sexta-feira, dezembro 09, 2016

Brincar de Outono


Vem cá para fora brincar na luz do dia
Que hoje o outono está colorido
Nos lábios um assobio divertido
Faz-me bem o sorriso da tua companhia
Trás uns quantos tons de castanho
Vamos pintar um quadro estranho
À deriva sem regras na palete da fantasia
Nunca gostei do preludio do inverno
Pertenço ao calor do verão materno
Nestes dias, o sol da tarde sabe a alegria
Podemos também passear devagar
Neste caminho forrado pelo cantar
O estalar dourado das folhas secas contagia
Trazem os nossos passos à aventura
Cadência ritmada ao som da candura
Pequenos momentos de felicidade e energia
Voltei às lembranças de criança
Cantos saudosistas da esperança
Faz crescer a excitação em saltos de euforia
Como os outonos de antigamente
Crianças que sonham alegremente
Na certeza que a felicidade não é uma ousadia
Toda a criação, uma obra infinita
Natureza, é a minha arte favorita
Porque neste dia o outono é novamente poesia

sábado, dezembro 03, 2016

A mudança (O Narrador VIII)


Foste embora mas voltaste. Igual mas diferente. Com mais acção e menos mistério. O rosto lavado como se fosses outra pessoa. O corpo adornado para esconder as mazelas, quer da carne, quer da alma. Diria que cresceste, evoluíste, ou até mesmo que vieste de uma outra linha temporal, ou até de outra realidade. Houve uma mudança e isso não é mau. Simplesmente alterou-se aquilo que eras. A vida é assim. Cheia de transformações. Quanto a mim, fico contente por narrar essas diferenças.
Olho agora para ti com uma certa admiração. Sei que sempre o fiz, mas desta vez é diferente. Mudaste de forma verdadeira. Creio que nunca acreditaste que fosse possível isso acontecer. Se calhar nem eu. No entanto aqui estás perante mim. Outra pessoa. Uma metamorfose refectiva que te deslocou da tua própria existência para outro acontecer. Um toque de poesia, romantismo e aventura. É por coisas assim que dizem que a vida de algumas pessoas dava um livro.
Não deixa de ser impressionante a tua força de vontade para mudar. Ou, também, a própria vida que se encarregou de trazer a mudança, mesmo que esta assustasse. Uma mistura destas duas perspectivas. Foi rápido, quase de um dia para o outro. Como saltar uma fogueira e passar entre as chamas incólume. Assim que atingiste o solo e te apercebeste do que aconteceu, verificaste que afinal foi simples. Agora tudo é novo!
Enfim, uma insignificância para a história do mundo. Um gigantesco salto para o teu mero ser. Sim, eu sei que foi uma tentativa distorcida de plagiar Neil Armstrong, mas há que ter em atenção que isto merece uma analogia grandiosa. Afinal de contas, não deixa de ser algo muito importante. Mudar!
Verifico também que te encaixas melhor na dita sociedade. Parece até que a tua peça de puzzle consegue caber quase na perfeição e cumprir o que lhe é suposto. Já não é um simples fingir. É mesmo verdade. Fazes parte integrante de um todo. Isso completa-te, pelo menos até onde é possível completar… Já agora, sabe bem ver-te com um sorriso sincero no rosto. Um pouco de luz clareia sempre os pensamentos mais tenebrosos…
Não faças essa cara. Sabes bem do que falo!
Apesar de seres como outra pessoa, algo em ti mantém-se imutável. Esse mesmo facto que tentas esconder. Quando o vazio faz parte de nós, não existe forma, pelo menos que eu conheça, de o evitar por muito tempo. Ele continua lá. Ainda que de forma mais suave. Sem aquela crueldade ameaçadora a assombrar qualquer vislumbre de felicidade. Não te deixes levar pela euforia porque, quando menos esperares, vai manifestar-se com brutalidade para reclamar o que é seu.
Gosto deste teu novo ser. O antigo foi embora para surgir esta nova imagem. Creio que só o espelho, quando tu o olhas, pode reflectir aquilo que está verdadeiramente escondido em ti. Os outros contemplam apenas a aparência, a atitude, as novidades… Tudo camuflagem para os teus medos!
Não digo isto para te desanimar. Apenas o faço como um alerta para o que pode acontecer (ou vai acontecer). Que na sua forma implacável não te apanhe de surpresa e te faça rastejar novamente por entre um pântano de lágrimas, como já o fizeste tantas vezes.
Tem calma. Não me interprete mal. Podes continuar a sorrir como no início desta conversa. Não desejo a tua desgraça. Pelo contrário. Sei bem que és forte. Se foste capaz de chegar até aqui, também és capaz de seguir em frente. Não subiste esta escadaria para voltar a cair no mesmo nada que te sentias antes. As minhas palavras parecem duras. Possivelmente até são. No entanto, sabes perfeitamente que, na minha função de narrador, ainda que imparcial, tenho por ti alguma estima e ver-te falhar não é algo que deseje descrever. Prefiro as façanhas da tua força contra as angústias da vida, do que um marasmo monocórdico de um estado de tristeza aborrecido!
Tem em atenção que a melancolia até me dá aso à criatividade. Chama a veia de poeta que há em mim. Mesmo assim a derrota é algo que não quero cantar! Sabes bem que não!
Fala-me agora dos teus sonhos! Essa fantasia que também habita em ti não a podes deixar desaparecer. Se há algo que te torna fascinante é esse teu mundo interior, que tanta vida brota dessa fonte que é a tua centelha de imaginação! Era capaz de ficar horas ouvir-te contar todos os teus desejos, como uma criança maravilhada a conhecer a poesia pela primeira vez.
...
Porque esse silêncio?...
Não me vais responder?
Resumes a tua resposta um sorriso que se arqueia no teu rosto?
Assim deixas incontáveis enigmas no ar! Gosto disso! Sabes bem como cativar a minha atenção, para me manter por perto a narrar aquilo que és!
Está bem. Deixo-te ir embora com esse virar de costas e piscar de olho maroto. Afinal de contas ainda tens mistério em ti e uma vida nova para desfrutar. Nada contra. Pelo contrário. Segue esse caminho que em breve voltarei para o relatar. Seja como for, tenho de continuar a cumprir a minha função como teu narrador!

