Dia de aniversário
terça-feira, julho 31, 2018
quarta-feira, julho 11, 2018
O rei
Hoje fui derrotado pelo mundo! Finalmente aceitei esse destino. Até porque, ao analisar esta guerra que declarei à chamada sociedade, cheguei à conclusão de que nunca travei verdadeiramente algum combate. Por todas as vezes que julguei vencer, na realidade, fui sim ignorado, sem ter sequer o desmérito de ser espezinhado pelo inimigo.
Apercebi-me, portanto, de que sozinho nunca seria capaz de ganhar qualquer quezília. Muito mais, quando o meu adversário são os próprios alicerces do viver. Resta-me aceitar a minha condição de vencido, ou melhor, de insignificante, perante tudo que me é imposto pelo resto da humanidade.
Fizeram-me de carne, osso e pensamento. Como os outros, nasci a gritar, expulso do ventre da ilusão. Inocente, julguei ser um deus! Um rei! Acreditar nos sonhos que me deram como garantidos! Alguém que pudesse ser apelidado de extraordinário, sem saber eu, que carregava o fardo de ser ninguém.
segunda-feira, junho 25, 2018
Caos ou Amor
O infinito está calado. A carne não o consegue ouvir. O barulho no mundo é demasiado para que a voz subtil do inefável se faça notar, ou simplesmente o silêncio nada diz. Tudo é incerteza.
A dúvida cresce em todas as direcções e os “agoras” do viver vão-se acumulando sem história. Nem a esperança se quer pronunciar diante do vazio. Resta olhar para dentro em busca de um centelha de caos, ou amor!
Os sentidos degustam a apatia sem sabor. Não há solidão nem companhia. Até a inquietude descansa num sono sem sonhos nem questões. A inercia acomoda-se no seu reino, onde não existe tédio ou entusiasmo.
A simplicidade esconde os seus segredos nos gestos sem glória. A magnificência começa no inútil. Os apressados nada aprendem com a espera. Sobra a imaginação para cumprir o seu dever de esboçar o impossível.
quarta-feira, maio 23, 2018
Não te peço o impossível
Conta-me o segredo da melancolia.
Sabes que me sinto atraído pela tristeza que se esconde atrás de um sorriso. Esse, como o teu. Com aquela dolência que não precisa de explicação, nem de uma história amarga para que tenha origem. Simplesmente é.
Tenho um fascínio, quase metafísico, pelas almas geradas na senda sombria do Universo, tão bem camufladas pelas artimanhas da felicidade. Há sempre um momento em que o que é falso é desmascarado e um actor se livra da sua personagem. Essa, como a tua.
Depois há a poesia. Esses versos malditos que viciam com as suas estrofes escritas, desenhadas, cantadas, ou simplesmente abandonadas, nos gestos esquecidos do dia-a-dia repetido. Tal como os teus.
A beleza existe onde os olhares mais básicos não entram, mesmo num ser atormentado pela inquietude de existir. É algo que ascende acima da condição humana, sem conhecimento que o ensine, numa incompreensão por traduzir. Essa, como a tua.
Não te peço o mundo, nem tão pouco o impossível. Somente a voz erógena que dita o segredo da melancolia. Essa, como a tua…
terça-feira, maio 15, 2018
O aroma da padaria
Onde estão as minhas recordações de criança?
Visitei-as naquele dia vazio. Encontrei ruínas abandonadas. Paredes decrepitas com trepadeiras a tomar os seus tijolos, pintar o estuque em tons de verde e a ameaçar a sua verticalidade. É a Natureza a reclamar o que afinal lhe pertence.
Da padaria que visitava na minha infância restavam apenas uns muros grafitados. Isso não impediu que a lembrança do seu cheiro característico chegasse às minhas narinas, como se estivesse lá novamente a comprar uma regueifa. No entanto, tudo me parecia demasiado pequeno aos olhos do meu corpo adulto.
Assim estava também a loja de caça. O pequeno mercado. O casarão da velha quinta. A própria alma do lugar onde, antigamente, pessoas passavam atarefadas por outras que conversavam sobre as coscuvilhices da vizinhança e a canalha que corria em brincadeiras traquinas. Havia sempre muita gente, ao contrário do vento solitário que hoje sopra nos caminhos sem ninguém.
Aqui e ali, alguém se lembrou de recuperar, ou modernizar, o que já lá estava, entre as ruas sozinhas esquecidas pelo progresso. Mesmo assim eram cenários que nada me diziam, para além da sua aparência limpa no meio de uma ruralidade ultrapassada pela tecnologia, pelos cursos superiores, pelas grandes superfícies comerciais, pela novidade, pela cidade que agora é aqui tão perto!
O problema do tempo que passa é que as coisas mudam e tudo que foi vivido vai sendo anulado, ou melhor, distorcido pela percepção do crescimento. O que ontem era presente, hoje não passa de meras linhas escritas na memória. Portanto, de que vale procurar o passado no dia de hoje, quando já não sou o mesmo?
