sexta-feira, setembro 09, 2016

Longinquo conhecimento


Contemplo o anoitecer intenso
A primeira estrela no firmamento
Canta a luz do seu nascimento
Fascinante encantamento
Nele louvo o universo
Faço uma oração sem lamento
Peço perdão do meu desalento
Mágoas a cair no esquecimento
Torna o meu sofrer disperso
O silêncio do momento
Longinquo conhecimento
Transcendente pensamento
Tudo neste pequeno verso

terça-feira, setembro 06, 2016

Enganar a melancolia


Quando cantamos o beijo os demónios que habitam em nós correm até aos nossos lábios. Animados pela tentação, à qual não resistimos, atiçam ainda mais as chamas do nosso inferno.
E nós gostamos! Oh como gostamos!
Se tudo além de nós é tristeza para quê negar a punição? No poço fundo e negro onde jaz a nossa coragem, nasce, por entre o frio, um momento de angústia disfarçado de desejo. Tudo é ilusão.
Mas nós vamos! Oh como vamos!
Conhecemos a dor, aquela perpétua, que vem do nosso ser inquieto. Enganamos a melancolia durante a luz do sol que desperta o dia, tentando negar que somos filhos do cinzento e da chuva.
Ainda assim sonhamos! Oh como sonhamos!
Não temos asas porque já não tememos a queda. O nosso fado é sofrer portanto nada impede a nossa entrega. Temos as cicatrizes, temos a poesia, temos a fantasia enevoada pela vida.
Nesse céu voamos! Oh como voamos!
Cruel é o momento em que acreditamos que a esperança renasce. Agarramos aquela ínfima faísca que diz conseguir matar a solidão com a força enraivecida de quem não tem nada a perder.
Mesmo assim acreditamos! Oh como acreditamos!
Na mentira do nosso toque está a verdade da nossa mágoa. Tão real, perfeito e igual, assim é o nosso desalento. Juntadas as nossas noites surge uma lua cheia de brilho que nos ilumina como a quem é feliz.
Mesmo que seja falso nós amamos! Oh como amamos!

quinta-feira, setembro 01, 2016

Gourmet


Atrás das minhas orelhas cheira a queijo. Se por acaso vier um especialista no assunto, com o seu olfacto apurado, cheirar as crostas húmidas que lá se encontram, dirá, com toda a certeza, que são comestíveis. Mais até. Um verdadeiro pitéu. Um prato de delicioso paladar. Um petisco digno dos mais conceituados restaurantes gourmet. Algo reservado somente para as bocas mais exigentes dos réis.
O lixo imundo acumulado ali durante os vários anos da minha existência, onde, por um motivo de rebelião me recusei a lavar, é-me tido como símbolo do meu triunfo sobre a tirania das regras impostas. Congratulo-me por ser um insurrecto sujo e ignóbil. Um ser asqueroso abaixo da condição animal.
Na minha mais profunda sátira sirvo a minha falta de asseio e repugnância ética numa bandeja e coloco-a à mesa dos altos moralistas para que se indignem com a minha insolência.
Vejam! Todo o meu corpo sabe a rebeldia. A minha mente busca apenas a sabedoria. Não me aquieto em jaulas feitas de conforto. Só me conforma a arte e a poesia no seu desassossego. Procuro apenas caminhos onde os passos são raros.
Os companheiros, esses, vão vindo e vão indo pois o rumo não é igual para todos. Sigo por aí determinado, ainda que por vezes sé me reste a solidão, que, na sua doçura ou amargura, me foi sempre fiel.
Na minha bagagem levo um tesouro feito meramente de sentimentos. Desde a acidez do ódio, até à doçura do amar. Conhece-me assim!
Atrás das minhas orelhas cheira a liberdade!


terça-feira, agosto 30, 2016

Só a poesia


Quem me dera ser jovem novamente
Passar os dias entusiasmado
Com os amigos ao meu lado
Poder acordar sempre contente

Quem me dera descobrir o mundo novamente
Na inocência entusiasmado
Por um futuro sonhado
De uma criança inconsciente

Quem me dera nascer novamente

Sentir o espanto de ser gerado
Agradecer o viver que me foi dado
Ao abrir a janela do ventre

Quem me dera acordar novamente 

Muito antes do tempo passado
Antes de ficar fatigado
Cometer novos erros loucamente

Quem me dera apaixonar-me novamente

Trocar um olhar corado
Com um rosto enamorado
Sentir a emoção a vibrar ansiosamente

Quem me dera ancorar-me ao presente

Ter na vida um rumo traçado
Longe do mundo sonhado
Deste meu ser ausente

Quem me dera não me sentir distante

Pela banalidade ser levado
Deixar este sentir cansado
Somente uma rotina constante

Quem me dera não ser como toda a gente

Nunca por este adormecer ser tentado
Selvagem sem nunca ser domado
Amaldiçoar quem me quer condizente

Quem me dera continuar diferente

Nunca me sentir enjaulado
Nem pelo habito ser amansado
Só a poesia me levar avante

terça-feira, agosto 23, 2016

Hoje está...


Hoje está frio
O mundo está cinzento
Perdeu o seu encanto
Lembrando o meu vazio

Hoje está frio
A noite cai enegrecida
Sem luz de guarida
Chamando o meu vazio

Hoje está frio
A noite traz o medo
Que eu escondo em segredo
Cresce o meu vazio

Hoje está frio
Deformadas são as brumas
Que aumentam as sombras
No meu sonho vazio

Hoje está frio
Nasce um grito calado
No meu ser amargurado
Tomado pelo vazio

Hoje está frio
Uma incerteza de criança
Que me rouba a esperança
Torna o caminho vazio

Hoje está frio
Não há conforto
Nem rumo a bom porto
Sozinho no vazio

Hoje estou frio
Na pele arrepiada
Muralha desmoronada
Sinto-me vazio

sexta-feira, agosto 12, 2016

Onde o longe é constante


De que serve compreender
O meu olhar distante?
Que num lento acorrer,
Leva o meu sonhar errante,
Sem medo de se perder,
Para terras onde o longe é constante!

Não sei aonde vou ter.
Apenas sei que estou ausente.
Pelo infinito a desvanecer,
Voa pensamento e mente
Entre uma paz de indizível saber
Como uma brisa fresca num dia quente.

É como num entardecer,
Que na solidão me faz diferente.
Aconchego do silêncio sem nada a dizer,
Sei que mesmo aqui presente
Nesta paz de introverter 
Estou perdido no meu íntimo transcendente...

quinta-feira, agosto 11, 2016

Animar a existência


Em que posso servi-lo senhor?
Dê-me um copo de infinito
Para a poesia calar o meu grito
Deste desassossego aflito,
Se faz favor.
É para já senhor.
Ah! Também uma dose de sonhos com uma pitada de inocência!
Bem regados com aventura, que esta coisa de viver requer paciência,
Seja porque meios for um homem tem de animar a existência.
Traga do melhor.
Pois não. Mais alguma coisa senhor?
Agora que fala nisso, traga paixão.
Que isto sem inflamar a emoção
Faz-me de mansinho acomodar a razão.
Há que brindar o amor.
Como queira senhor.