sábado, julho 13, 2019

13 de Julho de 2019 pelas 11 horas

O ódio entranhado na carne, na aura, no espaço em redor, tão palpável como um corpo e violento como a destruição tem de ser. A razão desaparece e o pensamento fica tomado pelo instinto implacável.
O rosto transfigurado para um visual animal, com traços grosseiros. Mais adequado a servir o seu propósito. Os dentes parecem sobressair da boca tal como um cão feroz ao atacar um estranho. Ali não há lugar a humanidade.
O olhar inflamado serve de cenário à raiva disparada pela voz. As palavras, afiadas como punhais, não têm misericórdia. Atravessam a pele até a alma, onde se gravam para sempre longe do esquecimento.
O que está dito, está dito. Algo em mim morreu nesse momento, não sei o quê. Senti apenas a desaparecer ante a ferocidade do instante. Fosse o que fosse, já não está lá. Quem sabe fazia parte do alicerce de tudo aquilo que sou.
Sobrou a apatia. Sem resposta, porque afinal, naquelas palavras impiedosas, algo em mim ficou irremediavelmente perdido. É como um misto de cansaço e mágoa. Um desalento profundo, talvez. Ou pelo menos interpretei assim.
Se há algo que a mágoa me ensinou, depois de trespassado pelo ódio no seu estado mais devastador, é que afinal de contas ainda tenho sentimentos. Pelo menos assim acredito. Porque a dormência não me deixa sentir.
Apesar de tudo, com uma réstia de ironia, comecei a bater palmas perante o espectáculo decadente e saí em silêncio. O amanhã virá e só depois vou saber o que morreu em mim. Sei que há um desânimo que vai crescer. Uma data que vai ficar perpétua na memória. Para já escrevo o que não sinto porque o momento está doer…

segunda-feira, julho 08, 2019

Saudades de quem não sei


Hoje perdi-me
Como quem sabe onde vai ter
Por terras longínquas do esquecer
Onde a ruas são silêncio
Fui com velocidade quieta
Numa rapidez sem pressa
Passei por casa de gente amiga
Com quem nunca falei
Muito menos conheci
Deixei-os atrás das paredes
Não bati na porta fechada
Para dois dedos de conversa calada
Ficam saudades de quem não sei
Sem cor nos muros pintados
Ocultos nos portões fechados
Depois continuei em frente
Em estrada de paisagens abertas
Tela onde cabiam todas as coisas
Cenários que chamam sem voz
Os lares ficaram distantes
Meros pensamentos errantes
O caminho sem destino continua
Só assim me sei encontrar
Saber quem sou sem nunca parar
Semeio leves recordações
Cresço com cada momento
Compreendo-me com cada sentimento
E vou em frente…

terça-feira, julho 02, 2019

Exactidão matemática


Quando observo uma mosca gorda, não deixo de ficar maravilhado pela engenharia do Universo ao criar os seres vivos. Cada pormenor, por mais ínfimo que seja, é pensado com toda a exactidão matemática para que possa ser completamente funcional. Qual, de entre todas as ciências humanas, pode rivalizar com a criação da Natureza?
No caso das moscas, destacam-se perante a minha curiosidade, sendo dotadas de asas para que tenham o prazer de voar (mesmo não entendendo elas tal dom como como superior). De certa forma, a ignorância acerca das coisas do mundo daqueles que caminham sobre duas pernas, faz delas um ser particularmente interessante.
Têm, como única sabedoria, a forma como obedecem aos seus instintos naturais. Aqueles que as fazem alimentar-se da nossa merda. Sem que o compreendam fazem, do que há repugnante para nós, a sua fonte de nutrição. Dizemos que estas são um insecto nojento, talvez porque encontram o seu sustento na nossa própria imundice.
Já sentiste a irritação de ter uma mosca gorda a passear pelo teu rosto, enquanto chupa a gordura que se vai amontoando sobre a tua pele? É quase irónico que a aquela barriga volumosa seja o resultado daquilo que te é sujo. Tu, que te dizes virtuoso em todos os sentidos. Nada é tão imaculado que não possa ser destronado, até por um simples insecto!
Aquilo que dizemos ser imperfeito, é fonte de vida para aqueles que apelidamos como parasitas. No entanto, para o motor do Cosmos nada é desperdício. Tudo tem o seu lugar e um propósito. Até aquilo que achamos ser mais baixo na nossa tão imaculada sociedade, entre leis, moral e uma suposta sanidade. Resumimos tudo a limpeza e excluímos todos os incómodos.
Entre as insignificâncias do existir, vão-se escondendo os segredos mais completos da verdadeira intenção cósmica. Observar faz-me chegar mais perto da compreensão absoluta (ou da ilusão de a poder ter). De qualquer maneira, encontro nestas constatações algum conforto com o qual amenizo o desassossego. Uma simples mosca gorda pode guardar os mistérios mais ambicionados do Universo e isso, só por si, é fascinante!

terça-feira, junho 18, 2019

Solem in Aurora


Já sentiste o tédio a crescer?
Desperdiçar o existir
Vontade desesperada de fugir
Coragem castrada sem viver!

Já sentiste o cansaço a vencer?
Sem saber o que sentir
Adiar constante do partir
Sentença no prazer de adormecer!