Em mim tanta coisa mudou. Os meus sonhos de criança parecem ridículos, pela ingenuidade com que eram pautados. Ao mesmo tempo são como uma riqueza infinita pelo simples facto de existirem. Chego à conclusão que do passado não posso exigir muito mais. Basta saber apenas que já lá estive e sentir a alegria de o ter vivido, sem mais querer das recordações, a não ser o que elas me ensinaram.
segunda-feira, maio 07, 2018
Trovoada de Maio
Há um calor abafado no ar.
Há uma sexta-feira à tarde no fim do horário do trabalho.
Há uma esplanada com gente que relaxa depois de um dia de labuta.
Há nuvens escuras que vão cobrindo o céu devagar. Abafam cada vez mais o ambiente, tornando o calor quase insuportável, ao mesmo tempo que anunciam que em breve vai chover. Ouve-se nas conversas que se cruzam entre as mesas, “está um calor de trovoada”.
Não tarda, vai nascer a tempestade.
Os diálogos começam a divergir apenas nesse sentido e as pessoas vão-se levantando com medo da intempérie que se aproxima.
Um homem mantinha à sua frente uma bebida fresca, rodando o copo lentamente, com a calma de quem espera.
O céu vai ficando cada vez mais escuro. A tempestade está chegar.
“Meu Deus! Que vem aí uma trovoada!” Alguém exclama ao passar. Escuta-se os passos apressados, em fuga, do resto das pessoas que ainda arriscam ficar na rua. Em cada adulto existe um medo irracional e infantil dos relâmpagos e do ribombar dos trovões. Em cada pessoa crescida, existe uma criança assustada.
No entanto, o homem mantem-se no seu lugar. A bebida estava fresca. A boca estava seca. Apeteciam-lhe e sabiam-lhe bem os goles que ia dando. Mas entretanto, continuava a rodar o copo, sem se importar com o negrume sobre si, e a tempestade iminente, que ia assustando os demais.
Dentro do café o empregado olhava-o por detrás dos vidros. Interrogava-se como é que aquele homem continuava ali, sem medo?
Afinal estava calor e ele tinha sede, por isso bebia algo fresco.
A trovoada, prestes a acontecer, não começava. Parecia que também ela esperava, enquanto o homem, calado, continuava a dar goles no copo de bebida fresca, que parecia nunca mais esvaziar.
O sol foi-se escondendo até desaparecer por detrás das nuvens sombrias. Mesmo assim o homem parecia cada vez mais relaxado. Afinal de contas, era sexta-feira à tarde, depois da semana de trabalho. Tinha quase uma obrigação para si mesmo de descontrair e sabia-lhe na perfeição a bebida fresca, degustada em pequenos goles de sabor tropical.
Estava um calor muito abafado no ar.
Era sexta-feira depois do horário do trabalho.
Era um homem sozinho sentado numa esplanada vazia.
Eram as nuvens escuras que tomaram conta do céu.
Era uma trovoada que nunca mais chegava.
E nada mais acontecia…
sexta-feira, abril 27, 2018
Valde timete
Correr. Correr com todas as forças.
Fugir. Fugir com todo o pavor a espalhar-se pelas veias e a injectar o coração de adrenalina.
Ofegante. Não importa o cansaço, há que seguir em frente, mais rápido, com todas as forças, não importa como.
Escuridão. Escapar por entre becos, caminhos, trilhos de floresta onde as sombras reinam, para além do esgotamento do corpo.
Importa apenas fugir da figura sinistra que a persegue infindavelmente pela noite. A noite mais sombria que já viu. A noite mais vazia que sentiu. A noite mais solitária de sempre, sem ninguém que oiça os seus gritos de desespero. Sem ninguém que a ajude. Sem um vislumbre de salvação.
Resta correr. Fugir desenfreadamente para salvar a própria vida. Há algo que a persegue. Algo sem nome, ou rosto. Apenas sabe que a deseja como os monstros desejam as vítimas. Sem piedade. Só o sabor do sangue.
Por isso corre. Corre por caminhos que nunca mais terminam. Sem que nunca encontre um lugar seguro. Repetem-se os becos, os atalhos, os trilhos. Tem de seguir em frente sem noção do corpo extenuado.
Apenas existe o terror.
O terror absoluto e a presença daquilo que a perseguia. Não lhe tinha conseguido ver o rosto nem a aparência. Apenas o seu vulto sem constante perseguição, cada vez mais perto. Mais perto. Mais perto. Ainda mais perto.
Um toque nas costas gelou-lhe o corpo. Finalmente alcançou-a. Num derradeiro fôlego soltou um grito a implorar salvação!
Como num acto de caridade os olhos abriram. Tudo que sentiu nesse instante foi o vazio de quem atravessa a ponte entre os delírios da mente e a realidade. Sem o peso da memória.
