quarta-feira, setembro 11, 2024

Aquecer a alma a rimar


Ventania de Setembro

Fim do Verão a anunciar

Paixões a terminar

Amores levados pelo vento

Dias breves a passar

Noites sem acalentar 

O calor cai no esquecimento

Tarde fresca a desanimar

Desassossego no pensar

Os inquietos entregues ao tormento

A caneta para aconchegar

Frases cruas a ansiar

Poetas a purgar o seu lamento

Deixam a mágoa no versar

Aquecem a alma a rimar

Enganam o entardecer cinzento 

No papel a escrevinhar

Sobre tanto atormentar

Esquecem que o sol continua atento

Tem cores para pintar

Espíritos a animar

O Outono traz contentamento

Amarelos a brilhar

Castanhos a cantar 

A harmonia demora o seu tempo 

Há que saber escutar

As folhas a esvoaçar 

No vento ainda existe alento


domingo, setembro 08, 2024

S. Paio dos augados


Uma mulher passou por mim e deixou-me curioso. Conduzia, decidida, uma pick-up. Foi uma visão demasiado fugaz para conseguir perceber mais pormenores. Apenas o suficiente para ler a linguagem corporal. 

Não reparei na idade, nem tão pouco nos pormenores do rosto. Apenas, pela sua postura, assumi ser alguém pertencente a um meio onde a subsistência provém do trabalho agrícola. Seria bom, poder fazer-lhe paragem para lhe perguntar: "Quem és tu? De onde vens? Fala-me de ti! Eu sou este que tu vês. Tenho tanta coisa dentro de mim". 

É um pouco triste, após estes encontros breves, não poder abordar ninguém na rua dessa forma sem parecer bizarro, ou ser confundido com um tarado.

Os outros, passam com roupas compostas dentro dos seus carros. Vão esvaziando a vila a caminho do S. Paio dos augados. À noite vão à festa ver um artista pimba qualquer, a dançar, ou com um copo de cerveja na mão, enquanto celebram o fim do Verão. 

Os jovens, esses, desinibidos pelo álcool, fazem amor pela madrugada dentro. Despedem-se assim do fim da despreocupação das férias grandes. Na próxima semana começa a labuta para todos e com ela as responsabilidades adjacentes.

Depois, sobro eu. Uma criatura observadora destas lides da gente banal. Sigo na direção oposta em busca de outra festa, onde não exista música popular, ou falta de sobriedade. Amaldiçoo e abençoo esta minha índole solitária. Encaro mais um dia nesta busca perpétua sobre o significado de existir no meio dos outros. Perdido. Em busca de me encontrar. Embora, com uma certeza firme, disso nunca vir a acontecer.

Passou a mulher da pick-up e já vai longe. Passou o Zé Povinho para o arraial e deixei-os ir. As ruas ficaram nuas, sem o som dos automóveis a poluir o asfalto, nem passos apressados na calçada ao lado. A estrada está assim despida. Ao ponto de se poder caminhar sobre ela sem o perigo do atropelo. Por aí continuo esta minha reflexão ocasional e sigo o meu caminho sem rumo.


segunda-feira, agosto 26, 2024

A malta do campo compreende


Ai de vós pecadores!

Deixem o vosso desejo lamentar.

A época das colheitas está a chegar,

O milho está ser levado pelos lavradores!

Alheios ao vosso desgostar,

Carregam as espigas a sazonar,

Com elas abertas enchem os tratores.

Levam também o apaixonar!

Afetos que cresceram ao veranear,

Na sombra fresca dos campos verdes,

Onde os lábios se puderam beijar,

Tantos jovens aprenderam a amar,

Nestes milharais escondidos dos olhares...

As mãos no corpo a explorar,

Pediu a carne para se desnudar!

Ficaram as terras repletas de despudores!

Ouvem-se as máquinas a cortar.

O vosso refúgio apaixonado a ceifar.

Ternura e deleite transformados em dissabores.

Deixam histórias para contar.

Prazeres secretos para lembrar.

Com as espigas arrastam os vossos amores...

Não fiquem a choramingar.

Outro Verão há de voltar.

Um novo campo cultivado pelos mesmos lavradores!


terça-feira, agosto 20, 2024

Maior do que qualquer imensidão


Sou uma alma antiga. Já viajei durante éons por incontáveis infinitos. 

Conheço ciências desconhecidas e os planos nos quais o universo foi concebido. 

Festejei com Deuses. 