quinta-feira, novembro 24, 2016

Hoje estou frágil


Olha para mim que hoje está escuro
Preciso de mais luz
A tua, que me seduz
Sou de ferro mas sinto-me inseguro
Preciso de mais cor
Do teu corpo, o calor
A chuva alimenta o meu ser obscuro
Preciso de escapar
Leva-me a encontrar
Em ti acredito-me novamente puro
Preciso de mim criança
Ter a força da esperança
Sem a noite sombria fadando-me duro
Preciso do teu verso
Viver em ti o universo
Nesse teu dia luminoso estar seguro

sexta-feira, novembro 18, 2016

Acredito apenas na carne


Se fosses um anjo certamente que as tuas asas seriam negras, para que, com o seu tom lúgubre, escudassem a tua fragilidade.
Se assim fosse, eu, na minha desordem, mutilava toda a tua plumagem com a violência que só o desejo pode explicar. Em toda a ânsia de te ter, arrancava, uma a uma, cada pena do teu ser angelical, como um selvagem, até despir a tua alma.
Desenhava assim uma porta para o paraíso na silhueta da tua brandura. Soltava o teu medo para dançar com o prazer. Nas tuas veias a correr o fogo da perdição, para que te abrisses para mim. Flor desabrochada no orvalho quente do pecado sem castigo.
No entanto, aqui na Terra, onde moram os animais e os nossos olhares se imploram, não creio em seres alados nem em criaturas celestiais. Acredito apenas na carne, na fúria da pele, nos dentes que mordem e na voz que geme. A única verdade é o calar da sensatez.
Sem inferno onde cair nem divindades a pregar a virtude. Tudo se resume ao instinto! À vontade! À intensidade!
Liberta-se o querer e o combate inicia. O arrepiar desnuda o teu segredo! A transpiração! A dor e o gozo! Mostras-te em pleno como mulher! Rivalizas o próprio éden e fazes do teu corpo repasto. Ordenas-me a virilidade e não nego a minha fome sobre a tua perfeição. Nasce o caos! A poesia disfarçada que se vem dentro de nós!

