quarta-feira, junho 12, 2019

O que tenho para dizer é igual ao Infinito


Tenho sempre algo para dizer, todos os dias, a alguém. Nem que seja a mim. Nem que seja silêncio.
Há sempre algo que precisa ser dito, mesmo que seja calado.
Os loucos falam para si mesmos, porque têm algo a reparar.
Os génios falam para si mesmos, porque têm algo a questionar.
Os ignorantes falam para todos, porque não têm nada a ensinar.
As respostas vão surgindo no meio do caos; entre o barulho; na confusão das cores. Também na voz dos sábios, ou dos estúpidos. Muitas vezes a explicação está no inverso do que é discursado. O conhecimento está em perceber o que o mundo diz e isso, só por si, é uma disciplina complexa.
O que tenho para te dizer é igual ao Infinito, por isso é vago. Só o consigo verbalizar quando estou longínquo, com o pensamento fixado no inefável. Naqueles momentos, que tu conheces bem, em que o olhar está concentrado num ponto para lá do horizonte. Eu, meditativo, na tua companhia, mas sozinho. Numa viagem ausente pelos mistérios do existir.
Tenho o teu toque por perto e isso dá-me conforto. Tens o meu mundo tão longe e isso dá-te abrigo no carinho da minha inquietude. Sabes que é difícil explicar o que não se compreende, por isso calo-me e deixo que me interpretes com telepatia.
A ciência de quem ama é proibida e, só por esse argumento, é grandiosa. Saber o que não se toca. Dominar a sinestesia dos sentidos curiosos. Alimentar a fome de entendimento, a mesma que nunca se sacia. A Gnose é impossível de expressar. Talvez seja algo que cresça com cada questão. Ou um caminho que se torna mais longo com cada resposta.
Seja como for, tudo que digo agora é um devaneio de quem é insaciável. De nada mais serve a não ser para desassossegar. Pouco mais te posso acrescentar do que este pensamento. Em mim não existe uma verdadeira serenidade. É preço que se paga para quem se perde pela madrugada fora.
Agora fala-me de ti. A condição humana aborrece-me, portanto, abstém-te do que é banal e deslumbra-me com o teu próprio Universo. Não existe nada que seja demasiado insignificante. Há sempre algo a saber, nem que seja dos teus próprios retalhos.

quarta-feira, junho 05, 2019

Fetiche grotesco


Tenho um fetiche por pessoas quebradas. Peço desculpa.
Acho que cicatrizes são o expoente máximo da sensualidade. Venham elas da mágoa que habita a alma, ou da profanação do ser que lhe dá abrigo. O âmago melancólico implora o caos, tal como a felicidade anseia a vida. Nada me seduz mais do que aquilo que é feio, estragado e impossível. O convite tímido de entrar em portas que se abrem com fome de toque. A entrega surge por direito próprio. Saber dos pecados, afinal, inexistentes. Da culpa que nunca foi. Provar o sabor afrodisíaco de bocas caladas. O gemer que se solta do íntimo, entre deleite e súplica. A humidade aberta de um espírito envergonhado com o seu nascer.
A beleza está no grotesco e isso excita-me. Peço desculpa.
As obras de arte estão velhas e cabisbaixas. Não há regras quando a verdade acorda. Os rasgos na pele lisa, sem qualquer objectivo de perfeição, elevam o seu desenho ao auge do erotismo. Toda e qualquer deformação é, para mim, pornografia no sentido mais sexual da palavra. A formosura está morta e o seu cadáver podre. Em nada me cativa a pele lisa, hidratada e imaculada. Só me satisfaz o que está desalinhado. Carne amorfa em êxtase a pedir devassidão. A sujidade crua e pegajosa de quem se vem por inteiro. Corpos disformes, como coisas proibidas, num gozar absoluto em orgasmos translúcidos de prazer.
Só encontro apoteose entre o que é anómalo. Não peço desculpa.
Não podem existir julgamentos quando a virtude é ignorante.

