sexta-feira, abril 25, 2014

A ânsia


– A sua bênção padre. Já não me lembro da última vez que me confessei.
– Não faz mal. Conta-me os teus pecados meu filho para que te possa absolver.
– Oh! Mas eu não procuro absolvição.
– Então porque te confessas meu filho?
– Porque odiei com todas as minhas forças os inimigos que me foram surgindo. Tive inveja de quem tinha o que eu desejava. Insultei arrogantemente quem se atravessou no meu caminho. Agredi sadicamente quem se opôs à minha vontade. Deixei-me tomar pela luxuria, tomei e saboreei o corpo de muitas mulheres. Entreguei-me a todo o tipo de perversões carnais e anseio por muitas mais. E os segredos! Oh, os segredos, tenho toda uma colecção imensa deles. Meus e dos outros. Desde simples coisas mundanas a acções hediondas. Sou um ser extravagante e gosto disso!
– Não estás arrependido?
– Pelo que contei, claro que não. Pelo contrário, orgulhoso. Chama-se viver!
– Jovem, se vieste aqui para gozar comigo fica sabendo que a confissão é um assunto sério!
– Oh! Mas eu tenho um pecado…
– Qual é?
– Tenho em mim uma ânsia imensa por conhecimento. Um sentimento tão imenso que se assemelha a tentar preencher o infinito com uma mão cheia de grãos de areia. Uma ambição tão poderosa que me faz querer ultrapassar a condição humana e saber as verdades proibidas em que alicerça o infinito. Sim! Almejo esse conhecimento transcendente que completa a centelha divina que habita em mim!
– Queres rivalizar com o criador?
– Creio que é uma maneira de interpretar o que disse, sim.
– Meu filho. Não sei se o que me contaste é pecado, ou loucura…

segunda-feira, abril 21, 2014

A brutidade


Estou inflamado de ódio!
Bruto, violento, implacável! Tenho uma vontade imensurável de obter justiça. Esquecer todos os valores morais e apertar lentamente o pescoço de quem atenta contra a minha paz. Ver o terror nos seus olhos cobardes com medo da dor, até que sinta o estalido da coluna vertebral a quebrar.
Mas isso é pouco! Quero matar mil vezes e mil vezes ainda é pouco! Muito pouco!
Quero vingar-me com sadismo de todas as mágoas que me consomem! EXIJO JUSTIÇA!!! Com a crueldade de um demónio a castigar severamente os pecados dos malditos!
Tudo em mim é fúria. Um mar de violência vindo das profundezas mais tenebrosas do meu ser toma-me, com vagas de selvajaria e reduz a minha humanidade ao sentido mais grosseiro do estado animal.
Garras afiadas como espadas para cortar a pele, caninos salientes para arrancar a carne, olhos a emanar ódio como uma força invisível que empurra para o inferno. Sem perdão!
Não me tentem chamar à razão. Afastem-se se não quiserem ser arrastados pelo caos que se gerou! Ninguém é inocente e a consciência está adormecida pelo sangue em brasa!
Deixem que o monstro que acordou em mim sacie a sua fome grotesca por justiça e crueldade...

quinta-feira, abril 17, 2014

A noite


Fascina-me ver-te sair cá para fora e enfrentar o mundo.
Quando acordas quebrada e num acto de coragem abandonas o refúgio que o adormecer te dá. Abres os olhos com o coração num pranto e deixas que a tua face sorridente esconda o choro que habita o teu peito.
Perdida, sozinha, ocultas o teu íntimo dos rostos mundanos prontos a julgar-te porque não te conhecem. Encaras essa multidão vazia como uma actriz que veste uma personagem e sobe ao palco para um papel secundário. Sabes que aquela peça não é a tua por isso procuras uma onde sejas a protagonista.
Não sabes onde está mas sabes que ela existe: A tua peça. O teu palco. O teu papel. A tua história!
Assim passa o teu dia, entre o sol que se levanta e os ponteiros que correm. Em busca do teu lugar, fintando gente supérflua e as armadilhas da vida. Ansiosa por chegares a um porto de abrigo, seja ele qual for…
Eis que a noite chega, por fim. Despes a tua pele de menina e deixas que a dor cubra a tua alma nua de mulher.
Chamas a sonolência, narcótica ou verdadeira (por vezes é difícil de distinguir). Sabes apenas que é a tua fiel companheira por incontáveis viagens entre insónias e encontros com fantasmas vindos dum canto sombrio do pensamento.
A realidade assusta-te!
Encanta-me essa tua luta calada, solitária, triste… A melancolia escondida atrás dessa alegria constrangida que faz de ti prisioneira da tua própria existência.
Cativa-me essa tua mágoa… Mas nem tudo é mau! Sei que um dia te vais encontrar e ficar livre. Acredito nisso com tudo o que sou!
Por isso, menina sonolenta, hoje à noite, se verteres algumas lágrimas, lembra-te de guardar uns sorrisos para mim…


sábado, março 22, 2014

Rimar



O poema tem de rimar
Podem dizer o contrário
Que rimar não é necessário
Mas a rima tem de lá estar

