quinta-feira, janeiro 29, 2015

Janeiro


Que dia melancólico. Há uma tristeza profunda que nasce no fundo do meu ser e vai ofuscando a alegria. Com um certo vazio no meu íntimo, vou-me deixando levar pela amargura. A chuva que cai lá fora é fria, vai trazendo a dormência ao meu corpo, com ela saudades do calor e da ternura...
Dizem que os poetas se alimentam da dor. Tenho dúvidas nesse aspecto. Sei apenas que o desânimo é profundo. Se existe algum tipo de beleza nisso, hoje não a encontro. Deixo essa tarefa para os eruditos, para os verdadeiros poetas, para os filósofos, para os intelectuais, ou para os suicidas...
O gelo que se entranha nos meus ossos é demasiado real. Deixo-me ir com a solidão e o esquecimento, na esperança de encontrar conforto no meu sono. Talvez amanhã venha um pouco de sol e com ele um vislumbre de entusiasmo. Eu sei que a primavera vai regressar. A natureza é feita de ciclos, assim como eu. A felicidade há-de voltar. Por hoje deixem-me amar a melancolia...

segunda-feira, janeiro 19, 2015

A boa disposição


Estás a ver aqueles gajos que estão sempre bem dispostos?
Sim, sim! Esses mesmo!
Já reparaste, uma pessoa pergunta se está tudo bem e eles respondem que "estão sempre bem dispostos"!
Como é que isso é possível? Das duas uma: Ou são mentirosos; ou não sabem distinguir as coisas boas das más. Ou então fumam umas coisas estranhas, ou mamam prozacs como quem chupa rebuçados.
Tenho uma certa vontade de testar até que ponto vai a "boa disposição". Gostava de apanhar um gajo desses e perguntar:
Se o fisco te vier penhorar os bens, será que continuas bem disposto?
Se a tua mulher te espetar um valente par de cornos, ainda assim estás bem disposto?
Se mesmo assim a resposta fosse afirmativa, gostava de lhe espetar um murro bem assente no meio do focinho até ficar abananado. Nem o deixava falar, logo a seguir espetava-lhe outro de maneira a fazer com que lhe voassem três ou quatro dentes. E dava mais uns quantos para lhe desfigurar a cara.
Havia de perder o equilíbrio e cair ao chão a cuspir sangue. Quando estivesse assim deitado, a definhar, já meio confuso. Enfiava-lhe uns quantos pontapés nas costelas, para o ouvir ganir de dor.
A certa altura havia de parar. Afinal de contas não queria que perdesse a consciência. Nesse momento perguntava novamente: E agora, continuas bem disposto?
Queria ver se no meio dos grunhidos o gajo dizia que sim!
Se o fizesse... Olha, tinha de admitir que há pessoas que estão mesmo sempre bem dispostas... Mas até prova em contrário, não acredito!

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Adormecido


Algo em mim está cansado
O meu sol chama o anoitecer
Na sua calma faz-me adormecer
Como um guerreiro derrotado

Lamento ter-me adormecido
Pesado cárcere do meu querer
Grilhões duros para me deter
Sentir o espírito aprisionado

Perdoem-me de ter quebrado
Chorar o júbilo a desvanecer
Indo num lento entristecer
No canto negro de um fado

Deixai-me então adormecido
Esgotado da mágoa de viver
Por momentos excluído de sofrer
Algures num sono esquecido

O sol descansa extenuado
Em breve virá o amanhecer
Trará o anseio de combater
Seja eu um sonho reanimado

