quinta-feira, novembro 24, 2016
Hoje estou frágil
Olha para mim que hoje está escuro
Preciso de mais luz
A tua, que me seduz
Sou de ferro mas sinto-me inseguro
Preciso de mais cor
Do teu corpo, o calor
A chuva alimenta o meu ser obscuro
Preciso de escapar
Leva-me a encontrar
Em ti acredito-me novamente puro
Preciso de mim criança
Ter a força da esperança
Sem a noite sombria fadando-me duro
Preciso do teu verso
Viver em ti o universo
Nesse teu dia luminoso estar seguro
sexta-feira, novembro 18, 2016
Acredito apenas na carne
Se fosses um anjo certamente que as tuas asas seriam negras, para que, com o seu tom lúgubre, escudassem a tua fragilidade.
Se assim fosse, eu, na minha desordem, mutilava toda a tua plumagem com a violência que só o desejo pode explicar. Em toda a ânsia de te ter, arrancava, uma a uma, cada pena do teu ser angelical, como um selvagem, até despir a tua alma.
Desenhava assim uma porta para o paraíso na silhueta da tua brandura. Soltava o teu medo para dançar com o prazer. Nas tuas veias a correr o fogo da perdição, para que te abrisses para mim. Flor desabrochada no orvalho quente do pecado sem castigo.
No entanto, aqui na Terra, onde moram os animais e os nossos olhares se imploram, não creio em seres alados nem em criaturas celestiais. Acredito apenas na carne, na fúria da pele, nos dentes que mordem e na voz que geme. A única verdade é o calar da sensatez.
Sem inferno onde cair nem divindades a pregar a virtude. Tudo se resume ao instinto! À vontade! À intensidade!
Liberta-se o querer e o combate inicia. O arrepiar desnuda o teu segredo! A transpiração! A dor e o gozo! Mostras-te em pleno como mulher! Rivalizas o próprio éden e fazes do teu corpo repasto. Ordenas-me a virilidade e não nego a minha fome sobre a tua perfeição. Nasce o caos! A poesia disfarçada que se vem dentro de nós!
quarta-feira, novembro 16, 2016
Eu e os outros
Esta noite estive desperto, a sonhar acordado sobre coisa nenhuma.
É impressionante como o vazio, por vezes, pode tomar conta da vida. Nem o sono, com o seu esquecer, parece escapar à tormenta desta inquietação.
Puxo o cobertor para cima, cubro-me com mais força, na esperança que o calor me traga algum conforto. Sei bem que nada acontece. Deixo então a minha mente divagar por entre uma réstia de pensamentos coerentes.
O prazer tem um limite, é o aborrecimento.
A dor tem um limite, é a apatia.
O vazio, esse sim, não conhece limites. Preenche-se a ele mesmo com mais vazio ainda. Absorve todos os extremos de todas as outras coisas e agiganta-se sempre mais em cada esperança de o fazer desaparecer.
Diz-me a lógica que não sou o único. Sei que existem outros a cair no desalento. Sei que não os posso conhecer ou chegar, mesmo assim, deixo um abraço calado entre o silêncio da noite, para todos aqueles que já tiveram um dia de solidão desesperante. Daquela verdadeira, absoluta, cortante, que faz doer a própria existência. Suprema mágoa quando a necessidade de ter um amigo é vital, porém, ninguém está lá, só o frio de nós próprios…
Os pensamentos vão e vêm ao ritmo da sua própria vontade. Deixo-os nessa liberdade enquanto aguardo que o sono chegue, ou que as horas passem (creio que devem estar a passar) e a luz da madrugada venha vencer o meu desassossego…
sexta-feira, novembro 11, 2016
O impropério
Foda-se
• [Calão] Interjeição designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.
Sinónimo Geral: FORNICAR
"foda-se", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013
O impropério favorito do povo português
O analgésico mais eficaz contra as frustrações do mundo banal
O grito de triunfo de sexta-feira à tarde na hora da liberdade
O relaxante orgasmo intelectual quando se saboreia o triunfo
O mais sincero desabafo de amizade
A mais verdadeira confissão ao Deus misericordioso
O grandioso acto de bravura para o humano comum
O mais belo canto quando nos permitimos o cansaço...
sábado, novembro 05, 2016
Aqui no perto
Anda comigo olhar para longe. Este perto que nos acomoda será sempre uma prisão, quando o nosso destino se encontra ali tão longe.
