quarta-feira, novembro 16, 2016

Eu e os outros

 

Esta noite estive desperto, a sonhar acordado sobre coisa nenhuma.
É impressionante como o vazio, por vezes, pode tomar conta da vida. Nem o sono, com o seu esquecer, parece escapar à tormenta desta inquietação.
Puxo o cobertor para cima, cubro-me com mais força, na esperança que o calor me traga algum conforto. Sei bem que nada acontece. Deixo então a minha mente divagar por entre uma réstia de pensamentos coerentes.
O prazer tem um limite, é o aborrecimento.
A dor tem um limite, é a apatia.
O vazio, esse sim, não conhece limites. Preenche-se a ele mesmo com mais vazio ainda. Absorve todos os extremos de todas as outras coisas e agiganta-se sempre mais em cada esperança de o fazer desaparecer.
Diz-me a lógica que não sou o único. Sei que existem outros a cair no desalento. Sei que não os posso conhecer ou chegar, mesmo assim, deixo um abraço calado entre o silêncio da noite, para todos aqueles que já tiveram um dia de solidão desesperante. Daquela verdadeira, absoluta, cortante, que faz doer a própria existência. Suprema mágoa quando a necessidade de ter um amigo é vital, porém, ninguém está lá, só o frio de nós próprios…
Os pensamentos vão e vêm ao ritmo da sua própria vontade. Deixo-os nessa liberdade enquanto aguardo que o sono chegue, ou que as horas passem (creio que devem estar a passar) e a luz da madrugada venha vencer o meu desassossego…

sexta-feira, novembro 11, 2016

O impropério


Foda-se
• [Calão]  Interjeição designativa de admiração, surpresa, espanto, indignação, etc.

Sinónimo Geral: FORNICAR

"foda-se", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

O impropério favorito do povo português
O analgésico mais eficaz contra as frustrações do mundo banal
O grito de triunfo de sexta-feira à tarde na hora da liberdade 
O relaxante orgasmo intelectual quando se saboreia o triunfo
O mais sincero desabafo de amizade 
A mais verdadeira confissão ao Deus misericordioso 
O grandioso acto de bravura para o humano comum
O mais belo canto quando nos permitimos o cansaço...

sábado, novembro 05, 2016

Aqui no perto


Anda comigo olhar para longe. Este perto que nos acomoda será sempre uma prisão, quando o nosso destino se encontra ali tão longe.
Eu sei que somos malfadados com o dom do descontentamento. Não é aquilo que temos predestinado que nos chama, mas sim a viagem. Olhemos para horizonte e para o que está atrás dele. Este perto não nos satisfaz. Viajemos para essas distâncias, que nos roubam a atenção, nem que seja a sonhar. Vamos à velocidade da poesia, como se esta fosse a nossa estrada e o nosso transporte simultaneamente.
Procuremos silêncios que se transformem em palavras. Visões inacreditáveis de paisagens coloridas pintadas pela inquietação. Poder visitar a pele arrepiada e nela encontrar um pouco de descanso depois da azáfama do gemer. Sabemos que nesses momentos esquecemos a dor e somos mais do que simples "nós próprios". Ainda assim é tão pouco, tão breve, tão gritante o anseio por mais e mais e ainda muito mais.
Há que continuar o caminho. Existem sempre coisas novas em que nos devemos renovar e enganar o desassossego. Mesmo sabendo que vamos voltar sempre aqui, não podemos perder a esperança, ou pelo menos acreditar que ela existe, nem que seja no conforto do beijo.
Somos os diferentes e os iguais. Temos um mundo fora dos outros. O impulso da carne em desejo, com a ânsia igual de amar o que não está aqui. Seja como for, podemos partilhar lonjuras, para que as nossas solidões sejam companhia neste existir absorto.

sábado, outubro 29, 2016

Sem grandes motivos...


Existe ódio escondido dentro de mim. À espera. Sei que ele não se vê nem se acredita, mesmo assim ele está lá oculto. Vagueia dissimulado na ternura do meu olhar, na alegria do meu ser, no entusiasmo da minha voz... Está cravado, sem piedade, num canto qualquer da minha alma inexplorada.
Adormecido...
Quem sabe se um dia vai acordar? Talvez atiçado pelo medo, ou por uma qualquer crueldade da existência. Ou, quem sabe ainda, sem motivo algum.
Por vezes interrogo-me se essa fúria indomável não tem personalidade própria? Não precisa explicações para ser, nem de ciência para acontecer. Simplesmente é!
Engrandece-se sem justificação a meio de um poema que se propunha feliz. Surge imprevisível como a lâmina de uma navalha, perfeitamente afiada, a rasgar a carne. Nasce do nada a romper a noite num ataque violento à nossa certeza.
Quem odeia não precisa de grandes motivos. Apenas de um instinto selvagem a recusar toda a justiça, como se as regras impostas fossem veneno para todos que desejam mais. Talvez até sejam, porque debaixo da capa da vida que nos cobre está uma história proibida de desejos malditos...