Cantar o fogo de ser amado
Solto com fome de prazer
Ser paixão e caos a arder 
Na manhã ser libertado



quarta-feira, janeiro 07, 2015

Mais uma manhã


Estava num lugar onde o tempo não existia como o conhecemos, sem passado, futuro, ou presente. Havia movimento à sua volta, porém, era como se fossem águas paradas, sem correntes que as impulsionem. Não conseguia explicar. Simplesmente sabia que era assim: um tempo parado e simultaneamente em movimento, fora da existência.
Quis explorar o local em busca de outras consciências, no entanto, por mais que andasse, parecia que não saia do mesmo sítio, mesmo as paisagens sendo diferentes, o lugar era o mesmo.
O sol brilhava, mas não aquecia. Estava quieto, perfeitamente estagnado, há horas, há dias, há anos, desde sempre, ou desde nunca. Não passava de uma imagem pintada no céu!
Ocorreu-lhe então, de que não se lembrava quem era. Sendo assim, como era possível estar ali sem uma história que o contasse? Fez um esforço para se recordar. Pequenas vagas de lembranças foram chegando à sua mente. Breves fragmentos de vidas humanas excessivamente complexos e bizarros para que tivesse uma resposta clara. Contudo, chegou a uma conclusão: «Eu sou tudo!»
Esticou o braço para a frente e segurou todo aquele mundo, que se reduziu à palma da sua mão, como se fosse uma bola de papel amarrotada.
Fechou o punho. O interior começou a aquecer de forma intensa. Cada vez mais e mais e mais e ainda mais, até atingir uma temperatura impossível!
Nesse ponto explodiu numa derradeira exclamação de luz!
Ele acordou.
Recuperou totalmente a consciência. Quem era, onde estava. O tempo acontecia. A vida estava lá com as suas recordações. Mais uma manhã.
Ficou no entanto a dúvida:
Será que era sonho, ou lembrança?

sexta-feira, janeiro 02, 2015

Um pouco de tudo


Um pouco de tristeza se faz favor!
A vida abunda em amargura e tenta-se fugir da dor, numa esperança errada que ela não nos apanhe. Mas encontra-nos sempre. Por isso deixem-me saborear uma pitada de melancolia para que a cante em poesia nas horas mais penosas…

Um pouco de alegria se faz favor!
Quero jubilar ao sabor de uma festa. Seja ela qual for, porque motivo seja, o importante é que existam razões para festejar. Ou mesmo sem elas, acordar empolgado numa manha solarenga cheio de vontade de dançar porque simplesmente estou cheio de energia…

Um pouco de trabalho se faz favor!
Acordar cedo depois de deitar tarde. Resmungar com preguiça ao levantar para o emprego. Queixar-me do chefe, dos colegas, das cusquices. Ficar orgulhoso depois de uma tarefa bem cumprida. E não esquecer o usar do ordenado…

Um pouco de lazer se faz favor!
Porque a rotina é enfadonha, há que sair à aventura. Dêem-me espaços para explorar, beleza para admirar e sonhos a idealizar. Mundos onde possa ser eu mesmo, fiel à minha natureza de adorador de infinitos, entre a poesia e a conquista…

Um pouco de raiva se faz favor!
Porque existem inimizades, porque acontecem injustiças, porque há actos que exigem vingança. Embora o ódio seja o sentimento mais corrosivo que existe, o ser humano precisa de o sentir a ferver no sangue em momentos de indignação…

Um pouco de amor se faz favor!
Que posso eu dizer aqui? Existe sabor mais doce na existência? Quero deixar que os olhos brilhem como cristais ao cruzarem-se com outros. O sorriso a abrir e os lábios a pedir o beijo ansioso. Sentir-me leve a flutuar entre nuvens quando o toque enamorado acontece…

Um pouco de paz se faz favor!
Não me refiro à ausência de guerra, maldita seja! Almejo a serenidade no espirito a guiar os meus passos, seja em invernos frios, ou verões acalorados. Haja em mim a tranquilidade para não me perder nas vielas escuras do meu caminho…

«»

Aqui está uma bela receita de felicidade, bem conseguida, com uma pitada certa de vários ingredientes. Servida num prato bem cheio que vou degustar com prazer até ficar enfartado, pois o tempo é de comemorar!

