sábado, março 17, 2018

Ele há dias


Chegou a casa ao fim da tarde. Pedaço claustrofóbico, entre quatro paredes e um tecto, transformado em edén pessoal depois de um dia de trabalho, de gente estranha, de confusão caótica na dita ordem do mundo.
Ele há dias onde parece que tudo lá fora enlouquece!
Sacudiu o mais possível o cansaço de cima das costas, mas o peso teimava em não desaparecer. Frustrações, imposições, castigos acumulados no corpo, da carne até à alma. Um fardo difícil de carregar e de iludir.
Ele há dias onde custa fingir que não dói viver!
Arrancou as roupas encardidas com o cheiro lá de fora. Colavam-se à pele com a viscosidade transpirada da rotina. Atirou-as para longe. Algures num canto escuro, enfadonho e esquecido do buraco a que chama lar.
Ele há dias onde não existe um sitio que pareça acolhedor!
Dirigiu-se para a sanita e despejou todos os dejectos que se abrigavam em si. Puxou o autoclismo e entrou no chuveiro em busca de limpeza. Talvez a água quente trouxesse algum alívio e pudesse atenuar a solidão. Sem sucesso.
Ele há dias em que sentir parece ser pecado!
Olhou-se ao espelho, no entanto a figura que encarava em nada se parecia consigo. A criança determinada a conquistar o mundo, metamorfoseou-se numa personagem pintada a rugas de tempo passado sem aventuras.
Ele há dias em que todos questionamos: afinal quem somos nós!
Arrastou-se até ao quarto. O silêncio escurecido das portadas em baixo parecia trazer algum conforto. Entrou para o aconchego dos cobertores como quem encontra refúgio. Desenhou ali o seu santuário de crente no sossego.
Ele há dias em que tudo que há a dizer, é calar!
O adormecer sabe bem a quem é consumido pela fadiga. A recompensa do esquecimento veio com o sono que é reservado aos justos, ou aos desajustados. O crime de sonhar cumpre assim a sua pena.
Ele há dias em que o maior desejo é simplesmente dormir!
Mergulhou imediatamente no vazio. Ficou invisível com o seu entorpecer. Um salto feito de nada pela noite dentro. Sabe que a madrugada há-de ofertar o ânimo aos seus filhos perdidos. A energia regressa com o sol.
Ele há dias em que tudo que se deseja, é despertar numa manhã descansada!

sábado, março 10, 2018

A multidão


Alguém escreveu numa parede da cidade, com letras grandes e gordas, todas as minhas frustrações e medos. Dei de caras com aquela lista, de tudo que é frágil em mim, e parei na minha absoluta vergonha. Não imaginava quem soubesse tão bem o que se esconde em mim. Ainda por cima, com a audácia de o expor à luz do mundo!
Eis que chega mais alguém que se queda diante a parede. O receio e o choro apoderaram-se do seu semblante, tal como a mim. Quase que podia ler a angustia que emanava daquela face, pois era igual à minha. Outra alma inquieta reclamava para si aqueles dizeres. Entendi que não podia prende-los só para mim, nem para a minha poesia sombria!
Olhei em volta. Mais pessoas tinham chegado, com os seus corpos quietos e semblantes aflitos. Não tardou para que se juntasse ali uma multidão imensa de silêncio amargurado. Foi então que compreendi: aquela lista malfadada não era apenas minha, mas sim daquela gente toda, que tal como eu partilhávamos as mesmas misérias!
Ficou claro que não estávamos sozinhos nos nossos infortúnios. Nenhum desapontamento era exclusivo, nem tão pouco algum receio único de um só ser. A lista na parede não era de ninguém, embora, ao mesmo tempo de todos aqueles que ali se abeiraram. Carne, osso e dor. Só isso. Sem nomes, nem géneros, nem raças, somente angústia!
Aquelas palavras mal-afortunadas expunham a mágoa que devia estar tatuada apenas na tristeza humana. Escondida. Alguma alma ousada decidiu exorcizar os seus demónios, escrevendo com nudez crua o que não deve ser dito, para que todos olhem a fonte de todas as lágrimas. No entanto, mais parecia um espelho a reflectir o fundo de todas as vidas!
Os rostos naquela grande multidão ganharam coragem para se entreolharem. Não tardou para que sorrisos nascessem entre o silêncio. Logo a seguir formou-se um borborinho que foi perdendo a timidez para se transformar em conversas. Não tardaram as gargalhadas pelas piadas contadas sobre todas aquelas fraquezas que roçavam o cómico!
Então, todos juntos, chegaram à conclusão do ridículo dos seus medos, que, sem a força da solidão, quase já não faziam sentido. Pelo contrário, eram como anedotas perante a verdadeira face do mundo. Insignificâncias, se comparados com a vontade de ser feliz. A parede já não importava, ignorada por todos, pois já não sentiam incertezas!
Enorme era a multidão, quando todos os corações solitários se juntaram!

