sexta-feira, dezembro 16, 2005

SECRETO


Tentas-me…
Sabes porquê?
Tens segredos
Vejo isso no teu olhar provocante
Oiço-o na tua voz doce
E nas tuas palavras simuladas
Tens segredos sangrentos
Segredos de luxúria
De prazer carnal…

Tentas-me…
Misturas-te entre nós
Mas tens desejos ocultos
Quero possuir-te…
Na noite audaciosa
Onde se amam os malditos…
Rasgar-te a roupa que cobre a tua fome
Deixar o teu corpo nu
Coberto apenas com suor e desejo
Passar as minhas mãos pelas tuas curvas
Sentir a tua carne suculenta…

Tentas-me…
Quero possuir-te
Quero morder-te a carne
Provar o teu sangue com sabor a luxúria
Quero que me rasgues a pele com as tuas unhas
Que bebas o meu sangue com sabor a desejo
Quero ser animal contigo
Misturar prazer e dor numa luta sensual
Quero provar o néctar do teu sexo
Os sabores proibidos do teu corpo sumarento
Sem tabus
Apenas desejo…
Quero que o sangue da nossa luxúria
Se torne vinho doce nos nossos cálices
Quero segurar-te as coxas e possuir-te
Que grites alto de prazer
Para que todos oiçam a tua agonia de deleite
Ora tu
Ora eu
Dominadores
Submissos
Num prazer carnal sem palavras
Protegidos no calor da noite pecadora
Animais em prazer
Sangue partilhado
Corpos em desejo
Até que a manhã nos adormeça…


quinta-feira, dezembro 08, 2005

ESBOÇO UM SORRISO...




Hoje estou aqui sozinho
Enquanto a noite cai
Fresca e confortante
E me aconchega com o seu vazio
Estou parado
Apático
Entre pensamentos que me invadem
Ideias vindas do nada
Que me deixam solitário
Fascinado com o infinito
Assim perdido
Entre a escuridão que cai
Torno-me sábio nesse momento
Uno com o universo
Enquanto as trevas me acariciam
A minha mente voa
Os meus olhos brilham
E esboço um sorriso
Enquanto a noite cai…



sexta-feira, dezembro 02, 2005

ENTRE A MELANCOLIA E A PAZ




Encontrei um muro que dividia a terra, mas eu queria passar para o outro lado. A guardar o muro estava um monstro nauseabundo. Ele era sonho e eu também.
O monstro era enorme. Tinha focinho de cavalo, com umas narinas muito abertas que expeliam fogo. Tinha duas cavidades oculares. Mas dentro de cada uma, em vez de ter um só olho, tinha mil olhos que se movimentavam rapidamente, o que permitia ao monstro ver em todas as direcções ao mesmo tempo. A sua língua eram três tentáculos de polvo compridos. Da sua boca saia uma baba repugnante que enojava até o mais imundo dos homens. Tinha cinquenta cornos de várias formas, tamanhos e feitios, numa linha, dois a dois, que iam desde o início da testa até ao fim do pescoço. Nas suas costas e ombros tinha centenas de espetos, que saíam e voltavam a entrar alternadamente, provocando um barulho semelhante à água em ebulição. Da sua barriga saíam quatro cabeças de cães raivosos, que rosnavam impacientemente. As mãos do monstro eram lâminas afiadas. Da cintura para baixo tinha corpo se serpente enrolada. Ele dirigiu-se a mim e perguntou:
- Que fazes aqui? Procuras o desespero?
Eu respondi:
- Eu já encontrei o desespero. Comi as suas carnes e logo a seguir vomitei-o.
O monstro perguntou novamente:
- Então que fazes aqui? O que procuras?
Eu respondi:
- Eu procuro a beleza, a simplicidade e a inocência.
Então o monstro recuou. Os cães deixaram de rosnar. Os espetos recolheram todos. Os olhos ficaram parados e das suas narinas deixou de sair fogo. Esteve assim parado durante um pouco. A seguir transformou-se numa bola e dela saíram mil patas de aranha. Nessa forma ele foi-se embora. O muro que protegia dissipou-se como fumo. Deixando-me num prado verde.


sábado, novembro 26, 2005

OS DEUSES OBSERVAM



Desvanece-se a noite que cobre o Verão
Revela-se o sol que assombra o Inverno
Anjos caídos tocam as trompetas da agonia
Os seres malditos mostram-se ao mundo
Os ventos sopram melódicos e fortes
Os Deuses observam os humanos
Enquanto saboreiam o vinho de Dionísio