segunda-feira, dezembro 29, 2014

História de amizade


O jovem sentiu um pêlo a sair do seu nariz. Era anormalmente longo. Apesar de o tentar meter para dentro, aquele fio rebelde insistia em ficar do lado de fora da narina, como se quisesse ver o mundo exterior.
Ainda pensou em corta-lo, mas achou que seria uma injustiça perante a curiosidade demonstrada por aquele pêlo bisbilhoteiro. Achou engraçado, por isso deixou-o ficar.
Fazia um círculo para fora como se fosse uma argola no nariz e se tratasse de um adorno natural. O jovem achava piada e deu-lhe o nome de ‘Zé Alberto’. Não tinha nenhum significado especial. Era apenas um nome que lhe surgiu de repente na cabeça. Nada mais que isso.
Nos dias em que o ‘Zé Alberto’ saia para fora, o jovem mantinha inúmeras conversas silenciosas com ele sobre coisa nenhuma. Foram criando assim uma peculiar amizade  e companheirismo.
Entretanto, o jovem começou a ter o hábito de puxar o pêlo, para ver se ficava mais comprido. Queria dar-lhe uma maior liberdade para explorar o exterior. No entanto, certo dia, mesmo sem fazer muita força, arrancou o ‘Zé Alberto’ sem querer!
O seu coração palpitou ao aperceber-se que ia perder o seu amigo de tantos momentos insignificantes. Ainda o prendeu entre os dedos, procurando guarda-lo numa caixa. Ou algo assim. Não queria ficar sem ele.
O encontrão de alguém na rua, fez com que soltasse o seu amigo. Tentou procurá-lo na calçada, em vão. O ‘Zé Alberto’ estava perdido…
O jovem ficou triste. Manteve, ainda assim, a esperança de um dia aquele pêlo curioso voltar a nascer e vir até cá fora, para nutrirem outra vez uns bons momentos de convivência.

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Curta história de amor


«Não gosto de gajas estrangeiras.» Dizia ele com bastante certeza na voz.
«Só aprecio as portuguesas, com um bom ! Roliço e redondinho. Excelente para dar umas palmadas. Tás a ver?» Reafirmava ele, balançando a palma da mão aberta, quando lhe perguntavam sobre o seu gosto em mulheres. 
Ou, pelo menos, era isso que acreditava até ao dia em que a conheceu. Rosto envergonhado. Aquele cabelo sedoso e brilhante. Os óculos de hastes engraçadas. A camisa branca, cuidadosamente engomada, e a saia preta, pelo joelho, deixavam adivinhar os contornos perfeitos do seu corpo. Tinha o visual de bibliotecária mais impecável que vira até aquele dia. E ele gostava tanto.
Assim que olhou para ela bloqueou. O tempo começou a passar tão devagar, que até a câmara lenta parecia rápida comparada com aquilo. Queria cumprimenta-la, mas só pensava em dizer: Amo-te! Claro que da sua boca nada saiu. Apenas aquele olhar estúpido e estarrecido estampado na cara a olhá-la. A mulher mais bonita que tinha alguma vez visto!
Ela corou. 
Quando finalmente conseguiu falar disse: «És linda! Como te chamas?»
Felizmente a situação não exigia grandes formalidades e ele podia tratá-la de forma mais intima, "por tu". Ainda não a conhecia mas já a amava!
«Maria...» Disse ela, com certa timidez, num português arranhado. 
Grega! Uma semideusa com certeza! «Deus é um tipo irónico!» Pensou. Mas a paixão não quer saber de nacionalidades. Simplesmente acontece e não se importa com preconceitos. Não era portuguesa... Talvez fosse castigo. Não fazia mal. Amou-a na mesma. Afinal de contas, traseiros cheiinhos existiam em todas as nacionalidades. 
Apesar do trabalho que tinham de fazer, foi rápido convence-la para um café. Ela, atraída pela mesma química, aceitou de imediato e até hoje continuam a amar-se. Prolongam aquele momento inicial constantemente, repetindo os cafés tal como se fossem sempre o primeiro. Tal como um ritual de paixão eterna dedicado a Afrodite. Louvada seja!