sábado, novembro 17, 2018

Entre os cacos do viver


Sei da tua companhia, oculta por detrás do silêncio do teu sorriso distante.
Reconheço um outro eu na tua forma, espelhada em cacos do viver. O pensamento deformado pelas cicatrizes do crescimento, amargo e agreste. Vergastadas implacáveis nas costas de quem sonha. A dor é constante na memória, mesmo quando adormecida.
Conheço a tua angústia, perfeitamente escudada pela muralha da tua aparência.
Há uma certa poesia erógena nas palavras (quando as há), trocadas como esperança, de quem se aconchega em estilhaços iguais. Sentenças de melancolia, que se traduzem em versos sem nexo porque a humanidade não basta.
Acaricio na inquietude a tua solidão, tão palpável quanto a pele.
Pouco se pode acrescentar quando duas existências se completam. Ou assim o julgam, tal a semelhança do seu fado. As vozes nada trazem de novo. Talvez os olhares se reconheçam nas cores berrantes do vazio. Só isso, o resto é aconchego.

segunda-feira, novembro 12, 2018

A afirmação


Mas afinal, o que sei eu de gente?
O bicho homem glorifica-se porque, na sua evolução, alcançou o dom do entendimento. Dominar a linguagem, construir e engendrar, acima de qualquer outro ser vivente, que tem a Terra como lar. Ganhou, assim, a recompensa absoluta da arrogância.
No entanto, diz a lógica de quem se compara em tamanho e inteligência, com o enigma do infinito, que a pequenez é a única afirmação que se pode declarar com o mínimo de certeza.
Mas, se restringir a minha observação da existência aos limites que a sociedade, presunçosa, afirma como serem os canónicos, interpreto-me com o estatuto de semidivindade. Portanto, nada mais admito que a perfeição para mim mesmo. Sendo o que me rodeia um Olimpo imaculado, livre de manchas, ou defeitos. Tudo o resto é despojado de atenção e rejeitado com fúria intolerante.
Depois há os sentimentos, elevados ao estatuto máximo do respeito, mesmo quando fadados ao apogeu da tragédia. Contudo, suponho que seja essa a força motriz da esperança e da crença na humanidade. Nunca esquecer a obrigação de acreditar na felicidade e no amor, mesmo que estes sejam miragens, ou instintos animais para que a nossa prole continue a senda que nos guiou.
Ou talvez tudo isto sejam devaneios e ilusões de um ignorante sem canto onde se abeirar, porque um dia decidiu procurar a verdade nas entrelinhas do viver, até que a realidade se dissipou (ou aumentou para lá dos horizontes da compreensão).
Barbaridades transcritas em palavras ocas. Se as decidisse apregoar ao mundo, certamente haveriam ouvidos para as acolher e outros para as odiar sem medida. Isto, sem que antes questionassem a sua lógica.
É assim que julgo os meus iguais. Entre a confusão de opostos que se foram gerando na dita evolução. Numa réstia de bom-senso opto por não tomar partido. Até porque, não procuro seguidores, nem tão pouco inimigos. Aguardo que lá pelo meio, a minha opinião passe despercebida entre todas as outras. A minha autoridade é duvidosa. Eu próprio me interrogo:
Mas afinal, o que sei eu de gente?

sexta-feira, novembro 02, 2018

A parte incerta do imaginar


O silêncio é profundo e o Universo entoa o seu cântico. O “nada” que sou agiganta-se numa imensidão de sentidos transcendentes. A profundidade da vida revela-se na sua essência mais pura, dentro do ventre do caos, onde as sombras e a luz se completam na mais absurda perfeição.
De mim, afinal, pouco sei, além da melancolia fria que deseja invadir-me o pensamento vadio. Quedo-me introspectivo no fim de tarde cinzento, entre as palavras levadas pelo Outono e as ideias sem cor que se passeiam pela mente. O mistério da existência revela-se sem que o possa compreender.
A Natureza assim se fez, ditada pelas regras do cosmos, em constante movimento infinito. Os ciclos repetem-se em saltos entre o dia e a noite; o calor e o gelo; a cor e a chuva. Assim também somos nós, seus filhos, integrantes em plenitude na coreografia das estrelas. O segredo está escondido na parte incerta do imaginar.
Algures deve existir uma voz; uma indicação; um sentido para quem se perde na imensidão do desconhecido da alma. Eremitas errantes por momentos esquecidos, como quem viaja por países estranhos, em desafio constante à noção de entendimento. Apenas tentativas frustradas de dar corpo ao enigma do ser…