Eu sei que somos malfadados com o dom do descontentamento. Não é aquilo que temos predestinado que nos chama, mas sim a viagem. Olhemos para horizonte e para o que está atrás dele. Este perto não nos satisfaz. Viajemos para essas distâncias, que nos roubam a atenção, nem que seja a sonhar. Vamos à velocidade da poesia, como se esta fosse a nossa estrada e o nosso transporte simultaneamente.
Procuremos silêncios que se transformem em palavras. Visões inacreditáveis de paisagens coloridas pintadas pela inquietação. Poder visitar a pele arrepiada e nela encontrar um pouco de descanso depois da azáfama do gemer. Sabemos que nesses momentos esquecemos a dor e somos mais do que simples "nós próprios". Ainda assim é tão pouco, tão breve, tão gritante o anseio por mais e mais e ainda muito mais.
Há que continuar o caminho. Existem sempre coisas novas em que nos devemos renovar e enganar o desassossego. Mesmo sabendo que vamos voltar sempre aqui, não podemos perder a esperança, ou pelo menos acreditar que ela existe, nem que seja no conforto do beijo.
Somos os diferentes e os iguais. Temos um mundo fora dos outros. O impulso da carne em desejo, com a ânsia igual de amar o que não está aqui. Seja como for, podemos partilhar lonjuras, para que as nossas solidões sejam companhia neste existir absorto.
sábado, outubro 29, 2016
Sem grandes motivos...
Existe ódio escondido dentro de mim. À espera. Sei que ele não se vê nem se acredita, mesmo assim ele está lá oculto. Vagueia dissimulado na ternura do meu olhar, na alegria do meu ser, no entusiasmo da minha voz... Está cravado, sem piedade, num canto qualquer da minha alma inexplorada.
Adormecido...
Quem sabe se um dia vai acordar? Talvez atiçado pelo medo, ou por uma qualquer crueldade da existência. Ou, quem sabe ainda, sem motivo algum.
Por vezes interrogo-me se essa fúria indomável não tem personalidade própria? Não precisa explicações para ser, nem de ciência para acontecer. Simplesmente é!
Engrandece-se sem justificação a meio de um poema que se propunha feliz. Surge imprevisível como a lâmina de uma navalha, perfeitamente afiada, a rasgar a carne. Nasce do nada a romper a noite num ataque violento à nossa certeza.
Quem odeia não precisa de grandes motivos. Apenas de um instinto selvagem a recusar toda a justiça, como se as regras impostas fossem veneno para todos que desejam mais. Talvez até sejam, porque debaixo da capa da vida que nos cobre está uma história proibida de desejos malditos...
quinta-feira, outubro 27, 2016
Grandiosa insignificância
Existe algo de tão maravilhoso, quanto de misterioso, no pôr-do-sol de um dia quente. A quietude toma conta do mundo. A luz que se vai desvanecendo devagar. Os tons avermelhados que se apoderam do céu. A total e absoluta tranquilidade que cobre, como um manto, o desenho confuso da vila.
Enquanto a noite cai, os pensamentos mundanos desaparecem, a mente navega apenas no transcendente desconhecido. O silêncio de banalidades é tão profundo e grandioso que eu, meditativo, me deixo levar pela incompreensão do universo.
As luzes da povoação começam a acender. Algures um cão ladra. Aqui e ali, um ou outro carro passa. São as pessoas, apressadas, que seguem para as suas casas, para os seus confortos, para seus afazeres, para a hora do jantar. Eu prefiro ficar aqui, ao mesmo tempo que o sol se afunda no horizonte, deixando apenas réstias da sua incandescencia no céu que vai escurecendo.
Não tarda a aparecer a primeira estrela, como um cumprimento cósmico a esta minha contemplação espiritual. Não sei se para Deus isto conta como oração, dada a paz que sinto em mim.
É um momento perfeito, enquanto, na minha insignificância, desenho o infinito na pequenez de um poema...
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