De entre os esquecidos surge um vulto
No seu olhar apático vive o vazio
No seu rosto habita um sorriso triste
Caminha lentamente entre os vivos
Sabendo que a vida deles esta morta
Preso entre o mundo e a solidão
Um guerreiro solitário revela a sua glória

Olhares incrédulos observam-no
Enquanto sozinho desafia o mundo
Os Deuses comentam entre si
A audácia de um homem sozinho
Querendo completar o vazio do olhar
Aprender a sorrir no seu destino
Por entre a vida morta dos humanos

F

sábado, novembro 19, 2005

A LUZ



Abro os meus olhos à verdade
Deixando um sorriso triste
Enquanto caminho sozinho à chuva
Procuro uma porta que me guie
Uma música melancólica acompanha-me
Desde o amanhecer até o pôr-do-sol
Tento encontrar uma luz
Eu sei que existe uma luz…

A alegria não está no meu olhar
Gostava de encontrar uma luz
Uma mão que me segurasse
Que fosse minha guia
Vivo uma ilusão que tento esquecer
Mas mesmo assim caminho à chuva
Na companhia da minha solidão
Guardando um último fôlego

Quando o luar cair sobre a Terra
Brilhando perante os meus olhos
Eu sinto que o tempo
Apenas ficou para trás
Espero uma luz salvadora
Na berma de um precipício
Na frescura da alvorada
O tempo abandona-me…

P

sábado, novembro 12, 2005

PALAVRAS



- Sabes, já conheci muita gente sonhadora na minha vida…
- Sim… Eu também…
- Muitos mudaram e perderam a capacidade de sonhar com o tempo e com a rotina. Outros, com as adversidades da vida deixaram de acreditar em sonhos. Outros ainda, com essa adversidade voltaram a sonhar, mas refugiaram-se na sua fantasia, vivem na ilusão…
- Outros ainda, criticam os que sonham, mas sonham em segredo… Por algum motivo estúpido não dão ouvidos à sua fantasia…
- Não conseguem perceber que o sonho revela a verdade, a força e a paz…
- As pessoas que sonham são mágicas…
- Sim… Tal como uma criança com os seus sonhos inocentes.
- Não sabem que encerram magia…
- Não sei se inveje uma criança por ser mágica, ou se inveje alguém que não sonhe por viver na ignorância…
- Acho que é um caminho que Deus traça para nós. Tu aceitaste-o…
- Diz-me… Nunca te apeteceu desistir…
- Sim, várias vezes…
- Porque não desististe?
- Tu sabes…
- Sim… Acho que sim… Apesar de tentar negar a mim mesmo…
- O vazio frio e a ânsia que não morre…
- …a ânsia do nosso outro eu…
- É um caminho onde não se pode voltar para trás…
- Mas é um caminho solitário…
- Mas pensa nas coisas belas que encontraste.
- Sim, tanta coisa. Se fosse apenas mais alguém não teria visto.
- Nem saberias que estava lá…
- Sim…
- Sabes, tal como tu gostava de mostrar aos outros aquilo que vi e o que vou ver ainda.
- Já tentei…
- E conseguiste?
- Não. Apenas consegui mostrar a direcção…
- E quando pensas que conseguiste…
- As pessoas mudam. Nas suas promessas esquecem o factor da mudança.
- Outras sabem que se seguirem nessa direcção não podem voltar…
- Sim. Preferem a ignorância. Não censuro…
- Por isso desisti…


quarta-feira, novembro 09, 2005

SANIDADE



Eu vi os monstros horrendos que perseguem a sanidade…
Assemelhavam-se a cães, mas andavam de pé como os homens. Os seus corpos eram uma mistura de homem com cão. Eram negros como a noite. A tapar as partes baixas, tinham uma espécie de saia, feita de um tecido magnífico de cor dourada. Parte do peito, ombros, pescoço, e cabeça eram feitos de ouro. Mas o ouro era como pele. Era flexível. As cabeças eram de cães. E do ouro duro abriam-se bocas horrendas com dentes enormes. Os olhos eram como uma luz vermelha. As orelhas eram asas de ouro. Emitiam sons arrepiantes que aterrorizavam, gelavam os músculos e arrepiavam os ossos. Transformavam o dia em noite. A felicidade em agonia.
Na mão direita traziam uma espada negra e dela saia um fogo de cor azul que hipnotizava.
Eles passaram por mim, porém não me tocaram, nem me viram, pois eu era sonho. E eu sendo sonho, não me podem tocar.
Se um monstro for sonho, aí está a perdição. Pois se os monstros forem sonho, não há como fugir.