quarta-feira, novembro 01, 2017

A jornada (O Narrador X)


Não sei bem por onde começar. Talvez pelo início como dizem os clichés. Mas é tudo tão confuso que por vezes se torna complicado saber onde é o princípio da história.
Sabes como é. Tanta coisa a enumerar, tudo misturado na cabeça, sonhos, ideias, amores, desaires, tristezas e euforias. Muitas histórias para contar sem que nenhuma importe verdadeiramente, embora todas mereçam atenção. Na realidade não passa de uma narrativa criada de pequenos momentos sem grande importância. O segredo é saber escolhe-los, pois todos juntos, compõem uma jornada épica!
Há uma nota importante que deve ser levada a sério antes de tudo. Perde-se tempo a pensar no amanhã sem olhar para hoje. A desculpar-se nos “ses” que a vida não nos deu sem olhar para as cartas que se tem na mão. Um erro que todas as pessoas cometem sem perceberem que isso está roubar vontade à alma. Cria-se uma grande expectativa sobre uma grandiosidade qualquer, que vai ocorrer sabe-se lá quando e como. Talvez até aconteça. Mas se assim for vai faltar o êxtase que era suposto irradiar quando foi desejada pela primeira vez. Acho que sabes do que estou a falar.
Regressemos aos pequenos momentos. Às letras que compõem as palavras, que compõem as frases, que compõem os parágrafos, que compõem os capítulos, que compõem o livro dessa tal história sobre uma aventura que levou a uma conquista onde o passado fica calado com vergonha de si próprio. Estou a falar da satisfação que se sente ao soltar o primeiro peido depois de acordar. A euforia que se tem ao chegar o fim-de-semana, ao “foda-se” que se suspira quando o tempo custa a passar. Se isto não te chega podemos avançar para aquela pessoa com quem “flirtastes” num misto de inocência e marotice, ao ódio quase irracional que se sente dos imbecis que se vão cruzando connosco. Coisas banais que se esquivam dos cadernos da memória. Creio que já apanhaste o fio à meada.
Tudo começou por um pensamento. Era assim que todas as histórias deviam começar, em vez do entediante “Era uma vez” que nos ensinavam nos contos de fadas. Alguém pensa sempre alguma coisa antes de tudo começar. Algo fez sentido na mente. Umas quantas peças encaixavam umas nas outras, portanto havia que as juntar como quem monta um puzzle (ou uma peça de mobiliário barato). Seja como for, esse trabalho cabe a quem decidiu tomar para si o papel de herói. Neste caso já sabes que és tu.
A seguir veio a companhia (ou a falta dela). Sabes que as maiores desilusões ocorrem com as pessoas que nos são mais próximas. Nesta história essa regra não é excepção. A mágoa pode moldar o coração humano de forma implacável. Quem ontem pregava as maravilhas da amizade, hoje pode dominar com mestria a lâmina da vingança. Estas palavras são-te familiares com certeza, fazem despertar os teus sentidos de alerta para uma guerra que te forjou na decepção. São estes os ingredientes para a nossa personagem. Nada demasiado original nem nunca antes visto. Apenas alguém que busca justiça e um canto onde se encaixar no caos da existência.
Depois há que escolher um caminho. Tudo que envolve mudança pode ser assustador. Sair do canto em que lançamos raízes é difícil porque não conhecemos o futuro. Por outro lado, é relativamente fácil para quem está de fora a observar, cuja tarefa se resume a um mero aconselhar sem que sintam o peso da cruz em cima dos costados. Dizem eles: Basta olhar em volta, existem vários destinos, não vais por ali ou por acolá porque não queres. No entanto chega a altura em que é preciso firmeza na vontade. Seja por onde for, é necessário tomar a decisão mais malfadada: ir por ali!
Inicia-se assim a jornada. Ou melhor, já iniciaste. Assumiste o protagonismo dessa história a partir do momento em que descobriste que a realidade era insuficiente para a tua vontade. Sabes, todos os que estão destinados a grandes feitos passam por esse momento de descoberta. Aqui é que a narrativa se complica. Ter consciência de que o mundo não basta pode levar à frustração ou à grandiosidade, mas há que ter a noção absoluta de que esta última virtude não se alcança pelo simples facto de estar escrita na nossa sina. Se assim for, é simples cair nos braços da desilusão. Essa conheces tu bem. Tudo porque te concentras apenas na imensidão que mora em ti!
É fácil acontecer, isto porque esqueces que vestes o fardo da humanidade, num mundo feito para humanos, na pele de um corpo humano. Na visão ampla do universo isto parece pouco. Talvez sim, no entanto é tudo que tens e esse é o teu ponto de partida, a tua arma, o teu grande poder!
Sabes, por vezes perco-me em devaneios que mais parecem sair de uma mente embriagada, embora saiba que consiga fazer algum sentido. Deixo-me levar facilmente pelas palavras. Já me conheces. Estive aqui a falar de jornadas, pensamentos, companhia, humanidade e pequenos momentos. Tudo isto para se resumir a uma simples questão: Quem és tu?