Aprendi com Mestres. 

Vi futuros acontecerem até se tornarem antigos. 

Atravessei passados antes de serem esquecidos. 

Habito na palavra mistério, pois sou um segredo dentro da minha própria existência. 

Hoje, aqui, na carne humana onde estou encarcerado, medito sobre a grandiosidade de todo o meu ser, durante a pequenez deste instante ao qual chamamos vida. 

Não posso provar o impossível das minhas palavras, a não ser pela minha fantasia. 

Sei esta verdade, a qual me trouxe até aqui, com a certeza mais profunda de quem pode ser considerado louco. 

Ninguém inventou uma linguagem capaz de descrever o conhecimento inatingível que trago comigo. Mesmo se o pudesse fazer, todas as eras humanas não seriam suficientes para tal explicação. E pior, nem eu me compreendo, daí a inquietação. 

Nascer sem pertencer. 

Crescer sem me encontrar. 

Estar aqui mas não estar. 

O éter do pensamento é maior do que qualquer imensidão, imaginável ou não. 

Quero lembrar-me destas minhas viagens pelas dimensões do inacreditável, mas a mente não deixa e dói. Dói muito. Desde a pele à origem do meu eu. 

Tento rimar para sentir alívio. 

Os versos não surgem por qualquer motivo. 

Sobra a prosa disfarçada de poema. 

Admiro a arte dos outros, perdidos como eu. Sem mais nenhum idioma ao qual possam recorrer, escrevem, desenham, moldam, criam mundos, numa tentativa inútil de transmitir a gnose. Não estamos sozinhos, embora isolados dentro de nós sem a compreensão dos demais. 

Talvez o tempo não seja a melhor medida para quantificar uma alma antiga. Quem sabe, só a ilusão o possa fazer. 

Digo como sei, pois é a única maneira de o dizer. 

Falo para todos capazes de me entender. 

Como um grito a ecoar pelo silêncio aparente. Os sentidos ocultos escutam. Estão alerta em busca de uma qualquer orientação. Um sinal vindo do ventre cósmico onde nascem estas almas todas. Se é que nascem. Se é que são. 

Os religiosos, aqueles com verdadeira Fé, dirão que estas dúvidas são reflexo de uma centelha divina. Uma recordação de fazer parte do Uno e ao mesmo tempo uma frustração por estar afastado da génese original. 

Lembrar e profetizar em simultâneo. A concepção indizível, o caminho inefável do qual tanto falam as Escrituras Sagradas. 

Os virtuosos aceitam a sua ignorância como o caminho para a iluminação. 

Mas eu não. Prefiro a rebeldia dos artistas. 

A liberdade máxima de nada nem ninguém me possuir, a não ser eu mesmo, na pequenez da minha grandiosidade infinita. 

Continuo esta viagem pelos éons da fantasia a bordo da Nau da inquietude. 

Quem sabe, se encontro companhia. 

Um qualquer outro eu, refletido noutro rosto e noutra história. 

Coragem! A jornada é antiga e mais antiga é aquela que está por vir!


quinta-feira, agosto 01, 2024

Shame on me

Não tenho escrito nada de jeito, shame on me, mas manda a praxe que eu publique esta música pelo aniversário do blog! Pois seja! Fica a aguardar entretanto que as histórias apareçam, prosa, verso ou nada de especial! Feliz aniversário ao blog!



quarta-feira, julho 10, 2024

Encontro casual entre dois conhecidos


– Noutro dia cumprimentei-te e não me ligaste nenhuma!

– É porque estava distraído.

– É mais porque estavas noutro mundo! Diz antes assim.

– Eu estou sempre noutro mundo.

– Não estás nada, porque estou a olhar para ti.

– Estou lá, mas aqui sou só uma ilusão, criada de forma a ser perceptível pelos sentidos humanos. Uma mera projecção quadrimensional de algo incompreensível para a pequenez da nossa mente.

– Dizes cada coisa! Valha-me Deus!

– Digo o que preciso de dizer.

– Tu és mas é maluco. Olha, para mim, só existe este mundo.

– A teoria de existir só este mundo não é satisfatória. Isto de ser de carne e osso não faz sentido. Nascer, crescer e morrer, com algum entulho pelo meio é estúpido.

– Não sejas assim! A vida não é só isso, também amamos, temos trabalho e família.

– Não posso negar a importância dessas coisas. São boas e faz sentido cultivar. No entanto, como disse, são entulho para nos iludir!

