Aquilo que tomas por existir,
Não és tu.
É, somente, um amontoado de carne empilhada a que chamam corpo.
Tu és meramente uma figura observadora.
Sem o privilégio de nascer,
Sem o direito de morrer,
Estás do lado de fora, a bater à janela da realidade,
A gritar por quem te possa acudir.
Pois, do lado de cá estás a dormir.
Nem imaginas que estás aí a bradar por salvação, sem esta nunca chegar.
Não te recordas de adormecer,
Não te lembras de te esquecer,
Sabes que um dia foste um sonho, com ânsia de viver, como se fosses de verdade.
Mas a tua identidade é um esboço rabiscado em papel invisível.
Projeto falhado para nunca construir.
Uma ideia passageira, num segundo de criatividade infantil.
Só isso.
Sem promessas nem compromisso.
Moras, agora, na parte de trás do pensamento sem hipótese de fugir.
Buscas, entre um atulhamento de ilusões de todo o tipo, as linhas com que te desenhaste.
Mas não te encontras... Nunca te vais encontrar.
Nunca vais escapar.
Olhas.
Deste lado articulas movimentos.
Fazes coisas.
Gestos automáticos, indignos da superioridade imaginada ao crescer.
Banalidades, vergonhosas para a Divindade na qual te fizeram crer.
No entanto, aí estás tu.
Perante a criatura que és, neste mundo dos humanos a sofrer.
Dói-te algo que nem sequer tens.
Tu e tu.
Tudo e nada.
Duas faces inúteis da mesma fachada.
Vazio e dor.
Paz rasgada.
Aí dentro e do lado de cá, onde não acontece nada.
São uma infinidade de tantos como tu,
Sem conseguir passar,
A espreitar com amargor, pelo vidro da janela estalada.
Constantemente esmurrada,
Pelos punhos de cada devaneio sofredor.
Coro de gritos calados no peso do marasmo.
És um instante de ilusão.
São todos instantes de ilusão.
Tu, tu e tu!
Todos impulsos sem nome incapazes de aceitar:
Não há lugar para sonhos deste lado do cansaço!