quarta-feira, outubro 25, 2017

O dom da inteligência


Uma mosca pousou na minha cabeça e apanhou boleia nos meus pensamentos. Na sua forma de insecto repugnante e na insignificância da brevidade da sua existência, acompanhou-me numa das minhas viagens sem destino. Não a sacudi. Durante alguns metros serviu de companhia ao palmilhar dos meus sapatos.
Enquanto circulava as ruas e misturava a minha figura com outras gentes nas cores da multidão, ela foi aprendendo sobre a organização dos homens. Mostrou algum interesse nas primeiras impressões, no entanto, logo percebeu que tudo aquilo era demasiado caótico para quem apenas almejava alimentar-se numa gordura qualquer.
A sua riqueza era aquilo que nós entendemos como imundice. Tudo o resto era demasiado complicado e inútil. Os bichos a quem Deus concedeu o dom da inteligência regulavam-se por ideias estranhas, que mais pareciam uma prisão aos olhos de quem pode voar. Por isso abandonou-me e continuou o seu caminho.
Depois de ter ocupado alguns momentos de mim mesmo com aquela companheira minúscula, não deixei de meditar sobre o seu comportamento e comparei-a comigo mesmo. Interroguei-me o que fazia ali no meio de vivências simples, se afinal de contas eu sabia imaginar. Senti um certo asco pela banalidade a que chamamos ordem.
Senti inveja dos artistas, que com o seu instinto criativo conseguem fugir à realidade nas suas obras, sem terem medo de ser apelidados de loucos. Afinal de contas a fronteira entre a loucura e a genialidade é quase imperceptível. A única coisa que as divide possivelmente é o medo. O eterno receio de saltar entre a pequenez e a grandiosidade. Porque no meio está um abismo e a queda pode ser dolorosa, por isso esquecemo-nos que temos asas e podemos voar para lá do que nos define…

sábado, outubro 14, 2017

Conversas que nunca foram


Tenho saudades tuas.
Fazes-me falta porque nunca te conheci. Sei que nunca nos encontramos, não trocamos palavras de amizade, nem tão pouco um mero cumprimento que seja. Muito menos um cruzar de olhares a sugerir cumplicidade.
Nem imaginas como sinto a tua ausência. Dessas conversas que nunca tivemos sobre o significado da vida nas pausas para um café. Dos pores-do-sol em frente ao mar a beber um refresco qualquer e a rir de piadas mundanas.
Inquietam-me as aventuras que nunca vivemos. Loucuras que nunca cometemos. Memórias que ainda não aconteceram. Idealizo a tua presença para atenuar o marasmo que seria se de facto aqui estivesses.
Sabes, tudo que é normal aborrece-me. Por isso me dizem longínquo e não nego esse fardo. Confesso-te esse meu pequeno segredo. De quem não se contenta com o que aqui está, ou quem me rodeia.
Já reparaste na quantidade de barulho que há no mundo? Tolda-me o pensamento tantas vozes a gritarem coisa nenhuma. Falta-me o sossego da minha mente vadia a dançar em versos num silêncio qualquer. Onde não há companhia as respostas tornam-se perfeitas.
Aconchega-me a ideia de existires sem aqui estares. Poder apelidar-te de amigo sem nunca te conhecer. Lamentar a tua inexistência mesmo ficando aliviado que assim seja.
A saudade perfeita é esta, a que se sente do impossível. Poder dizer que se conseguiu o inalcançável no simples desejo de o ter!

sábado, setembro 30, 2017

Je t'aime en noir et blanc!


