terça-feira, agosto 20, 2019

Sentimentos controversos


De que vale falar no anoitecer se, há muito tempo, anoiteceu em mim.
Não foi apenas uma noite, mas várias. Algumas tenebrosas; outras vazias; solitárias; apaixonadas; raivosas; violentas ou serenas. A escuridão tem vários sentidos conforme a sina de quem nela se embrenha.
Cada noite que cai tem a sua história e declamo cada uma como uma fábula insatisfeita, porque nenhuma me completou, e nenhuma foi verdadeiramente imortal, como a poesia tem de ser.
A brutalidade de quem ama!
No corpo, na voz, no prazer e no silêncio de outro alguém em comunhão com o meu desassossego. A paixão é infinita na sua brevidade, por isso, nada mais é do que a ilusão no sentir naquele momento.
O sentido de quem odeia!
Planos de vingança dão um propósito na vida de quem é injustiçado. Se a dor destrói, a dor também recria. No seu ventre insensível, gera os monstros mais desumanos, educados com os mesmos instintos que os (me) esmagaram.
A mansidão de quem acalma!
Por vezes o céu nocturno está estrelado, ou a lua está iluminada para que se acredite em magia. Quando assim é, vem como uma mão maternal, aconchegante e compreensiva, tal como um descanso sem julgamentos.
O recolhimento de quem medita o seu dia!
Porque há que lembrar a jornada e de quando em quando, questionar cá dentro: “Quem somos”? A resposta surge quando o mundo está calado. Existe uma pacificação que tem de ser feita com o impulso interior, para que o fardo do amanhã tenha menos peso.
Assim são os meus anoiteceres, cheios de cenários longínquos, jornadas grandiosas e sentimentos controversos. Assim sou eu, como as minhas noites, pequenos contos na insónia das palavras. Tanta coisa e nada em simultâneo. Sementes que me fazem e refazem nas Primaveras do existir.
Embora, quiçá, devido ao hábito, conheça apenas estes horizontes noctívagos, como um vampiro melancólico. Fadado a viver na madrugada nua. Não devo culpar ninguém, até porque o destino (se existir) é como tem de ser. Ou melhor, o que aconteceu agora é passado e há que seguir em frente.
Como tudo muda, talvez deva agora dar atenção ao nascer do sol...

terça-feira, agosto 13, 2019

Deus, Paixão e Infinito


Gosto de acreditar que a criação do Universo se deva a uma paixão. Aquele por quem tomamos como a derradeira entidade divina, gerou um pensamento enamorado e, desse momento de felicidade absoluta, originou-se tudo aquilo que conhecemos por real.
E nós, feitos à Sua imagem e semelhança, nos sentimentos e desejos, herdamos igual capacidade de paixão e, com ela, a mesma capacidade de criação. Quando a chama da atracção se exalta, nasce um Universo próprio no nosso íntimo. Com as nossas regras, cores e magnificência.
Somos como Senhores dessa versão do existir, naquilo que chamamos sonhar. Ainda que, numa tentativa ridícula de comparação, aconteça numa dimensão mais pequena quando equiparado com tudo o resto. Não importa, não é por isso que deixa de ser igualmente magnifico.
Todos já amamos e, desse modo, também já recebemos em troca a amargura do sofrimento. Infelizmente há sempre uma dualidade na alma quando o sentir é profundo e por cada felicidade alcançada há sempre o outro extremo a espreitar. Seja como for, valeu a pena toda a génese só para que conheçamos o sabor da paixão.
Gosto desta ideia romântica de que Deus criou o infinito porque se apaixonou. Talvez como um adolescente que, coberto de ingenuidade, dá o seu primeiro beijo. Quando lábios jovens se encontram tudo se transforma em beleza e nada mais existe a não ser a fantasia.
Aquela ilusão poética que habita em mim acredita nessa quimera. Afinal de contas, algum propósito deve existir na criação e essa ideia conforta-me para lá de todos os dogmas: Ele, abismado pela grandiosidade do sentimento, concebeu-nos de forma a que, também nós, pudéssemos partilhar de igual forma o êxtase de amar!

quarta-feira, julho 24, 2019

O homem de solidão


O homem de solidão entende o mundo de uma forma muito particular. Tudo devido à sua condição separada de todos os outros. Podemos considerar isto como um dom libertador; ou uma mágoa intensa; ou ainda, insanidade! Seja como for, no fim de contas, o mundo não se rege pelas mesmas regras para aqueles que abraçam esta sina.
O homem de solidão tem de criar a sua própria cultura. Ser o seu próprio “entertainer” e também a sua própria audiência. Ter a sua linguagem íntima e os seus ideais exclusivos. Devotar-se à sua religião, cingida à imensidão do seu Universo. Até a sua história particular deve ser distinta, sem que nunca tenha importado na perceção dos que estão cá fora.
O homem de solidão ri com frequência das suas piadas geniais, contadas com a mestria do sarcasmo do seu sentido de humor peculiar. A ironia que o mundo carrega é por si mesma uma fonte de inspiração inesgotável. Cada situação cómica, anima a plateia de diferentes versões de si mesmo que vão aplaudindo freneticamente entre gargalhadas choradas.
O homem de solidão tem por companhia apenas a sua criatividade. Esta é de facto a sua real amiga, pois a verdade com que interpreta a humanidade é cruel demais e, encarar esse facto dói exageradamente acima do suportável. Apenas a fantasia se destaca sobre qualquer outro pensamento, ausente de qualquer forma corpórea, ainda assim tão completa como a companhia deve ser.
O homem de solidão é, portanto, um profundo entendedor da melancolia, tudo devido ao seu saber de exímio observador. Aqueles que interagem com sã comunidade entre os seus pares, suportam esse fardo com a ignorância da suposta amizade. Acabam, esses, por ser alvo de alguma inveja pela ilusão que os alimenta, leve no sofrimento e confortável no afecto.
O homem de solidão não se conhece. Em vez disso recria-se a cada experiência vivida, aceitando o conhecimento adquirido como o único caminho para uma suposta felicidade. A sabedoria, apesar de toda a amargura que acarreta, serve tanto de isolamento, como de energia para a imaginação: força criadora e superior a qualquer regra imposta!