sábado, fevereiro 24, 2018

Quem acha que pode mudar o mundo


O vampiro apaixonou-se. Aconteceu com a brandura e a leveza de uma simples brisa. Até um monstro pode amar quando a serenidade assim convida. É tão difícil resistir a um rosto com luz própria!
Deus criou a perfeição no olhar de quem cora facilmente. É impossível suportar o arrepio que emana de uma troca de olhares; sorrisos que nascem tímidos pelo canto da boca; o riso contagiante de uma piada tola. Não há como resistir a uma alma cheia de vida!
Há também a beleza e a jovialidade. A pele perfeita de quem ainda não sentiu a amargura do viver. Os sonhos imaculados de quem acha que ainda pode mudar o mundo. A magia de uma alma gentil!
Como é que o vampiro não se podia apaixonar? Ainda que o amor fosse breve e frágil como uma flor que perde as pétalas, a atração é mais forte do que a natureza. O calor mais urgente do que a noite. O amar, mesmo que efémero, mais intenso do que o vazio!
O martírio chega no amanhã e na banalidade que cobre o ser. O cansaço da rotina, do mesmo corpo, do mesmo poema, do dia que está tão longe. Sai vencedora, como sempre, a perdição dos filhos da noite, ao enganar a inocência com o brilho feiticeiro da lua!
O vampiro esqueceu-se que afinal a paixão era mentira. Não tinha esse direito, reservado aos filhos do dia. Deixou-se encobrir na escuridão e no esquecimento. Mas não sem antes reclamar o sangue quente da jovem que o iludiu com esperança!
A voz terna, que antes encantava, deu lugar a um grito desesperado. Como quem sente o mergulho no terror mais absoluto do abismo. Esse é o tormento de quem perde a sua fantasia pelas mãos daqueles que se alimentam do sonhar dos outros!
O vampiro bebeu até se saciar. Saboreou ideais, viveres e amanhãs, para que nos seus dentes tudo se calasse. Um monstro merece o seu prémio depois de sentir o cheiro da luz. Depois tudo volta ao silêncio e a um secreto devaneio, que talvez um dia possa amar…

sábado, fevereiro 17, 2018

Identidade absurda


Uma solidão imensa tomou conta das ruas da vila. Não há trânsito. Os estacionamentos estão vazios. O céu está cinzento. Nuvens ameaçadoras anunciam que vai chover a qualquer momento. Sopra um vento do sul trazendo consigo uma caricia fria. Como não há sol que aqueça o corpo e a alma, o mundo parece ainda mais gelado do que realmente é.
Aqui e ali silhuetas humanas percorrem a calçada num passo lento e perdido. São os esquecidos cuja dor se agiganta em dias como este. Gente sem nome, como espectros, que se atrevem onde os outros não encontram conforto. Buscam, fora do vazio do lar, uma outra alma vivente com quem possam cruzar um olhar e um cumprimento, como uma esmola atirada a quem mendiga, para que dessa forma possam roubar à solidão um instante de companhia.
A inquietação toma conta da mente dos poetas em dias assim. Sem amor que os salve da própria identidade absurda. Refugiam-se em horas inebriadas pela loucura, visto ser insuportável encarar a sobriedade a quem não se basta com a própria pele. As ideias são maiores que o mundo e o pensamento infinito como o universo. Ainda assim, não há um lugar que acolha quem pertença a lado nenhum.
Estar infindavelmente perdido é uma forma de viver. Sem graça, nem tronos, ou glórias. Raça escorraçada de qualquer paraíso, abaixo de todas as castas. Dói no próprio ser o martírio de existir. Por isso palmilham-se as ruas caladas com receio da intempérie. Com as suas gentes mansas recolhidas na comodidade de quatro paredes e um tecto. Que sabem eles da bênção amaldiçoada que é estar em constante desassossego?
A escuridão adensa-se nos céus enublados. Misto de anoitecer e a chuva que ameaça. Deambular sem destino não é sensato mesmo para um desajustado, quando a natureza exibe o seu poder. Também eu devo recolher-me…
Talvez a noite traga a tempestade.
Talvez o sonhar traga a companhia.
Talvez o adormecer engane a saudade de uma vida não vivida.
Talvez a chuva engane a saudade de uma vida por viver.
Talvez tudo que tenha ficado por dizer, tenha sido dito no esquecimento que o tempo traz.