quinta-feira, maio 30, 2019

É fácil seguir um sorriso


Esperei por ti sentado, numa dobra qualquer do infinito, ao som da poesia e sonhos de criança. Mas tu nunca chegaste. Por causa disso, confundi-te várias vezes com outros rostos sorridentes que iam passando por mim. É fácil seguir um sorriso quando procuramos algo mais do que a nossa própria grandiosidade. 
Cada figura que encontrei, vinha nutrida com a sua própria busca pessoal e por isso, também a mim me confundiram com outro alguém. Sei que a minha procura não terminou e não parece que me vá submeter à palavra desistir. Creio que já aprendi a diferenciar as faces que desenham a linha do sorrir, para que não troque o teu ser por uma ilusão.
O problema é que não eras tu. Nunca foste tu. Corpos sem o teu toque, sem as tuas emoções, sem o teu Universo onde eu pudesse viajar, para me perder (e voltar a encontrar). Dizem que é assim o amor. Ou, pelo menos, eu acho que é assim o amor. Considerações à parte, não sei se um dia vais aparecer, ou também te perdeste numa espera qualquer.

sábado, maio 25, 2019

As distracções


Hoje, olhei para o mundo e senti uma profunda desilusão. Todas as doutrinas são mentiras. Todos os moralismos são falsos. Todos os ideais momentâneos. Apenas distracções para ocupar a mente quando esta não está focada nas tarefas da carne. Somente uma abstracção do fardo de existir.
Não existe um sentido para isto tudo. Só uma ocupação desconhecida ao nosso saber. Possivelmente o sentido seja mesmo esse, o de procurar dar sentido àquilo que não o tem. Portanto, talvez a existência tenha algum sentido até, porque, afinal de contas, quem somos nós se não forem os nossos sonhos, ou a nossa arte? Bichos, como os outros que andam aí, no meio do mato.
Os sentimentos fazem de mim aquilo que sou (ou o que desejo ser). Os sentidos, esses, têm tanto de prisão, como de liberdade. Creio que os segredos mais profundos estão vedados à perspectiva humana e pouco mais há a acrescentar. No fundo, apenas a ilusão importa e está tudo bem assim. Não adianta meditar sobre aquilo que não nos cabe controlar, nem sobre a criação que nos engendrou.
Somos nós em oposição a uma divindade extraordinária, para quem não passamos de algo ridículo. Assim sendo, quando falta a capacidade de aceitar a minha própria ridicularidade, nada me resta a não ser a decepção. Pelo menos enquanto não encontro outra distracção. Talvez algo a que eu possa chamar amor… ou ódio…

terça-feira, maio 14, 2019

As leis “politicamente correctas”


Ai de mim, que sinto solidão!
Em cada rosto que me sorri, não encontro verdadeira empatia, nem a química agradável de uma conversa sagaz. Não há ninguém neste horizonte que se traduza no mesmo caos que eu e isso dói. Dói muito! Mesmo muito! Esta solidão pesada sobre mim, sem ser fruto do meu próprio desejo, atormenta-me profundamente cá dentro, onde a Alma mora, na origem do meu eu. A inquietação é constante, agreste e sem tréguas…
Ai de mim, que sinto ódio!
Tenho a vontade infame de rasgar a garganta de um outro humano. Ter a satisfação de me embalar com os gritos alheios de agonia extrema. Regozijar com a lâmina afiada de um punhal impiedoso, enterrada veemente em corte, sem remorsos, na carne imaculada. Depois, como um enamorado, contemplar em êxtase a beleza do metal frio, quando pincelado a carmesim depois de cumprir o seu propósito. Há um certo alívio no sofrimento de outrem. Peço apenas que não me condenem por este pecado…
Ai de mim, que estou perdido!
Parafraseando algum “eu”, de um passado distante: “O sentimento mais poderoso que existe não é o amor, mas, sim, o ódio e a solidão, juntos em uníssono”. Engrandecidos na sua ligação. Imparáveis no seu poder devastador. Eis que paira sobre mim algo que só posso descrever como “magia” e todas as minhas faltas se metamorfam em imaculadas virtudes perante o mundo sem solidariedade. Há! Que felicidade completa me inunda ao constatar esta epifania maldita…
Ai de mim, que me esqueci como amar!
A culpa, não sei de quem é. Vou fazer como todos e sacudir o peso dessa responsabilidade para as falhas que se enraízam na sociedade. O meu quinhão, se existir, repudio-o com as palavras mais hipócritas que encontrar. Tal como dizem os grandes moralistas que nos regem, entre o conforto das suas leis “politicamente correctas”. No entanto, não perco tempo em busca de justificação. Afinal de contas vai havendo liberdade nesta ausência de sentir. Os sentimentos não surgem com medo de se dissiparem. Ou melhor, de nunca o serem, como, afinal, não são…
Ai de mim, que me sinto longínquo e ninguém me vem buscar!

