quarta-feira, julho 19, 2017

O ventre do pensamento alheio


A ficção não tem limites. Preparem-se para o desconhecido cada vez que abrem um livro. Abandonem-se a vós mesmos sempre que entram nesse caminho, pois essa é a verdadeira porta do mistério.
A história já não é vossa. O trilho, não foram vocês que o traçaram. As personagens nasceram do ventre do pensamento alheio. Os vossos olhos vestem essas peles vindas de outra imaginação. A vossa ideia traça outros cenários ditados pela vontade de outros.
Cores, cheiros, dores e prazeres, são narrados aos sentidos e fazem-se reais nos parágrafos da inquietação. Medos e desejos são moldados na fonte da ansiedade. Amores e ódios vivenciados como quem gosta de sentir o fio de uma lâmina afiada.
Parados, viajam para longe a mundos desconhecidos, de páginas abertas na mão, pintadas por palavras escritas com o poder que o sonho tem. Tudo isto vai muito para além de vocês, ao apogeu que a aventura leva.
Se os romances vieram provar alguma coisa, é de que Deus não é o único criador de universos e destinos. Nós, humanos, dotados apenas de cérebro e dita inteligência, podemos construir o infinito na ponta de uma caneta e na imensidão de uma folha em branco.
Quem de entre vós nunca se esqueceu nas suas próprias lembranças e sentimentos, para viver os poemas que os outros rimaram?
Aqui reside a verdadeira sabedoria. Na imaginação que nos foi concedida pela gnose do Universo!

quinta-feira, julho 13, 2017

Não peças licença


Aprende a olhar directamente na íris das pessoas para saberes o que vai dentro da sua mente.
Encara-os de frente. Sem medo. Com a chama de todo o teu ser projectada na tua imagem. A mirar, sem clemência, para a essência deles próprios.
Despe-lhes o espírito. Derruba muralhas. Abre as portas mais íntimas, não como um invasor, mas antes, como senhor desses esconderijos no pensamento privado. Chama a ti todos os segredos da centelha alheia, como se fosses tu próprio o dono desses recantos.
Não peças licença, pois um amo não necessita de permissão. Mergulha na cor dos olhos para viajares na constelação da alma. Entra com a violência do silêncio onde o âmago se acha intocável.
Deixa que a telepatia nasça nas asas da tua ousadia. Doma o cosmos dos outros como quem é imenso e na tua voz calada espelha a tua vontade…

sexta-feira, julho 07, 2017

As nádegas


Gosto genuinamente de mulheres com cu grande.
Não me refiro àquelas que, com um corpo mediano, têm a ideia, quase insultuosa, de que lá porque o seu traseiro se evidencia ligeiramente para além da silhueta, o acham gordo! Nada disso!
Falo daquelas, com um pouco de gordura, vulgarmente apelidadas de “roliças” e que têm a zona das ancas bastante alargada, fazendo surgir umas nádegas exageradamente proeminentes. De tal maneira que o seu andar se torna um pouco arqueado.
As calças justas e bem preenchidas que evidenciam esta característica, convidam a pensamentos mais lascivos (chamemos assim). Como por exemplo, poder debruçar aquele corpo torneado numa superfície qualquer, seja uma mesa, cama, ou o que estiver ali mais perto e como um cavaleiro tomá-la por trás, fazendo dos seus cabelos as minhas rédeas.
Sei bem que aquelas nádegas bem encorpadas, resistem (e até imploram) um pouco de dor. Umas palmadas bem assentes e a agressividade dos meus dedos enterrados na sua carne volumosa. Marcar a vermelho agreste os contornos dominadores da palma da minha mão, enquanto faço o desejo furioso entrar na essência do prazer.
Não quero com isto ser mal interpretado, como se reduzisse a mulher a um simples utensílio para perversões, pelo contrário, faço-o para reverenciar o expoente da feminilidade. Existem outras luxurias igualmente interessantes no meu íntimo, acreditem. Embora hoje me tenha apetecido partilhar convosco esta. Nada de julgamentos, é apenas a natureza a cumprir os seus desígnios.

quinta-feira, junho 22, 2017

Infinita ironia


Ali estava ele cheio de expectativas para o futuro, momentos antes do espectáculo começar. Era jovem, cheio de ideias, de planos e projectos para concretizar, carregado de energia. Pronto para ser o herói daquela encenação magnífica. Nada podia destruir a sua vitalidade. O seu momento de glória estava próximo.
No entanto, Deus, na  sua infinita ironia estalou nos dedos esboçando um sorriso malandro. Então, com a Sua ordem, todo o palco ruiu  em segundos, transformando o cenário em escombros.
A sua inocência caiu por terra. Vieram as lágrimas, a dor, a mágoa, a tristeza e a desilusão. O espectáculo ficou adiado. Para  breve disseram os homens na sua ignorância (ou hipocrisia). Ele acreditou e aguardou. Afinal que mais podia fazer? Restava-lhe acreditar na mentira.
O tempo passou. O breve que lhe haviam prometido teimava em tardar mais e mais. E atrás dos tempos vieram mais tempos, longos e insípidos. A audiência cansou-se de esperar e rapidamente abandonaram a sala. Um após outro. Sem hesitarem, sem interesse e sem vontade de voltarem.
O guião da peça já há muito que tinha ficado esquecido. Ou melhor, destruído pela revolta, o ódio, a raiva e a fúria. De nada servia, já que o cenário foi erradicado para sempre devido a um capricho divino.
Ele, o outrora futuro herói, ficou sozinho. Até as emoções o abandonaram. Restou a esperança, como é seu dever, para lhe fazer companhia nas longas horas de vazio. Mas mesmo essa o abandonou. Afinal porque havia de o acompanhar, se já nem na mentira acreditava?
Então, sem esperança, tudo desapareceu. Até a solidão deixou de doer, também foi embora como tudo o resto. Ele ficou vazio, desprovido de ambição, desejo ou vontade. Para o resto das pessoas ele ficou esquecido para gáudio delas. Arrumado, ocultado, demasiado longe das suas memórias. Ele tornou-se nada.
Foi então que, no meio da nulidade em que tornara, se apercebeu que estava livre. Solto de sentimentos humanos que nada mais causam do que mágoa. Sem o peso da consciência a acusa-lo dos pecados humanos. Sem a ganância a pressiona-lo. Liberto dos grilhões que o prendem à existência mundana.
E também estava rico, pois o vazio podia ser preenchido a seu bel-prazer e por isso tornou-se o seu novo palco. Transformou-se, então, num artista, guerreiro, poeta, criador, a preencher a sua nova existência apenas com a sua vontade… De certa forma rival de Deus, que na Sua infinita ironia, foi derrotado! Ou, com tanto sofrimento, teceu o destino que sempre desejou àquele homem. Quem saberá dizer?

