segunda-feira, setembro 10, 2018

Conhecer os extremos


Há dias em que nada faz sentido. Suponho eu, que, afinal, é assim que deve ser.
Querer saber o motor e o propósito de todas as coisas, é uma ambição demasiado grande para quem se limita a deambular sobre a Terra. No entanto, quem prova o veneno da curiosidade e da poesia, sente a tormenta insaciável de querer ir mais além. A inquietação começa quando se toma percepção da pequenez da existência. Tudo o resto é infinito, logo, surge a questão do porquê de tudo isto?
O pecado da sabedoria foi a queda de Adão e Eva. Esse também é o destino daqueles que sonham, privados da doce dádiva que é a ignorância. Compreender que se tem sentimentos, dentro da fragilidade da pele, é o princípio da tormenta. Saber que o amor existe é ter noção que a melancolia também lá está. Conhecer os extremos, aqueles que tomam conta do ser, é tumultuoso.
Hoje nada faz sentido. Suponho eu, que, afinal, encontro uma certa paz nesta desorientação. Talvez seja por isso que perceba, que é a partir daqui que deva encontrar um rumo, entre todas as incertezas que compõem aquilo que sou. Talvez seja este o enigma da construção humana, da curiosidade à interrogação; duma suposta resposta à evolução. Equações feitas de cores, palavras e acordes que se propõem a ordenar um aparente caos.
Afinal tudo faz sentido. Quando despimos aquilo que julgamos saber, para dar lugar a novos propósitos e deixar que a história seja sempre um constante início…

quarta-feira, setembro 05, 2018

Entre o mar e as estrelas (O Narrador XI)


Sabes aquela sensação que tens quando colocas os teus pés descalços na areia da praia e enterras os dedos. Sentes a brisa fresca a bater-te no corpo. O som do mar e o seu cheiro característico. Abres os braços, como quem abraça os pormenores que a mãe natureza reservou para te inundar os sentidos de liberdade. Só tu, a praia e o mar, onde não existem os outros. Sem as leis que governam os homens, com as suas manias complicadas. O peso do trabalho. O conforto da casa. As preocupações e os amores. Sem medos… Até a solidão se desmarca do momento, mesmo sendo só tu, a contemplar a imensidão de beleza e coisa nenhuma em simultâneo. O silêncio profundo que te invade a mente, desperta-te como se dormisses. É a Paz de espírito que toma conta de ti no seu estado mais puro.
Encontras-te aí, num simples instante em que colocas os pés na areia e tudo faz sentido porque se transforma em nada. É tão bom, sereno e inexplicável. Um oásis na confusão que a vida te traz. Já não há vazio, fazes parte de um todo inexplicável. Uma máquina infinita de perfeição. Tudo é beleza, incluindo tu!
Infelizmente, sabes, no teu íntimo, que a vida não pode ser sempre assim. Algo em ti precisa do caos. É um desejo quase sinistro, no entanto verdadeiro. Essa malfadada culpa que te envenena e da qual sentes que mereces punição, mesmo que o crime seja inexistente…
Quando pensas nisso, a lógica diz-te que foi demasiado tempo perdido em que a tua existência se resumia a ver os outros felizes. Mesmo assim, e porque a consciência vence quase sempre a razão, fizeste disso, quase como um objectivo da tua vida. Carregar a tristeza, não tanto como um fardo, mas como uma pena que um prisioneiro suporta, mesmo que não tenha cometido qualquer delito.
Colocas essas ideias de lado. A praia traz-te a frescura que ajuda a clarear a tua mente. Só isso, ou tudo isso. Olhas para o passado com os olhos de quem assiste a uma peça de teatro com continuações intermináveis e repetitivas. Analisas agora o presente e tomas consciência que o verdadeiro protagonismo na tua vida só pode vir de ti. Está na altura de assumires novos papéis, aprender coisas novas e mudares!
Agora chegou a tua vez de provar a felicidade. Não é uma miragem, é realidade. Podes até tocar-lhe. Tens amigos que sorriem, choram, viajam e se aventuram contigo. Fazem parte da tua história, tal como tu fazes parte da deles. Não se trata de uma qualquer dádiva momentânea que o Universo te decidiu ofertar. É o que mereces. É o que é suposto seres. Feliz!
Por vezes tudo que a alma necessita para cicatrizar é saber que não estamos sozinhos. Existem outras dores, outros martírios, outros demónios e outros pensares. Cada um tem algo porque chorar, mas unidos podem sorrir. As cicatrizes, no corpo e no ser, curam. Sem fealdade, ou vergonha de as encobrir. Pelo contrário, são como um ornamento a evidenciar o estatuto de quem cresceu na forja do sofrer.
Essa é a verdade. Tem de ser este o verdadeiro significado do momento presente. Seja aqui na praia, onde o Verão te acolhe como igual; seja lá fora, onde parece não haver lógica. Faz sentido sorrir. Mesmo com a pele da alma rasgada. Isso foi lá atrás e demasiado pequeno comparado com o horizonte. Hoje não há cinzento, só a cor do Verão com o seu calor a invadir a escuridão do quarto secreto onde mora o medo.
Hoje não és tu que te julgas. Se alguém o fizer é o imenso azul do mar. Também não há celas frias onde o ânimo é proibido, só o conforto da areia que te acolhe como um ser amado pelo universo, sem que viver seja um peso.
Entretanto o tempo passa e não dás conta. A serenidade não olha para o relógio. O dia leve e colorido vai chamando a noite. Chegou a vez de o Universo, na sua condição de inventor de paisagens, te brindar com o espectáculo do pôr-do-sol. Lento e tranquilo, no silêncio e na quietude. O dia termina num apogeu de tons alaranjados e sentimentos sem nome.
O sol flamejante a beijar o horizonte promete que amanhã também haverá calor e com certeza vais voltar. As primeiras estrelas vão surgindo como espectadores do teu sorrir. A noite não traz o frio consigo. Afinal é Verão e a pele deseja sentir a caricia do ar ameno. A natureza cria ciclos para se aprenda o que é belo em contraste com o seu oposto. Houve alturas para frio. Hoje não.
Deixas-te ficar mais um pouco até anoitecer por completo. A tela cintilante vai-se compondo no céu nocturno, pintando a fantasia de quem sonha. Hoje o teu nome está nessa lista, sem vergonha de o mostrares. Afinal de contas, hoje não tens medo dos demónios invernais, nem do escuro da solidão. Também tu és sol! Também em ti é Verão!

