domingo, fevereiro 19, 2017

Magnus pisces


Recebeste o dom de Peixes, mistério da tua constelação
Estrelas dançam a tua rebeldia
Na noite o firmamento irradia
Sentes o chamamento de tudo que não tem explicação
Essência aparentemente vazia
Gnose que habita na tua apatia
Como um eremita que se refugia na própria solidão
Olhas o mundo na luz da fantasia
Acreditas que o amor é energia
Guardas, em teus devaneios, universos de emoção
Um sorriso trazes por companhia
As sombras escondes com alegria
Não deixas que te imponham regras afetas da razão
Sem ciência a explicar a ousadia
Vives para domar a melancolia
Toda a tristeza do mundo não te amarga o coração
Dizem-te bruxo na tua sabedoria
Conheces os mistérios da magia
Encantas porque dominas com mestria a imaginação
Falas sonhos através da poesia
Cantas na voz calada da telepatia
Segredas, a quem sonha também, que tudo em ti é paixão

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Dia de S. namorar


Namorar

Deus criou as estrelas para sonhar
Noite quente a engrandecer
Palavras até amanhecer
Segredos cantados no sussurrar

Namorar

Deus criou o espírito para cativar
Química do nosso viver
Simples deixar acontecer
Olhar de infinito onde mergulhar

Namorar

Deus criou o verso para nos rimar
Timidez para vencer
Felicidade a conhecer
Sorrisos que abrem no encontrar

Namorar

Deus criou a beleza para narrar
Silhuetas a percorrer
Bocas chamam a morder
Rostos jovens viajam no beijar

Namorar

Deus criou a carne para a tocar
Sentir a pele a efervescer
Em fogo degustar prazer
Pintar no corpo a arte de amar

Namorar

Deus criou o ventre para gerar
Semente além do dizer
Plantada no transcender
Nascemos de galáxias a dançar

Namorar

Deus criou o tempo para passar
Romance para escrever
Poesia nesse descrever
A paixão criou o momento para o parar







quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Habitar outros pensares


Tenho um desdém absoluto por pessoas banais. Daquelas cujo único propósito na vida é esperar pela sexta-feira, sem pouco mais querer da existência. Contentam-se com as férias, o futebol, as novelas e outras tantas formas de entretenimento imposto. Dão-me asco!
Não suporto quem não é capaz de ter uma ponta de individualidade. Sem nada que os distinga verdadeiramente do resto da carneirada. Sempre que os encontro, arrumo-me para o lado para não sentir o cheiro a nada. Caso insistam na minha presença, enxoto-os a pontapé, como quem expulsa um enjeitado, gritando injurias no sentido mais bruto da ofensa.
Contudo, tenho de aceitar o facto que esta gente é essencial para completar o quadro da nossa sociedade. Pequenos pixéis, que sozinhos nada valem, mas em conjunto formam uma mancha enorme. Ao ponto que, pelo seu elevado número, constituem uma maioria que define a palavra normal. Nojo!
Ainda que, também eu, faça parte dessa imagem social e seja visto como mais um ‘quadradinho’ por quem se julga maior. Estes, lá porque são os primeiros dos carneiros, de mim nada sabem. Faço questão de me diferenciar, nos pequenos gestos, nas palavras proferidas, no meu próprio tempo, no caminho percorrido!
Assim segue o rebanho. Por vezes, protestam contra tudo. Mesmo contentes com a sua rotina e conforto, ao qual retornam depois de se queixarem a ouvidos que só escutam outras línguas. Lá ficam felizes porque a sua reclamação não foi ouvida e os seus hábitos ficaram iguais, tal como o futebol, as novelas, o dinheiro e o sagrado fim-de-semana. Se por acaso alguma coisa se altera, é tão ligeira que se compara com a insignificância.
Depois existem os outros. Os deslocados. Os 'semelhantes' que em nada se comparam a quem passa nesta romaria. Os eremitas, como eu, no esconderijo das suas particularidades, assistem a tudo como se tratasse de uma visão longínqua que pouco importa a quem habita outros pensares.
Tenho um desdém absoluto por pessoas banais, porque, no fundo, existe em mim o mais puro dos medos de me rever neles!

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Outras lembranças


O vampiro acordou.
Da noite apenas se lembrava de adormecer.
A luz entrava pelo quarto radiante. Levantou-se e foi até à janela. Sentiu o sol quente, o seu corpo quente, o seu sangue quente e suspirou.
Caminhou até ao espelho e observou a sua imagem. Demorou-se diante o seu próprio retrato. Tal como fazem os humanos, sentiu vaidade na sua figura.
Ouviu a azáfama lá fora. Era como se fosse um chamamento, por isso saiu à rua e viu-se rodeado por sorrisos de gente feliz que convivia alegremente.
Passeou-se entre as pessoas como quem se recorda com saudosismo da inocência de criança. Inebriou-se com o aroma daquele mundo colorido e deixou-se marear no entusiasmo.
De repente cruzou o seu olhar com outro rosto de traços femininos. Este dotado de uma beleza peculiar e de outra coisa não visível que não conseguia compreender.
Sentiu uma atracção imediata que o impeliu a aproximar-se. Contemplou a mulher. Era ainda mais resplandecente que todas as outras que passavam. Reconheceram-se de outras lembranças!
Uniram-se no toque. Do corpo dela emanava calor que o dominou como um veneno. Entregou-se àquele desejo. O abraço quente, o beijo quente, o amor quente…
O vampiro despertou.
Do dia apenas se lembrava de o sonhar.