segunda-feira, abril 29, 2019

Considerações sobre o pensamento


O pensamento é uma energia tão concreta quanto a força dos músculos, o calor do fogo, a electricidade num relâmpago, ou a química da Natureza. O ser humano, mesmo obcecado pelo conhecimento, ignora esta verdade e exclui, daquilo a que chamam ciência, o estudo das ideias que a mente gera.
Existem, no entanto, alguns que se debruçam sobre a metafisica em busca e algum tipo de elucidação esotérica, para o que afinal é engendrado e concebido pelo nosso próprio pensamento. Algo em nós tem a capacidade de mover o mundo, muito para além do simples domar das disciplinas materiais. Essa habilidade esconde-se à vista de todos, entre os pequenos gestos, as palavras proferidas, ou no mero facto de observar aquilo que nos rodeia.
Até os próprios crentes, seja qual for o credo, mesmo diante as escrituras, desconhecem que o Universo foi fruto de um pensamento. Uma ideia colocada em prática por uma entidade de imensidão incalculável. Esse mesmo dom foi atribuído ao bicho homem sob a forma de energia, mesmo que insuspeita e incompreendida.
Sem unidade de medida que possa ser calculada e incluída nas matemáticas ou engenharias, o pensamento ausenta-se das disciplinas que tentam compreender a vastidão do Universo, ou a motorização da Natureza. Talvez seja até, o elemento faltoso na chamada “teoria do todo”. A derradeira vontade que une todas as coisas.
Pensar que algo pode ser real pode, e deve, ultrapassar uma simples ordem ao corpo, ou a fronteira da imaginação. Tem uma acção directa na mecânica do cosmos. Camuflar o que se ambiciona debaixo de sentimentos, ou qualificar como mera fantasia é um erro. Desejar é o primeiro acto de toda a criação, para que todas as outras forças se conjuguem no mesmo objectivo.
Sabemos traduzir a linguagem da nossa mente em palavras, números e arte. Como se encontrasse na nossa casca um habitáculo de onde nunca se expanda, a não ser com a nossa própria ordem. Não creio que deva ser entendido assim. Tenha grandiosidade ou pequenez, o pensamento é uma energia viva, que nunca deve ser ignorada!

segunda-feira, abril 22, 2019

Palavras que entoo para ninguém


Tenho um fascínio, quase perverso, pelo eco sombrio numa sala vazia.
É como declamar a história sinistra de um pesadelo maldito a um ouvinte ausente. Ou cantar intentos de vingança a uma pobre alma abstraída, mergulhada na demência. Nada mais se escuta, a não ser a minha própria voz, no seu timbre mais impetuoso.
Ouço-me na pele exposta dos meus segredos mais obscuros. Na nudez sem pudor da violência que povoa os cantos escondidos do meu ser sem cor. As memórias, como tralha, ignoradas em sótãos e caves, de moradas sem fim para cada um dos rostos que visto.
Não tenho respostas, quando a questão que interrogo a mim próprio se escusa da génese de um propósito. Sei que algo em mim dança ao ritmo do som calado da sala vazia. Nada mais. Não sou quem digo ser, nem sei quem quero ser.
O peso que tormenta a vontade, o grito do silêncio inquieto. Encontra-se algum conforto nas palavras que entoo para ninguém. Ora doces, ora brutas, nunca banais, nunca reais. Sentimentos por desejar, que lutam entre si para encontrar um pouco de vida numa estrofe. Faço do eco confissão às paredes despidas de ornamentos e ao chão sem mobiliário, tal como eu, sem emoções. O desassossego alimenta-se daquilo que não tenho para dar.
“Um pouco de Paz, se faz favor”! Soletro em raiva, como quem anseia o infinito. Sei que ninguém me ouve a não ser eu mesmo e os outros que habitam em mim. Todos como eu, mas sem ser eu. Personagens que fui e ainda vou ser que pelejam entre si para me completarem na solidão de existir.
Tudo se resume em nada e tudo inicia aqui. Porque afinal sei que existem baús. Sendas escritas nas recordações. Momentos que alimentam a sabedoria. Dou por mim a olhar para longe, para muito longe, onde os pés não chegam. Afinal não há vazio e isso atormenta-me.
O pensamento é como o Universo, criado do nada, vai crescendo sem se concluir numa inquietação constante. O entendimento, esse, existe apenas numa matemática por inventar. Ainda assim sou invadido por uma felicidade sem explicação. Como se, num repente, me apercebesse do enigma do inefável.