Sentiu o alívio intenso de acordar de um pesadelo. Teve a graça de um momento de sobriedade para perceber o que se passou. Reconheceu a sua cama e as linhas que traçavam o seu quarto na penumbra. No entanto, não tardou para que a recordação voltasse.
Ainda tremia. A presença já não estava ali, mesmo assim continuava a pulsar na lembrança como uma vertigem. Olhou em volta para ter a certeza de que estava sozinha, enquanto os olhos se habituavam ao escuro. Não convencida acendeu a luz. O silêncio e as cores das paredes deram-lhe alguma tranquilidade.
Só então notou que a cama estava molhada. Durante aquele sonho horrível a bexiga tinha esvaziado. Sentiu-se novamente uma criança assustada na sua tenra idade.
Levantou-se mas as pernas ainda tremiam. Deixou-se cair no chão lentamente, até que se sentou numa posição fetal. Foi tomada por um choro incontrolável, compulsivo, espástico, numa mistura de alívio, medo e vergonha.
Não sabe quanto tempo esteve ali, no frio do soalho, sem amparo. Apenas que, ao terminarem as lágrimas, a leveza entrou em si. Relaxou. Tinha de limpar a cama e a ela própria.
Dirigiu-se ao chuveiro e esperou que a água quente caísse sobre o seu corpo. Era confortável e limpa. Demorou-se para ter a certeza que a pele ficava pura e os músculos descontraiam. Ainda assim, não tardou até que o coração voltasse a palpitar. A sensação maldita de que estava a ser observada voltou quando o fluxo do chuveiro abrandou por um instante.
Imediatamente saiu e enrolou-se na toalha o mais possível. Ninguém estava ali. Era apenas o cérebro a pregar-lhe partidas. Na dúvida percorreu as divisões do apartamento em busca de algo. Nada. Não podia deixar que o seu inconsciente a dominasse. Precisava de acalmar.
A luz que escapava entre as portadas anunciava que o sol já tinha nascido e mais um dia de trabalho se anunciava. Tomou o pequeno-almoço. Vestiu uma roupa colorida e vistosa. Perfumou-se. Tinha de esquecer o pesadelo e para isso queria estar bonita e sorridente. O espelho disse-lhe que sim. Ela ficou contente.
Quando encarou a rua tudo lhe parecia apertado, apesar da largura da avenida. Uma pequena tontura assombrou-a e fez acelerar a respiração. Os rostos que passavam pareciam encará-la mais do que o costume. Não! Não se podia deixar controlar pelos impulsos da mente assustada. Era forte. Na sua coragem avançou entre a multidão em direcção ao emprego. Afinal de contas, o pesadelo já tinha terminado.
Já tiveram aquela intuição terrível de que alguém vos observa? Essa mesmo.
Demasiado forte para ser apenas uma ilusão. Ela olhava para trás continuadamente enquanto o passo se apressava. Todos a observavam. A rua parecia cada vez mais estreita. Era impossível. Percorria aquele trajecto diariamente e conhecia todo aquele espaço com pormenor. Só podia estar a alucinar.
Esbofeteou-se e beliscou-se. Talvez ainda estivesse a sonhar. A dor podia acordá-la. Não. Aquilo era real. As pessoas juntavam-se cada vez em maior número e encaravam-na com malícia no rosto. A calçada apertava cada vez mais. Sentia a claustrofobia a crescer. Aquilo não podia ser verdade! Mas era!
Começou a correr. Com todas as forças, como no pesadelo. Desta vez não havia noite, nem trilhos, nem floresta, apenas um muro feito de gente que tentava impedir a sua fuga. Lutou para abrir caminho. Gesticulou para escapar das mãos que a tentavam agarrar. Gritava sem que ninguém a tentasse socorrer.
Finalmente houve um toque, diferente dos outros. Um toque igual ao do sonho, que lhe gelou a espinha, o corpo e a vontade. As pernas não lhe obedeciam. Soltou mais um grito a implorar salvação! Desta vez não acordou. Não teve essa felicidade. A vertigem foi demasiado forte e tropeçou. Caiu indefesa a implorar misericórdia.
O piso áspero da calçada parecia ter vida própria e impedia-a de se levantar, como se a puxasse para baixo. Ainda assim encontrou forças para lutar. A figura sombria, que a escolheu como vítima, estava agora sobre ela. Conseguiu-lhe desferir alguns murros e arranhões, embora sem sucesso. Era forte demais.
Segurou-a com os braços abertos no chão frio sem que ela tivesse hipótese de se debater. Não havia mais nada que pudesse fazer a não ser desistir. Estava vencida. Deixou-se levar pelo terror, no entanto, desta vez conseguiu ver perfeitamente o rosto do seu perseguidor. Numa fúria derradeira, encarou-o de frente, olhos nos olhos! Era o rosto de ninguém...
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