quinta-feira, outubro 27, 2016

Grandiosa insignificância


Existe algo de tão maravilhoso, quanto de misterioso, no pôr-do-sol de um dia quente. A quietude toma conta do mundo. A luz que se vai desvanecendo devagar. Os tons avermelhados que se apoderam do céu. A total e absoluta tranquilidade que cobre, como um manto, o desenho confuso da vila.
Enquanto a noite cai, os pensamentos mundanos desaparecem, a mente navega apenas no transcendente desconhecido. O silêncio de banalidades é tão profundo e grandioso que eu, meditativo, me deixo levar pela incompreensão do universo.
As luzes da povoação começam a acender. Algures um cão ladra. Aqui e ali, um ou outro carro passa. São as pessoas, apressadas, que seguem para as suas casas, para os seus confortos, para seus afazeres, para a hora do jantar. Eu prefiro ficar aqui, ao mesmo tempo que o sol se afunda no horizonte, deixando apenas réstias da sua incandescencia no céu que vai escurecendo.
Não tarda a aparecer a primeira estrela, como um cumprimento cósmico a esta minha contemplação espiritual. Não sei se para Deus isto conta como oração, dada a paz que sinto em mim.
É um momento perfeito, enquanto, na minha insignificância, desenho o infinito na pequenez de um poema...

sábado, outubro 15, 2016

Colorindo


As cores são tão estranhas!
Estou acostumado a viver rodeado de escuros e cinzentos, de tal forma que todas as outras tonalidades parecem-me um universo por explorar.
Olho com um fascínio quase infantil para as variações do arco-íris quando se elevam por entre o céu enublado. Não me admiro que os povos antigos achassem que aquela festa colorida fosse uma ponte para o mundo dos deuses.
Aqui é tão sombrio!
Quem me dera adormecer no cor-de-laranja. Viajar em cor-de-rosa por estradas azul-bebé. Perder-me em florestas esmeralda salpicadas de lima, escarlate e turquesa. Beber de fontes timbradas com todas as cores que se possa imaginar e mais ainda!
Como luz a deslumbrar, beijar em todos os vermelhos; visitar peles de todas as tintas; cruzar olhares de todos os oceanos; conhecer almas de todas as galáxias!
Como um louco na sua arte, amar com todos pincéis e dançar em todas as telas com linhas iluminadas por toda e qualquer cor! Invejo quem se transcende numa pintura multicolorida criando um festim de imaginação nas faces tristes de quem as contempla!
Ainda assim não abandono a melancolia. Mesmo que a tente colorir de quando em quando, vive em mim esta profunda sina de quem não consegue pintar de outra forma a poesia de viver. Sobram-me as cores dos outros, que, no seu entusiasmo as partilham altruístas. Com um sorriso verdadeiro, a esses agradeço por mostrarem a alegria a quem sonha deste lado do impossível...

quarta-feira, outubro 12, 2016

Tanto em coisa nenhuma


Amo-te como quem ama coisa nenhuma e tudo em simultâneo.
Quero-te por inteiro e para sempre como nos contos de fadas. Fascina-me esse imenso todo que se esconde no teu ser. Tesouros, vitórias, sonhos e medos que me cantas na tua entrega. Mesmo assim aborreces-me e procuro também os mistérios que pairam nas almas dos outros porque não me contento apenas com uma eternidade.
Desejo cada ponto sensível do teu corpo como quem anseia a loucura. Deleito-me ao provar o teu gemer, navegar no teu suor, ser todo o teu gozo. No entanto a tua carne é muito pouco para o meu infinito e o meu âmago pede mais satisfação. Apraz-me degustar o sabor de todas as silhuetas perdidas e abertas, porque só um prazer não me basta.
Amo-te com a violência de quem tem a revelação do segredo da felicidade! Completas-me com toda a paz que uma vida inquieta sempre espera encontrar. És tudo! Porém, somente isso! Um mero existir imponente, sem nada de mais para mim, que ambiciono o inalcançável. És breve na tua imensidão. Ínfima estrela na tua grandiosidade. Unicamente um parágrafo de intensidade suprema no desassossego da minha história...