segunda-feira, novembro 12, 2018

A afirmação


Mas afinal, o que sei eu de gente?
O bicho homem glorifica-se porque, na sua evolução, alcançou o dom do entendimento. Dominar a linguagem, construir e engendrar, acima de qualquer outro ser vivente, que tem a Terra como lar. Ganhou, assim, a recompensa absoluta da arrogância.
No entanto, diz a lógica de quem se compara em tamanho e inteligência, com o enigma do infinito, que a pequenez é a única afirmação que se pode declarar com o mínimo de certeza.
Mas, se restringir a minha observação da existência aos limites que a sociedade, presunçosa, afirma como serem os canónicos, interpreto-me com o estatuto de semidivindade. Portanto, nada mais admito que a perfeição para mim mesmo. Sendo o que me rodeia um Olimpo imaculado, livre de manchas, ou defeitos. Tudo o resto é despojado de atenção e rejeitado com fúria intolerante.
Depois há os sentimentos, elevados ao estatuto máximo do respeito, mesmo quando fadados ao apogeu da tragédia. Contudo, suponho que seja essa a força motriz da esperança e da crença na humanidade. Nunca esquecer a obrigação de acreditar na felicidade e no amor, mesmo que estes sejam miragens, ou instintos animais para que a nossa prole continue a senda que nos guiou.
Ou talvez tudo isto sejam devaneios e ilusões de um ignorante sem canto onde se abeirar, porque um dia decidiu procurar a verdade nas entrelinhas do viver, até que a realidade se dissipou (ou aumentou para lá dos horizontes da compreensão).
Barbaridades transcritas em palavras ocas. Se as decidisse apregoar ao mundo, certamente haveriam ouvidos para as acolher e outros para as odiar sem medida. Isto, sem que antes questionassem a sua lógica.
É assim que julgo os meus iguais. Entre a confusão de opostos que se foram gerando na dita evolução. Numa réstia de bom-senso opto por não tomar partido. Até porque, não procuro seguidores, nem tão pouco inimigos. Aguardo que lá pelo meio, a minha opinião passe despercebida entre todas as outras. A minha autoridade é duvidosa. Eu próprio me interrogo:
Mas afinal, o que sei eu de gente?

sexta-feira, novembro 02, 2018

A parte incerta do imaginar


O silêncio é profundo e o Universo entoa o seu cântico. O “nada” que sou agiganta-se numa imensidão de sentidos transcendentes. A profundidade da vida revela-se na sua essência mais pura, dentro do ventre do caos, onde as sombras e a luz se completam na mais absurda perfeição.
De mim, afinal, pouco sei, além da melancolia fria que deseja invadir-me o pensamento vadio. Quedo-me introspectivo no fim de tarde cinzento, entre as palavras levadas pelo Outono e as ideias sem cor que se passeiam pela mente. O mistério da existência revela-se sem que o possa compreender.
A Natureza assim se fez, ditada pelas regras do cosmos, em constante movimento infinito. Os ciclos repetem-se em saltos entre o dia e a noite; o calor e o gelo; a cor e a chuva. Assim também somos nós, seus filhos, integrantes em plenitude na coreografia das estrelas. O segredo está escondido na parte incerta do imaginar.
Algures deve existir uma voz; uma indicação; um sentido para quem se perde na imensidão do desconhecido da alma. Eremitas errantes por momentos esquecidos, como quem viaja por países estranhos, em desafio constante à noção de entendimento. Apenas tentativas frustradas de dar corpo ao enigma do ser…

sábado, outubro 27, 2018

Companhia de quem não a sabe


Amo.
No negrume da minha alma.
No fogo dos meus demónios.
No silêncio da verdade.
Não sinto falta da paixão porque amar estilhaços completa o caos de quem é imperfeito.
O corpo não me pede o toque, nem a vontade animal de saborear o grito de dor e prazer que se solta na pele.
Assustam-me os beijos que te dão a conhecer como porta aberta para a angústia. Mesmo assim sabem a paraíso depois que as palavras falam (ou calam).
Há a telepatia. Silêncios corpóreos esquecidos nos momentos solitários, como companhia de quem não a sabe, ainda assim, não esquece.
Pouco mais há dizer porque já não sei falar de amor.
Desfigurado.
Despedaçado.
Mutilado.
Esmagado sobre o próprio peso do romance.
Castrado com ilusões bizarras de imortalidade.
A felicidade desvaneceu, quando a ditadura do comum a anunciou como decreto a seguir. Sábios e néscios cingiram-se a este objectivo, sem nunca o conseguir, pois nada imaginam do impossível.
Resta a fantasia dos que navegam na insónia que corteja a madrugada.
Dizem poesia.
Dizem heresias.
Dizem ideias perdidas na noite.
Canta-se o teu nome nos sentidos desconhecidos a quem não sonha.
Não existe adormecer, nem vontade de acordar, só os segredos do inefável e o infinito nem começou ainda…

