sábado, outubro 14, 2017

Conversas que nunca foram


Tenho saudades tuas.
Fazes-me falta porque nunca te conheci. Sei que nunca nos encontramos, não trocamos palavras de amizade, nem tão pouco um mero cumprimento que seja. Muito menos um cruzar de olhares a sugerir cumplicidade.
Nem imaginas como sinto a tua ausência. Dessas conversas que nunca tivemos sobre o significado da vida nas pausas para um café. Dos pores-do-sol em frente ao mar a beber um refresco qualquer e a rir de piadas mundanas.
Inquietam-me as aventuras que nunca vivemos. Loucuras que nunca cometemos. Memórias que ainda não aconteceram. Idealizo a tua presença para atenuar o marasmo que seria se de facto aqui estivesses.
Sabes, tudo que é normal aborrece-me. Por isso me dizem longínquo e não nego esse fardo. Confesso-te esse meu pequeno segredo. De quem não se contenta com o que aqui está, ou quem me rodeia.
Já reparaste na quantidade de barulho que há no mundo? Tolda-me o pensamento tantas vozes a gritarem coisa nenhuma. Falta-me o sossego da minha mente vadia a dançar em versos num silêncio qualquer. Onde não há companhia as respostas tornam-se perfeitas.
Aconchega-me a ideia de existires sem aqui estares. Poder apelidar-te de amigo sem nunca te conhecer. Lamentar a tua inexistência mesmo ficando aliviado que assim seja.
A saudade perfeita é esta, a que se sente do impossível. Poder dizer que se conseguiu o inalcançável no simples desejo de o ter!

sábado, setembro 30, 2017

Je t'aime en noir et blanc!


Amo-te em preto e branco!
Num retrato dito “vintage” entre o tom escuro e o claro, em traços de cinzento. Como quem colheu a beleza hipnótica da melancolia a atrair no teu olhar, a combinar com a sensualidade da tua pele descolorada.
Desenhada como a lápis de carvão na tela da fotografia. No silêncio da falta de cor, confessas-me segredos infindáveis sobre tua feminilidade e chamas-me com a tua voz calada para contemplar o teu vazio.
Por vezes apaixono-me por momentos, ou imagens, que duram a eternidade de uns breves segundos e ficam gravados na mitologia do esquecimento. Não me contento com a insignificância de um mero “para sempre”. Desejo apenas a luxúria de incontáveis infinitos feitos de poesia e pensamento.
Sou feito de instantes. Pequenos nadas que desnudam a pele da realidade. Sonhos e sentimentos que me revelam a essência da intensidade humana. Como este, em que, as sombras da tua imagem me transportam para as rimas da tua verdade. Versos de desalento pintados a preto e branco numa fotografia silenciosa.

quarta-feira, setembro 27, 2017

Enigma do sonho esquecido


Se te lembrasses de todos os sonhos que tiveste até hoje, quantas vidas já terias vivido enquanto estás a dormir?
Mundos grotescos, bizarros, alternativos, para além da barreira da imaginação. Amor, ódio, medos, conquistas, glórias e fracassos cabem todos nesse cosmos incompreensível que se forma na tua mente enquanto dormes.
Rostos desconhecidos em caras familiares, premonições sem sentido, lugares imensos tão conhecidos como estranhos. Passagens sem nexo aparente, ou talvez cheias de verdades insuportáveis. Tudo é enigma quando a mente adormece nos braços da fantasia. Se do sentido da vida pouco se conhece, quem sabe a origem do sonho?
Por algum motivo que nos é alheio, o Universo, na senda da criação, não quis que nos lembrássemos dessas existências extravagantes que acontecem no nosso ser desacordado. Impera que a consciência, como que em tom de rivalidade, remetesse essas recordações ao esquecimento. Uma espécie de passado alternativo sem lugar na bagagem memória.
Mas nem tudo é esquecimento… Agraciamos os pequenos fragmentos de sonho que teimam em permanecer depois do despertar, como uma chamada de atenção. O seu mistério cativa os seres inquietos e marca a impossibilidade de ignorar o que o sono esconde.

terça-feira, setembro 19, 2017

Seja o teu nome vingança!


Parte.
Parte tudo!
Destrói a realidade.
Contenta-te apenas com o caos!
Bruto,
Violento,
Sedento de sangue!
Na pele dos outros,
Carne em agonia,
Bocas em gritos.
Sonhos desfeitos a calar o teu vazio!
Raiva.
Arde em raiva!
Seja o teu nome vingança!
Selvagem,
Implacável,
Justiça pela tua mão!
Onde mora o mal,
Sem misericórdia,
Hipótese de perdão,
No rosto do arrependimento.
Dor manchada na parede do teu querer!
Rasga.
Rasga tudo!
Sem que o passado se escreva.
Desfaz as páginas do livro da mágoa!
Tirano,
Indomável,
Tudo em ti é liberdade!
Não te ditam leis,
Regras castradoras,
Mundo a teus pés.
Alma do desassossego no teu viver!

