terça-feira, junho 03, 2014

Pedaços de sucata


Tenho demasiado barulho na minha mente. Incontáveis fragmentos de poluição mundana vagueiam pelo imenso cosmos da minha imaginação inquieta.
Um emanharado de memórias, fantasias, sonhos, projectos, ideais, loucuras, ou simples devaneios que vêm à tona no mar da minha consciência. Inquietam-me com a sua presença e não me deixam serenar. Parecem ruídos que estragam de forma irritante a melodia mágica que tento escutar. Uma música encantada que provém da própria essência do universo.
São como pedaços de sucata que teimam em estorvar o meu caminho, cada um por si a tentar chamar a minha atenção. Vou-me perdendo entre eles, a olhar para pequenos desinteresses e banalidades que pouco acrescentam à minha existência!
Quero mais! Sei que existem mundos novos a descobrir dentro de nós.
Tenho ganas de me encontrar! Mergulhar ao fundo da meditação. Viajar à génese da própria existência humana. Unir-me à inocência do primeiro homem, cuja herança trago gravada na minha aparência. Esvaziar a minha mente para que o meu pensamento fique puro e então deixar-me invadir por novas realidades. Encontrar um vislumbre da verdade cósmica que tanto anseio e beber, ainda que seja apenas um simples gole, da fonte do conhecimento.

sexta-feira, abril 25, 2014

A ânsia


– A sua bênção padre. Já não me lembro da última vez que me confessei.
– Não faz mal. Conta-me os teus pecados meu filho para que te possa absolver.
– Oh! Mas eu não procuro absolvição.
– Então porque te confessas meu filho?
– Porque odiei com todas as minhas forças os inimigos que me foram surgindo. Tive inveja de quem tinha o que eu desejava. Insultei arrogantemente quem se atravessou no meu caminho. Agredi sadicamente quem se opôs à minha vontade. Deixei-me tomar pela luxuria, tomei e saboreei o corpo de muitas mulheres. Entreguei-me a todo o tipo de perversões carnais e anseio por muitas mais. E os segredos! Oh, os segredos, tenho toda uma colecção imensa deles. Meus e dos outros. Desde simples coisas mundanas a acções hediondas. Sou um ser extravagante e gosto disso!
– Não estás arrependido?
– Pelo que contei, claro que não. Pelo contrário, orgulhoso. Chama-se viver!
– Jovem, se vieste aqui para gozar comigo fica sabendo que a confissão é um assunto sério!
– Oh! Mas eu tenho um pecado…
– Qual é?
– Tenho em mim uma ânsia imensa por conhecimento. Um sentimento tão imenso que se assemelha a tentar preencher o infinito com uma mão cheia de grãos de areia. Uma ambição tão poderosa que me faz querer ultrapassar a condição humana e saber as verdades proibidas em que alicerça o infinito. Sim! Almejo esse conhecimento transcendente que completa a centelha divina que habita em mim!
– Queres rivalizar com o criador?
– Creio que é uma maneira de interpretar o que disse, sim.
– Meu filho. Não sei se o que me contaste é pecado, ou loucura…

segunda-feira, abril 21, 2014

A brutidade


Estou inflamado de ódio!
Bruto, violento, implacável! Tenho uma vontade imensurável de obter justiça. Esquecer todos os valores morais e apertar lentamente o pescoço de quem atenta contra a minha paz. Ver o terror nos seus olhos cobardes com medo da dor, até que sinta o estalido da coluna vertebral a quebrar.
Mas isso é pouco! Quero matar mil vezes e mil vezes ainda é pouco! Muito pouco!
Quero vingar-me com sadismo de todas as mágoas que me consomem! EXIJO JUSTIÇA!!! Com a crueldade de um demónio a castigar severamente os pecados dos malditos!
Tudo em mim é fúria. Um mar de violência vindo das profundezas mais tenebrosas do meu ser toma-me, com vagas de selvajaria e reduz a minha humanidade ao sentido mais grosseiro do estado animal.
Garras afiadas como espadas para cortar a pele, caninos salientes para arrancar a carne, olhos a emanar ódio como uma força invisível que empurra para o inferno. Sem perdão!
Não me tentem chamar à razão. Afastem-se se não quiserem ser arrastados pelo caos que se gerou! Ninguém é inocente e a consciência está adormecida pelo sangue em brasa!
Deixem que o monstro que acordou em mim sacie a sua fome grotesca por justiça e crueldade...