sábado, outubro 27, 2018

Companhia de quem não a sabe


Amo.
No negrume da minha alma.
No fogo dos meus demónios.
No silêncio da verdade.
Não sinto falta da paixão porque amar estilhaços completa o caos de quem é imperfeito.
O corpo não me pede o toque, nem a vontade animal de saborear o grito de dor e prazer que se solta na pele.
Assustam-me os beijos que te dão a conhecer como porta aberta para a angústia. Mesmo assim sabem a paraíso depois que as palavras falam (ou calam).
Há a telepatia. Silêncios corpóreos esquecidos nos momentos solitários, como companhia de quem não a sabe, ainda assim, não esquece.
Pouco mais há dizer porque já não sei falar de amor.
Desfigurado.
Despedaçado.
Mutilado.
Esmagado sobre o próprio peso do romance.
Castrado com ilusões bizarras de imortalidade.
A felicidade desvaneceu, quando a ditadura do comum a anunciou como decreto a seguir. Sábios e néscios cingiram-se a este objectivo, sem nunca o conseguir, pois nada imaginam do impossível.
Resta a fantasia dos que navegam na insónia que corteja a madrugada.
Dizem poesia.
Dizem heresias.
Dizem ideias perdidas na noite.
Canta-se o teu nome nos sentidos desconhecidos a quem não sonha.
Não existe adormecer, nem vontade de acordar, só os segredos do inefável e o infinito nem começou ainda…

quinta-feira, outubro 18, 2018

Castigo ou recompensa


Hoje o sono é mais forte que a alma. O adormecer é um país maldito. A vida ficou adiada para um amanhã qualquer, se Deus quiser, ou se a vontade lembrar.
Um passado que nunca aconteceu é o resultado do cansaço que sinto. A apatia é o conforto, na fadiga que entorpece o corpo. Algures deve existir o direito à alienação quando o alento se esgota.
A carne tem os seus limites, quando os músculos acusam o desgaste da ausência de ímpeto. O mundo parece desvanecer num pensamento inútil. Nada mais importa a não ser o vazio do descanso, seja ele uma recompensa, ou um castigo a cumprir por desejar viver em demasia.
Dou-me por vencido e faço de mim esquecimento. Queria escrever algo mais na minha história cheia de gloriosas insignificâncias, mas as pálpebras pesam mais do que a sedução da madrugada.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Quem se julga apaixonado


Ando à procura da Lua, na noite amena do Outono calado.

Ando à procura de mim, sem pressa de me encontrar, no espelho do céu que escurece lentamente.

Ando à procura de um verso onde me sinta aconchegado, tal como um filho se sente amado no regaço quente da mãe.

Ando à procura das ruas que se esvaziam, purgadas das pessoas que fogem para a ilusão do seu lar.

Ando à procura do oculto, nas estrelas longínquas que desenham os sonhos de quem se julga apaixonado.

Ando à procura das cores que se escondem na noite, como quem acredita na mais profunda felicidade.

Ando à procura de um nome, escrito a dor, no ser incompleto e na pele cicatrizada.

Ando à procura do vazio mais perfeito, sem encontro possível para quem sente a alma inquieta.

Ando à procura do que não sei, porque tudo que conheço não interessa.

sexta-feira, setembro 14, 2018

Um bicho como os outros


A solidão sabe sempre melhor na companhia da Natureza. Onde tudo cresce espontaneamente no compasso da ordem natural, sem que ninguém, a não ser a vontade do Universo, interfira na sua essência.
Posso-me fundir com todo o resto aqui. Sou apenas mais um bicho, como os outros que por aqui andam. Sejam pássaros, sapos, lagartixas, libelinhas, ou moscas. Tudo no seu devido lugar. Exactamente onde é suposto estar, tal como o Universo quer. Esta é a oração sublime de quem medita. Para aqueles que se esquecem do que está lá fora, e afinal não importa, quando a finalidade é a Paz interior.
O barulho aqui está isento de palavras. Se a tranquilidade tem som, este é o da água que corre no riacho, os chilreios apaixonados dos pássaros, ou a brisa que vai sacudindo as folhas das árvores. Sem ruídos que poluam os sentidos.
A linguagem perfeita é esta. Em harmonia com as cores de um arco-íris pintado a fauna e flora, na tela da perfeição. Há a quietude, tão longa quanto o tempo que para. O sabor da vida degustado no cheiro fresco da renovação.