domingo, janeiro 29, 2017

Linhas vermelhas


A espera.
O cheiro do cabedal implacável.
As correias que prendem o corpo.
A nudez.
A submissão.
Os sons que antevêem o martírio.
O medo.
O âmago que se abre em contrariedade.
O segredo.
A ânsia.
O quando?
O silêncio.
Está quase...
O admirar da silhueta.
A mulher.
O íntimo feminino.
A beleza.
O arrepio que nasce ao toque do dominador.
A perfeição da pele.
A iminência da profanação.
A mão firme que segura o cabo.
A perícia do pulso.
O assobio do ar a ser cortado.
O estalido na carne vandalizada.
O gemido que se cala no orgulho.
As linhas vermelhas desenhadas a cada golpe.
A intensidade.
A dor.
O prazer.
O grito que finalmente vence.
A conta que se perde.
O chicote que não se compadece.
Os traços que se multiplicam.
A tormenta que não cessa.
A clemência.
O implorar que fica sem resposta.
A paixão sem misericórdia.
O choro que suplica.
A força impiedosa.
A marca que vai permanecer.
A glória em cicatriz para toda a vida.
A luxuria.
A entrega.
A mão que ergue o rosto.
Os dedos que limpam as lágrimas.
A essência que reabre.
O beijo.
A recompensa.
O carinho.
O amor...

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Algures no inverno


Estou convicto de que em alguma língua do mundo a palavra ‘frio’ rima com ‘dor’. Maldigo o inverno mais profundo e toda a tristeza que traz com ele. O ar gelado e as cores cinzentas do desaconchego sempre à espera de sussurrar ao nosso ouvido o peso do descontentamento.
Ai de nós que fomos embalados no desabrochar da primavera e amamos no conforto do calor. Onde está nossa alegria?
A natureza tem os seus ciclos para que tudo se renove. Temos de a respeitar pela sua autoridade como nossa Mãe. Talvez por isso, com a sua mão carinhosa, nos faça enfrentar o desalento, certificando-se que sabemos louvar, como é devido, o sol e o amor.
Hoje a carne dói. O gelo entranha-se debaixo da pele e procura, decidido, um caminho para a alma. Não o deixo. O dia pode estar mais fraco mas não tarda a crescer. Aqui e ali vão surgindo sentimentos de ódio assinados com o meu nome. É a natureza humana. Não a nego.
Conheço a minha força. Aceito as minhas falhas, que vou tentando fintar. Creio que compreendo estas fases que por nós passam. São a nossa história, a nossa escola, os capítulos da nossa existência.
Sei quem sou, na certeza que sou feito de estrelas e palavras quentes. Galáxias de fantasia e um infinito de magia. Não me vou vergar ao medo, nem servir uma fúria parida por uma noite de invernia!

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Nome de gente


Galinhas. Passarada que muito pouco tem de interesse. Aves sem glória a quem Deus decidiu não abençoar com a proeza de voar. No entanto, alheias a estes reparos, esgravatam a terra incansavelmente em busca de uma qualquer pedrita que sirva de alimento. “Grão a grão enche a galinha o papo”. Agora percebo porquê.
Fazem-no com mestria por entre as folhas caídas de outono e o chão sujo que vão rapando. Ora um remexer. Ora uma bicada. Para eles é indiferente se encontrarem uma pequena pedra ou um grão de ouro. Tudo é igual. Debicam os dois da mesma forma, sem o fardo de reconhecer a riqueza.
Para lá do galinheiro nada sabem da vida dos homens, além do seu tratador que, a horas mais ou menos certas, vai trazendo a ração. Ingerem-na com gosto e rapidez sem saberem que o objectivo daquele petisco é engordar. Se alguém tentar explicar o porquê da engorda será que compreendem?
Eu não consigo. Se me tentar abeirar desatam a esvoaçar e a fazer um enorme chinfrim. Vêem-me como uma ameaça. O único humano que deixam aproximar é aquele que lhes serve aquela gulodice. “Instruí-los é uma ideia parva”, concluo.
Depois daquele repasto, a que todos acorrem para se saciar, retomam novamente à sua natureza de explorar a terra em busca de alimento. Suponho que a ração é apenas um luxo e para eles, afinal, aquela é a definição de fortuna. A terra não se esgravata sozinha. A pausa sabe bem mas não tarda a ouvir-se as patas e os bicos na sua senda.
Algumas escavam mais fundo. Uma cova perfeita, de linhas arredondadas e medidas irrepreensíveis, onde acomodam o seu corpo para descansar. Aconchegam-se. Vão dormitando. São como férias, ou um fim-de-semana perlongado, depois da labuta diária. Isto em tempo de galináceos. Já que o tempo deles é diferente do nosso.
Será que aqueles bichos têm nome? Podia apelidá-los com nome de gente, já que gente me fazem lembrar na sua rotina. Uma ideia parva. Ou talvez não… O devaneio já vai longo e há mais coisas para entreter a minha atenção. Deixo aquela “gente” no seu mundo imenso, (que para mim não passa de um galinheiro), entregues ao seu deus que os reconforta com ração.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Canção do escape


