setembro 22, 2020

A ilha de "Lost"

Setembro é um mês agridoce. Tem no seu ventre o conforto caloroso do verão e em simultâneo abre as portas do outono e traz consigo os primeiros dias invernosos. No entanto esta história aconteceu no fim de um dia quente. Quando a noite começa a cair e as primeiras estrelas convidam a olhar o céu. 

– "Gosti" –  disse com uma certa meiguice que só ela sabia ter. 

– Como quem gosta de quê? – Questionou ele, não porque duvida-se, mas porque gostava de viajar nas palavras dela. 

– Como quem gosta da lua cheia. – Respondeu sorrindo, sem timidez. 

– Desenvolve. – Insistiu ele com alguma frieza, tal como seria interpretada por quem não o conhecesse.

– Daquelas gigantes que hipnotizam! – Concluiu ela.

– Já eu, gosto de ti como uma ilha deserta. Daquelas com praias fantásticas e florestas  supertranquilas. Mas depois, quando começamos a explorar, vamos encontrando vários mistérios cativantes. Tipo aquela ilha de "Lost". – Disse ele narrando as palavras de forma a dar corpo ao sentimento.

– Ganhaste no desenvolvimento. – Comentou ela refugiando-se no sorriso.

– Também podias ter desenvolvido mais. Se quiseres continuar eu não me queixo… – Lançou-lhe o desafio, apesar de saber que seria difícil obter a continuação, já que as suas confidências são raras.

– Agora não. Tenho de ir […]. – Deixou de a escutar no momento em que disse que tinha de fazer uma mundanice qualquer. As banalidades do mundo sempre foram demasiado aborrecidas para ele. Principalmente na companhia dela. 

Contentou-se com a resposta expectável. Já sabia que ela era assim, fugidia. Chega, deixa o mistério no ar e depois vai embora com um pretexto qualquer. Não se importou em demasia. Tinha conseguido que ela lhe oferecesse um pouco do seu tempo gratuitamente. Isso para ele era muito.

A conversa talvez continuasse depois, num dia qualquer, noutro momento em que a poesia estivesse presente na decoração da natureza. Ou então, quando os sentimentos tentassem enganar a inquietude e tomassem as palavras por escape.

Contemplou o anoitecer. Não é preciso ser poeta, ou artista, para interpretar a beleza das estrelas no céu a brilhar numa noite amena. Basta gostar da tranquilidade que vai surgindo como recompensa depois da confusão dos afazeres humanos.

De certa forma aquela conversa continuava, silenciosa e distante. Como tantas outras que aconteceram antes. Pintada no cenário sossegado da noite que cai e das estrelas que cintilam ao fazer viajar a imaginação...