segunda-feira, maio 18, 2015
O sonho proibido
Já alguma vez tiveste um daqueles sonhos super interessantes e acordaste a meio?
É uma coisa tão lixada! Tentamos voltar a dormir para ver se retornamos ao que estávamos a sonhar, mas Morfeu, implacável ou irónico, fecha-nos a porta dos seus domínios. Sem adormecer o sonho não regressa, pelo contrário, vai-se dissipando. Quando damos conta já não nos lembramos no que se estava a passar na nossa cabeça ainda há poucos momentos durante o sono. É frustrante!
Aconteceu-me uma cena dessas esta noite!
Não! Já disse que não me recordo sobre o que era, senão não estaria a falar disso. Digo-te apenas uma coisa: o que quer que fosse era importante.
Mas afinal tens os ouvidos tapados ou quê? Repito mais uma vez que não sei sobre o que era. Apagou-se da memória…
O que quer que tratasse o meu sonho era grandioso numa escala impossível de descrever. Talvez fosse uma revelação divina sobre sabedoria oculta… Às tantas esqueci por castigo. Porque nenhum humano deve conhecer o que me foi revelado naquele sonho proibido. Sei lá! Digo-te apenas que o anseio recordar com todas as forças.
Não consigo deixar de pensar nisso. Deixa-me inquieto. Passo o dia desassossegado a questionar-me sobre o que se tratava. Parece uma coisa obsessiva. Simplesmente não consigo livrar-me deste desespero por lembrar algo que talvez não passe de uma ilusão. Ainda assim desejo esta quimera, nem que isso me leve à tormenta da loucura. Se é que essa semente já não foi plantada em mim…
Mas conta-me lá. Sim tu! Nunca tiveste um sonho destes?
terça-feira, maio 12, 2015
A modernidade
A viagem é curta embora para mim pareça longa. Não de uma forma entediante, pelo contrário. Perco-me entre as paisagens por onde vou passando. Deixo que a minha mente vagueie por esses locais. Questiono-me sobre as historias que elas escondem e sobre a beleza que contêm.
Reparo nas casas, não consigo evitar imaginar como serão os seus habitantes; gente humilde, almas trabalhadoras que se contentam com um viver simples, manchados aqui e acolá por pessoas que abraçam a arrogância de se acharem de melhor casta. Há-los em todo o lado. Esquecem que nascemos todos do mesmo pecado original.
Imagino atrás das portas as vidas das famílias. As alegrias e tristezas; as vitórias e derrotas; os amores e os dramas; nascimentos e solidão. Pequenos universos que se resumem aqueles lares e àqueles que os compõem. Só por si não têm importância para a história da comunidade, sem ninguém que os relate e muito menos que se importe. Vidas que acontecem. Somente isso.
Contemplo os cenários naturais. Verifico de forma quase rezada que por estes lados ainda é tudo tão puro, como se dedicasse uma oração à Mãe Natureza pedindo desculpa pela modernidade do automóvel. Sigo devagar para que a minha marcha não manche em demasia toda a calma que envolve estas terras.
Interrogo-me se já outros, tal como eu, tiveram os mesmos pensamentos de tranquilidade ao percorrer estes caminhos serenos. Provavelmente sim. Gente moderna tem sempre esta necessidade oculta por um pouco de sossego. Habituamo-nos ao barulho, às luzes, à pressão, no entanto continuamos a ser bichos na nossa essência. Animais sem grande ferocidade que apenas desejam viver em paz.