quarta-feira, novembro 16, 2016

Eu e os outros

 

Esta noite estive desperto, a sonhar acordado sobre coisa nenhuma.
É impressionante como o vazio, por vezes, pode tomar conta da vida. Nem o sono, com o seu esquecer, parece escapar à tormenta desta inquietação.
Puxo o cobertor para cima, cubro-me com mais força, na esperança que o calor me traga algum conforto. Sei bem que nada acontece. Deixo então a minha mente divagar por entre uma réstia de pensamentos coerentes.
O prazer tem um limite, é o aborrecimento.
A dor tem um limite, é a apatia.
O vazio, esse sim, não conhece limites. Preenche-se a ele mesmo com mais vazio ainda. Absorve todos os extremos de todas as outras coisas e agiganta-se sempre mais em cada esperança de o fazer desaparecer.
Diz-me a lógica que não sou o único. Sei que existem outros a cair no desalento. Sei que não os posso conhecer ou chegar, mesmo assim, deixo um abraço calado entre o silêncio da noite, para todos aqueles que já tiveram um dia de solidão desesperante. Daquela verdadeira, absoluta, cortante, que faz doer a própria existência. Suprema mágoa quando a necessidade de ter um amigo é vital, porém, ninguém está lá, só o frio de nós próprios…
Os pensamentos vão e vêm ao ritmo da sua própria vontade. Deixo-os nessa liberdade enquanto aguardo que o sono chegue, ou que as horas passem (creio que devem estar a passar) e a luz da madrugada venha vencer o meu desassossego…

sexta-feira, novembro 11, 2016

O impropério


Foda-se
• [Calão]  Interjeição designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.

Sinónimo Geral: FORNICAR

"foda-se", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

O impropério favorito do povo português
O analgésico mais eficaz contra as frustrações do mundo banal
O grito de triunfo de sexta-feira à tarde na hora da liberdade 
O relaxante orgasmo intelectual quando se saboreia o triunfo
O mais sincero desabafo de amizade 
A mais verdadeira confissão ao Deus misericordioso 
O grandioso acto de bravura para o humano comum
O mais belo canto quando nos permitimos o cansaço...

sábado, novembro 05, 2016

Aqui no perto


Anda comigo olhar para longe. Este perto que nos acomoda será sempre uma prisão, quando o nosso destino se encontra ali tão longe.
Eu sei que somos malfadados com o dom do descontentamento. Não é aquilo que temos predestinado que nos chama, mas sim a viagem. Olhemos para horizonte e para o que está atrás dele. Este perto não nos satisfaz. Viajemos para essas distâncias, que nos roubam a atenção, nem que seja a sonhar. Vamos à velocidade da poesia, como se esta fosse a nossa estrada e o nosso transporte simultaneamente.
Procuremos silêncios que se transformem em palavras. Visões inacreditáveis de paisagens coloridas pintadas pela inquietação. Poder visitar a pele arrepiada e nela encontrar um pouco de descanso depois da azáfama do gemer. Sabemos que nesses momentos esquecemos a dor e somos mais do que simples "nós próprios". Ainda assim é tão pouco, tão breve, tão gritante o anseio por mais e mais e ainda muito mais.
Há que continuar o caminho. Existem sempre coisas novas em que nos devemos renovar e enganar o desassossego. Mesmo sabendo que vamos voltar sempre aqui, não podemos perder a esperança, ou pelo menos acreditar que ela existe, nem que seja no conforto do beijo.
Somos os diferentes e os iguais. Temos um mundo fora dos outros. O impulso da carne em desejo, com a ânsia igual de amar o que não está aqui. Seja como for, podemos partilhar lonjuras, para que as nossas solidões sejam companhia neste existir absorto.