Já sentiste o sonho a desvanecer?
Memória sem existir
Vida que teima em se evadir
Destino surge apenas para esquecer!

Já sentiste o empenho a entorpecer?
Pausa carente de dormir
Descansar nunca foi desistir
Amanhã renasce o sol ao amanhecer!

quarta-feira, junho 12, 2019

O que tenho para dizer é igual ao Infinito


Tenho sempre algo para dizer, todos os dias, a alguém. Nem que seja a mim. Nem que seja silêncio.
Há sempre algo que precisa ser dito, mesmo que seja calado.
Os loucos falam para si mesmos, porque têm algo a reparar.
Os génios falam para si mesmos, porque têm algo a questionar.
Os ignorantes falam para todos, porque não têm nada a ensinar.
As respostas vão surgindo no meio do caos; entre o barulho; na confusão das cores. Também na voz dos sábios, ou dos estúpidos. Muitas vezes a explicação está no inverso do que é discursado. O conhecimento está em perceber o que o mundo diz e isso, só por si, é uma disciplina complexa.
O que tenho para te dizer é igual ao Infinito, por isso é vago. Só o consigo verbalizar quando estou longínquo, com o pensamento fixado no inefável. Naqueles momentos, que tu conheces bem, em que o olhar está concentrado num ponto para lá do horizonte. Eu, meditativo, na tua companhia, mas sozinho. Numa viagem ausente pelos mistérios do existir.
Tenho o teu toque por perto e isso dá-me conforto. Tens o meu mundo tão longe e isso dá-te abrigo no carinho da minha inquietude. Sabes que é difícil explicar o que não se compreende, por isso calo-me e deixo que me interpretes com telepatia.
A ciência de quem ama é proibida e, só por esse argumento, é grandiosa. Saber o que não se toca. Dominar a sinestesia dos sentidos curiosos. Alimentar a fome de entendimento, a mesma que nunca se sacia. A Gnose é impossível de expressar. Talvez seja algo que cresça com cada questão. Ou um caminho que se torna mais longo com cada resposta.
Seja como for, tudo que digo agora é um devaneio de quem é insaciável. De nada mais serve a não ser para desassossegar. Pouco mais te posso acrescentar do que este pensamento. Em mim não existe uma verdadeira serenidade. É preço que se paga para quem se perde pela madrugada fora.
Agora fala-me de ti. A condição humana aborrece-me, portanto, abstém-te do que é banal e deslumbra-me com o teu próprio Universo. Não existe nada que seja demasiado insignificante. Há sempre algo a saber, nem que seja dos teus próprios retalhos.

quarta-feira, junho 05, 2019

Fetiche grotesco


Tenho um fetiche por pessoas quebradas. Peço desculpa.
Acho que cicatrizes são o expoente máximo da sensualidade. Venham elas da mágoa que habita a alma, ou da profanação do ser que lhe dá abrigo. O âmago melancólico implora o caos, tal como a felicidade anseia a vida. Nada me seduz mais do que aquilo que é feio, estragado e impossível. O convite tímido de entrar em portas que se abrem com fome de toque. A entrega surge por direito próprio. Saber dos pecados, afinal, inexistentes. Da culpa que nunca foi. Provar o sabor afrodisíaco de bocas caladas. O gemer que se solta do íntimo, entre deleite e súplica. A humidade aberta de um espírito envergonhado com o seu nascer.
A beleza está no grotesco e isso excita-me. Peço desculpa.
As obras de arte estão velhas e cabisbaixas. Não há regras quando a verdade acorda. Os rasgos na pele lisa, sem qualquer objectivo de perfeição, elevam o seu desenho ao auge do erotismo. Toda e qualquer deformação é, para mim, pornografia no sentido mais sexual da palavra. A formosura está morta e o seu cadáver podre. Em nada me cativa a pele lisa, hidratada e imaculada. Só me satisfaz o que está desalinhado. Carne amorfa em êxtase a pedir devassidão. A sujidade crua e pegajosa de quem se vem por inteiro. Corpos disformes, como coisas proibidas, num gozar absoluto em orgasmos translúcidos de prazer.
Só encontro apoteose entre o que é anómalo. Não peço desculpa.
Não podem existir julgamentos quando a virtude é ignorante.

quinta-feira, maio 30, 2019

É fácil seguir um sorriso


Esperei por ti sentado, numa dobra qualquer do infinito, ao som da poesia e sonhos de criança. Mas tu nunca chegaste. Por causa disso, confundi-te várias vezes com outros rostos sorridentes que iam passando por mim. É fácil seguir um sorriso quando procuramos algo mais do que a nossa própria grandiosidade. 
Cada figura que encontrei, vinha nutrida com a sua própria busca pessoal e por isso, também a mim me confundiram com outro alguém. Sei que a minha procura não terminou e não parece que me vá submeter à palavra desistir. Creio que já aprendi a diferenciar as faces que desenham a linha do sorrir, para que não troque o teu ser por uma ilusão.
O problema é que não eras tu. Nunca foste tu. Corpos sem o teu toque, sem as tuas emoções, sem o teu Universo onde eu pudesse viajar, para me perder (e voltar a encontrar). Dizem que é assim o amor. Ou, pelo menos, eu acho que é assim o amor. Considerações à parte, não sei se um dia vais aparecer, ou também te perdeste numa espera qualquer.