– Irra, tu és impossível! Então, nós somos o quê?

– Simples engrenagens numa máquina, à qual chamamos sociedade. Somos educados para fazer parte deste sistema, tão antigo quanto os primeiros grupos organizados de seres humanos. Somos redundantes, substituíveis e irrelevantes, sem termos noção disso.

– E continuas com essa conversa.

– Claro. Fazem-nos acreditar no contrário, na nossa importância e capacidade de chegarmos ao topo. E nós, bem-mandados, acreditamos. Além de sermos apenas isso, também educamos as gerações seguintes para fazerem igual. Por isso, a simples existência deste mundo tão básico, não me convence. Tem de haver mais. Portanto, estou sempre aqui e lá, naquele outro mundo incompreensível onde só se chega através da fantasia.

– Valha-me Minha Nossa Senhora! Não percebo nada do que estás para aí a dizer. És mesmo maluco. Olha, até logo.

– Até logo.


Baseado numa conversa real.


sábado, junho 22, 2024

Interrogações


Já, há muito tempo, que perdi a capacidade de sentir alegria. 

Ou, se calhar, nunca a tive. 

Não me lembro, em toda a minha vida, de haver alturas de estar relativamente feliz. 

Senti sempre uma ânsia por algo inexplicável. 

Contudo, não posso negar, terem acontecido momentos de euforia. 

Algumas horas, ou dias, onde fui capaz de sorrir. 

Fizeram-me esquecer, brevemente, aquela inquietação incompreensível, da qual sempre padeci. 

Essas alturas de pequeno êxtase existencial, eram temporárias. Estava bem ciente disso. Mais cedo ou mais tarde, esse entusiasmo não era para continuar.

Olho para as outras pessoas contentes. Encontram vários motivos para festejar: datas, conquistas, ou qualquer outro pretexto cujo sentido não consigo compreender. 

Muitas vezes, parece-me, celebram apenas o facto de viver.

Interrogo-me: Onde está a grandiosidade? 

Faço de tudo para os acompanhar. 

Finjo igualmente celebrar, 

Escondo-me na multidão para ninguém reparar.

Assim, não olham para mim. Nem notam como me falta algo fundamental para poder preencher todo este desassossego o qual não consigo entender. 

Esta alegria forçada parece-me, por vezes, uma fuga desse mesmo facto de viver.

Não sou o único a ter estes sentimentos. Sei disso. Existem outros com o alento a doer.

Andam por aí uns quantos Poetas capazes de descrever, com palavras brilhantes, este descontentamento absurdo de não pertencer aqui, ou a qualquer outro lugar. 

Resta-me aceitar esta sina. 

Não consigo sentir satisfação, 

nesta carne que me acolhe, 

neste mundo de gente, 

feito por gente, 

para a gente. 

Entre o nascer e o morrer. 

Invejo as máquinas, lógicas, sem consciência de ser. 

Fazem o que é suposto fazer. 

Nada mais, nada menos. 

Eu não sou como os outros, nem como as máquinas, nem com os bichos. 

Talvez venha do éter. 

Talvez seja um erro da criação. 

Talvez, outra coisa sem explicação terrena ou divina.

Talvez tenha dificuldade em aceitar a pequenez da condição humana com a qual fui fadado. 

Talvez este pensamento seja tão inútil quanto eu, neste momento. 

Sem propósito. 

Tal como todos ao meu redor. Um mundo inteiro de gente, com ou sem consciência da sua insignificância. 

Cresce em mim a melancolia. 

Uma madrugada sonolenta, onde insisto em manter-me acordado a escrever estas palavras inquietas. 

Rimas incompletas, 

na caneta de quem não pertence a lado nenhum.

O resto da noite é uma incógnita, 

nesta insónia autoimposta. 

Devo escrever e adormecer logo a seguir. 

Não sou suficientemente forte para vencer a necessidade de dormir.

O que acontece no sono é um enigma e isso incomoda-me. 

Mas isso não importa nada. 

De manhã, devo acordar com o sol a sorrir. 

Nessa altura, quem sabe se estas palavras continuam a fazer sentido? 

Vou olhar para o texto como um mero ensaio poético? Sem ler os sentimentos descritos como meus e achar ser necessária mais veracidade na mágoa versada. 

Contudo, isso é só amanhã. 

Agora, neste momento, 

esta noite tardia deve ser uma mera ilusão, como tudo o resto.