O poema tem de nos levar
Onde o mundo não conhece
Em que a vida acontece
De sentimentos a alimentar

O poema tem de voar
Entre céus sem norte
Nas rimas nos transporte
Para um mágico luar

O poema tem de refrescar
Como uma fonte que jorra
Água fresca a toda a hora
A matar sede do caminhar

O poema tem de acariciar
Como uma amante terna
Numa paixão eterna
Que nos faz sempre sonhar

O poema tem de pecar
Como labaredas que ardem
Tentações que nos atraem
Sem nunca nos condenar

O poema tem de dançar
Levar palavras ao coração
Deixar para trás a razão
Simplesmente deixar amar

O poema tem de encantar
Dos olhos soltar lágrimas
Desassossegar nas suas rimas
O poema tem de inquietar

segunda-feira, março 10, 2014

Falemos de amor


Dizem que o amor é a força mais poderosa do mundo. Concordo. 
Claro que existem excepções e quando as circunstancias são propícias, a força mais poderosa é exactamente a oposta. O ódio!
O ódio é analgésico, inflama, revitaliza, torna objectivo quem o sente, dando-lhe capacidades devastadoras. Faz renascer!
Sim, o ódio é violento, sanguinário, furioso, implacável, sem qualquer tipo de afecto ou misericórdia. Molda a pessoa com uma frieza insensível e mune-a com brutalidade.
Alguém capaz de vencer, arruinar, arrasar, aniquilar sem piedade o inimigo e ficar de pé perante todos os ataques! 
Digam lá se isto não é força?
Podem argumentar que o ódio corrói. Destrói a pessoa por dentro. Têm razão. E depois? Às vezes "é necessário ter o caos dentro de si para criar uma estrela"! A remissão virá depois...
Apercebi-me agora que era suposto falar de amor. Fica para a próxima.

sábado, março 01, 2014

Imagina isto


Se eu fumasse este era daqueles momentos em que te pedia um cigarro.
Sentava-me ao pé de ti e dava uma passa longa enquanto o meu corpo relaxava calmamente. Deixava passar um ou dois minutos de puro silêncio. Coisa pouca para o tic tac do relógio, no entanto, para nós uma eternidade onde os nossos nadas conversavam calados. Ia saber tão bem...
Depois, com a nicotina assimilada, quebrava o silêncio:
– Qual será o próximo estágio da evolução humana?
– Porque perguntas isso? – Questionavas com a tua mente banhada simultaneamente em cepticismo e Fé.
– Às vezes gostava de entrar num casulo e sofrer uma metamorfose. – Diria com um tom de voz intelectual como se tratasse de um poema.
– E sair de lá com umas asas!? Isso não ia dar muito jeito a passar nas portas! – Respondias entre pequenos risos.
Eu ria-me também.
– Agora que falas nisso, suponho que tens razão. – Concluía.
Então o teu olhar ficaria distante, fixo algures no infinito. Eu tentaria segui-lo, em vão. Acabaria por desistir.
– Já a mente precisa de evoluir... – Dirias, deixando a frase esquecida a meio, perdida no instante.
Tirarias o teu próprio cigarro, num ritual só teu acendias-o e com o fumo criavas obras de arte que só tu conseguias ver.
Mas o momento chamou a verdade e com ela o que é real: Nenhum de nós fuma.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Lá fora


Lá fora, cinzenta, a chuva cai
Dentro de mim o vazio impera
O silêncio apático; a espera
A alegria que se esvai

Lá fora ouvem-se as goteiras
Para longe fazem-me querer partir
Ou simplesmente desistir
Para onde não haja amarguras

«Não desistas» diz a esperança
«Não chores» diz o orgulho
Mas o marasmo onde mergulho
Faz de mim simples criança

Puxo para cima os cobertores
No meu intimo vou imaginando
O sol quente iluminando
A esperança em dias melhores