domingo, julho 14, 2019

Considerações sobre a vingança


Há, no ser humano, um certo orgulho por ser capaz de pensar e dominar as emoções. Porém, existem situações em que os primeiros impulsos a surgir, são idênticos aos dos animais. Vejamos, por exemplo, o instinto de vingança. Quando uma situação provocadora de ódio surge em que penso eu de imediato, mesmo antes de tomar qualquer acção? – Vingança!
No mesmo instante, a minha mente é tomada pelos mais complexos planos de vingança. Dou por mim a ser testemunha dos meus próprios pensamentos e acho isso fascinante. Entretenho-me a observar todos os pormenores meticulosamente engendrados, sempre com toques de sadismo e surpresa, para que o sofrimento do alvo seja violento até ao auge da dita vingança!
Na realidade, há uma apoteose esperada no culminar da vingança. Há uma humilhação sentida. Há a dor desejada ao inimigo. Há a glória por alcançar. Existe toda uma arte de artimanhas e jogadas, que os génios da literatura vão explorando em histórias que se confundem com justiça. Toda uma trama dramática que se estende, quase em tom de aventura, ao falar de vingança!
Assumo toda a vingança que é traçada no meu raciocínio. Eu, na qualidade de observador de mim mesmo, sinto quase um certo orgulho por ser capaz de algo tão maquiavélico e ao mesmo tempo brilhante. Mesmo sem intenção de executar tais planos, porque felizmente impera o civismo em mim. Sem negar aquilo que sinto, confesso que por vezes me seduz a arte da vingança!
Grandiosos pecados que atravessam em segredo a nossa consciência. Estes, que forjados no ódio, combinam a nossa estratégia de bicho “superior”, com o intento primário animalesco de agir. Sentimentos ditos inferiores e dos quais supostamente “evoluímos”. Eu prefiro usar a palavra mistura, de divino e de fera, até ao “topo” da Natureza. Onde, supostamente, não existe vingança!
Não deixo de admirar a brutalidade dos nossos antepassados, que se livraram desta tentação insensível, com regras sociais e uma pressuposta justiça. Ainda assim, estas ideias mais básicas, mesmo com repúdio, ainda povoam a mente humana. Seja em segredo, ou em fascínio. Mesmo que, aparentemente, estas não tenham lugar neste mundo, onde, atrás de ideais nobres, ainda reside a vingança!

sábado, julho 13, 2019

13 de Julho de 2019 pelas 11 horas

O ódio entranhado na carne, na aura, no espaço em redor, tão palpável como um corpo e violento como a destruição tem de ser. A razão desaparece e o pensamento fica tomado pelo instinto implacável.
O rosto transfigurado para um visual animal, com traços grosseiros. Mais adequado a servir o seu propósito. Os dentes parecem sobressair da boca tal como um cão feroz ao atacar um estranho. Ali não há lugar a humanidade.
O olhar inflamado serve de cenário à raiva disparada pela voz. As palavras, afiadas como punhais, não têm misericórdia. Atravessam a pele até a alma, onde se gravam para sempre longe do esquecimento.
O que está dito, está dito. Algo em mim morreu nesse momento, não sei o quê. Senti apenas a desaparecer ante a ferocidade do instante. Fosse o que fosse, já não está lá. Quem sabe fazia parte do alicerce de tudo aquilo que sou.
Sobrou a apatia. Sem resposta, porque afinal, naquelas palavras impiedosas, algo em mim ficou irremediavelmente perdido. É como um misto de cansaço e mágoa. Um desalento profundo, talvez. Ou pelo menos interpretei assim.
Se há algo que a mágoa me ensinou, depois de trespassado pelo ódio no seu estado mais devastador, é que afinal de contas ainda tenho sentimentos. Pelo menos assim acredito. Porque a dormência não me deixa sentir.
Apesar de tudo, com uma réstia de ironia, comecei a bater palmas perante o espectáculo decadente e saí em silêncio. O amanhã virá e só depois vou saber o que morreu em mim. Sei que há um desânimo que vai crescer. Uma data que vai ficar perpétua na memória. Para já escrevo o que não sinto porque o momento está doer…

segunda-feira, julho 08, 2019

Saudades de quem não sei


Hoje perdi-me
Como quem sabe onde vai ter
Por terras longínquas do esquecer
Onde a ruas são silêncio
Fui com velocidade quieta
Numa rapidez sem pressa
Passei por casa de gente amiga
Com quem nunca falei
Muito menos conheci
Deixei-os atrás das paredes
Não bati na porta fechada
Para dois dedos de conversa calada
Ficam saudades de quem não sei
Sem cor nos muros pintados
Ocultos nos portões fechados
Depois continuei em frente
Em estrada de paisagens abertas
Tela onde cabiam todas as coisas
Cenários que chamam sem voz
Os lares ficaram distantes
Meros pensamentos errantes
O caminho sem destino continua
Só assim me sei encontrar
Saber quem sou sem nunca parar
Semeio leves recordações
Cresço com cada momento
Compreendo-me com cada sentimento
E vou em frente…