quarta-feira, maio 06, 2015
O fado
Existem saudades
Que já o são antes de o ser
Paridas gritadas com sofrer
Rasgando ventres
Vêm em nossa alma nascer
Crescem como fogo a arder
Crianças carentes
Que descalças vão a correr
Mendigar o pão para comer
Escrevem estrofes
Poemas loucos para antever
Amores ainda por acontecer
Rimas inquietantes
Nas folhas brancas do viver
Com a caneta do enfurecer
Emoções ausentes
Nos caminhos por percorrer
Parado o tempo sem correr
Marcas presentes
Raivas inquietas fazem doer
A ânsia do nosso adormecer
Apenas saudades
Entranhadas no nosso viver
Cantando fado no nosso ser
quinta-feira, abril 30, 2015
Sem regaço nem aconchego
Penosa sina descontente
Destino amargo de escravidão
Caminho perpétuo à solidão
Certeza firme em rumo errante
O espírito paira distante
Escondido em meu impreciso
Breve esperança de paraíso
Somente imaginar é o bastante
Doce prazer angustiante
Constante busca pela verdade
Roubar pedaços felicidade
E do pensamento ser amante
É doloroso ser diferente
Viver sempre em desassossego
Sem regaço nem aconchego
Sentir inquietude eternamente
segunda-feira, abril 27, 2015
Na taberna
– O mito da criação está errado. – Disse o velhote dando um gole no vinho.
– Porque dizes isso? – Perguntou, curioso do porquê daquele tema de conversa.
– Repara. Porque haveria Deus de colocar uma maçã numa árvore e dizer a um casal de humanos para não mexer. Isso é praticamente um convite a lá ir. O Criador tinha obrigação de saber que somos seres curiosos, afinal de contas foi ele que nos criou, não é verdade? – Questionou-o de forma retórica.
– Tens razão, faz algum sentido. Então e a cobra? – Contra-argumentou.
– Isso é só uma desculpa esfarrapada. Se não fosse a cobra era outro bicho qualquer. Mais cedo ou mais tarde Eva havia de trincar aquela maçã. Fruto proibido é o mais apetecido. Deus sabia desde o início que isso ia acontecer. Os padres não me convencem do contrário. – Gesticulava entusiasmado enquanto expunha os seus argumentos.
– Tem lógica sim senhor. Nesse caso, na tua opinião, o que achas que aconteceu?
– Nós somos o diabo! – Arregalou os olhos de tal maneira que pareciam querer sair das orbitas – Todos nós somos encarnações do mafarrico. Olha o que te digo.
– Credo homem! Abrenuncio! – Pousou a cerveja rapidamente e bateu três vezes na mesa com o punho fechado.
– Analisa bem a situação. – Aproximou-se mais do outro como se lhe fosse contar um segredo bem guardado. – Deus expulsou o Diabo do paraíso porque ele se achava a Sua criação mais perfeita. Além disso considerava-se rival do próprio Deus e claro que Ele não gostou, por isso enxotou-o para a Terra. Isto, um padre não pode negar.
O ouvinte anuiu. Levou novamente a cerveja à boca como pretexto para se afastar do hálito pútrido do velho, aguardando que continuasse a expor as suas conclusões.
– Achar que somos deuses, isso sim é um comportamento humano. Os políticos acham-se melhores que o povo; os ricos melhores que os pobres; os chefes melhores que os empregados; os lindos melhores que os feios; o vizinho melhor que o outro; a lista continua, estás a ver a ideia. – Parou por momentos enquanto fez uma careta estranha, evidenciando ainda mais as inúmeras rugas profundas que lhe esculpiam o rosto. – E os burros acham-se melhores que os espertos. Este é o meu exemplo favorito!
Dito isto soltou uma gargalhada sonora. Acenou ao taberneiro para pedir mais vinho. – E todos nos achamos deuses… – Concluiu.
O seu parceiro reparou que desde o início daquela conversa, que ainda não levava meia hora, o velho tinha bebido uma garrafa inteira de um tinto bem puxado, sem que se tivesse apercebido.
Estando de visita aquela cidade resolveu seguir o conselho de amigos e passar pela parte velha onde o progresso parece nunca ter chegado. Disseram-lhe que naquele canto escondido existia uma taberna tradicional, no sentido mais acentuado da palavra.
Era verdadeiramente assim. O cheiro a álcool, tabaco e petiscos estava entranhado naquelas paredes já sem cor, tal era o desgaste que tinham. Se tivesse de adivinhar diria que aquele sítio burlesco nunca tinha sofrido uma remodelação, tivesse os anos que tivesse. A higiene também estava esquecida, da mesma forma que as autoridades se esqueceram de fiscalizar o local. Olhou para o chão atentamente, convencido de que a qualquer momento iria surgir uma ratazana para comer os pequenos pedaços de carne e pão que se encontravam caídos debaixo das mesas.