sábado, fevereiro 10, 2018

Hot Rod


A estrada é longa, sem fim à vista. Não me importo, é melhor assim. Sabe bem percorrer um caminho extenso cheio de aventuras, cenários memoráveis, com pessoas que me preencham de histórias e sabedoria. Engrandece-se o eremita que sou, canta o viajante que me fiz, solto a audácia que me impele a seguir em frente a lugares onde o viver é intenso.
Acelero a fundo pelo asfalto livre. O motor responde com potência. Os tempos, as existências e a fantasia misturaram-se. Debaixo do aspecto clássico do automóvel está uma máquina impulsionada por um combustível desconhecido. Pouco me importa que seja movido a energia nuclear ou a éter mágico, não sou mecânico. Tudo que quero é ir onde a poesia me chamar.
Não me dei a mim mesmo um nome, talvez receba esse mérito quanto encontrar um destino, seja ele um tempo, um nascer, ou um poema. Tento recordar o início da viagem, quem sabe num sonho qualquer, ou num incentivo de um jovem curioso. Sobra-me a memória de entrar naquele carro construído com passado e futuro debaixo de olhares indiscretos.
Ainda é cedo para saber quem sou, portanto não me importo com isso. Afundo ainda mais o pé e uma nova paisagem abre-se como uma janela. Dou por mim a cruzar o infinito entre estrelas que surgem e fogem em breves ápices para quem as observa. Desacelero para contemplar este jardim feito de brilho onde desabrocha o mistério da criação.
A beleza é importante, assim como o calor de quem ama. Uma nova janela abre e entro naquilo que posso descrever apenas como o sentir do primeiro amor. O aconchego da inocência na pele perfeita da juventude. Imaginar um futuro sem saber que a dor existe. A ingenuidade de ser criança faz com que os devaneios tenham mais sabor.
Ficou claro que não pertencia ali, embora tenha agradecido o momento. Segui para outras paragens. Alternavam-se as noites e os dias, a cor e o frio, a paz e o ódio. Atravessava mundos escondidos no sentir da vivência humana. Experimentei várias sensações pela perspetiva de incontáveis juízos. Enveredei por trilhos ligados pelo entender de quem procura a imensidão.
Reencontrei-me com nome, corpo e história, como quem desperta de sonhar acordado pela atenção de um qualquer sentido humano. Dei por mim desperto (ou adormecido). À minha volta um panorama e rostos familiares, ainda assim desconhecidos. Já não havia um carro impossível, nem estrelas a dançar. A viagem terminou? Certamente que não!
Alguém chama o meu nome. Há! É esse! Lembrei-me de quem era afinal naquele existir. A aventura tinha sido real. Muito para além de mim. Mesmo sem explicação, ou cingida à minha fantasia. Não encontrei um destino. Nem sei se era sonho ou lembrança. Talvez fosse apenas um instante perdido, num segundo em que a imaginação me levou para longe com todo o seu saber.