quinta-feira, abril 17, 2014

A noite


Fascina-me ver-te sair cá para fora e enfrentar o mundo.
Quando acordas quebrada e num acto de coragem abandonas o refúgio que o adormecer te dá. Abres os olhos com o coração num pranto e deixas que a tua face sorridente esconda o choro que habita o teu peito.
Perdida, sozinha, ocultas o teu íntimo dos rostos mundanos prontos a julgar-te porque não te conhecem. Encaras essa multidão vazia como uma actriz que veste uma personagem e sobe ao palco para um papel secundário. Sabes que aquela peça não é a tua por isso procuras uma onde sejas a protagonista.
Não sabes onde está mas sabes que ela existe: A tua peça. O teu palco. O teu papel. A tua história!
Assim passa o teu dia, entre o sol que se levanta e os ponteiros que correm. Em busca do teu lugar, fintando gente supérflua e as armadilhas da vida. Ansiosa por chegares a um porto de abrigo, seja ele qual for…
Eis que a noite chega, por fim. Despes a tua pele de menina e deixas que a dor cubra a tua alma nua de mulher.
Chamas a sonolência, narcótica ou verdadeira (por vezes é difícil de distinguir). Sabes apenas que é a tua fiel companheira por incontáveis viagens entre insónias e encontros com fantasmas vindos dum canto sombrio do pensamento.
A realidade assusta-te!
Encanta-me essa tua luta calada, solitária, triste… A melancolia escondida atrás dessa alegria constrangida que faz de ti prisioneira da tua própria existência.
Cativa-me essa tua mágoa… Mas nem tudo é mau! Sei que um dia te vais encontrar e ficar livre. Acredito nisso com tudo o que sou!
Por isso, menina sonolenta, hoje à noite, se verteres algumas lágrimas, lembra-te de guardar uns sorrisos para mim…


sábado, março 22, 2014

Rimar



O poema tem de rimar
Podem dizer o contrário
Que rimar não é necessário
Mas a rima tem de lá estar

O poema tem de nos levar
Onde o mundo não conhece
Em que a vida acontece
De sentimentos a alimentar

O poema tem de voar
Entre céus sem norte
Nas rimas nos transporte
Para um mágico luar

O poema tem de refrescar
Como uma fonte que jorra
Água fresca a toda a hora
A matar sede do caminhar

O poema tem de acariciar
Como uma amante terna
Numa paixão eterna
Que nos faz sempre sonhar

O poema tem de pecar
Como labaredas que ardem
Tentações que nos atraem
Sem nunca nos condenar

O poema tem de dançar
Levar palavras ao coração
Deixar para trás a razão
Simplesmente deixar amar

O poema tem de encantar
Dos olhos soltar lágrimas
Desassossegar nas suas rimas
O poema tem de inquietar

segunda-feira, março 10, 2014

Falemos de amor


Dizem que o amor é a força mais poderosa do mundo. Concordo. 
Claro que existem excepções e quando as circunstancias são propícias, a força mais poderosa é exactamente a oposta. O ódio!
O ódio é analgésico, inflama, revitaliza, torna objectivo quem o sente, dando-lhe capacidades devastadoras. Faz renascer!
Sim, o ódio é violento, sanguinário, furioso, implacável, sem qualquer tipo de afecto ou misericórdia. Molda a pessoa com uma frieza insensível e mune-a com brutalidade.
Alguém capaz de vencer, arruinar, arrasar, aniquilar sem piedade o inimigo e ficar de pé perante todos os ataques! 
Digam lá se isto não é força?
Podem argumentar que o ódio corrói. Destrói a pessoa por dentro. Têm razão. E depois? Às vezes "é necessário ter o caos dentro de si para criar uma estrela"! A remissão virá depois...
Apercebi-me agora que era suposto falar de amor. Fica para a próxima.

sábado, março 01, 2014

Imagina isto


Se eu fumasse este era daqueles momentos em que te pedia um cigarro.
Sentava-me ao pé de ti e dava uma passa longa enquanto o meu corpo relaxava calmamente. Deixava passar um ou dois minutos de puro silêncio. Coisa pouca para o tic tac do relógio, no entanto, para nós uma eternidade onde os nossos nadas conversavam calados. Ia saber tão bem...
Depois, com a nicotina assimilada, quebrava o silêncio:
– Qual será o próximo estágio da evolução humana?
– Porque perguntas isso? – Questionavas com a tua mente banhada simultaneamente em cepticismo e Fé.
– Às vezes gostava de entrar num casulo e sofrer uma metamorfose. – Diria com um tom de voz intelectual como se tratasse de um poema.
– E sair de lá com umas asas!? Isso não ia dar muito jeito a passar nas portas! – Respondias entre pequenos risos.
Eu ria-me também.
– Agora que falas nisso, suponho que tens razão. – Concluía.
Então o teu olhar ficaria distante, fixo algures no infinito. Eu tentaria segui-lo, em vão. Acabaria por desistir.
– Já a mente precisa de evoluir... – Dirias, deixando a frase esquecida a meio, perdida no instante.
Tirarias o teu próprio cigarro, num ritual só teu acendias-o e com o fumo criavas obras de arte que só tu conseguias ver.
Mas o momento chamou a verdade e com ela o que é real: Nenhum de nós fuma.