quinta-feira, agosto 30, 2018

Balada de Agosto


Lápis cinzento
Esconde o sol deposto
Sal que desce no rosto
Nuvem de tormento

Triste relento
Onde o calor é suposto
Afecto sem gosto
Cala todo o sentimento

Frio desalento
Na cor de Agosto
Prelúdio de desgosto
Poema de lamento

segunda-feira, agosto 27, 2018

Pergunta por verbalizar


Olho para longe, em busca de um lugar que os olhos humanos não podem alcançar. Algures, onde a minha mente não conhece, nem a inteligência sabe onde fica. A geografia é uma disciplina impossível quando o ponto aonde queremos chegar fica no desconhecido. Sem mapas, ou indicações, que me orientem. Simplesmente é demasiado longe. Sempre demasiado longe… Para que a inquietação possa conhecer um pouco de tranquilidade.
Louvo este tormento de nunca me encontrar em lado nenhum, nem numa arte qualquer. Não há poemas cheguem para explicar o que não se explica. São coisas infinitas! São coisas impossíveis! São enigmas sem fórmulas para os decifrar. Respostas há muitas, nas mais variadas vozes, dos mais variados saberes. No entanto, esquecem que nunca foi feita uma pergunta por falta de a conseguir verbalizar. Não há ciência, ou pensamento, dos homens capaz de estudar esta sensação de constante distância.
Por vezes o espírito é de calmaria, quando o mundo à volta se cala no seu constante ruido, e deixo-me ir somente com a ânsia de estar ausente. É como se nesses momentos conseguisse encontrar o meu lugar, nesta fuga constante às dimensões corpóreas que restringem o ânimo, dentro da prisão da existência. Mas como pode isso acontecer se tudo é desassossego?
Contudo, há em mim uma réstia de esperança, que provoca o caos nesta minha falta de rumo. Uma Fé inexplicável, vinda sabe-se lá de onde que teima em fazer-me acreditar na ilusão da felicidade. Não posso negar que há em mim um espírito de sonhador. Esteja eu em tumulto, ou na mais absoluta lucidez, há sempre um sonho que insiste em nascer do ventre da imaginação, como se tivesse vida própria.
São delírios de quem não conhece a satisfação. Ainda assim, é tudo que sou. Entre o aqui e o infinito. Caminhos incontáveis sem bússola que me norteie neste emaranhado de incertezas.
Talvez o amanhã me indique uma direcção, ou me faça encontrar um propósito. Hoje não! Deixo-me que me esqueça de mim próprio aqui, nesta Paz momentânea e recolho-me na serenidade do olhar para o que está longe...

quarta-feira, julho 11, 2018

O rei


Hoje fui derrotado pelo mundo! Finalmente aceitei esse destino. Até porque, ao analisar esta guerra que declarei à chamada sociedade, cheguei à conclusão de que nunca travei verdadeiramente algum combate. Por todas as vezes que julguei vencer, na realidade, fui sim ignorado, sem ter sequer o desmérito de ser espezinhado pelo inimigo.
Apercebi-me, portanto, de que sozinho nunca seria capaz de ganhar qualquer quezília. Muito mais, quando o meu adversário são os próprios alicerces do viver. Resta-me aceitar a minha condição de vencido, ou melhor, de insignificante, perante tudo que me é imposto pelo resto da humanidade.
Fizeram-me de carne, osso e pensamento. Como os outros, nasci a gritar, expulso do ventre da ilusão. Inocente, julguei ser um deus! Um rei! Acreditar nos sonhos que me deram como garantidos! Alguém que pudesse ser apelidado de extraordinário, sem saber eu, que carregava o fardo de ser ninguém.

segunda-feira, junho 25, 2018

Caos ou Amor


O infinito está calado. A carne não o consegue ouvir. O barulho no mundo é demasiado para que a voz subtil do inefável se faça notar, ou simplesmente o silêncio nada diz. Tudo é incerteza.
A dúvida cresce em todas as direcções e os “agoras” do viver vão-se acumulando sem história. Nem a esperança se quer pronunciar diante do vazio. Resta olhar para dentro em busca de um centelha de caos, ou amor!
Os sentidos degustam a apatia sem sabor. Não há solidão nem companhia. Até a inquietude descansa num sono sem sonhos nem questões. A inercia acomoda-se no seu reino, onde não existe tédio ou entusiasmo.
A simplicidade esconde os seus segredos nos gestos sem glória. A magnificência começa no inútil. Os apressados nada aprendem com a espera. Sobra a imaginação para cumprir o seu dever de esboçar o impossível.