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Nada mais importa a não ser o longe


Engrandeces-te na imagem que te guarda. Sabes que o pensamento viaja mais longe assim, a lugares sem julgamento nem pecado. Com a caligrafia da pele desenhas o poema nas curvas do teu corpo. No berço das estrelas convidas para que te prove. Há em ti um universo que quer nascer e uma lei que torna impossível recusar-te. Mostras que tens sabor a caos e a paz!
Depois cantas estrofes de desejo na lingerie preta que escolhes cuidadosamente. Mostra-se como uma sombra luminosa entre o toque e a flor que se desabrocha. O arrepio mais forte enquanto a fome cresce. Sabes que atiça o feitiço quando despes o vestido. Revelas a essência escondida que se abre humedecida pelo momento. Intensa-se o contraste, o negro, a pele e tu!
Dominas a arte de quem ama além do impossível, por cima da carne e das palavras nos lábios que buscam o beijo. Há o pescoço, as coxas e as costas. Luar erógeno na noite nua. Língua a degustar o sal. Dentes a morder a calma. A linha que se percorre até ao infinito. Os dedos que correm, a boca que naufraga. O querer que se esquece. Nada mais importa a não ser o longe!
Sem reclamar da vida mais que a mágoa, pedes-me um pouco de paraíso. Em mim não existe santidade, porque no teu gemer encontro a fúria do guerreiro. Depois há tudo que se cala na voz dos anjos. O silêncio profundo de quem é imortal. Resta a pausa nos corpos desnudados daqueles que adormecem...

domingo, janeiro 14, 2018

Como quem não se importa


O homem começou a cavar. Espetava a pá no chão com convicção e mestria e atirava a terra para trás das costas. Todos os dias lá estava ele, sozinho, a afundar o buraco apenas com a força braçal.
Quem por ali passava, pelo menos aqueles dotados do dom da curiosidade, observavam o trabalho e não deixava de se questionar qual era o objectivo. Diariamente os braços do homem engrossavam. Da figura franzina que iniciou toda aquela senda pouco restava, a não ser os traços das feições. A sua musculatura reforçava-se à medida que o tamanho da cova aumentava, quer em largura, quer em profundidade. A dureza do trabalho fortaleceu-o, quer física, ostentando um corpo robusto, quer mentalmente, inteiramente determinado no seu objectivo.
Todos os dias o buraco ficava mais fundo, só com a força da vontade.
Certo dia, um jovem, já no fim da adolescência, ousou questionar o homem.
“Para que serve esse buraco”?
Num gesto raro de descanso, o homem pousou a pá, olhou de relanço o rapaz e respondeu.
“Para encontrar companhia”.
Perante a resposta, aparentemente sem nexo, o jovem assumiu o que muitos já diziam. Aquele homem era louco! Mesmo assim, levado pela curiosidade, continuou a questionar.
“Acha que vai desenterrar companhia no fundo desse buraco”?
Desta vez o homem não lhe respondeu. Limitou-se a encolher os ombros, como quem não se importa. Tomou aquela conversa como repouso e logo depois, segurou novamente a pá com robustez e voltou ao trabalho. O jovem ainda aguardou um pouco por um esclarecimento que não veio. Perante o som das pazadas a enterrarem na terra, optou por ir embora.
Nos dias seguintes, sempre que ali passava, o jovem parava por alguns momentos a observar o progresso daquele buraco que continuava a aumentar na direcção das profundezas. Também o homem fazia uma ligeira interrupção e olhava fixamente o rapaz com os seus olhos, azuis profundos, carregados de histórias caladas, cumprimentando-o com um ligeiro aceno de cabeça.
Já, as outras pessoas continuavam o seu caminho, deixaram de ligar àquele homem e ao seu buraco fruto da loucura. Já não havia curiosidade, apenas alienação. Ainda assim ele continuava a escavar sem dar importância a opinião dos outros. Afinal de contas que sabiam eles sobre a sua determinação?
Certo dia, o jovem, a provar o sabor da audácia, resolveu descer ao fundo do buraco. O homem recebeu-o com alguns traços momentâneos de surpresa. Não o impediu. Saudou-o, como sempre, no silêncio do seu olhar intenso. O rapaz também não recorreu à voz. Em vez disso mostrou-lhe a sua própria pá e esperou por algum tipo de instrução. Sem o uso de palavras, o homem, agradeceu a ajuda, e apontou-lhe o local onde escavar. O rapaz anuiu, com os braços ainda franzinos, mas o espírito pejado de vontade, prontamente iniciou do trabalho.
Já eram dois.