Dedica-me uma música.
Uma qualquer desde que te faça corar quando pensas em mim. Não é apenas uma melodia que te peço, é um pouco de ti.
Entretanto vou ouvi-la repetidamente e imaginar que é o teu abraço e também o teu sorrir. Segue-se uma gargalhada relaxada duma piada seca qualquer.
Materializo-te aqui ao pé de mim. Faço da canção a tua carne. Do longe, aqui tão perto. E surge a vontade de fugir. Seguir sem destino nem regras para cumprir.
Tu em mim e o desejo de me evadir para longe, para uma viagem constante pelo mundo e as suas maravilhas, onde o único destino é partir. Simplesmente ir, no silêncio, no amar, no rir, no deslumbrar!
Abençoados sejam os loucos que o fazem. Eu e tu já o fizemos mil vezes na nossa fantasia. Não satisfeitos multiplicamos por mais mil, e outras mil, até ao infinito, porque não queremos um limite nesse destino que é um contínuo escape.
No entanto, como árvores criamos raízes a este chão tão pequeno para nós. Malfadamos o tempo que na sua incompreensão decidiu não nos sintonizar. Em vez disso condenou-nos a cruzar o nosso olhar onde mora o universo inteiro.
Nasceu a prosa em nós com rimas que teimam em aparecer no texto da nossa harmonia. A distância dos deveres separou os nossos cosmos. Ou não! Na essência do nosso ser já nos evadimos desde o primeiro dia em que a criação soletrou o nosso nome.
Seguimos caminho. Sabemo-nos, cantamo-nos, desenhamo-nos na tela da utopia. Em nós vive uma imensidão que só o pensamento pode atravessar. Na quietude, a viagem já vai longa. Ainda assim arde a ânsia de fugir!

domingo, janeiro 01, 2017

O significado da vida


Certo dia ao adormecer, naquele momento em que já não estamos totalmente conscientes, mas ainda não estamos a dormir e os pensamentos vagueiam à sua vontade, tive uma revelação: descobri o significado da vida!
Com a euforia do segredo imenso que tinha acabado de encontrar despertei num ápice! Foi como se um impulso de adrenalina energizasse todo o meu corpo. Num instante estava acordado, pronto a usar esse conhecimento para bem da existência!
No entanto, ao recuperar a consciência, esqueci-me do que me foi revelado!
Como um louco tentei recuperar os incontáveis fragmentos de memória que se iam dissipando à medida que a consciência se tornava mais clara. Procurava unir os pontos que restavam na lembrança para que esta retornasse a mim. Mas nada! Ficou apenas o conhecimento de que às portas do adormecer um dia me foi revelado o tesouro mais precioso da existência.
Talvez não seja destino para a alma humana estar na posse desse segredo. Ou talvez a carne, na sua ignorância, não saiba ler a linguagem do universo!
Sinto em mim a mágoa de não lembrar… Para me ilibar da culpa do esquecimento deixo no ar a dúvida: foi um sonho ou realidade?...

domingo, dezembro 25, 2016

Métrica e parágrafos


Tenho um absoluto fascínio por ler blogs caseiros nutridos por desconhecidos. Pouco importa se escrevem bem ou mal. Cativa-me sim o conteúdo desses lugares perdidos no ciberespaço
Não me tragam livros, nem cultura erudita de autores famosos cheios de prémios. Os da raça deles que os leiam e elogiem. Eu vou para o outro lado em busca de moradas onde vive a timidez anónima que abomina multidões.
Satisfaz-me, até ao expoente do gozo, ler cantos escondidos na internet pertencentes a gente comum. Pessoas, que depois da luta do seu dia, com os seus corpos cansados, chegam a casa e despejam o que têm a dizer para o teclado. É como um acto de rebeldia para fugir ao que é banal!
Louvo todos aqueles que publicam o seu mundo interior em textos e imagens, para que quem ali chegue, num deambular perdido, se possa deleitar com o que têm a dizer. Mesmo que ao resto do mundo não sirva para nada, para quem não se encontra lá fora, cada publicação é um tesouro.
Gosto de textos sem nome, poesias estranhas, vidas contadas nas palavras de quem é apenas mais um entre outros. Entre métrica e parágrafos vão descrevendo o universo na sua pequenez grandiosa.
Banho-me nesses segredos narrados a coberto da fantasia e acolhidos nos braços maternais de uma página na net. Bendito mar onde vêm desaguar todos os sonhos brotados da fonte da imaginação. Desabafos de quem deseja ser mais do que existir!
A todos os meus companheiros da blogosfera, deixo o meu abraço mais forte de admiração! Nunca deixem de partilhar os vossos sonhos!

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Porque tens medo de chorar?


Deixa-me vestir-te de negro para que faças o luto da tua alegria.
As mágoas dos outros, com que te cobres para esqueceres a melancolia, deixam-te ainda mais nua de felicidade.
Deixa que me banhe nas tuas lágrimas e faça dessa fonte uma imensidão de poesia.
Não percebo porque tentas apagar a tua tristeza na apatia. Tens medo de chorar por causa da dor que, afinal, faz parte da tua identidade.
Deixa morrer um pouco dos teus sonhos ao mesmo tempo que esqueces a fantasia.
Na vida muita coisa muda à medida que amas a companhia. Sabes que a solidão mete medo e vais-te tentando esconder na falsidade.
Deixa-te acordar dessa que não és tu, porque cá fora, mesmo que assuste, nasce o dia.
Mentir a ti mesma sobre algo que não és só aumenta a agonia. Sofrer é temporário, até ao momento de renascer em toda a grandiosidade.
Deixa que te conduza pelo caminho de espinhos até à porta da magia.
Sei que não acreditas, porém, depois do deserto da angústia vem a euforia. Sabes que atrás da mágoa, o contentamento cresce quando se aceita a verdade…