segunda-feira, setembro 11, 2017

Quem se contenta apenas com o infinito


Existem lugares que, pela sua insignificância, atingem tal grandiosidade que ultrapassam a compreensão. Só aqueles que têm o hábito de contemplar o silêncio podem ousar conhecer um pouco dessa essência.
Sejam pontos onde a natureza tem a liberdade para se exprimir, ou locais onde a arte humana nasceu na imaginação de alguém que por ali passou.
Desenham-se arestas. Produzem-se sons. Emana a Paz!
Não importa o que está além. Quem se contenta apenas com o infinito, ama essa simplicidade, onde o nada se torna imensidão e convida a um momento de paragem para abstracção. Instantes de meditação onde se louva o Universo com todos os seus mistérios e maravilhas.
É assim que se canta uma oração na mente de quem é eternamente insaciável. Só as pequenas coisas podem acalmar a inquietude. Adormece a bravura. Aconchega-se a mansidão. Sem palavras que estraguem o que se fez perfeito. Imenso momento de transcendência…

terça-feira, agosto 29, 2017

Os melancólicos


Nós, os melancólicos, encontramos a felicidade nos pequenos pormenores da vida. Não buscamos um apogeu de alegria pois sabemos que esta é efémera. Queremos apenas a simplicidade de um sorriso honesto.
Nós, os melancólicos, temos um fascínio pela solidão. Gostamos do isolamento e da liberdade de não depender de mais ninguém a não ser dos nossos próprios pensamentos, longe de quem vive o fado da banalidade.
Nós, os melancólicos, observamos os outros. A coberto da nossa distância passamos despercebidos entre os demais. Somos como mais um na multidão, sem que o nosso ser seja distraído pelas ambições que o mundo tem.
Nós, os melancólicos, conhecemo-nos na poesia. Como quem conversa intimamente com desconhecidos nos versos da nossa inquietude, a partilhar segredos obscuros nas palavras rimadas da nossa fantasia.
Nós, os melancólicos, amamos o infinito, onde não há fronteiras que nos imponham impossíveis. Queremos ter por destino o que está longe e nessa viagem expandir a nossa mente até ao inacreditável.
Nós, os melancólicos, repudiamos a tristeza pois conhecemos a sua sombra. Procuramos refúgio na noite como vampiros, ainda assim amamos a luz do sol e o calor, pois o fardo da escuridão na alma é demasiado penoso.
Nós, os melancólicos, temos o nosso nome escrito no livro da sabedoria. Fomos abençoados com a maldição de buscar o conhecimento. Abraçamos o castigo de caminhar em direcção à gnose. Convictos da nossa vontade, neste destino eternamente insaciável...

segunda-feira, agosto 07, 2017

A criatividade de quem vive inquieto


A verdadeira religião não tem nome. Nem rituais pré-estabelecidos. Não tem sequer regras. Obviamente que a espécie humana tinha de tentar compreender aquilo que entende como divino. Claro que na sua ignorância, e num acto totalmente imbecil, dividiu a Fé naquilo a que chama “religiões”. O que resultou dessas separações, foi revelar o que existe pior na essência da humanidade. A desunião.
A verdadeira religião não tem um Deus, pois na há nome que Lhe possa ser atribuído. Não tem um santuário, pois todo o Universo é uno consigo. Não tem um tempo, porque o princípio é igual ao fim, e o intermédio apenas uma sensação interpretada pelos sentidos e contabilizada pela ciência. A pequenez da existência apenas reduziu toda esta grandiosidade a algo que possa compreender pela dita lógica.
A verdadeira religião é incompreensível, nem a ciência, nem a teologia, nem filosofia, lhe encontram explicação e certamente, a humanidade presa à sua percepção da existência, não vai encontrar uma orientação que lhe mostre conhecimento. Talvez, se todos pensarem como um, se chegue a alguma conclusão que permita abrir uma porta para o entendimento e o transcendente se torne verdadeiramente próximo.
A verdadeira religião não nega a natureza. Se assim fosse não teríamos sido criados da forma que fomos: planetas e galáxias; masculino e feminino; animais e plantas; crescimento e aprendizagem. O desejo e a curiosidade são parte integrante da nossa essência tanto quanto a nossa carne e sem dúvida alguma parte integrante da criação. Querer anular esta verdade é afastar tudo que é divino.
A verdadeira religião é um caminho que nos guia a um propósito desconhecido. Sem entender a sabedoria como um pecado mas sim como o único meio de alcançar todos os mistérios da criação. Para além daquilo que nos ensinam, ou do que os nossos sentidos nos mostram, existe urgência em derrubar impossíveis e não criar limites naquilo que deve ser um mundo aberto para conquistar pelo raciocínio e pelo sentir.
A verdadeira religião começa no silêncio. Torna-se embrião no pensamento e explode na arte, no olhar, no tocar, na criatividade de quem vive inquieto. No saber daqueles que se apelidam génios e não se conformam com leis castradoras de ideias, vindas da autoridade mirrada de quem não sonha. É uma energia intensa que pulsa com vontade própria na pele daqueles que vivem para além deles mesmos.
A verdadeira religião está no teu coração de criança que brincava ao amanhã!