Ainda assim o local estava cheio. Misturavam-se turistas estrangeiros, homens bêbados com aspecto de mendigos, fulanos bem vestidos de aparência mafiosa rodeados por mulheres evidentemente prostitutas e simples transeuntes que paravam para beber o seu copo e ter dois dedos de conversa. Muitos fumavam livremente como se a lei nunca tivesse passado por ali.
O pequeno cubículo que acolhia a taberna parecia ridiculamente pequeno para tanta gente. Mesmo assim cabiam todos sem apertos. Era possivelmente o local menos recomendável onde tinha posto os pés, contudo não hesitou em entrar.
Falaram-lhe num homem tão velho, que parecia que tinha sido esquecido pela própria morte. Passava os seus dias sentado numa mesa junto ao balcão, mirava com os olhos brilhantes todos que entravam como se esperasse companhia. Recomendaram-lhe, se o visse, que se sentasse ao pé dele e lhe passasse uma garrafa de vinho (ou duas como era o caso). Assim o fez.
Mesmo que a lógica lhe recomendasse para sair dali o mais depressa possível, sentou-se ao pé do dito velhote, que ao olhar para ele pareceu esboçar um sorriso alegre por entre a boca completamente desdentada e o emaranhado de rugas que era o seu rosto. Aquela cara era tão bizarra que parecia uma pintura grotesca saída da mente de um artista tomado pela loucura. Pedaços de cabelo branco saltavam rebeldes na sua cabeça. Era impossível tentar adivinhar a idade do pobre homem, sendo a única resposta possível: muitos anos de vida. Mesmo muitos…
O taberneiro, um homem alto, gordo, bastante peludo, na casa dos quarenta que já começava a ser tomado pela calvície, como que a adivinhar (ou conhecedor da rotina) pegou de imediato numa garrafa de vinho tinto e trouxe-a para a mesa. Nesse momento reparou com mais atenção naquele outro personagem pitoresco. Transpirava com alguma abundância, segurava um palito comprido entre os dentes e vestia uma camisola sem mangas, claramente um número abaixo do seu, o que ajudava a evidenciar a barriga peluda. Quando regressou para trás do balcão retomou a limpeza do que aparentava ser sempre o mesmo copo com um pano encardido. Dado o grande número de clientes parecia quase impossível como um só homem os podia servir a todos, embora fosse isso que acontecia pois ninguém reclamava o serviço.
Para ele próprio pediu uma cerveja de garrafa, bem fechadinha, que abriu com as próprias mãos, ainda assim desconfiado em relação ao conteúdo. Já o velhote, entre alguns tremores, de imediato encheu o copo. – Muito obrigado meu amigo. – Disse, expondo a sua gratidão, visivelmente agradado.
– Não tens que agradecer. – Respondeu o visitante sem formalidades. Sentiu-se impelido a tratar aquela figura por “tu”. Da outra parte não houve objecções.
Tinha começado assim aquela conversa incomum sobre a criação.
O velho calou-se enquanto esperava que o taberneiro lhe trouxesse a segunda garrafa, como se só a bebericar um bom tinto pudesse contar a sua visão dos factos. O que provavelmente era verdade. Quando ela chegou voltou a encher o copo, desta vez livre de tremores e logo de seguida deu um gole, lento e saboreado.
– Como te estava a dizer. – Retomou a palavra. – Todos nós somos a encarnação do diabo. Uns mais que outros é claro. Mas cada um de nós é um pedaço de satanás, ora a fazer o que a sua natureza maligna quer, ora em busca infrutífera da redenção. Isto, meu amigo, é a verdade sobre a criação: Todos somos o diabo a ser castigado vidas sem conta aqui na Terra! – Repetiu a frase palavra a palavra com ar sério.
O ouvinte não respondeu. Havia alguma verdade nas palavras do velho demente. Deu um último gole na cerveja já quente e levantou-se, deixando o cliente habitual entregue ao que restava do tinto.