quinta-feira, junho 15, 2017

As palavras da alvorada


Brinca poeta, com as tuas palavras a versar
Inquietação que nasce ao anoitecer
Caneta que implora para escrever
Devaneios soltos até o amanhecer
Perde-te poeta, nesse teu sonho a rimar
Deste mundo está longe o teu viver
Para outros sentidos todo o querer
Além do pensamento o engrandecer
Viaja poeta, por essas paisagens a imaginar
Mágoa sombria que não deixa esquecer
Amante melancolia com corpo de mulher
Escritos nascidos do silêncio do teu dizer
Acredita poeta, que um dia a tristeza vai acabar
Ao longe onde o destino está acontecer
Olha para lá com ânsia de o conhecer
Sem medo do trilho incerto a percorrer
Caminha poeta, essa estrada tem muito a mostrar
Letras que pintam de cor o alvorecer
Enigmas decifrados nesse transcender
Entrega-te à fantasia com todo o teu ser
Rima poeta, conta a todos o segredo de amar

terça-feira, junho 06, 2017

A metáfora do abismo


Por vezes, quando me aproximo perigosamente da berma do abismo, entre as minhas vertigens, gosto de encarar as suas profundezas infinitas!
Nesses momentos, juro que consigo ouvir o sussurro da sua voz gutural e sedutora a chamar o meu nome. Desdenho do perigo e deixo esse chamamento traduzir-se em tonturas que me tomam o corpo, assim como uma sudorese anestesiante, que me unta a pele.
Sonho em saltar. Mas sei bem que se o fizer, nunca iria tocar violentamente o fundo numa queda impiedosa. Em vez disso, abriria umas asas, tão negras que toda a luz que as ousasse desafiar seria ofuscada pela sua escuridão.
Voava entre as escarpas com a mestria de um anjo (ou de um demónio). Cruzava sem incertezas as paisagens frias dos escombros da vida, para depois voltar novamente a esta berma onde me encontro agora, sem qualquer tipo de medo que me tolde a coragem.
Entretanto, amaldiçoo esta metáfora do abismo… Quem, de entre os poetas deste mundo que cantam a melancolia, nunca a usou?
Todos!
Todos quiseram saltar!
Todos quiseram voar!
Todos assim o rimaram!
Todos se repetiram!
Tal como eu!
Assim declaro que maldito seja o abismo e o desejo de o sentir…

sexta-feira, junho 02, 2017

O sabor


Foi acordado por uma fada que dançava alegremente no seu rosto. Deixou-se ficar com os olhos fechados. Não tanto por preguiça, mas para que ela continuasse a sua dança e fizesse da sua face um palco para a magia, enquanto o julgava adormecido.
Passeava em rodopios e em saltos pelas suas feições, animada pelo chilrear de um pássaro pela manhã e o sol primaveril que irradiava da janela. Ele estava agradecido por aquela minúscula criatura, filha da fantasia, o tivesse escolhido para o pouso do seu bailado.
Tinha tempo de despertar. Momentos em que o mistério desce ao mundo dos homens são raros. Por isso, manteve-se imóvel, como espectador da sua própria alegria.
A certo momento decidiu levantar as pálpebras para que observasse a pequena fada. No entanto, ela, com enorme rapidez, transformou-se numa mosca! Não podia cometer a indecência de ser vista por um olhar humano, na sua verdadeira forma elemental.
A sua dança parou. Em vez disso, na sua forma varejeira, percorria-lhe a face com pequenas espetadelas provocadas pelas suas patas agrestes. Chupava a gordura pegajosa que lhe cobria a pele. Restos da transpiração nocturna provocada pelos pesadelos que lhe assombravam o sono.
Aquele suor sabe a sal. Ele conhece bem o sabor. Prova-o a cada grito de tormento que o faz saltar da cama em absoluto terror. A fada, agora na sua forma grotesca, parecia deliciar-se com aquela viscosidade, como se também ela quisesse provar o seu medo!
Sacudiu-a como a qualquer outra mosca. Ainda a tentou matar, mas a dita, com eximia mestria de voo, escapou-se por entre os dedos. Olhou em volta e nada mais restava a não ser a manhã. Sem fadas, sem danças na pele, sem magia. Apenas o gosto vazio da rotina…