segunda-feira, janeiro 30, 2017

O Nome de todos os Deuses


Em certa altura da minha vida, farto das imposições culturais que me pregavam e na esperança de um novo caminho espiritual, devotei-me a Morpheu. A ele, honrava-o sempre, com toda a glória da minha imaginação. Este, nunca me falhou, e certificava-se de que os meus sonhos eram combustível para a minha fantasia.
Assim aconteceu durante algum tempo. Foi-me alimentando de conhecimento enquanto crescia e entendia quem eu era. Até que, ele me achou merecedor de conhecer o seu segredo. (Ou o segredo de todos os deuses. Já que todos, seja qual for o nome que lhes dêem, as artes, as leis ou a pregação, são o mesmo Deus, manifestado de forma diferente conforme limitação da experiência humana. Talvez quereis entender isto como um segredo também.)
Nesse despertar, sussurrou-me o seu verdadeiro nome: Universo!
Foi então que todas as questões, aquelas que eu achava que me tinham sido respondidas, se tornaram em ignorância. Tudo que eu julgava conhecer transformou-se em muito pouco.
O infinito fez-se então o meu novo guia. Sempre com a certeza de que também eu, na minha ínfima existência, faço parte da criação e da sua essência. Uno com ele. Já que, na minha pequenez, sou parte integrante da sua imensidão. Irmão da carne, da terra, das estrelas, do tempo, da ciência, do desconhecido e da vida.
Nasci no momento em que tudo era nada para me tornar tão vasto como o cosmos, e ele, tão diminuto quanto eu. Sou filho da noite dos tempos. Este é o mistério da gnose, do qual eu comungo com o seu verdadeiro nome. Com o segredo da existência: o Universo!

domingo, janeiro 29, 2017

Linhas vermelhas


A espera.
O cheiro do cabedal implacável.
As correias que prendem o corpo.
A nudez.
A submissão.
Os sons que antevêem o martírio.
O medo.
O âmago que se abre em contrariedade.
O segredo.
A ânsia.
O quando?
O silêncio.
Está quase...
O admirar da silhueta.
A mulher.
O íntimo feminino.
A beleza.
O arrepio que nasce ao toque do dominador.
A perfeição da pele.
A iminência da profanação.
A mão firme que segura o cabo.
A perícia do pulso.
O assobio do ar a ser cortado.
O estalido na carne vandalizada.
O gemido que se cala no orgulho.
As linhas vermelhas desenhadas a cada golpe.
A intensidade.
A dor.
O prazer.
O grito que finalmente vence.
A conta que se perde.
O chicote que não se compadece.
Os traços que se multiplicam.
A tormenta que não cessa.
A clemência.
O implorar que fica sem resposta.
A paixão sem misericórdia.
O choro que suplica.
A força impiedosa.
A marca que vai permanecer.
A glória em cicatriz para toda a vida.
A luxuria.
A entrega.
A mão que ergue o rosto.
Os dedos que limpam as lágrimas.
A essência que reabre.
O beijo.
A recompensa.
O carinho.
O amor...

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Algures no inverno


Estou convicto de que em alguma língua do mundo a palavra ‘frio’ rima com ‘dor’. Maldigo o inverno mais profundo e toda a tristeza que traz com ele. O ar gelado e as cores cinzentas do desaconchego sempre à espera de sussurrar ao nosso ouvido o peso do descontentamento.
Ai de nós que fomos embalados no desabrochar da primavera e amamos no conforto do calor. Onde está nossa alegria?
A natureza tem os seus ciclos para que tudo se renove. Temos de a respeitar pela sua autoridade como nossa Mãe. Talvez por isso, com a sua mão carinhosa, nos faça enfrentar o desalento, certificando-se que sabemos louvar, como é devido, o sol e o amor.
Hoje a carne dói. O gelo entranha-se debaixo da pele e procura, decidido, um caminho para a alma. Não o deixo. O dia pode estar mais fraco mas não tarda a crescer. Aqui e ali vão surgindo sentimentos de ódio assinados com o meu nome. É a natureza humana. Não a nego.
Conheço a minha força. Aceito as minhas falhas, que vou tentando fintar. Creio que compreendo estas fases que por nós passam. São a nossa história, a nossa escola, os capítulos da nossa existência.
Sei quem sou, na certeza que sou feito de estrelas e palavras quentes. Galáxias de fantasia e um infinito de magia. Não me vou vergar ao medo, nem servir uma fúria parida por uma noite de invernia!