Dirigiu-se ao balcão deixando sobre ele uma nota bem generosa. – Pode ficar com o troco. – Murmurou entre dentes ao taberneiro que de imediato guardou o dinheiro com a sua mão gordurosa.
Saiu, invisível à clientela barulhenta. Lá fora estava a rua à espera. Escurecia, a noite tinha começado a cair entretanto. Havia perdido a noção do tempo que estivera dentro daquele local bizarro. Apertou o casaco melhor para se resguardar do frio que se fez sentir.
As palavras cobertas de insanidade proferidas pelo velho teimavam em pairar de forma sinistra no seu pensamento. Existia algo de verdadeiro nelas. A cada passo que dava a solidão que sentia sempre tornava-se mais forte, como que animada por aquela experiência grotesca. Não a conseguia ignorar nem evitar, como aquele frio trazido pela noite. Doía na alma. “A vida era um castigo”. Concluiu, e deixou-se chorar…
sexta-feira, abril 17, 2015
A ti que não tens nome
Gosto de ti! Sim eu sei que não conheço o teu nome, nem os traços do teu rosto, nem a silhueta do teu corpo ou qualquer tipo de aparência e muito menos as cores que pintam o teu espírito ou os sonhos que o habitam.
Sinceramente pouco me importam pormenores! Interessa-me somente o acto de gostar, sem grande poesia ou romantismo, livre de ser adjectivado como “eterno”. Aliás, o fascínio está em engrandecer esse mero “amar”, reduzindo-o a um momento efémero, praticamente imperceptível que acaba por se perder no esquecimento entre os detalhes do dia-a-dia.
É como um silêncio repentino, que surge no meio da algazarra que te rodeia, durando somente uns insignificantes milésimos de segundo, contudo, suficientes para te dar um instante de alívio, ou mesmo prazer, enquanto te faz a mente escapar para outras ideias.
Uma voz singela e calada, quase nascida na imaginação, que te sussurra encantamentos libidinosos ao ouvido e te faz arrepiar a espinha e humedecer o sexo. Um toque invisível que faz vibrar toda a tua feminilidade fazendo dançar a tua imaginação por entre histórias de encantar: "E se..."
Amo-te assim, de uma forma tão breve quanto uma mera troca de olhares; ou alguém que passa na rua cativando a curiosidade momentaneamente para nunca mais ser visto; ou uma voz que te chama a atenção entre as demais para nunca mais ser escutada; ou até mesmo a silhueta de um corpo que te surge pelo canto do olho, embora logo desapareça entre a multidão.
Um amar tão básico como estes encontros que em segundos te fazem imaginar uma vida, ou somente uma tentação sensual que encontra guarida no pensamento, onde Deus não está a ouvir e onde afinal não é pecado. Um cruzar de vidas tão intenso como passageiro que logo a seguir já não faz parte das tuas recordações.
Nota: dedicado a todas as mulheres que já foram desejadas e desejaram em momentos de segredo já esquecidos
segunda-feira, abril 13, 2015
A invernia
Sobre mim pairam nuvens ameaçadoras carregadas pelo tom brilhante de um sol intenso. Visualizo um negrume tenebroso de céu azul puro. Torna-se o tempo cinzento pintado com cores vivas. Ouvem-se trovões furiosos que gritam o som pacífico do chilrear de pássaros alegres.
Logo começa uma chuvada invisível, violenta, húmida pelo calor do ar seco. O frio gélido entranha-se até aos ossos de tão quente que é. Sopra um vento forte feito da calmaria de uma tarde amena.
A invernia de um dia de Verão coroa a tristeza que me reina o ser. Enoja-me o sentir da minha humanidade no maior expoente do asco. Não há conforto que me agasalhe em dias de saudade em que o amor se ausenta. Cresce uma inquietude que me atormenta. Não é ódio, nem, solidão, nem qualquer tipo de fúria! Somente um desassossego que consome o espírito.
Nenhuma voz é amiga o suficiente, nenhum ombro me oferece qualquer tipo de conforto e nenhuma fé me promete serenidade. Somente a solidão, no sentido mais penoso da palavra me acompanha ao atravessar o ventre do abandono. Resta a apatia, que num acto de misericórdia, ou de castigo, me desumaniza…
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