Amo-te em preto e branco!
Num retrato dito “vintage” entre o tom escuro e o claro, em traços de cinzento. Como quem colheu a beleza hipnótica da melancolia a atrair no teu olhar, a combinar com a sensualidade da tua pele descolorada.
Desenhada como a lápis de carvão na tela da fotografia. No silêncio da falta de cor, confessas-me segredos infindáveis sobre tua feminilidade e chamas-me com a tua voz calada para contemplar o teu vazio.
Por vezes apaixono-me por momentos, ou imagens, que duram a eternidade de uns breves segundos e ficam gravados na mitologia do esquecimento. Não me contento com a insignificância de um mero “para sempre”. Desejo apenas a luxúria de incontáveis infinitos feitos de poesia e pensamento.
Sou feito de instantes. Pequenos nadas que desnudam a pele da realidade. Sonhos e sentimentos que me revelam a essência da intensidade humana. Como este, em que, as sombras da tua imagem me transportam para as rimas da tua verdade. Versos de desalento pintados a preto e branco numa fotografia silenciosa.

quarta-feira, setembro 27, 2017

Enigma do sonho esquecido


Se te lembrasses de todos os sonhos que tiveste até hoje, quantas vidas já terias vivido enquanto estás a dormir?
Mundos grotescos, bizarros, alternativos, para além da barreira da imaginação. Amor, ódio, medos, conquistas, glórias e fracassos cabem todos nesse cosmos incompreensível que se forma na tua mente enquanto dormes.
Rostos desconhecidos em caras familiares, premonições sem sentido, lugares imensos tão conhecidos como estranhos. Passagens sem nexo aparente, ou talvez cheias de verdades insuportáveis. Tudo é enigma quando a mente adormece nos braços da fantasia. Se do sentido da vida pouco se conhece, quem sabe a origem do sonho?
Por algum motivo que nos é alheio, o Universo, na senda da criação, não quis que nos lembrássemos dessas existências extravagantes que acontecem no nosso ser desacordado. Impera que a consciência, como que em tom de rivalidade, remetesse essas recordações ao esquecimento. Uma espécie de passado alternativo sem lugar na bagagem memória.
Mas nem tudo é esquecimento… Agraciamos os pequenos fragmentos de sonho que teimam em permanecer depois do despertar, como uma chamada de atenção. O seu mistério cativa os seres inquietos e marca a impossibilidade de ignorar o que o sono esconde.

terça-feira, setembro 19, 2017

Seja o teu nome vingança!


Parte.
Parte tudo!
Destrói a realidade.
Contenta-te apenas com o caos!
Bruto,
Violento,
Sedento de sangue!
Na pele dos outros,
Carne em agonia,
Bocas em gritos.
Sonhos desfeitos a calar o teu vazio!
Raiva.
Arde em raiva!
Seja o teu nome vingança!
Selvagem,
Implacável,
Justiça pela tua mão!
Onde mora o mal,
Sem misericórdia,
Hipótese de perdão,
No rosto do arrependimento.
Dor manchada na parede do teu querer!
Rasga.
Rasga tudo!
Sem que o passado se escreva.
Desfaz as páginas do livro da mágoa!
Tirano,
Indomável,
Tudo em ti é liberdade!
Não te ditam leis,
Regras castradoras,
Mundo a teus pés.
Alma do desassossego no teu viver!

segunda-feira, setembro 11, 2017

Quem se contenta apenas com o infinito


Existem lugares que, pela sua insignificância, atingem tal grandiosidade que ultrapassam a compreensão. Só aqueles que têm o hábito de contemplar o silêncio podem ousar conhecer um pouco dessa essência.
Sejam pontos onde a natureza tem a liberdade para se exprimir, ou locais onde a arte humana nasceu na imaginação de alguém que por ali passou.
Desenham-se arestas. Produzem-se sons. Emana a Paz!
Não importa o que está além. Quem se contenta apenas com o infinito, ama essa simplicidade, onde o nada se torna imensidão e convida a um momento de paragem para abstracção. Instantes de meditação onde se louva o Universo com todos os seus mistérios e maravilhas.
É assim que se canta uma oração na mente de quem é eternamente insaciável. Só as pequenas coisas podem acalmar a inquietude. Adormece a bravura. Aconchega-se a mansidão. Sem palavras que estraguem o que se fez perfeito. Imenso momento de transcendência…