quinta-feira, outubro 18, 2018

Castigo ou recompensa


Hoje o sono é mais forte que a alma. O adormecer é um país maldito. A vida ficou adiada para um amanhã qualquer, se Deus quiser, ou se a vontade lembrar.
Um passado que nunca aconteceu é o resultado do cansaço que sinto. A apatia é o conforto, na fadiga que entorpece o corpo. Algures deve existir o direito à alienação quando o alento se esgota.
A carne tem os seus limites, quando os músculos acusam o desgaste da ausência de ímpeto. O mundo parece desvanecer num pensamento inútil. Nada mais importa a não ser o vazio do descanso, seja ele uma recompensa, ou um castigo a cumprir por desejar viver em demasia.
Dou-me por vencido e faço de mim esquecimento. Queria escrever algo mais na minha história cheia de gloriosas insignificâncias, mas as pálpebras pesam mais do que a sedução da madrugada.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Quem se julga apaixonado


Ando à procura da Lua, na noite amena do Outono calado.

Ando à procura de mim, sem pressa de me encontrar, no espelho do céu que escurece lentamente.

Ando à procura de um verso onde me sinta aconchegado, tal como um filho se sente amado no regaço quente da mãe.

Ando à procura das ruas que se esvaziam, purgadas das pessoas que fogem para a ilusão do seu lar.

Ando à procura do oculto, nas estrelas longínquas que desenham os sonhos de quem se julga apaixonado.

Ando à procura das cores que se escondem na noite, como quem acredita na mais profunda felicidade.

Ando à procura de um nome, escrito a dor, no ser incompleto e na pele cicatrizada.

Ando à procura do vazio mais perfeito, sem encontro possível para quem sente a alma inquieta.

Ando à procura do que não sei, porque tudo que conheço não interessa.

sexta-feira, setembro 14, 2018

Um bicho como os outros


A solidão sabe sempre melhor na companhia da Natureza. Onde tudo cresce espontaneamente no compasso da ordem natural, sem que ninguém, a não ser a vontade do Universo, interfira na sua essência.
Posso-me fundir com todo o resto aqui. Sou apenas mais um bicho, como os outros que por aqui andam. Sejam pássaros, sapos, lagartixas, libelinhas, ou moscas. Tudo no seu devido lugar. Exactamente onde é suposto estar, tal como o Universo quer. Esta é a oração sublime de quem medita. Para aqueles que se esquecem do que está lá fora, e afinal não importa, quando a finalidade é a Paz interior.
O barulho aqui está isento de palavras. Se a tranquilidade tem som, este é o da água que corre no riacho, os chilreios apaixonados dos pássaros, ou a brisa que vai sacudindo as folhas das árvores. Sem ruídos que poluam os sentidos.
A linguagem perfeita é esta. Em harmonia com as cores de um arco-íris pintado a fauna e flora, na tela da perfeição. Há a quietude, tão longa quanto o tempo que para. O sabor da vida degustado no cheiro fresco da renovação.

segunda-feira, setembro 10, 2018

Conhecer os extremos


Há dias em que nada faz sentido. Suponho eu, que, afinal, é assim que deve ser.
Querer saber o motor e o propósito de todas as coisas, é uma ambição demasiado grande para quem se limita a deambular sobre a Terra. No entanto, quem prova o veneno da curiosidade e da poesia, sente a tormenta insaciável de querer ir mais além. A inquietação começa quando se toma percepção da pequenez da existência. Tudo o resto é infinito, logo, surge a questão do porquê de tudo isto?
O pecado da sabedoria foi a queda de Adão e Eva. Esse também é o destino daqueles que sonham, privados da doce dádiva que é a ignorância. Compreender que se tem sentimentos, dentro da fragilidade da pele, é o princípio da tormenta. Saber que o amor existe é ter noção que a melancolia também lá está. Conhecer os extremos, aqueles que tomam conta do ser, é tumultuoso.
Hoje nada faz sentido. Suponho eu, que, afinal, encontro uma certa paz nesta desorientação. Talvez seja por isso que perceba, que é a partir daqui que deva encontrar um rumo, entre todas as incertezas que compõem aquilo que sou. Talvez seja este o enigma da construção humana, da curiosidade à interrogação; duma suposta resposta à evolução. Equações feitas de cores, palavras e acordes que se propõem a ordenar um aparente caos.
Afinal tudo faz sentido. Quando despimos aquilo que julgamos saber, para dar lugar a novos propósitos e deixar que a história seja sempre um constante início…